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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Como é sabido, há muitos escritores que são convidados para ir aqui ou acolá com o objectivo de dissertarem sobre este ou aquele tema, sobretudo livros, seja os da sua autoria, seja simplesmente “o livro” como meio difusor do conhecimento. E, a propósito, direi não ter por costume falar nestas páginas da minha faceta de escritora mas, na circunstância, não posso deixar de o fazer.

Vem isto a propósito do seguinte: acedendo a um simpático convite do corpo docente de uma escola barcelense do primeiro ciclo do Ensino Básico, como agora se chama ao antigo Ensino Primário (o qual por sua vez tinha já sido chamado “das Primeiras Letras”), desloquei-me um dia destes a uma dessas escolas, mais propriamente, à escola da Gandarinha, que fica na freguesia de Galegos, S. Martinho, uma terra de artistas do barro, segundo julgo saber.

Confesso que levava comigo alguma apreensão, para não dizer receio, quanto ao modo como iria ser recebida por essa gente de palmo e meio mas, mesmo assim, dispus-me a enfrentar esse grande grupo de gente pequena, embora não sabendo, por falta de experiência, o que me esperaria, tanto mais que aos meus ouvidos continuavam a soar vozes de alguns “velhos do restelo”, que os há em todos os lugares e situações.

Não tardou porém que todos os receios e prevenções de que vinha munida se evaporassem como por magia e, encantada, vi alguns deles aproximarem-se de mim de forma descontraída, como se há muito nos conhecêssemos e, ufanos, chamarem a minha atenção para os quadros expostos, ou seja, os desenhos com legendas que eles haviam feito, inspirados num determinado conto infantil, tendo alguns deles modelado em barro os animais que eram as personagens desse conto muito simples, que um dia escrevi.

E assim, após ter admirado a exposição dos pequenos artistas, foi-me dado assistir à dramatização do referido conto, toda ela desempenhada com muita sensibilidade e arte, merecedora de largos aplausos. Finda esta, os pequenos rostos (mais de cem) cujo olhar curioso e inquiridor me fez sentir como quem vai prestar provas perante um júri exigente e inexorável.

Passado porém o primeiro impacto e afastado o meu breve constrangimento, senti-me agradavelmente surpreendida com a atenção dessas “pessoas tão importantes” (não é ironia) que com a descontração própria da idade me dirigiram as primeiras perguntas. Perguntas bem estruturadas, ordenadas, por vezes imprevistas, as quais tiveram o condão de estabelecer entre nós uma rápida e firme empatia.

O tempo passou quase sem se dar conta e, como sempre acontece, a hora de terminar o nosso convívio chegou e vi-os retirarem-se ordeiramente (com a vivacidade que lhes é própria, evidentemente), sem uma advertência, uma repreensão, um aviso. Foi, ouso dizê-lo, uma experiência que resultou em pleno. Evidentemente que tal não aconteceria se antes não tivesse havido uma conjugação de esforços por parte de todos os elementos da escola, como aliás é indispensável que haja sempre que enfrentem situações que não tenham a ver com as do quotidiano. Que dizer mais? Dizer apenas que gostei não chega, porque me entusiasmei e também me comovi, tenho de o confessar.

Maravilhei-me, acrescento, e intimamente aplaudi o esforço desse grupo de jovens professores que soube encontrar forma de explicar à sua “gente de palmo e meio” a importância do livro e da leitura, incutir-lhe de forma indirecta, que um escritor é um ser humano como outro qualquer, que não vive numa redoma, e que, além de escrever histórias, sabe falar, rir e escutar, tal como os adultos com que eles, no seu dia a dia convivem, de uma forma ou de outra.

E, já de regresso, entregue às minhas reflexões, vieram-me à ideia os companheiros de escola, os da minha geração, que é a da palmatória, esses que, em grande parte, não só têm dificuldade em aceitar os atuais métodos de ensino, como também criticam e reprovam quase tudo o que é inovador, (não nego que haja nos novos programas aspectos que dificilmente poderão merecer o nosso aplauso), mas não podemos criticar a torto e a direito, só porque é diferente.

Por esta razão julgo que, se acaso alguns desses companheiros me lerem, talvez não acreditem na autenticidade das minhas impressões e emoções, e rebatam o meu ponto de vista, mas por aqui me fico. Não quero nem posso enredar-me em teorias que envolvam didácticas e pedagogias, porque correria o risco de revelar ignorância, uma vez que nunca exerci a docência neste nível de ensino.

E, além disso, seria alterar a minha intenção inicial, que é dizer, sobretudo, do meu agrado por ter estado na Escola da Gandarinha e porque fiquei feliz com essa experiência. Em relação aos professores, não posso deixar de testemunhar a minha viva admiração pelo trabalho que executaram previamente, para que esse encontro resultasse como resultou, tanto mais que, segundo julgo saber, uma parte significativa desses alunos provêm de famílias onde possivelmente pouco se falará de livros e de escritores e, muito menos, se perderá tempo com leituras.

Daí a razão de aqui ter vindo falar dessa experiência, porque, bem o sabemos, acontecimentos destes não despertam o interesse de quem tem por ofício dar a conhecer grandes acontecimentos (sobretudo chocantes).

Mas, julgo eu, se por um lado acontecimentos destes não chocam a opinião pública, por outro lado ninguém poderá negar o quanto é agradável falar da beleza de pequenos-grandes eventos como este. E saber-se deles também!


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 6 – 11 – 2000

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Num destes últimos domingos, fui forçada a mais uma aventura pela estrada de Barcelos e, novamente, o caos aí esteve arreliador a ameaçar a todo o momento, não só com “toques” mas até com coisa pior. E isto porque parece nada haver, pelos vistos, que obrigue a atuar como gente civilizada certos cidadãos que civilizados se julgam só porque conduzem um carro.

Basta observar o pandemónio que aos domingos continua a verificar-se à porta das discotecas e restaurantes que há pelas aldeias. Evidentemente que não são todos, os que assim procedem. Será uma reduzida minoria, se percentualmente considerados. Mas são o suficiente para perturbarem quem, por necessidade ou prazer a que tem direito, circulam por estas estradas camarárias.

E, a este propósito, não posso deixar de me lembrar do trânsito nos países do Oriente, onde me foi dado circular. Excluindo a Malásia e a Coreia do Sul, ou ainda a Ilha Formosa, onde as auto-estradas abundam e as bicicletas quase não existem, o pandemónio nesses países era total. Ou antes, seria se acaso ele se processasse com os nossos desabridos condutores e não com gente paciente como o são os chineses e os indianos também.

