Mal extintos que são os ecos de um carnaval que, em Cambeses, quase passa despercebido, já a freguesia se prepara afanosamente para participar das solenidades religiosas que, no primeiro domingo da Quaresma, invariavelmente têm sempre lugar, as quais culminam com a procissão do Senhor dos Passos, culto este cujas origens se perdem nos séculos.
E é sobretudo o aspeto religioso que mais atrai a multidão, já que, como é sabido, não se trata de uma festa popular com foguetes e música de discoteca ou dita popular.
Bem ao contrário, se há música, porque há banda, essa é clássica e melancólica, convidando à meditação, bem como a música gravada que agora se faz também ouvir, a anteceder as solenidades. E há também o cântico magoado da Verónica que, a espaços, e enquanto a procissão sobe o escadório, se espalha no ar, escutada por uma multidão expectante, cujo silêncio é cortado pelas profundas e espaçadas badaladas do lendário sino grande da igreja matriz.
Embora a presença de sacerdotes, sobretudo do Pregador, seja indispensável e importante, como é óbvio, todo este ritual religioso é fruto do trabalho de uma confraria centenária, cujos estatutos são escrupulosamente seguidos pelos irmãos da confraria do Senhor dos Passos, Irmãos que nunca rejeitam responsabilidades inerentes à condição, a não ser que motivos de força maior a isso obriguem.
Trabalho intenso de um ano, é sobretudo o daquele irmão que preside à comissão obreira e que, em linguagem local, é denominado por “O que faz os Passos” e é esse sentido do dever moral assumido com total despojamento dos interesses pessoais, vaidadezinhas e prepotências, que eu quero, com todo o respeito, aqui salientar, porque são atitudes destas, em tarefas tão especiais, que dignificam um povo, neste caso, a freguesia.
Não me foi possível anda saber em que ano teve lugar a primeira evocação da Paixão. Suponho que no início de 1600, já que a capela do Bom Jesus data de 1678 e a primeira Procissão dos Passos em Portugal teve lugar em Lisboa, em 1587, na freguesia da Graça, logo sendo instituída em Braga. A partir daí deu-se a sua expansão por terras do Norte, nomeadamente pelo actual concelho de Barcelos. Mas julgo poder afirmar que sendo um tipo de solenidades tão em uso em terras daqui, nenhuma freguesia possuirá, julgo eu, para a procissão dos Passos, um percurso de Via Sacra tão empolgante como este, não só pelo espeto arquitectónico do seu calvário, de elegante escadório, e bonitas capelinhas, como também pela situação privilegiada do monte sacro, encimada pela tri-centenária capela do Bom Jesus.
Dramaturgia da Paixão, intensamente vivida por todos quantos a Cambeses acorrem, ela é fruto da persistência e serenidade com que a confraria, cujo “presidente”, se assim se lhe pode chamar, é substituído por um outro que, auxiliado pelos irmãos, tudo faz para que resulte. De facto nada aqui acontece por acaso ou de improviso. O programa pré-estabelecido cumpre-se sem uma falha, um percalço, porque todos os irmãos, respeitando as hierarquias, que em cada ano se determinam, assumem com dignidade e entusiasmo as funções que lhes são atribuídas.
Por tudo isto não posso deixar de relevar esse espeto muito positivo da população de Cambeses, o qual traduz, não só forte sentido de religiosidade, vivida dessa forma, mas também o sentido do dever, o respeito pelas leis ancestrais, e o saber cumprir a sua missão com verticalidade, honra e humildade autêntica, aquela que é sinónimo de grandeza.
Blogue destinado à divulgação da vida e da obra literária da escritora Maria do Pilar Figueiredo
quinta-feira, 8 de setembro de 2016
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
Recordar a Festa das Cruzes através das imagens de uma vivência anual de poucas horas seria quase impossível sem o recurso à memória afectiva da maior parte dos acontecimentos e a maior parte dos acontecimentos teria sido varrida da minha memória, se não houvesse o regresso, embora fugaz, ao espaço percorrido quando era criança ainda. Espaço que é, todo ele, tumulto de gentes, luzes, sensações que transcendem a minha capacidade de atenção num cenário de carros de bois, pipas de vinho, panos das tendas esvoaçando, mulheres de lenços coloridos, homens de varapau. Imagens que se desdobram diante dos meus olhos sempre que volto a ter nove anos e me deixo envolver pelo tumultuar da Festa. Imagens plasticamente magníficas, as quais os meus sentidos refazem numa antiga intimidade com sons, cheiros, e aquela poeira luminosa rodopiando no vasto campo.
