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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Há tempos, alguém que, nas horas vagas, gosta de filosofar teceu estas considerações: Quando inesperadamente o raio cai sobre a árvore e a destroça, resta, após a luz que cega e o estrondo que ensurdece, a estupefacção, o assombro que paralisa; o silêncio. É um momento que irremediavelmente divide o tempo em dois, e nada mais volta a ser como até então. Porque, a partir daí, passa a haver o “antes” e o “depois”.

Foi em julho de 1996 que, neste jornal se publicou o meu último artigo, intitulado “Daqui de Cambeses”. Depois foi o silêncio. Não por razões de menos consideração por esta jornal e pelos amáveis leitores que estranharam a minha ausência, mas sim por razões pessoais que não cabe aqui explicitar.

O ser humano, porém, tem incalculáveis reservas de energia e dia vem em que, contra todas as expectativas, consegue olhar em redor e verificar que, apesar de já nada ser como dantes, o sol continua a brilhar. E há aves pelo meio da folhagem, e há seiva e húmus e vida.

E por tudo isso, e apesar de ter chegado a admitir que não mais seria capaz de voltar a escrever estes despretensiosos artigos que vozes amigas, ao inquirir da razão do meu silêncio, diziam apreciar (a amizade tem destas coisas), aqui estou, afinal, na intenção de encetar um novo conjunto de crónicas, muito ao meu jeito.

O título é outro, o modo de escrever também já não será o mesmo do tempo de antes. Mas o afeto pela terra onde me criei, esse não sofreu alteração. Senti-o com mais agudeza ainda, perante novas provações por que fui obrigada a passar quando o raio caiu de novo e de novo destroçou mais uma árvore.

Foi precisamente a partir desta nova provação que, nos testemunhos de consideração e afeto recebidos naqueles dolorosos dias de setembro passado, pude perceber que, em Cambeses, apesar das transformações exteriores, os valores tradicionais aí estavam inalteráveis, traduzidos no respeito perante a morte, nos gestos de solidariedade, nas manifestações de simpatia, e onde, a par de discreta mágoa, havia sinais inequívocos de amizade.

E então, como forma de agradecimento, porque outra não sei, deitei mãos a um antigo projecto que era, dentro das minhas limitações, deixar em livro alguns apontamentos sobre a minha terra. Por isso revi todos os informes colhidos durante vários anos, com inestimáveis ajudas daqueles que não mais o poderão fazer, consegui juntar a estes algumas outras informações, e a obra foi crescendo e o tempo virá, não muito longínquo, em que todas essas informações, como disse, pacientemente colhidas uma a uma e depois coligidas, tomarão a forma de livro.

Peço aos meus leitores, em especial, que nada terão a ver com Cambeses, me perdoem ter ocupado todo este espaço a falar de mim ( o que não gosto), das razões do meu silêncio, e do livro sobre Cambeses, consequência indirecta desse mesmo silêncio. Trata-se porém de uma obra que, ao ficar ao alcance de todos aqueles que, como eu, aí cresceram, lhes permitirá saber algo mais sobre esta terra que nos ajudou a fortalecer e, de um modo muito particular, nos ensinou a olhar o mundo.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 3 – 2 – 2000

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Já passaram largos dias, mas a imagem daquela tarde de domingo vivida com os meus conterrâneos de Cambeses está tão presente em mim como se hoje mesmo tivesse acontecido. Talvez mais terna, mais luminosa, porque guardada na memória afectiva, permitindo-se assim analisar, de forma mais serena, a emoção das horas intensamente vividas, tudo o que os meus sentidos, naquela tarde, puderam alcançar.

Sempre acreditei na amizade, sobretudo numa amizade como esta, alicerçada no mesmo chão, onde raízes comuns contribuíram directamente para que aquela tarde de domingo acontecesse. E também os conterrâneos presentes, sobretudo no momento do autógrafo, não perdiam a oportunidade de dizer uma palavra amiga ou de transmitir a mensagem de quem não pôde estar presente e gostaria de estar.

Quanto a nomes, embora gostasse de o fazer, não vou citar nenhum porque, involuntariamente se pode dar origem a situações menos desejosas.

Do êxito daquela tarde de domingo, que aconteceu porque Cambeses assim o quis, falaram os jornais barcelenses, pelo que não vou repetir o que ali foi dito. Mas uma coisa há que não posso deixar de salientar: é, para além da presença dos amigos que de longe vieram, o facto de a imprensa barcelense ter estado marcadamente representada, embora tivesse de percorrer muitos quilómetros para, na periferia do concelho, assistir a um evento de interesse local, depois de, generosamente, ter falado desse ato cultural que à freguesia, sobretudo, diz respeito.

E, refira-se, falaram de um modo que a todos nós, cambesenses, agradou profundamente o que, e para só citar um caso, não aconteceu no artigo inserido num grande jornal diário do Porto, em que o jornalista, como já tive ocasião de referir, apesar da sua conhecida competência, foi pouco feliz nas notas que tomou quando se deslocou a esta freguesia, e menos feliz ainda, no artigo que escreveu acerca da mesma.