E lembro-me m especial das estradas de Goa, onde dois autocarros, para se cruzarem, um deles tinha de se arrumar na valeta, evitando, no último segundo o choque que parecia eminente, tudo se resolvendo sem impaciências nem insultos, como por cá se presencia às vezes, mas antes com compreensão e esse dom que falta a alguma gente bem enfarpelada e se chama “Boa Educação”.

Mas quando não era o cruzamento entre dois carros a reter-nos a respiração, eram outros os obstáculos, desde um pachorrento carro de bois, perdão, de búfalos, que continuava na nossa frente sem que o condutor do nosso autocarro ou do táxi se irritasse, ou então era “vaca sagrada”, como todas, que resolvia dormir a sesta em plena estrada, a qual se tinha de contornar com perícia, ou então um porco ou uma porca com uma ninhada de filhotes atrás, que se lembrava de atravessar a estrada, ou até o pequeno bando de galinhas, ou um simples cão que, no último momento, o motorista, com perícia, evitava atropelar.

Claro que as condições de vida na India são outras que não as do ocidente, embora em Goa não haja, como aqui já tive ocasião de referir, essa espectacular miséria que se pode observar nas grandes cidades da Índia.

E se não há, consequentemente, pelas estradas de Goa, esta nossa profusão de carros novos, há, o que para mim é bem mais positivo, um espírito de compreensão e respeito (e pelos animais também), e algo mais que se chama delicadeza, sensibilidade, educação.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 29 – 9 – 1994

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Foi em Xangai, de visita ao Museu de História, ouvindo as explicações do guia acerca das porcelanas expostas que, por uma associação de ideias, me lembrei dos barros da nossa terra, de cuja origem não me vou ocupar aqui por várias razões, entre elas a de não ter formação académica específica que me permita alongar-me sobre o assunto.

Portanto limitar-me-ei a dizer que gostei de ouvir Wang, o nosso guia chinês em Xangai, que se expressava em espanhol, contar-nos a história da cerâmica chinesa, materializada em objectos utilitários e de adorno, cuja história se perde nos tempos, ao mesmo tempo que documentam a milenar história da China em épocas várias.

Segundo uma lenda chinesa, o primeiro recipiente em barro resultou por acaso, quando alguém, tendo construído um cesto em palha, o pintou com barro para o tornar mais útil e firme. Depois deu-se um incêndio e a palha do cesto foi destruída e, consequentemente, o barro cozido, o que o tornou suficientemente sólido para se aguentar no uso a que se destinava.

Assim começou, segundo a lenda, a fabricação da loiça que, milénios depois, iria dar lugar às delicadas porcelanas chinesas que, para serem autênticas, dizia-nos Wang, têm de ser transparentes como jade, finas como o papel, brilhantes como um espelho e sonoras como uma campainha.

Evidentemente que as peças do nosso barro não têm estas características, mas não deixam de ser belas e de ter projecção internacional, como é o caso do galo, cujo simbolismo corre o mundo e é um feliz exemplo de criatividade artística. No que se refere a objectos de uso diário, criados a partir da roda do oleiro, se não têm as características delicadas da porcelana chinesa, têm uma harmonia e delicadeza de formas notável, como por exemplo o cântaro de barro que as mulheres iam encher à fonte e transportavam à cabeça, sem o segurar com as mãos, num prodígio de equilíbrio e elegância dignos de registo.

Belas como esses cântaros são as caçoilas de três pernas e os alguidares vermelhos e vidrados, bem como as almofias e prateiras, igualmente vidradas, apresentando desenhos ornamentais delicados e imaginativos. Hoje quase se poderia dizer que esses objectos mais não são do que peças decorativas, porque o plástico veio substitui-los na utilização diária. Daí, ao serem transformados em objectos de adorno, tornaram-se, consequentemente, apreciados, não pela funcionalidade, mas sim pela elegância de linhas e delicadeza de decoração, sobretudo se se trata de barro vidrado.

Em tudo isto pensei, escutando as explicações do solícito guia, que Wang se chamava, e orgulhosamente falava da milenária história da China, que os fragmentos de cerâmica das vitrinas documentavam, tal como acontece em qualquer parte do mundo em que há arqueólogos apaixonados, como aliás acontece em Barcelos, sendo exemplo essa exposição de arqueologia que saiu dos muros da cidade e se estendeu ao mundo rural para, deste modo, dar a conhecer as origens desta terra chamada Barcelos.

Por tal motivo não posso deixar de aproveitar a oportunidade para dizer aos mentores e executores de tal acontecimento: Parabéns!

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 27 – 1 – 1994

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Se alguém ainda sonha com um passeio tranquilo pelas aldeias de Barcelos, é sonho vão, sobretudo se segue pelas estreitas e antigas estradas camarárias, em tardes de domingo, e tem de atravessar locais onde funcionam cafés, e sobretudo discotecas.

Acontece isso mesmo perto de Cambeses, já em Nine, junto a uma discoteca, na estrada que liga as duas freguesias. Há os estacionamentos que são onde calha, e há os grupos de pessoas que ficam a conversar, parados na estrada, como se estivessem num jardim, e há os incautos e os “donos disto tudo”. Por estas razões torna-se necessário efectuar autênticas gincanas com a maior calma possível. Não sei quem tem autoridade para disciplinar estas coisas. Ali, parece que ninguém. O mesmo acontece em Cambeses, junto ao apeadeiro, onde por vezes o trânsito é um pandemónio. Só se avança à custa de perícia e paciência e, mesmo assim, os “toques” vão acontecendo, felizmente sem desastres pessoais, o que se deve à reduzida velocidade praticada, muito inferior à das gincanas desportivas.

E deixando estas coisas que ninguém parece interessado em fazer melhorar, evoco de súbito o trânsito nas cidades chinesas que me foi dado visitar: trânsito de tal modo emaranhado de ciclistas que só um motorista chinês, paciente como só o são os chineses, consegue enfrentar, avançando por entre este autêntico formigueiro de ciclistas sem molestar nenhum deles.

Para se fazer uma ideia, basta dizer que, só na cidade de Pequim, há cerca de sete milhões de bicicletas, disseram-nos, e acredito, tantas elas eram diante dos nossos olhos, a surgir de todos os lados, a meterem-se diante do autocarro, que se limitava a seguir cautelosamente e a buzinar constantemente. Não um buzinar agressivo, próprio de quem está enervado, muito à nossa moda, mas um buzinar de quem pede licença suave e quase que com um sorriso, que é coisa de que os chineses costumam deitar mão, nas mais variadas circunstâncias.