Imagens retomadas com uma espécie de nostalgia que me devolve a ingenuidade daqueles tempos felizes e simples, porque são sempre simples e felizes os tempos de infância que na memória guardamos depois de exorcizados os outros. E é assim que torno a ver com nitidez caminhos percorridos e torno a sentir o prazer de passear ao acaso atraída por aquilo que então, de certo modo apreciava, e que era o som compacto de vozes humanas na aglomeração dos gestos e exclamações, amalgama, confusão. E a imaginação a fervilhar por entre aquela floresta de toldos, ao mesmo tempo que os olhos inquietos e ávidos procuravam, e os sentidos guardavam, fragmentos dessa paisagem incomparável que me tomou e tornou sua. Porque há muitas formas de pertencer a uma terra e esta é uma de entre muitas.
Imagens retomadas com uma espécie de nostalgia que me devolve a ingenuidade daqueles tempos felizes e simples, porque são sempre simples e felizes os tempos de infância que na memória guardamos depois de exorcizados os outros. E é assim que torno a ver com nitidez caminhos percorridos e torno a sentir o prazer de passear ao acaso atraída por aquilo que então, de certo modo apreciava, e que era o som compacto de vozes humanas na aglomeração dos gestos e exclamações, amalgama, confusão. E a imaginação a fervilhar por entre aquela floresta de toldos, ao mesmo tempo que os olhos inquietos e ávidos procuravam, e os sentidos guardavam, fragmentos dessa paisagem incomparável que me tomou e tornou sua. Porque há muitas formas de pertencer a uma terra e esta é uma de entre muitas.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 7 – 5 – 1992
terça-feira, 6 de setembro de 2016
Nessa época, tempo de austeridade e de grandes dificuldades económicas, ir de Cambeses a Barcelos a pé era uma jornada penosa, só executada em última necessidade. E ir de comboio, dada a escassez e precaridade desse único meio de transporte público, era uma odisseia enervante e dispendiosa.
Por isso Cambeses, que dista da sede do seu concelho cerca de uma dúzia de quilómetros, podia considerar-se aldeia longínqua, perdida nos confins do concelho, a confrontar com freguesias de Braga e de Famalicão. Não é portanto de admirar que poucos fossem os contactos entre a freguesia e a sede do concelho, a não ser em caso de obrigação a cumprir na câmara, no grémio ou no tribunal e pouco mais. Até mesmo a feira não era muito procurada para quem tinha gado ou produtos agrícolas para comercializar, já que a de Famalicão, a de Braga, e até mesmo a da Isabelinha, em Viatodos, se apresentavam mais cómodas quanto à deslocação a efectuar.
Tudo mudava, porém, quando se tratava das Cruzes. “Ir às Cruzes a Barcelos!” Uma tentação, uma festa, um desejo. Uma festa em cada ano repetida, sempre igual e sempre diferente. “As Cruzes” simplesmente.
“As Cruzes” daquele tempo, em dia de feira frança, com carros de bois, saias que já começavam a ser de pouco pano, blusas de seda e os mesmos cordões de ouro, as mesmas argolas nas mulheres, igual modo de pentear os cabelos, os mesmos lenços coloridos.
Arejavam-se pois os fatos do dia de festa, gastavam-se algumas economias na branca regueifa ou na trigueira rosca de trigo e centeio que acompanhava com postas de bacalhau frito a alegria das infusas onde o vinho espumava e logo era vertido nas malgas que passavam de mão em mão, na alegria dos reencontros.
Ajustavam-se contratos, namoriscava-se, trincavam-se doces de gema cobertos de açúcar cristalizado, E, se as finanças o permitiam, tomava-se lugar debaixo dos toldos, abancando às compridas mesas, ombro com ombro, onde, ao lado dos pirolitos e laranjadas havia petiscos e, sobretudo, o pipo de vinho, com muitos litros de alegria, para distribuir por centenas de gargantas sequiosas.
Mas mesmo para quem não se deixava tentar por uma ida à Festa, as cruzes tinham um lugar muito importante, porque incluído na calendarização dos hábitos, preceitos e acontecimentos da região, quando assim se marcava o tempo: – “Foi ali pela maré das Cruzes…”, “Foi antes das Cruzes que…”, “As Cruzes já tinham passado há um ror de semanas quando…”.
No tempo das Cruzes faziam-se as últimas vessadas, e iniciava-se nessa época um outro tipo de contrato de trabalho que incluía merenda aos jornaleiros, cláusula que durava até ao S. Miguel. E até uma simples sementeira de melões e melancias se calendarizava pelas Cruzes, porque nessa época deveriam os pequenos caules ter já quatro folhinhas em cruz. Estes e outros preceitos mais, não esquecidos ainda hoje, suponho.