Com os jornalistas da imprensa barcelense foi diferente. E tudo isso se deve ao bom profissionalismo desses mesmos jornalistas, a quem não posso deixar de agradecer a simpatia e cuidado postos nas notas que foram tomando para a elaboração do texto. Não pude agradecer-lhes pessoalmente, e dessa minha falta involuntária aqui me penitencio, embora sabendo que compreenderam a razão desse meu impedimento.

E ao mesmo tempo que agradeço à imprensa barcelense, quero agradecer aos meus amigos da cidade de Barcelos que, relegando para segundo plano o convívio com a família, tanto mais que era domingo e o sol brilhava generosamente, convidando a um passeio até à beira mar, não hesitaram em vir até aqui. Não vou citar nomes por razões óbvias.

Mas sei o sacrifício que alguns deles fizeram e o seu empenhamento para que este ato resultasse como resultou. Mais uma vez a todos o meu “muito obrigada”.

Quanto à Monografia, ela aí está, tentando explicar, dentro do possível, a razão de Cambeses ser, ainda hoje, conhecida por Couto, esperando que, a não ser malevolamente (e isso não é possível impedir) os outros, os que não são daqui, se refiram a esta terra com o respeito a que o povo desta freguesia sempre teve direito. Direito ao respeito, direito à admiração, pelo passado de coragem, persistência e fidelidade aos seus valores ancestrais.

Daí o meu orgulho pessoal de ter nascido em Cambeses, como minha bisavó Felícia nasceu, há muito mais de cem anos. Essa mesma terra onde minha bisavó Pilar, nascida na Galiza, quis ficar para sempre, junto dos restos mortais de seu filho Gonçalo.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 3 – 2 – 2000

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Hoje vou falar da minha terra, mais propriamente de Cambeses, para manifestar a minha surpresa quando deparei com um artigo e fotografias num jornal diário do Porto, acerca de Cambeses.

Não sei se o jornalista ficou dececionado por não ter encontrado aquilo que possivelmente esperaria encontrar, ou seja, informações de interesse histórico (insólitas se possível) acerca do lugar chamado Brasil. Não sei. Sei apenas que, lendo atentamente o artigo, me pareceu adivinhar, pelo tom da escrita, algo parecido com “vim a Cambeses perder o meu tempo”. Sem querer menosprezar o trabalho do jornalista (um nome já bem conhecido e que tem feito belíssimas reportagens) também eu, intimamente, lamentei que não houvesse, ainda, nada escrito acerca da história desta terra, cujo nome é mais antigo que o nome de Portugal.

Mas não é só de agora esse meu estado de espírito. Daí ter vindo a coligir, ao longo da vida, todos os apontamentos obtidos das mais diversas formas, acerca de Cambeses, nas investigações a que me dispus para elaboração de uma monografia de Cambeses. O nome "Brasil", como lugar desta freguesia, não me pareceu relevante na história da população, o que se compreende, se se disser que, até há bem pouco tempo, só lá havia uma casa. Acrescento que, presentemente, há sete, o que diz bem de uma certa forma de progresso que ultimamente invadiu a freguesia.

Não me foi possível, por falta de disponibilidade, averiguar desde quando este lugar aparece nos registos paroquiais, mas de certeza que não é tão antigo como o lugar da “Madalena” onde funcionou durante séculos a Casa do Paço, sede do Concelho do Couto de Cambeses, pois que, até a forma arcaica do nome Madalena (Madanela) assim o indica.

Em face de tudo isto, parece-me gratificante ter gasto muito do meu tempo a recolher apontamentos nos mais diversos lugares, como seja em Lisboa, na Torre do Tombo, ou em Braga, no Arquivo Distrital, ou no Arquivo Municipal de Barcelos ou, simplesmente, na tradição popular, destacando desta, a preciosa colaboração que, pessoalmente, quer de forma oral, quer por escrito, me ofereceu o nosso conterrâneo Camilo Gomes de Sá, um nome que a freguesia não pode deixar cair no esquecimento.

E a propósito da recolha desses apontamentos acerca de Cambeses, é com compreensível satisfação que anuncio que o livro irá ser posto à disposição dos habitantes da freguesia e dos que dela andam arredados, no mês de agosto, em data a anunciar.

Perdoem-me a imodéstia, mas é um livro que Cambeses desde há muito merecia. Quis a sorte que fosse eu a escrevê-lo. Outros o lerão. E oxalá que, depois de o lerem, se sintam orgulhosos por descenderem de um povo que, apesar de ter sofrido toda a sorte de vicissitudes que as transformações políticas por vezes causam, soube pacificamente, mas com toda a dignidade, resistir, contornar os obstáculos, permanecer.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 27-7-2000