Em Taipé, capital dessa ilha que embora chamada de Taiwan, também é conhecida por Formosa, que foi assim que os marinheiros portugueses a acharam e chamaram, em Taipé, dizia, o trânsito também é caótico, mas os veículos de duas rodas aqui são motorizados, sinal de progresso, esse progresso que arrasta consigo um fantasma negro chamado “poluição”. Uma poluição já de tal modo acentuada que muitos dos motociclistas conduziam de máscara! Eu vi.

Não tenho nada contra os veículos motorizados. Antes pelo contrário. Mas que se gasta muita gasolina só por gastar, sobretudo nas emaranhadas tardes de domingo, lá isso é verdade. Mas como cada um tem o direito de gastar como quer…

O mesmo não dirão os donos de automóveis em Quala Lumpur, capital da Malásia, cidade moderna, de modernos arranha-céus e ruas amplas, bem como a cidade de Singapura, das mais limpas e ordenadas que é possível apreciar, porque nas horas de ponta nenhum automobilista pode circular nestas cidades, só. Tem de levar consigo companhia ou pedir a quem o leve. Isto na intenção de reduzir o tráfego de carros ocupados por uma só pessoa, como é tão vulgar na nossa terra. E se essa moda se fazia lei, também, cá pelos nossos lados?

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 10 – 2 – 1994

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Vou começar por afirmar publicamente que sou amiga das árvores, que gosto de as ver cuidadas e viçosas, cumprindo a missão que a natureza lhes destinou, que as protejo como posso, que me angustio e revolto com os incêndios de verão, e todos os anos temo pelos pinhais de Cambeses. Pinhais que ainda se vão mantendo quase intactos, apesar das ameaças que, por vezes, parecem pairar sobre eles.

Cresci numa terra onde as árvores abundam, árvores de fruto ou não, que vicejam na borda dos campos, árvores robustas, semi-selvagens, feitas “uveiras” a par de outras que nos presenteavam com pequenos frutos espontâneos e acidulados quase sempre. Puros. Bichentos às vezes. Naturais. Por tudo isto, repito, sempre gostei das árvores.

Mas há uma, em plena cidade de Barcelos, que não gostei de encontrar diante dos meus olhos. Não pela árvore, que é bela e viçosa, mas porque, tendo crescido num local inadequado, se interpunha entre mim e a bela fachada quatrocentista da nossa futura biblioteca municipal. Claro que a árvore não tem culpa de ter nascido ali. Culpa teve quem ali a plantou, sabendo, como é óbvio, que em breve ela iria interpor-se entre a fachada do belo edifício e o olhar de quem quisesse admirar essas pedras. E agora, que fazer?

A árvore é jovem e bela. Tão bela como a praça onde cresceu, uma praça com alma, com uma dignidade e características muito próprias. Uma praça rodeada de edifícios bem conservados, honrando assim aqueles que, tendo a seu cargo preservar bens dessa natureza, souberam defender esse conjunto arquitectónico de possíveis cobiças e sonhos megalómanos.

Praça bonita, repito, harmoniosa, sob o olhar da alta torre. Praça que, com a nova biblioteca a funcionar, se vai tornar, julgo eu, na sala de visitas da cidade.

Mas, e a árvore?

Que fazer com esse ser vivo? Que me perdoem os botânicos e técnicos de jardins, o atrevimento da sugestão, que é esta: - mudá-la para um outro local (tecnicamente já é possível, julgo saber).

A praça, já de si bela, pouco perderia se a árvore fosse retirada. E a árvore, se tratada com os cuidados que as novas técnicas possibilitam, poderia até lucrar se, num outro local, possivelmente mais apropriado, pudesse, em total liberdade, crescer mais ainda.

E quanto à bela e granítica fachada da nossa futura biblioteca, essa muito teria a ganhar porque poderia ser admirada do outro extremo da praça, e as suas portas, a descoberto, seriam claro convite a uma visita que o mesmo é dizer, à possibilidade de enriquecimento cultural. Essa riqueza, de que tão necessitado se anda nesta era de falsos valores, de materialismo exacerbado, de regras surdas, de tanta coisa negativa, desgastante e até predadora.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 7 – 1 – 1994

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Num dos últimos artigos falei da inauguração de uma escola em Cambeses e do que isso representará para a sua qualidade de vida.

E agora, neste novo espaço, vou tentar falar de um passado que, não sendo muito remoto é, de certo modo, um passado já longínquo. Um passado em que Cambeses, por ser concelho rural e couto de homiziados era uma terra com alguma importância.

Mas, ao focar este espeto, não vou aqui mencionar o poder político e administrativo que, possivelmente, os senhores do Couto teriam, nem tão pouco falar dos bens materiais que consequentemente guardariam dentro dessas vetustas paredes da grande casa que foi a Casa do Paço.

Vou, isso sim, falar da sua escola e do que, para Cambeses representava o privilégio de ter sido das primeiras localidades a ter ensino oficial. Para se avaliar dessa importância, bastará referir que, no século XVIII, raras eram as freguesias rurais que tinham condições para os seus habitantes aprenderem as primeiras letras. E até mesmo a então vila de Barcelos, que sempre fora terra importante, tinha, no início de 1700, apenas uma cadeira de primeiras letras, cujo mestre era pago através dos cofres da Câmara.

É possível que, antes de a Câmara de Barcelos cuidar da instrução pública, tenha havido, em Cambeses, ensino particular, como era de tradição em algumas freguesias rurais. Mas, quanto a este aspeto, temos de nos quedar pelas simples suposições, já que não nos foi possível obter mais esclarecimentos a este respeito.

Uma coisa, porém, é certa: a instrução teve um lugar muito importante em Cambeses e teve-o porque aqueles que estavam à frente dos destinos desta terra se empenharam em obter, para ela, esse benefício, no intuito de melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes.

Porque se ninguém duvida que a instrução é um dos aspectos mais importantes da qualidade de vida em qualquer terra, em Cambeses também terá forçosamente de o ser.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 5-3-1992

quinta-feira, 22 de setembro de 2016


Creio que já citei aqui aquela frase ouvida não sei onde: ”Um país constrói-se com homens e com livros”, frase de que me recordei ao ler um artigo, no “Jornal de Letras”, intitulado “Livros e editores”.

Desse artigo, que me deixou pensativa mas não surpreendida, transcrevo aqui uma pequena parte: “Na Noruega e na Alemanha, cada habitante gasta cerca de seis vezes mais em LIVROS do que um português; mesmo em Espanha, gasta cerca de três vezes mais. Portugal está em último lugar, a esse nível, entre todos os países da União Europeia”.

Mesmo tendo em conta os erros de que as estatísticas por vezes padecem, julgo podermos acreditar que há um fundo de verdade nessas afirmações.