Porque, se muitos hábitos mudaram e o aspeto exterior dos rurais indica melhoria de vida e até um certo aburguesamento, se a alimentação e tarefas agrícolas sofreram profunda alteração, tal como a sofreu o traje feminino e os meios de transporte utilizados para ir à feira, a festa das Cruzes, essa, julgo ser ainda a mesma, na medida em que é motivo de evasão, apetecida acalmia nas corridas a que as novas condições de trabalho obrigam. É o intervalo, a alteração da rotina. Por isso, e segundo creio, “As Cruzes” continuam a ser a radiografia de hábitos e tendências de um povo fiel, apesar de tudo, às suas raízes e a muitas das suas leis ancestrais.
Por isso Cambeses, que dista da sede do seu concelho cerca de uma dúzia de quilómetros, podia considerar-se aldeia longínqua, perdida nos confins do concelho, a confrontar com freguesias de Braga e de Famalicão. Não é portanto de admirar que poucos fossem os contactos entre a freguesia e a sede do concelho, a não ser em caso de obrigação a cumprir na câmara, no grémio ou no tribunal e pouco mais. Até mesmo a feira não era muito procurada para quem tinha gado ou produtos agrícolas para comercializar, já que a de Famalicão, a de Braga, e até mesmo a da Isabelinha, em Viatodos, se apresentavam mais cómodas quanto à deslocação a efectuar.
Tudo mudava, porém, quando se tratava das Cruzes. “Ir às Cruzes a Barcelos!” Uma tentação, uma festa, um desejo. Uma festa em cada ano repetida, sempre igual e sempre diferente. “As Cruzes” simplesmente.
“As Cruzes” daquele tempo, em dia de feira frança, com carros de bois, saias que já começavam a ser de pouco pano, blusas de seda e os mesmos cordões de ouro, as mesmas argolas nas mulheres, igual modo de pentear os cabelos, os mesmos lenços coloridos.
Arejavam-se pois os fatos do dia de festa, gastavam-se algumas economias na branca regueifa ou na trigueira rosca de trigo e centeio que acompanhava com postas de bacalhau frito a alegria das infusas onde o vinho espumava e logo era vertido nas malgas que passavam de mão em mão, na alegria dos reencontros.
Ajustavam-se contratos, namoriscava-se, trincavam-se doces de gema cobertos de açúcar cristalizado, E, se as finanças o permitiam, tomava-se lugar debaixo dos toldos, abancando às compridas mesas, ombro com ombro, onde, ao lado dos pirolitos e laranjadas havia petiscos e, sobretudo, o pipo de vinho, com muitos litros de alegria, para distribuir por centenas de gargantas sequiosas.
Mas mesmo para quem não se deixava tentar por uma ida à Festa, as cruzes tinham um lugar muito importante, porque incluído na calendarização dos hábitos, preceitos e acontecimentos da região, quando assim se marcava o tempo: – “Foi ali pela maré das Cruzes…”, “Foi antes das Cruzes que…”, “As Cruzes já tinham passado há um ror de semanas quando…”.
No tempo das Cruzes faziam-se as últimas vessadas, e iniciava-se nessa época um outro tipo de contrato de trabalho que incluía merenda aos jornaleiros, cláusula que durava até ao S. Miguel. E até uma simples sementeira de melões e melancias se calendarizava pelas Cruzes, porque nessa época deveriam os pequenos caules ter já quatro folhinhas em cruz. Estes e outros preceitos mais, não esquecidos ainda hoje, suponho.
Porque, se muitos hábitos mudaram e o aspeto exterior dos rurais indica melhoria de vida e até um certo aburguesamento, se a alimentação e tarefas agrícolas sofreram profunda alteração, tal como a sofreu o traje feminino e os meios de transporte utilizados para ir à feira, a festa das Cruzes, essa, julgo ser ainda a mesma, na medida em que é motivo de evasão, apetecida acalmia nas corridas a que as novas condições de trabalho obrigam. É o intervalo, a alteração da rotina. Por isso, e segundo creio, “As Cruzes” continuam a ser a radiografia de hábitos e tendências de um povo fiel, apesar de tudo, às suas raízes e a muitas das suas leis ancestrais.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 30-4-1992
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
Daqui de Cambeses, nesta paz rumorejante de pinhais que, a partir de Bouçó se estendem para o concelho de Braga, nesta paz bucólica que ainda é possível aqui usufruir, olho as folhas avermelhadas das vides e o amarelecer preguiçoso dos castanheiros, anunciadores de alegres magustos, próprios do mês de novembro.
É como se o dia dois de novembro e a lembrança fugazmente avivada dos que se foram, já se tivesse dissipado. E, de facto, breve o esquecimento os cobre, exceto para aqueles que “por obras valerosas se vão da lei da morte libertando” - concluo para mim, nesta aproximação ao verso camoniano. E de súbito ocorre-me o nome de um homem notável, que em Barcelos nasceu e cresceu, e cuja evocação do sexagésimo aniversário da sua morte decorre agora.
