Blogue destinado à divulgação da vida e da obra literária da escritora Maria do Pilar Figueiredo
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quarta-feira, 2 de novembro de 2016
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Goa, a terra e o mito, 1994
Publicado em 1994, com o patrocínio da Câmara Municipal de Barcelos, capa e desenhos de Agostinho Santos e prefácio do jornalista Jorge Massada, que transcrevemos:
"Fascinação é a palavra-síntese. Descobrir Goa provoca sensações estranhas, como se aquela terra sempre tivesse estado dentro de nós e apenas disso nos apercebemos quando aterramos no aeroporto em Vasco da Gama.
O livro de Maria do Pilar Figueiredo é uma obra de sensações e apontamentos. Aquelas estão expostas, abertas, ao longo de páginas tornadas possíveis por apontamentos guardados ciosamente, para que nada falte.
Pequena viagem interior dentro de outra viagem, o texto de Pilar Figueiredo constitui simultaneamente um registo e um convite. Roteiro de dias corridos de surpresa, em que passado e presente se misturam numa simbiose inimaginada, é também um desafio: levar o leitor a querer embarcar na aventura, a não ficar em terra, a ver os Sousas, os Sequeiras, os Rodrigues do Mar Arábico, falando um português de canela e pimenta, doce e picante.
A viagem que Pilar Figueiredo narra com aquele carinho especial dado às coisas mais íntimas ocorreu na segunda quinzena de Abril de 1994. Quer isto dizer, em pleno verão goês, sob um calor e humidade intensos.
Nela participaram 61 pessoas, um grande grupo que, embora organizado sob a tutela do Clube de Jornalistas do Porto, não mantinha laços de especial amizade entre si, nomeadamente antes desses 15 dias vividos na antiga colónia portuguesa.
Apesar de várias manifestações passadas em conjunto, Maria do Pilar Figueiredo trata-as com um olhar muito pessoal. Diria que o faz com paixão, manifesta, alias, na riqueza de pormenores que enxameia o livro, alguns deles eventualmente só inteligíveis para quem os viveu.
Não haverá muita literatura de viagens em Portugal.
Também por isso a obra vem preencher uma lacuna ainda mais visível no que respeita a Goa.
Curiosamente, o trabalho de Pilar Figueiredo surge num momento em que a redescoberta do Estado indiano parece começar a sentir-se entre nós.
Há 33 anos que Goa passou a fazer parte da União Indiana.
A língua portuguesa foi caindo, progressivamente, em desuso. Mas resiste ainda, fruto do labor de uma geração que, um tanto inesperadamente, encara Portugal como a sua segunda pátria ( e só um certo pudor nos impede de dizer que muitos goeses sentem o nosso país como a sua primeira pátria).
O livro de Maria do Pilar Figueiredo quase nos leva a pensar que esse hiato de 33 anos nunca existiu. Há uma nova realidade política e administrativa, obviamente. Mas existem fortes laços culturais, diriamos mesmo, uma atração fatal, com 496 anos de história."
"Trata-se de um itinerário minuciosamente escrito e com o sabor especial de quem transmite imagens ao vivo daquilo que atentamente observou. (...) De salientar o capítulo X, o qual abrange uma área de riqueza vocabular exemplar." - Alexandre Cabral, 18/12/94
domingo, 15 de novembro de 2015
Palavras do Presidente da A.J.H.L.P.
Texto de Francisco Duarte Mangas, presidente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto a propósito de Maria do Pilar Figueiredo
A Raiz mais Profunda
Como Rosalia de Castro, décadas antes, traz para as páginas dos seus livros o drama da emigração. "Este vaise i aquel vaise,/ e todos, todos se van:/ Galicia sin homes quedas / que te poidan traballar", escrevia a poeta galega. Da banda de cá do rio Minho, Maria do Pilar Figueiredo, quando enceta a maravilhosa viagem da escrita, dessa temática povoa os seus contos primordiais. As terras pobres, algures na geografia da fome, sempre foram fornecedoras de abundante mão-de-obra barata. Galiza e o Minho partilham, como estigma histórico, da mesma doença. Terras de amos e pobres camponeses, enfim, onde os "direitos" medievais ultrapassam longamente as balizas estabelecidas pelos historiadores. A pobreza, a raiz mais profunda da pobreza, se explica por tais desvarios societários.
Maria do Pilar Figueiredo, como minhota que é e se orgulha de o ser, não podia (nem devia) silenciar as raízes, essa memória da infância a carecer de remissão, de gesto transformativo e, por isso mesmo, libertador. O Minho rural irrompe pois na sua escrita depurada, simples. Aparentemente simples. E na aparente simplicidade da escrita, tecida nessa "sabedoria telúrica e ancestral", encontramos uma das qualidades da ficcionista de cambeses, de Barcelos, de Portugal. De toda a parte. A autora de "Telha Mourisca", como bem sintetiza Alexandre Cabral, "segue a linha admirável de legar à posteridade o retrato minucioso das nossas aldeias onde estão fixadas as belas e por vezes severas e rudes paisagens, e também a humanidade que as povoa e lhes dá vida." Nos seus versos, Rosalia de Castro, para voltar ao início, também convoca o povo das aldeias galegas, as suas alegrias frugais, os seus "campos de soledad", as Viudas de vivos e mortos / que ninguém consolará." Trazer à luz uma realidade, o acto em si de partilha, assume desde logo sentido transformativo. Mostro-te a fome, a solidão, a injustiça derramada na pobre gente: e tu, leitor, a partir deste momento jamais poderás alegar ignorância.