E a propósito sou tentada a, um pouco malevolamente, pôr no ar esta interrogação:

- Como vai Barcelos em relação à aquisição de livros?

Evidentemente que não me estou a referir àqueles ricamente encadernados e ilustrados, de alto preço, colocados nas estantes como qualquer outro objecto de adorno, e que estão de acordo com a mobília e o carro de boa marca. Estou sim, a referir-me aos livros que se compram para serem lidos, manuseados, gastos.

Pertencemos a uma geração em que o verbo “ter” e, pior ainda, o verbo “parecer” são conjugados frequentemente, em detrimento do verbo “ser”. E isto acontece até mesmo com aqueles que obtiveram um diploma académico. De facto, muitos deles puseram de parte ideais juvenis, onde a cultura tinha um lugar importante, para acabarem exactamente como os outros: aqueles que, não tendo grande riqueza interior, se preocupam sobretudo com os sinais exteriores de riqueza.

Claro que não podemos esperar que uma cidade, de um momento para o outro, mude os seus hábitos, adote outros ideais, que aprenda a considerar como valores, outros que não só o cifrão, o futebol, o poder político, porque todos eles são extremamente frágeis, falíveis e efémeros até, ao passo que o enriquecimento cultural do indivíduo é perene, ou melhor, dura enquanto a sua vida durar, pelo menos.

Senão vejamos: quem dá notícia hoje dos poderosos contemporâneos de Camões, Garcia da Orta ou Grão Vasco?

Ou, a nível da nossa terra, dos que nos deixaram, quem fala deles, desses poderosos contemporâneos, por exemplo, do nosso eternamente jovem, o poeta António Fogaça? E desse longínquo Garcia de Guilhade?

Poderia deixar aqui muitos outros nomes barcelenses, mas estes chegam para exemplificar. E além disso correria o risco de ser considerada moralista, o que não é minha intenção.

Mas já que comecei por falar em livros, quero aqui lembrar que a FEIRA DO LIVRO de Barcelos está à porta. Não têm descanso já, aqueles que assumiram a responsabilidade de a organizar. Bom seria que muitos mais começassem a aprender o que é o LIVRO e correspondessem, em igualdade, ao entusiasmo sério dos que destas coisas se ocupam, e deste modo dão prova de uma certa riqueza interior.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 16-6-1994


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Exposição notável, essa do Postal Antigo de Barcelos, que em boa hora pude admirar: imagens diversas de um Barcelos não muito antigo, se o compararmos com o de uma História de séculos. Imagens de um Barcelos vivo e nítido, que nos fala de casas antigas, velhas igrejas, praças e ruas.

Um Barcelos humanizado e alegre nos trajes das lavradeiras, nas imagens colhidas no amplo Campo da Feira, povoado de ruralidade, não só nesses trajes, mas também nos utensílios comercializados, nos animais, no jeito de as mulheres sobraçarem o delicado açafate ou o estimado cesto de cana, cesto de feirar.

Imagens várias de um Barcelos citadino e rural: histórico e pitoresco. Imagens várias de gente vária, que em Barcelos deixou nome. Imagens também de um Barcelos quase bélico, do tempo em que em Barcelos havia um quartel, e do monte (creio que da Franqueira), naquele tempo nu e escalavrado, a servir de palco às manobras militares, às ordens de El-Rei D. Carlos.

Na verdade Barcelos, senhora de um património cultural e histórico notável, está a demonstrar publicamente querer valorizar ainda mais esse património patenteando-o, devidamente protegido, aos olhos de quem o deseje admirar. Já assim aconteceu, em circunstâncias semelhantes, num passado ainda recente, noutras exposições igualmente trabalhosas e pacientemente montadas, que antecederam esta, como foram por exemplo a da “Imprensa Barcelense” e a da “Arqueologia”, esta com a particularidade louvável de ter saído dos muros da cidade para se instalar num meio rural, levando assim esta forma de cultura a quem, por razões atávicas, a não procurou.

Mas voltando ao tema que é a exposição do postal antigo de Barcelos, não posso deixar de aqui salientar a série de conferências enriquecedoras, e sempre oportunas, em eventos culturais deste género.

Eventos que só resultam se o entusiasmo, o gosto pelo que se constrói, e o dinamismo estiverem presentes na sua concepção e realização. E parece que ninguém poderá duvidar de que esta exposição resultou, não para despertar um saudosismo lamechas mas, antes, para que todos nós, que olhamos essas imagens do passado, possamos reflectir melhor sobre este presente que é nosso e o futuro que nos espera.

Essas imagens, que não hesito em classificar de documentos preciosos, irrefutáveis, autênticos. Pedagogicamente valiosos também.

Que mais acrescentar?

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 23-6-1994

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Não sei como falar de Cambeses, tendo na ideia toda esta paisagem humana que os sentidos captam, todo este permanente baloiçar entre o entusiasmo da renovação que, de forma por vezes agressiva, se processa em muitos pontos da população rural e a melancolia do tradicional.

Não se trata porém de saudosismo nem desejo utópico de regresso ao passado, esse passado ainda recente, cujos aspectos positivos se opunham aos outros, os considerados negativos, tal como a escassez de bens materiais se opõe à exibição clara e, quantas vezes, forçada, de uma abastança que nem sempre é real. E não sendo real, será necessariamente dolorosa, com o seu cortejo de competições mesquinhas, ansiedade, angústias. Não é também uma visão romântica do passado, é apenas uma evocação no confronto com o presente, cujo mérito será talvez levar-nos a reflectir sobre ele.


Naquele tempo, nenhum écran de televisão os perturbava ou induzia a consumir produtos embalados em vistosas e coloridas caixas. Nenhuma imagem os incitava à imitação sem lhes dar tempo a reflectir. Iam às feiras mais próximas, observavam os produtos expostos e, sobre a sua aquisição, reflectiam devagar, sem o perigo de seduções e tentações. Cumpriam contratos e assumiam compromissos sem receio de burlas, precipitações, mal entendidos.

Eles tinham tempo para falar, pensar, tempo para resolver as situações. Eles tinham muito tempo, porque “o tempo, diziam, dava-o Deus de graça”. E porque tinham muito tempo, sobretudo quando as noites eram longas e frias, possuíam uma sabedoria usada e ensinada com a simplicidade que lhes permitia entregarem-se à alegria ou tristeza, sem prejuízo da sua firmeza de ânimo. Não falavam de honra. Assumiam-na. Não diziam palavras de paz e justiça. Viviam-nas.