Trata-se de Jaime de Séguier, homenageado já em 1951, por iniciativa da Assembleia Barcelense, tendo Ernesto da Várzea proferido ali uma conferência em que focou sobretudo o poeta de juventude que esse barcelense ilustre foi. Mais tarde, em 1966, coube a vez ao Dr. Miranda de Andrade e, ainda por iniciativa da mesma assembleia, evocá-lo não só como poeta, mas também como jornalista, escritor, diplomata e economista.
Cabe agora a vez à Biblioteca Municipal de, no dia 28, lembrar esta figura notável dos fins do século XIX e primeira metade do século XX, que foi Jaime de Séguier.
Homem afortunado, dotado de excepcionais qualidade de inteligência e cultura, viu ainda em vida serem-lhe reconhecidas as qualidades de devotamento e labor com que sempre cumpriu as suas funções, não só pelo Governo de Lisboa mas também pelo do Brasil e França, que lhe concedeu o grau de Oficial da Legião de Honra (de França).
Espírito dotado de espantosa flexibilidade, não se limitou à carreira diplomática. Ele foi também jornalista, colaborando no “Jornal do Comércio” do Rio de Janeiro, quinzenalmente e durante trinta anos, dando deste modo a conhecer ao Brasil o que por França e resto da Europa ia acontecendo em matéria cultural, política e social também.
Dotado de uma precocidade notável era, aos quinze anos, jornalista no “Jornal da Noite” e, aos 21, cronista diário no “Folha Nova”, que então se publicava no Porto. Crónicas brilhantes, fruto de uma actividade intelectual constante, cujos temas variadíssimos revelam um espírito sagaz, atento e observador, qualidades aliadas a um fino sentido de humor e sensibilidade criativa. Essa mesma sensibilidade patente na sua poesia, que em livro intitulado “Allegres Adágios” ele nos deixou.
Factos estes que, ouso dizer, mais do que quaisquer outros, tornaram durável a memória que, a partir de 1932, dele se guardou.
É como se o dia dois de novembro e a lembrança fugazmente avivada dos que se foram, já se tivesse dissipado. E, de facto, breve o esquecimento os cobre, exceto para aqueles que “por obras valerosas se vão da lei da morte libertando” - concluo para mim, nesta aproximação ao verso camoniano. E de súbito ocorre-me o nome de um homem notável, que em Barcelos nasceu e cresceu, e cuja evocação do sexagésimo aniversário da sua morte decorre agora.
Trata-se de Jaime de Séguier, homenageado já em 1951, por iniciativa da Assembleia Barcelense, tendo Ernesto da Várzea proferido ali uma conferência em que focou sobretudo o poeta de juventude que esse barcelense ilustre foi. Mais tarde, em 1966, coube a vez ao Dr. Miranda de Andrade e, ainda por iniciativa da mesma assembleia, evocá-lo não só como poeta, mas também como jornalista, escritor, diplomata e economista.
Cabe agora a vez à Biblioteca Municipal de, no dia 28, lembrar esta figura notável dos fins do século XIX e primeira metade do século XX, que foi Jaime de Séguier.
Homem afortunado, dotado de excepcionais qualidade de inteligência e cultura, viu ainda em vida serem-lhe reconhecidas as qualidades de devotamento e labor com que sempre cumpriu as suas funções, não só pelo Governo de Lisboa mas também pelo do Brasil e França, que lhe concedeu o grau de Oficial da Legião de Honra (de França).
Espírito dotado de espantosa flexibilidade, não se limitou à carreira diplomática. Ele foi também jornalista, colaborando no “Jornal do Comércio” do Rio de Janeiro, quinzenalmente e durante trinta anos, dando deste modo a conhecer ao Brasil o que por França e resto da Europa ia acontecendo em matéria cultural, política e social também.
Dotado de uma precocidade notável era, aos quinze anos, jornalista no “Jornal da Noite” e, aos 21, cronista diário no “Folha Nova”, que então se publicava no Porto. Crónicas brilhantes, fruto de uma actividade intelectual constante, cujos temas variadíssimos revelam um espírito sagaz, atento e observador, qualidades aliadas a um fino sentido de humor e sensibilidade criativa. Essa mesma sensibilidade patente na sua poesia, que em livro intitulado “Allegres Adágios” ele nos deixou.
Factos estes que, ouso dizer, mais do que quaisquer outros, tornaram durável a memória que, a partir de 1932, dele se guardou.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 18-1-92
domingo, 4 de setembro de 2016
Para este artigo, que será o primeiro de uma série, segundo espero, escolhi o título “Qualidade de Vida” que é expressão muito actual e fruto de preocupações de vária ordem. Quanto ao subtítulo, “Daqui de Cambeses” ele indica, como é óbvio, que será Cambeses, em especial, o tema destes textos. Cambeses e a sua qualidade de vida.