Quando me pediram este breve depoimento sobre Maria do Pilar Figueiredo, de imediato me surgiu no pensamento a autora de Cantares Galegos e Folhas Novas. Entre as poéticas de Rosalia e de Maria do Pilar existem, sem dúvida, muitos pontos de convergência. E não é só o facto do género, de terem nascido numa geografia da fome, dividida pelo rio Minho, e partilhado uma língua de raiz comum. Há algo mais profundo, mas isso é labor de estudioso de outras artes - eu sou apenas amigo da autora de "Horizontes de Bruma"
Conheço a homenageada desde o tempo em que ela exercia funções directivas na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Início dos anos oitenta do século passado, se não me falha a memória. Não a vejo faz tempo: nem em Vila do Conde, nem no Porto. Há meses, um jovem sociólogo e investigador meu amigo, Bruno Monteiro, falou-me de um autor maldito, quase caído no esquecimento. Esse meu amigo referia-se a Alfredo Carvalhaes, "estranho literato" (nas palavras de Joaquim Domingues) nascido em Barcelos. Nesse dia, além do "estranho literato", descobri uma nova faceta da autora de "Tempo Matinal": a de biógrafa. Pelo Bruno fiquei a saber que, no ano de 2002, Maria do Pilar Figueiredo publicara uma biografia de Alfredo Carvalhaes. Fiquei contente com a notícia. E darei outra que deixará, por certo, Maria do Pilar e o auditório não menos contentes: a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto espera, em breve - com apoio da autarquia de Barcelos - editar, na colecção Memória Perecível, uma antologia da obra poética de Carvalhaes.
Quem evoca os filhos mais queridos, nunca será esquecido. A cerimónia de hoje encerra essa simbólica grandeza. Cambeses agradece à escritora que nunca esqueceu a sua terra, a raiz mais profunda. Os minhotos são assim.
Francisco Duarte Mangas
13 de Novembro de 2015
A Raiz mais Profunda
Como Rosalia de Castro, décadas antes, traz para as páginas dos seus livros o drama da emigração. "Este vaise i aquel vaise,/ e todos, todos se van:/ Galicia sin homes quedas / que te poidan traballar", escrevia a poeta galega. Da banda de cá do rio Minho, Maria do Pilar Figueiredo, quando enceta a maravilhosa viagem da escrita, dessa temática povoa os seus contos primordiais. As terras pobres, algures na geografia da fome, sempre foram fornecedoras de abundante mão-de-obra barata. Galiza e o Minho partilham, como estigma histórico, da mesma doença. Terras de amos e pobres camponeses, enfim, onde os "direitos" medievais ultrapassam longamente as balizas estabelecidas pelos historiadores. A pobreza, a raiz mais profunda da pobreza, se explica por tais desvarios societários.
Maria do Pilar Figueiredo, como minhota que é e se orgulha de o ser, não podia (nem devia) silenciar as raízes, essa memória da infância a carecer de remissão, de gesto transformativo e, por isso mesmo, libertador. O Minho rural irrompe pois na sua escrita depurada, simples. Aparentemente simples. E na aparente simplicidade da escrita, tecida nessa "sabedoria telúrica e ancestral", encontramos uma das qualidades da ficcionista de cambeses, de Barcelos, de Portugal. De toda a parte. A autora de "Telha Mourisca", como bem sintetiza Alexandre Cabral, "segue a linha admirável de legar à posteridade o retrato minucioso das nossas aldeias onde estão fixadas as belas e por vezes severas e rudes paisagens, e também a humanidade que as povoa e lhes dá vida." Nos seus versos, Rosalia de Castro, para voltar ao início, também convoca o povo das aldeias galegas, as suas alegrias frugais, os seus "campos de soledad", as Viudas de vivos e mortos / que ninguém consolará." Trazer à luz uma realidade, o acto em si de partilha, assume desde logo sentido transformativo. Mostro-te a fome, a solidão, a injustiça derramada na pobre gente: e tu, leitor, a partir deste momento jamais poderás alegar ignorância.
Quando me pediram este breve depoimento sobre Maria do Pilar Figueiredo, de imediato me surgiu no pensamento a autora de Cantares Galegos e Folhas Novas. Entre as poéticas de Rosalia e de Maria do Pilar existem, sem dúvida, muitos pontos de convergência. E não é só o facto do género, de terem nascido numa geografia da fome, dividida pelo rio Minho, e partilhado uma língua de raiz comum. Há algo mais profundo, mas isso é labor de estudioso de outras artes - eu sou apenas amigo da autora de "Horizontes de Bruma"
Conheço a homenageada desde o tempo em que ela exercia funções directivas na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Início dos anos oitenta do século passado, se não me falha a memória. Não a vejo faz tempo: nem em Vila do Conde, nem no Porto. Há meses, um jovem sociólogo e investigador meu amigo, Bruno Monteiro, falou-me de um autor maldito, quase caído no esquecimento. Esse meu amigo referia-se a Alfredo Carvalhaes, "estranho literato" (nas palavras de Joaquim Domingues) nascido em Barcelos. Nesse dia, além do "estranho literato", descobri uma nova faceta da autora de "Tempo Matinal": a de biógrafa. Pelo Bruno fiquei a saber que, no ano de 2002, Maria do Pilar Figueiredo publicara uma biografia de Alfredo Carvalhaes. Fiquei contente com a notícia. E darei outra que deixará, por certo, Maria do Pilar e o auditório não menos contentes: a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto espera, em breve - com apoio da autarquia de Barcelos - editar, na colecção Memória Perecível, uma antologia da obra poética de Carvalhaes.
Quem evoca os filhos mais queridos, nunca será esquecido. A cerimónia de hoje encerra essa simbólica grandeza. Cambeses agradece à escritora que nunca esqueceu a sua terra, a raiz mais profunda. Os minhotos são assim.
Francisco Duarte Mangas
13 de Novembro de 2015
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