Muitos, sobretudo os homens, sabiam ler, conheciam algumas das leis que em Lisboa se faziam, mas a população procedia segundo esquemas estabelecidos por longínquos antepassados. Por isso não sentiam necessidade de muitas leis, nem de um estado poderoso. O que se passava em Lisboa era como se não dissesse respeito à aldeia. À aldeia diziam respeito, isso sim, essas leis que eram reflexo de vivências aprendidas nas lonjuras do tempo e onde o respeito pelo seu semelhante estava em todas elas. E se alguém não cumpria essas leis era punido, não só pelas leis emanadas de Lisboa, que em Barcelos se executavam, mas também pela sanção moral que era a perda de confiança por parte da comunidade, o desprezo, o ostracismo a que daí em diante seria votado. Era a desonra como um labéu, gravado na fronte a ferro e fogo, e transmitida a seus descendentes.

Mas os que cumpriam podiam dormir em paz, dançar alegremente em terreiros de romaria e viver cada festa, cada solenidade religiosa, gota a gota, como quem apreciava um vinho antigo. Podiam entregar-se às festas de romaria porque eram suas. Por isso eram participantes, e não meros espectadores, como agora acontece, preocupados mais em se mostrarem, em parecerem, do que serem com autenticidade, mercê dos falsos progressos mentais em que muitos se apoiam, os quais alteram o humor, adulteram-lhe os gestos, condicionam-nos.

É sabido que todas as sociedades têm as suas épocas de transformação mais acelerada e que essa situação gera por vezes desarmonia. No entanto o equilíbrio tem sido sempre ou quase sempre reencontrado. Esperemos que agora também assim aconteça.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 28-5-1992

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Como se sabe, Barcelos tem tradição jornalística importante, e disso foi testemunho irrefutável a magnífica exposição que há cerca de dois anos aconteceu nesta cidade de Barcelos, a qual teve por tema “A Imprensa Barcelense”.

Ora o que talvez não saibam, porque não constou dessa exposição, embora a imprensa local o tivesse ditado anteriormente, é da existência de um jornal cuja sede era em Cambeses, um semanário que, embora com o formato de um jornal regional, o seu director, modestamente, apelidava de “Boletim Paroquial”. E porque soube da sua existência graças a um artigo de um ilustre colaborador deste Jornal de Barcelos, fui procurá-lo na Biblioteca Municipal do Porto e, após algumas buscas, acabei por ter acesso ao referido semanário, que “Domingo” se chamava.

Era seu director o pároco de Nine, Pe. Francisco Lima Novais e seu editor e administrador o pároco de Cambeses, Pe. Domingos Peixoto da Costa e Silva. O “Pe. Peixoto” de quem tanto ouvi falar na minha meninice, mas que já não estava em Cambeses quando ali me baptizei. Nessa altura era o Pe. Sebastião, amigo da casa onde nasci e me criei.

Igualmente próximo da casa era o Pe. Peixoto, e as relações de amizade estabelecidas foram óptimas, com a minha idosa bisavó, dona da casa, relações nem sempre suficientemente cordiais com o marido desta, devido possivelmente a desentendimentos de carácter político, a ajuizar de um certo pendor partidário, que parece transparecer em muitos dos artigos que preenchem as páginas do jornal. Se mais não houvesse, bastaria a constatação do número de 13 de junho de 1915, tempo de eleições, provavelmente, de uma chamada de atenção, em letras grandes, para que não escapasse à atenção dos leitores, exortando-os: “À urna cathólicos!”

Não se pense, porém, que se tratava de um jornal marcadamente panfletário. Nada disso. Era dado também à cultura, publicando textos literários, nomeadamente poesia de vários autores, de entre os quais destacarei a poetisa Julieta Leite de Figueiredo, nome que suponho tratar-se de pseudónimo adotado, possivelmente, por alguma senhora de Braga ou Barcelos.

Mas para além destas características, há também notícias várias de nascimentos e óbitos, nomeadamente a de um emigrante de 26 anos apenas, que regressa do Brasil para morrer na sua terra, o que de facto acontece passados escassos dias de a este chão, que ele devia estremecer, ter chegado, indo ocupar fugazmente, em casa de sua mãe, o lugar que anos antes havia abandonado.

Curiosamente este jornal não noticia casamentos. Mas relata alguns factos, de entre eles o que vai acontecendo em Dia de Passos, o dia maior da freguesia, ainda hoje, e conta algumas histórias, de entre elas uma que se relaciona com o pesado e lendário sino da torre da Igreja Matriz (história ou lenda) que eu ouvi há muitos anos, de uma velha amiga que há muito repousa no cemitério de Cambeses, história que reescrevi e consta de um dos meus livros de contos.

Durou a publicação deste jornal dois anos, sendo o primeiro número de 31 de maio de 1914, e o último de 28 de maio de 1916. A justificação da suspensão do jornal foi a de se verificar grandes dificuldades em obter papel, o que se compreende, dado que estávamos em plena Primeira Grande Guerra, época de muitas restrições e de preocupações também.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Cambeses Nova Era

Como já se verificou, este é o novo título de uma série de crónicas já iniciada, do qual consta, como sempre, o nome Cambeses, o que não impede que o tema a desenvolver seja mais abrangente e que aborde, portanto, outras terras, muito em especial Barcelos, o Barcelos actual, onde alguns tentam, esforçadamente, abrir caminho por entre o emaranhado matagal da indiferença e até, por vezes, da incompreensão.

Portanto, e antes de referir diversos eventos que, em prol da Cultura, estão a ser levados a cabo, não se pode deixar de evocar a obra desenvolvida pelo pelouro da cultura no último mandato, durante o qual, se mais não houvesse, bastaria salientar os esforços despendidos nessa gigantesca e utilíssima obra que foi dotar a cidade de uma biblioteca moderna, funcional e exemplar, e salientar igualmente, a par de outros eventos, o congresso “Barcelos Terra Condal”, muito bem organizado e participado por estudiosos de todo o país e o qual, dada a sua amplitude, deixou marcas profundas na história da cultura barcelense, marcas que muito dificilmente se apagarão, porque os livros das atas, com pontualidade rara, aliada a um grande cuidado gráfico, excepcionalmente bem executado, aí estão à disposição de quem os queira consultar.

Claro que obras destas passam quase despercebidas, ao contrário do que acontece com a inauguração dessas aparatosas obras de betão, que é o que certos autarcas mais gostam de mandar executar, porque é o que mais dá nas vistas.

Embora não se negue a utilidade de obras desse género, não podemos deixar de salientar a importância dos estudos do passado desta terra, a que o Congresso deu força, porque, como já alguns têm afirmado “é estudando o passado que melhor se poderá entender o presente e programar o futuro”. Claro que a cultura não deve ser exercida apenas a nível de elites, e a cultura popular de Barcelos com certeza que também não foi descurada nesse último mandato.