Oxalá que eu, como escritora e por, até certo ponto, estar ligada ao jornalismo, possa expor, com isenção, os meus pontos de vista quanto a essa qualidade de vida, seja ela boa ou má.
E assim, cumpre-me hoje referenciar, para minha satisfação, algo muito positivo quanto à qualidade de vida em Cambeses. Um acontecimento que mereceu notícias a quatro colunas, não só no jornal “O Primeiro de Janeiro” mas também noutros. Estou a referir-me evidentemente à inauguração do belo edifício que é a escola primária.
Estão de parabéns a população da freguesia e os órgãos do Poder que, nesse sentido se esforçaram. Mas não posso deixar de o dizer: se foi um benefício, foi sobretudo um ato de justiça. E a justiça não se agradece: merece-se, exige-se. E Cambeses, há muitos e muitos anos que tinha direito a esta escola, sobretudo quando as crianças eram muitas mais que a escassa centena de agora. Cambeses que em 1800, quando era ainda um concelho, tinha já, caso raro naquele tempo, a sua escola. Por isso Cambeses, que teve um passado notável, e que pacientemente soube esperar por uma escola com as condições que a de agora possui, não tem que agradecer esse ato de justiça, tem, quando muito, de agradecer o empenhamento no sentido de abrir o caminho à justiça.
Mas seja como for, a escola aí está, bem apetrechada, bem estruturada, de portas escancaradas aos muitos caminhos da cultura, a qual, sem dúvida está na razão direta de uma boa qualidade de vida, muito mais que certos valores materiais que uns quantos teimam em adotar como principais.
Daí congratular-me pessoalmente com este ato promissor de melhores dias para a vida em Cambeses.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 27 – 2 – 1992
Oxalá que eu, como escritora e por, até certo ponto, estar ligada ao jornalismo, possa expor, com isenção, os meus pontos de vista quanto a essa qualidade de vida, seja ela boa ou má.
E assim, cumpre-me hoje referenciar, para minha satisfação, algo muito positivo quanto à qualidade de vida em Cambeses. Um acontecimento que mereceu notícias a quatro colunas, não só no jornal “O Primeiro de Janeiro” mas também noutros. Estou a referir-me evidentemente à inauguração do belo edifício que é a escola primária.
Estão de parabéns a população da freguesia e os órgãos do Poder que, nesse sentido se esforçaram. Mas não posso deixar de o dizer: se foi um benefício, foi sobretudo um ato de justiça. E a justiça não se agradece: merece-se, exige-se. E Cambeses, há muitos e muitos anos que tinha direito a esta escola, sobretudo quando as crianças eram muitas mais que a escassa centena de agora. Cambeses que em 1800, quando era ainda um concelho, tinha já, caso raro naquele tempo, a sua escola. Por isso Cambeses, que teve um passado notável, e que pacientemente soube esperar por uma escola com as condições que a de agora possui, não tem que agradecer esse ato de justiça, tem, quando muito, de agradecer o empenhamento no sentido de abrir o caminho à justiça.
Mas seja como for, a escola aí está, bem apetrechada, bem estruturada, de portas escancaradas aos muitos caminhos da cultura, a qual, sem dúvida está na razão direta de uma boa qualidade de vida, muito mais que certos valores materiais que uns quantos teimam em adotar como principais.
Daí congratular-me pessoalmente com este ato promissor de melhores dias para a vida em Cambeses.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 27 – 2 – 1992
sábado, 3 de setembro de 2016
Nesta ainda possível paz usufruída numa tarde domingueira em Cambeses, tive entre mãos uma jovem revista que se edita na Escola Secundária Alcaides de Faria, de Barcelos, e se denomina “Avenida do Minho”.
Folheio-a de novo e, ao reler uma ou outra poesia, um ou outro artigo, surpreendo-me a pensar no inestimável valor de uma publicação deste género, tanto mais que atravessamos uma época caracterizada pela preocupante desvalorização da palavra escrita, enquanto suporte de criatividade literária e também jornalística. Uma época em que os audiovisuais, nomeadamente a televisão, quase anularam o gosto pela leitura, ao impor as suas efémeras imagens, como substituição das que a imaginação cria e mantêm como resultante do ato de ler.
Não pretendo aqui menosprezar as vantagens do audiovisual em favor da palavra escrita, porque acho que as duas podem perfeitamente coexistir. É, aliás, um princípio recentemente defendido no segundo encontro ibero-americano de jornalismo cultural, que teve lugar no México. E porque assim o creio também, continuo a manter a esperança de que o prazer da leitura resistirá a todos os avanços do audiovisual, esperança que assenta sobretudo no êxito que é, em cada escola, um jornal escolar.
Êxito bem evidente nesta jovem revista “Avenida do Minho”. Jovem não porque relativamente recente, mas porque é, na sua maior parte, fruto da criatividade dos jovens colaboradores, alunos dessa escola, muitos dos quais se revelam já como promissores escritores e poetas, bem como jornalistas, a não desmerecerem da actividade jornalística que em Barcelos é tradição.
De facto, se Barcelos não tem nenhuma individualidade tão célebre nas letras como outras terras as têm, no que respeita à actividade jornalística, possui uma tradição notável quanto à edição de jornais, conforme foi demonstrado nessa grandiosa e muito bem organizada exposição do ano de 1993, e que se denominou “A Imprensa Barcelense”.
Mas voltando à “Avenida do Minho”, não tenho dúvidas em afirmar que se trata de uma publicação valiosa, não apenas pelo seu conteúdo, pela cuidadosa ordenação dos temas, pelo aspecto gráfico, mas sobretudo, como se disse, porque se trata de uma publicação densamente povoada de vozes juvenis, vozes que deixam transparecer uma sensibilidade disponível para a investigação, para a criatividade literária, bem como para a actividade jornalística. Daí a grande diversidade de temas que vão da história à literatura, das ciências ao desporto, para gostosamente se demorarem no relato de viagens de estudo, e várias foram. Viagens que são marcos importantes na vida escolar. Aliás, todos guardamos no fundo da memória, as imagens afectivas e emotivas que viagens dessas deixaram em cada um de nós. Imagens indeléveis, a que nenhuma viagem de turismo, efectuada em idade adulta, se consegue sobrepor.
Vivemos numa época em que, como atrás se disse, cada vez se lê menos. Para a cura desse mal, a esperança está nas novas gerações, já que as outras foram desprevenidamente seduzidas por alguns meios de distracção de que participam passivamente e, quanta vez, mergulhadas em “apagada e vil tristeza”, já que a alegria de construir imagens através da leitura lhes está vedada. É uma época de fim de século considerada por muitos como desumanizada pela voragem da máquina. Uma época em que o consumismo tenta, e conseguiu já, ocupar o lugar da cultura.
É uma visão pessimista da qual me recuso a partilhar, embora não possa deixar de constatar que grandes alterações no quotidiano do Homem quase anularam o gosto pela descoberta através dos caminhos da imaginação. Essa imaginação, bem patente em muitos trabalhos a que os jovens deram forma, seduzidos pelo prazer da criatividade que a revista “Avenida do Minho” lhes proporcionou.
Mas, mais do que um incitamento à criatividade, é acima de tudo um incitamento à leitura, não só para os colaboradores, mas também para os restantes alunos, sem esquecer familiares e amigos, porque neste caso, o jornal é sempre um claro elo de ligação entre a escola e a comunidade.
Por tudo isto, a presença da “Avenida do Minho” é de aplaudir, como de aplaudir é o esforço de quem a dirige, e dos mais diversos modos colabora na sua realização. Tarefa absorvente, trabalhosa, como se imaginará. Mas também tarefa gratificante, porque fruto de um grande entusiasmo e empenhamento, aliados a uma certa dose de afectividade. Se assim não fosse, como poderia ela viver há já cinco anos?
Folheio-a de novo e, ao reler uma ou outra poesia, um ou outro artigo, surpreendo-me a pensar no inestimável valor de uma publicação deste género, tanto mais que atravessamos uma época caracterizada pela preocupante desvalorização da palavra escrita, enquanto suporte de criatividade literária e também jornalística. Uma época em que os audiovisuais, nomeadamente a televisão, quase anularam o gosto pela leitura, ao impor as suas efémeras imagens, como substituição das que a imaginação cria e mantêm como resultante do ato de ler.
Não pretendo aqui menosprezar as vantagens do audiovisual em favor da palavra escrita, porque acho que as duas podem perfeitamente coexistir. É, aliás, um princípio recentemente defendido no segundo encontro ibero-americano de jornalismo cultural, que teve lugar no México. E porque assim o creio também, continuo a manter a esperança de que o prazer da leitura resistirá a todos os avanços do audiovisual, esperança que assenta sobretudo no êxito que é, em cada escola, um jornal escolar.
Êxito bem evidente nesta jovem revista “Avenida do Minho”. Jovem não porque relativamente recente, mas porque é, na sua maior parte, fruto da criatividade dos jovens colaboradores, alunos dessa escola, muitos dos quais se revelam já como promissores escritores e poetas, bem como jornalistas, a não desmerecerem da actividade jornalística que em Barcelos é tradição.