Mas passando ao novo pelouro da cultura, forçoso é dizer que se verificou já um novo estilo, numa nova forma de servir a cultura, ou seja, levá-la mais insistentemente até outras camadas que não serão propriamente as dos denominados “intelectuais” mas sim ao grande público.

Assim, e nos últimos tempos, tem-se assistido ao anúncio e concretização de toda uma série de eventos, ao alcance do grande público, nomeadamente os incluídos no programa “Memórias do século XX”, dos quais quero destacar, porque inéditos em Barcelos, os passeios denominados “Roteiro Cultural – Conhecer Barcelos”, a par de exposições como as de imagens de “Santiago em Barcelos”, na qual esteve presente a imagem de Santiago que em Cambeses se venera. Outras exposições houve, das quais se destaca a exposição de escultura e cerâmica, entre outras.

Isto, e as “Primeiras Jornadas de Olaria”, e as “1ªs Jornadas de História Contemporânea – Portugal no Estado Novo”, sem esquecer a contínua dinamização da biblioteca, com aproveitamento do seu auditório, onde têm tido lugar diversos eventos, o que prova que a biblioteca municipal não é apenas um lugar onde se requisitam livros e se lêem os jornais da região e pouco mais. De salientar ainda o “XV Festival de Teatro Popular”, “Encontro de Poetas Populares”, a criação de um prémio literário, etc., etc..

Evidentemente não vou citar nomes, porque é sempre delicado enveredar por aí, pois corre-se o risco de omissões. Diria antes que é toda uma junção de esforços que, mesmo tendo por vezes alguma razão para desânimos, nunca esta equipa se dá por desanimada porque, vê-se, gosta do que em prol da cultura está a fazer. Daí o seu inegável sucesso.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 10-2-2000

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Barcelos era, para quem naquele tempo vivia em Cambeses, uma cidade distante, quase desconhecida, mítica.
Barcelos era o poder, a lei, a justiça. Barcelos era o lugar onde os mancebos iam à inspecção militar e os homens à revista da caderneta. Barcelos era tudo isso e era o lugar onde se iam tirar certidões. E era também o lugar onde estava a autoridade representada na farda dos soldados da GNR que por vezes, em visita de rotina, víamos passar a caminho da casa do regedor. Barcelos era o tribunal com que ouvíamos ameaçar os suspeitos de crime de roubo ou difamação. O tribunal que julgava disputas de terras e águas, desacordos em partilhas, zaragatas. Barcelos, em suma, era a Lei que protegia e a que obrigava a pagar a “décima”, impostos sobre carros de bois, multas. E era também o lugar onde as crianças, de roupa nova e sapatos a estrear, faziam o exame da quarta classe. Luxos que quase esqueciam ao serem colocadas perante um júri que atemorizava aqueles indefesos de 10 ou 11 anos, subitamente arrancados aos horizontes limitados da aldeia.
Barcelos era pois um lugar temido perante um júri tão severo que até a própria professora o temia, a ajuizar pelo nervosismo patente nos seus gestos, ao acompanhar silenciosamente, sem nada poder fazer para repor neles o “à vontade” comportamental que nas aulas mantinham.
Tão emocionante como o exame era a permanência naquela escola de linhas modernas, que nada tinha de semelhante à sala adaptada a escola que durante quatro anos frequentáramos. Escola da qual levávamos na lembrança o átrio enorme, a sala enorme, a escadaria como nunca tínhamos visto outra.
Divisões que talvez nem fossem assim tão espaçosas e muito menos sumptuosas, mas que aos nossos olhos indefesos ganhavam uma extraordinária dimensão.
Dimensão idêntica à que a feira semanal ganhava com a loiça de barro, da qual nenhuma casa prescindia, e da loicinha com que todas as meninas gostavam de brincar nas tardes de domingo.
E hoje, Barcelos que significado terá para quem em Cambeses vive? Será sem dúvida o poder, as leis, a justiça, mas não é, com certeza, a cidade distante, mítica, desinteressada, inacessível. São as obras que o provam, e alguns aspectos da sua qualidade de vida também.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 14-5-1992

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Recordar a Festa das Cruzes através das imagens de uma vivência anual de poucas horas seria quase impossível sem o recurso à memória afectiva da maior parte dos acontecimentos e a maior parte dos acontecimentos teria sido varrida da minha memória, se não houvesse o regresso, embora fugaz, ao espaço percorrido quando era criança ainda. Espaço que é, todo ele, tumulto de gentes, luzes, sensações que transcendem a minha capacidade de atenção num cenário de carros de bois, pipas de vinho, panos das tendas esvoaçando, mulheres de lenços coloridos, homens de varapau. Imagens que se desdobram diante dos meus olhos sempre que volto a ter nove anos e me deixo envolver pelo tumultuar da Festa. Imagens plasticamente magníficas, as quais os meus sentidos refazem numa antiga intimidade com sons, cheiros, e aquela poeira luminosa rodopiando no vasto campo.

Imagens retomadas com uma espécie de nostalgia que me devolve a ingenuidade daqueles tempos felizes e simples, porque são sempre simples e felizes os tempos de infância que na memória guardamos depois de exorcizados os outros. E é assim que torno a ver com nitidez caminhos percorridos e torno a sentir o prazer de passear ao acaso atraída por aquilo que então, de certo modo apreciava, e que era o som compacto de vozes humanas na aglomeração dos gestos e exclamações, amalgama, confusão. E a imaginação a fervilhar por entre aquela floresta de toldos, ao mesmo tempo que os olhos inquietos e ávidos procuravam, e os sentidos guardavam, fragmentos dessa paisagem incomparável que me tomou e tornou sua. Porque há muitas formas de pertencer a uma terra e esta é uma de entre muitas.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 7 – 5 – 1992

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Nessa época, tempo de austeridade e de grandes dificuldades económicas, ir de Cambeses a Barcelos a pé era uma jornada penosa, só executada em última necessidade. E ir de comboio, dada a escassez e precaridade desse único meio de transporte público, era uma odisseia enervante e dispendiosa.

Por isso Cambeses, que dista da sede do seu concelho cerca de uma dúzia de quilómetros, podia considerar-se aldeia longínqua, perdida nos confins do concelho, a confrontar com freguesias de Braga e de Famalicão. Não é portanto de admirar que poucos fossem os contactos entre a freguesia e a sede do concelho, a não ser em caso de obrigação a cumprir na câmara, no grémio ou no tribunal e pouco mais. Até mesmo a feira não era muito procurada para quem tinha gado ou produtos agrícolas para comercializar, já que a de Famalicão, a de Braga, e até mesmo a da Isabelinha, em Viatodos, se apresentavam mais cómodas quanto à deslocação a efectuar.