De facto, se Barcelos não tem nenhuma individualidade tão célebre nas letras como outras terras as têm, no que respeita à actividade jornalística, possui uma tradição notável quanto à edição de jornais, conforme foi demonstrado nessa grandiosa e muito bem organizada exposição do ano de 1993, e que se denominou “A Imprensa Barcelense”.
Mas voltando à “Avenida do Minho”, não tenho dúvidas em afirmar que se trata de uma publicação valiosa, não apenas pelo seu conteúdo, pela cuidadosa ordenação dos temas, pelo aspecto gráfico, mas sobretudo, como se disse, porque se trata de uma publicação densamente povoada de vozes juvenis, vozes que deixam transparecer uma sensibilidade disponível para a investigação, para a criatividade literária, bem como para a actividade jornalística. Daí a grande diversidade de temas que vão da história à literatura, das ciências ao desporto, para gostosamente se demorarem no relato de viagens de estudo, e várias foram. Viagens que são marcos importantes na vida escolar. Aliás, todos guardamos no fundo da memória, as imagens afectivas e emotivas que viagens dessas deixaram em cada um de nós. Imagens indeléveis, a que nenhuma viagem de turismo, efectuada em idade adulta, se consegue sobrepor.
Vivemos numa época em que, como atrás se disse, cada vez se lê menos. Para a cura desse mal, a esperança está nas novas gerações, já que as outras foram desprevenidamente seduzidas por alguns meios de distracção de que participam passivamente e, quanta vez, mergulhadas em “apagada e vil tristeza”, já que a alegria de construir imagens através da leitura lhes está vedada. É uma época de fim de século considerada por muitos como desumanizada pela voragem da máquina. Uma época em que o consumismo tenta, e conseguiu já, ocupar o lugar da cultura.
É uma visão pessimista da qual me recuso a partilhar, embora não possa deixar de constatar que grandes alterações no quotidiano do Homem quase anularam o gosto pela descoberta através dos caminhos da imaginação. Essa imaginação, bem patente em muitos trabalhos a que os jovens deram forma, seduzidos pelo prazer da criatividade que a revista “Avenida do Minho” lhes proporcionou.
Mas, mais do que um incitamento à criatividade, é acima de tudo um incitamento à leitura, não só para os colaboradores, mas também para os restantes alunos, sem esquecer familiares e amigos, porque neste caso, o jornal é sempre um claro elo de ligação entre a escola e a comunidade.
Por tudo isto, a presença da “Avenida do Minho” é de aplaudir, como de aplaudir é o esforço de quem a dirige, e dos mais diversos modos colabora na sua realização. Tarefa absorvente, trabalhosa, como se imaginará. Mas também tarefa gratificante, porque fruto de um grande entusiasmo e empenhamento, aliados a uma certa dose de afectividade. Se assim não fosse, como poderia ela viver há já cinco anos?
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 15 – 7 – 93
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
De novo vou falar da História de Cambeses, da sua qualidade de vida no que respeita à sua cultura secular, e a esse respeito, aflorar de novo o tema que se prende com as Solenidades Quaresmais que aqui têm lugar, em cada ano, pontualmente. Solenidades estas, tão em uso em terras de Barcelos, embora me pareça que nenhuma dessas localidades possuirá, para a Procissão dos Passos, um percurso de Via Sacra, idêntico ao de Cambeses. Percurso místico porque destinado à dramaturgia da Paixão e também porque o escadório significará subida para o Céu, penitência.
De facto, bem penosa é a subida desse escadório, não só para as crianças vestidas de anjinho e para os homens que têm de equilibrar aos ombros o pesado andor do Senhor dos Passos, mas também para os que têm de segurar com firmeza e dignidade, em dias de ventania, as bandeiras e, sobretudo, o alto estandarte com os símbolos do martírio do Senhor. Toda uma iconografia que os romeiros, em cada ano, admiram, como se pela primeira vez o fizessem. Multidão intensa que aqui acorre quase ao começo da tarde, para ouvir não só o sermão mas também o cântico magoado que a Verónica entoa e os sons, solenemente acompanhados, da banda de música que fecha o cortejo, nesta evocação vivencial dos passos da paixão.
Em que ano teria tido lugar a primeira Procissão dos Passos? Não me foi possível sabê-lo ainda com exactidão. Sei que, e segundo o Prof. Doutor. C. A. Ferreira de Almeida, a primeira procissão quaresmal do Senhor dos Passos terá sido a da Graça, em Lisboa, em 1587. Em Braga, foi instituída pouco depois e, a partir daí, deu-se a sua expansão por terras do norte. Perante esta opinião talvez seja de admitir que a procissão do Senhor dos Passos em Cambeses é anterior à construção do escadório e talvez tão antiga como a capela que, do alto do monte sacro, ostenta a data de 1678.