Tudo mudava, porém, quando se tratava das Cruzes. “Ir às Cruzes a Barcelos!” Uma tentação, uma festa, um desejo. Uma festa em cada ano repetida, sempre igual e sempre diferente. “As Cruzes” simplesmente.

“As Cruzes” daquele tempo, em dia de feira frança, com carros de bois, saias que já começavam a ser de pouco pano, blusas de seda e os mesmos cordões de ouro, as mesmas argolas nas mulheres, igual modo de pentear os cabelos, os mesmos lenços coloridos.

Arejavam-se pois os fatos do dia de festa, gastavam-se algumas economias na branca regueifa ou na trigueira rosca de trigo e centeio que acompanhava com postas de bacalhau frito a alegria das infusas onde o vinho espumava e logo era vertido nas malgas que passavam de mão em mão, na alegria dos reencontros.

Ajustavam-se contratos, namoriscava-se, trincavam-se doces de gema cobertos de açúcar cristalizado, E, se as finanças o permitiam, tomava-se lugar debaixo dos toldos, abancando às compridas mesas, ombro com ombro, onde, ao lado dos pirolitos e laranjadas havia petiscos e, sobretudo, o pipo de vinho, com muitos litros de alegria, para distribuir por centenas de gargantas sequiosas.

Mas mesmo para quem não se deixava tentar por uma ida à Festa, as cruzes tinham um lugar muito importante, porque incluído na calendarização dos hábitos, preceitos e acontecimentos da região, quando assim se marcava o tempo: – “Foi ali pela maré das Cruzes…”, “Foi antes das Cruzes que…”, “As Cruzes já tinham passado há um ror de semanas quando…”.

No tempo das Cruzes faziam-se as últimas vessadas, e iniciava-se nessa época um outro tipo de contrato de trabalho que incluía merenda aos jornaleiros, cláusula que durava até ao S. Miguel. E até uma simples sementeira de melões e melancias se calendarizava pelas Cruzes, porque nessa época deveriam os pequenos caules ter já quatro folhinhas em cruz. Estes e outros preceitos mais, não esquecidos ainda hoje, suponho.

Porque, se muitos hábitos mudaram e o aspeto exterior dos rurais indica melhoria de vida e até um certo aburguesamento, se a alimentação e tarefas agrícolas sofreram profunda alteração, tal como a sofreu o traje feminino e os meios de transporte utilizados para ir à feira, a festa das Cruzes, essa, julgo ser ainda a mesma, na medida em que é motivo de evasão, apetecida acalmia nas corridas a que as novas condições de trabalho obrigam. É o intervalo, a alteração da rotina. Por isso, e segundo creio, “As Cruzes” continuam a ser a radiografia de hábitos e tendências de um povo fiel, apesar de tudo, às suas raízes e a muitas das suas leis ancestrais.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 30-4-1992

sábado, 3 de setembro de 2016

Nesta ainda possível paz usufruída numa tarde domingueira em Cambeses, tive entre mãos uma jovem revista que se edita na Escola Secundária Alcaides de Faria, de Barcelos, e se denomina “Avenida do Minho”. 

Folheio-a de novo e, ao reler uma ou outra poesia, um ou outro artigo, surpreendo-me a pensar no inestimável valor de uma publicação deste género, tanto mais que atravessamos uma época caracterizada pela preocupante desvalorização da palavra escrita, enquanto suporte de criatividade literária e também jornalística. Uma época em que os audiovisuais, nomeadamente a televisão, quase anularam o gosto pela leitura, ao impor as suas efémeras imagens, como substituição das que a imaginação cria e mantêm como resultante do ato de ler.

Não pretendo aqui menosprezar as vantagens do audiovisual em favor da palavra escrita, porque acho que as duas podem perfeitamente coexistir. É, aliás, um princípio recentemente defendido no segundo encontro ibero-americano de jornalismo cultural, que teve lugar no México. E porque assim o creio também, continuo a manter a esperança de que o prazer da leitura resistirá a todos os avanços do audiovisual, esperança que assenta sobretudo no êxito que é, em cada escola, um jornal escolar.

Êxito bem evidente nesta jovem revista “Avenida do Minho”. Jovem não porque relativamente recente, mas porque é, na sua maior parte, fruto da criatividade dos jovens colaboradores, alunos dessa escola, muitos dos quais se revelam já como promissores escritores e poetas, bem como jornalistas, a não desmerecerem da actividade jornalística que em Barcelos é tradição.

De facto, se Barcelos não tem nenhuma individualidade tão célebre nas letras como outras terras as têm, no que respeita à actividade jornalística, possui uma tradição notável quanto à edição de jornais, conforme foi demonstrado nessa grandiosa e muito bem organizada exposição do ano de 1993, e que se denominou “A Imprensa Barcelense”.

Mas voltando à “Avenida do Minho”, não tenho dúvidas em afirmar que se trata de uma publicação valiosa, não apenas pelo seu conteúdo, pela cuidadosa ordenação dos temas, pelo aspecto gráfico, mas sobretudo, como se disse, porque se trata de uma publicação densamente povoada de vozes juvenis, vozes que deixam transparecer uma sensibilidade disponível para a investigação, para a criatividade literária, bem como para a actividade jornalística. Daí a grande diversidade de temas que vão da história à literatura, das ciências ao desporto, para gostosamente se demorarem no relato de viagens de estudo, e várias foram. Viagens que são marcos importantes na vida escolar. Aliás, todos guardamos no fundo da memória, as imagens afectivas e emotivas que viagens dessas deixaram em cada um de nós. Imagens indeléveis, a que nenhuma viagem de turismo, efectuada em idade adulta, se consegue sobrepor.

Vivemos numa época em que, como atrás se disse, cada vez se lê menos. Para a cura desse mal, a esperança está nas novas gerações, já que as outras foram desprevenidamente seduzidas por alguns meios de distracção de que participam passivamente e, quanta vez, mergulhadas em “apagada e vil tristeza”, já que a alegria de construir imagens através da leitura lhes está vedada. É uma época de fim de século considerada por muitos como desumanizada pela voragem da máquina. Uma época em que o consumismo tenta, e conseguiu já, ocupar o lugar da cultura.

É uma visão pessimista da qual me recuso a partilhar, embora não possa deixar de constatar que grandes alterações no quotidiano do Homem quase anularam o gosto pela descoberta através dos caminhos da imaginação. Essa imaginação, bem patente em muitos trabalhos a que os jovens deram forma, seduzidos pelo prazer da criatividade que a revista “Avenida do Minho” lhes proporcionou.