Muitas outras terras terão criado e depois deixado extinguir a Confraria do Senhor dos Passos e, consequentemente, terão deixado de efectuar toda essa dramaturgia intensamente vivida, que é a Procissão dos Passos. Outras vão-na mantendo com algumas interrupções pelo meio. Cambeses, porém, tem-na mantido inalteravelmente e, com ela, o rigor quanto à data e cumprimento de todo o cerimonial. Todos os irmãos da confraria assumem integralmente os cargos que lhes são atribuídos, sobretudo aqueles que, durante um ano, se movimentaram nos bastidores, para que se cumpra toda essa dramaturgia, que se desenrola ao longo de duas ou três horas, mas que levou meses, um ano, a preparar, com inteiro sentido das responsabilidades e devotamento total e onde tudo foi prevenido até ao pormenor: desde os contactos com o Padre Pregador até à escolha da Verónica, ao contrato com a Banda de Música e à ornamentação da igreja e capelas.
Andores, pálio, bandeiras, anjinhos, sob o som plangente da música e do dobrar cadenciado do sino grande da igreja matriz, tudo se movimenta acertadamente ao longo do difícil percurso que é a subida do secular escadório e, consequentemente, descida pelos arruamentos ziguezagueantes da encosta.
De facto, bem penosa é a subida desse escadório, não só para as crianças vestidas de anjinho e para os homens que têm de equilibrar aos ombros o pesado andor do Senhor dos Passos, mas também para os que têm de segurar com firmeza e dignidade, em dias de ventania, as bandeiras e, sobretudo, o alto estandarte com os símbolos do martírio do Senhor. Toda uma iconografia que os romeiros, em cada ano, admiram, como se pela primeira vez o fizessem. Multidão intensa que aqui acorre quase ao começo da tarde, para ouvir não só o sermão mas também o cântico magoado que a Verónica entoa e os sons, solenemente acompanhados, da banda de música que fecha o cortejo, nesta evocação vivencial dos passos da paixão.
Em que ano teria tido lugar a primeira Procissão dos Passos? Não me foi possível sabê-lo ainda com exactidão. Sei que, e segundo o Prof. Doutor. C. A. Ferreira de Almeida, a primeira procissão quaresmal do Senhor dos Passos terá sido a da Graça, em Lisboa, em 1587. Em Braga, foi instituída pouco depois e, a partir daí, deu-se a sua expansão por terras do norte. Perante esta opinião talvez seja de admitir que a procissão do Senhor dos Passos em Cambeses é anterior à construção do escadório e talvez tão antiga como a capela que, do alto do monte sacro, ostenta a data de 1678.
Muitas outras terras terão criado e depois deixado extinguir a Confraria do Senhor dos Passos e, consequentemente, terão deixado de efectuar toda essa dramaturgia intensamente vivida, que é a Procissão dos Passos. Outras vão-na mantendo com algumas interrupções pelo meio. Cambeses, porém, tem-na mantido inalteravelmente e, com ela, o rigor quanto à data e cumprimento de todo o cerimonial. Todos os irmãos da confraria assumem integralmente os cargos que lhes são atribuídos, sobretudo aqueles que, durante um ano, se movimentaram nos bastidores, para que se cumpra toda essa dramaturgia, que se desenrola ao longo de duas ou três horas, mas que levou meses, um ano, a preparar, com inteiro sentido das responsabilidades e devotamento total e onde tudo foi prevenido até ao pormenor: desde os contactos com o Padre Pregador até à escolha da Verónica, ao contrato com a Banda de Música e à ornamentação da igreja e capelas.
Andores, pálio, bandeiras, anjinhos, sob o som plangente da música e do dobrar cadenciado do sino grande da igreja matriz, tudo se movimenta acertadamente ao longo do difícil percurso que é a subida do secular escadório e, consequentemente, descida pelos arruamentos ziguezagueantes da encosta.
E por tudo isso não posso deixar de me congratular pela efectivação ininterrupta desta solenidade que vive da tenacidade do povo sem necessitar de apoios oficiais, nem de mecenatos para continuar viva e firme do respeito pelas leis ancestrais, pela sua História e pela sua religiosidade.
E quando um povo, por si só, assim decide proceder, está de parabéns. E Barcelos, a quem este povo pertence, estará, sem dúvida, igualmente de parabéns.
Crónica publicada no jornal de Barcelos de 9-4-92
E quando um povo, por si só, assim decide proceder, está de parabéns. E Barcelos, a quem este povo pertence, estará, sem dúvida, igualmente de parabéns.
Crónica publicada no jornal de Barcelos de 9-4-92
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