Mas, mais do que um incitamento à criatividade, é acima de tudo um incitamento à leitura, não só para os colaboradores, mas também para os restantes alunos, sem esquecer familiares e amigos, porque neste caso, o jornal é sempre um claro elo de ligação entre a escola e a comunidade.

Por tudo isto, a presença da “Avenida do Minho” é de aplaudir, como de aplaudir é o esforço de quem a dirige, e dos mais diversos modos colabora na sua realização. Tarefa absorvente, trabalhosa, como se imaginará. Mas também tarefa gratificante, porque fruto de um grande entusiasmo e empenhamento, aliados a uma certa dose de afectividade. Se assim não fosse, como poderia ela viver há já cinco anos?


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 15 – 7 – 93

sexta-feira, 15 de julho de 2016

DAQUI DE CAMBESES

Já aqui falei do rio Este, da sua decadência e morte, essa mesma morte que ameaça o Cávado da minha clara lembrança, quando alvoroçada ia de Cambeses à cidade e nele podia pousar o olhar.
De facto, nas poucas vezes que fui a Barcelos fora dos dias de feira, duas coisas havia que sempre me deslumbravam: as vetustas paredes dos Paços dos Condes–Duques debruçadas sobre a placidez das águas e esse rio que então era claro, translúcido, belo.
Não sei a razão dessa minha predisposição ao deslumbramento, sei que era algo vindo de muito longe e sei também que não era sem uma curiosidade emocionada que me aproximava dele, esse rio calado, translúcido, a deslizar brandamente poderoso, senhor de uma força inexplicável que me atraía. Densa e misteriosa força a irradiar das águas, que por entre várzeas frescas e produtivas, saltava alegremente os açudes na pressa de ver as terras de Esposende, onde chegam as marés e os voos planados das gaivotas.
Um rio que era promessa de fresco banho na piscina natural, onde aprendiam a nadar aqueles que facilmente ali se podiam deslocar em dias estivais, os rapazes evidentemente, que às meninas estava vedada tal satisfação, sobretudo se pertenciam a famílias mais tradicionais.
Mas o rio, se era a interdição, era também a sedução, o fascínio, o mistério, numa forma imprecisa de o contemplar, de nele repousar o olhar, embora Barcelos não perdesse tempo, creio, a contemplar o curso remançoso do rio, como acontece com outras povoações ribeirinhas. Parecia mesmo que Barcelos vivia de costas voltadas para ele, como se fosse uma outra cidade.
E deste modo a cidade, que pouca importância parecia dar ao seu rio, quando finalmente se quedou a olhá-lo, foi para constatar, estupefacta, que os homens tinham fixado a atenção nele, não para lhe repousar o olhar, mas sim para lhe infligir cruel e cobarde agressão, porque rio indefeso. Crime só possível porque a imprudência e desleixo de uns quantos permitiu que se concretizassem os propósitos de alguns em quererem enriquecer de qualquer modo e o mais depressa possível.
E por isso o claro e translúcido rio da minha lembrança adoeceu e, moribundo, não tardará a morrer tal como morreram já o Este, o Ave, o Leça e outros mais, tal como podem morrer as fontes das nossas aldeias, as minas de água que no subsolo correm e são razão de vida dos homens e dos animais, os pequenos regatos, alguns deles igualmente ameaçados com projectos industriais sempre poluentes, embora de início se apregoe o contrário.
E tudo isto acontece porque as Leis ainda não têm força suficiente para conter tal onda de crimes e também porque a ignorância e ganância de alguns permite que isto aconteça.
Mas, até quando?


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 2-7-1992

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Goa, a terra e o mito, 1994





Publicado em 1994, com o patrocínio da Câmara Municipal de Barcelos, capa e desenhos de Agostinho Santos e prefácio do jornalista Jorge Massada, que transcrevemos:

"Fascinação é a palavra-síntese. Descobrir Goa provoca sensações estranhas, como se aquela terra sempre tivesse estado dentro de nós e apenas disso nos apercebemos quando aterramos no aeroporto em Vasco da Gama.
O livro de Maria do Pilar Figueiredo é uma obra de sensações e apontamentos. Aquelas estão expostas, abertas, ao longo de páginas tornadas possíveis por apontamentos guardados ciosamente, para que nada falte.
Pequena viagem interior dentro de outra viagem, o texto de Pilar Figueiredo constitui simultaneamente um registo e um convite. Roteiro de dias corridos de surpresa, em que passado e presente se misturam numa simbiose inimaginada, é também um desafio: levar o leitor a querer embarcar na aventura, a não ficar em terra, a ver os Sousas, os Sequeiras, os Rodrigues do Mar Arábico, falando um português de canela e pimenta, doce e picante.
A viagem que Pilar Figueiredo narra com aquele carinho especial dado às coisas mais íntimas ocorreu na segunda quinzena de Abril de 1994. Quer isto dizer, em pleno verão goês, sob um calor e humidade intensos.
Nela participaram 61 pessoas, um grande grupo que, embora organizado sob a tutela do Clube de Jornalistas do Porto, não mantinha laços de especial amizade entre si, nomeadamente antes desses 15 dias vividos na antiga colónia portuguesa.
Apesar de várias manifestações passadas em conjunto, Maria do Pilar Figueiredo trata-as com um olhar muito pessoal. Diria que o faz com paixão, manifesta, alias, na riqueza de pormenores que enxameia o livro, alguns deles eventualmente só inteligíveis para quem os viveu.
Não haverá muita literatura de viagens em Portugal.
Também por isso a obra vem preencher uma lacuna ainda mais visível no que respeita a Goa.
Curiosamente, o trabalho de Pilar Figueiredo surge num momento em que a redescoberta do Estado indiano parece começar a sentir-se entre nós.
Há 33 anos que Goa passou a fazer parte da União Indiana.
A língua portuguesa foi caindo, progressivamente, em desuso. Mas resiste ainda, fruto do labor de uma geração que, um tanto inesperadamente, encara Portugal como a sua segunda pátria ( e só um certo pudor nos impede de  dizer que muitos goeses sentem o nosso país como a sua primeira pátria).
O livro de Maria do Pilar Figueiredo quase nos leva a pensar que esse hiato de 33 anos nunca existiu. Há uma nova realidade política e administrativa, obviamente. Mas existem fortes laços culturais, diriamos mesmo, uma atração fatal, com 496 anos de história."

"Trata-se de um itinerário minuciosamente escrito e com o sabor especial de quem transmite imagens ao vivo daquilo que atentamente observou. (...) De salientar o capítulo X, o qual abrange uma área de riqueza vocabular exemplar." - Alexandre Cabral, 18/12/94