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quinta-feira, 11 de maio de 2017

CARTA PARA PABLO NERUDA


Eras jovem e poeta. Eras tão jovem!
Te bastaria erguer a mão para tocar uma estrela,
Num tempo em que o tempo era de rosas.

Depois é o mar.
Altas arribas. Costa mordida pelo sal.
Como um búzio, respiras sonoramente
Lá onde batem as asas das gaivotas,
E a vastidão azul, imensa, é a paz.

Aí na tua Ilha Negra
Praças e ruas não existem. Apenas o mar.
E o céu tão perto “qual doce jacinto azul”…
Na rude falésia, precário abrigo, em pasmo te deténs.
Em rudimentar mesa, escreves
Palavras de amor, coragem e revolta. E em cada Poema voas mais alto.


Por entre folhas secas de outono,
Aí onde renascem as palavras,
Tu e ela, dois rios cujas águas se juntaram, à hora do poente.

Aí, na Ilha Negra,
Vertical como falésia, permaneces
E o clarão do teu labor é aurora boreal.
Com mais ninguém te pareces…

Nostálgicas as horas, soam em cada entardecer violeta
Depois que a música escarlate dos teus versos
Se abrigou na concha do silêncio.


Crua é a madrugada, mordida pelo vento.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Os Chapéus de Palha de Cambeses - Separata da “Barcelos – Revista” de 1991

Situada no extremo do concelho de Barcelos, é Cambeses limitada por freguesias de Braga e de Vila Nova de Famalicão.

É terra airosa e verdejante que, por encostas onduladas, desce qual cascata, ensolarada e colorida, até ao vale do Este, para de novo se erguer pela encosta fronteira, dominada pelo monte de Santo André.

O casario, quase todo situado na margem direita do rio Este, espalha-se por muitos e variados lugares, cuja toponímia nos oferece, ora nomes de certo modo elucidativos, como Carvalhal, Souto-Covo, Bouçó, Pomarinho, Azevinhos, Outeiro, ora nos brinda com nomes por vezes insólitos, como Brasil e Peneirada, sendo de destacar este último, como o lugar mais populoso da freguesia.

É sobretudo neste lugar, cujas razões para tal nome não podemos conhecer, que se manufacturavam e manufacturam ainda, em parte, os chapéus de palha de que iremos falar, e cuja matéria-prima é a palha de centeio, cereal este cultivado nas terras secas, onde, noutras eras se cultivava o milho-alvo, uma vez que, nesta muito antiga povoação de Cambeses, os seus habitantes sempre foram agricultores.

E a propósito da sua antiguidade, não queria deixar de referir que, nos primórdios da nossa nacionalidade, e por vontade política dos grandes de então, foi Cambeses anexada à Sé de Braga e, consequentemente, transformada num couto, um dos oito coutos que, no termo de Braga, tiveram lugar.

Aos habitantes deste couto foram concedidos benefícios e, consequentemente, exigidas obrigações, situações a que se acomodaram, assim vivendo séculos. Por lameiros e por encostas semeadas de carvalhais e soutos apascentavam os seus rebanhos, colhiam os seus frutos. Depois vieram os pinheiros e, dado o seu rápido crescimento, tornou-se mais rentável esta produção florestal, pelo que cedo, os vetustos carvalhos e castanheiros deram lugar a densos pinhais (daí o adágio: “velhacos e pinhais cada vez há mais”).

Mas não foi só nas encostas arborizadas que a transformação aconteceu. O aspeto dos campos também se foi modificando quando o centeio destronou o milho-alvo, rei e senhor das terras de encosta, para mais tarde, e juntamente com o milho dos nossos dias, dar origem à alimentícia broa caseira, de mistura, sobretudo.

Mas falar em centeio não é apenas falar em pão delicioso, escuro e nutritivo. Falar em centeio é também evocar as altas cearas de longos caules verde acinzentado, cearas que, nas tardes de maio ondulavam docemente aos ventos da primavera, em campos de encosta orlados por macieiras e cerejeiras bravas.

Falar em centeio é falar das alegres e penosas malhadas de julho, sob o ardor do sol estival, o corpo crivado de sarugas agressivas. Falar em centeio é falar em palha que os bois calcavam nas largas eiras, para a quebrar, e que depois, acomodada em rotundas medas, encimadas pelo capucho de palha e pelo ramo do fim de festa das malhadas, que ali aguardava a sua vez de acudir à alimentação do gado bovino, em tempos de escassez de pastagens.

Falar de centeio é falar de colmeiros de hastes longas que, acomodados em lugar enxuto, esperavam a sua vez de renovarem os gastos colchões de palha das casas de família, ou então de se tornarem abrigo protector, defendendo do áspero sol estival.

Portanto falar em centeio é falar em chapéus de palha, imprescindíveis para do sol proteger quem, sob os seus raios tem de trabalhar, nas duras tarefas do campo.

Não sabemos quem foi a primeira mulher que teceu, com seus laboriosos dedos, as primeiras braças de fita, utilizando as palheiras aparadas de nós, nem sabemos quem, com essa fita, fez o primeiro chapéu. Sabemos apenas que se trata de uma forma de artesanato quase tão antiga como o cultivo do centeio nesta freguesia, e que em Peneirada e Souto-Covo, lugares de denso povoado, eram numerosas as mulheres que entrançavam longos metros de fita de palha, tal como ainda hoje algumas o fazem, e com ela confeccionavam os chapéus que depois vendiam.

Mas, até que o chapéu estivesse pronto a ser usado, eram várias as tarefas a que esta forma de artesanato obrigava, sendo, como é óbvio, necessário, antes de mais, a obtenção da matéria-prima: - a palha do centeio. Assim, lá iam elas pela porta dos lavradores, regatear o preço de um colmeiro, se a fartura desta palha era evidente, ou suplicar a venda, se esta escasseava.

Feito o negócio, era o grosso colmeiro carregado à cabeça pela compradora e instalado em casa, ao abrigo das intempéries. Dele se ia retirando pequenas porções de palha, conforme as necessidades. E assim, haste por haste, esta traçada em palheiras de comprimento diverso, ou seja, do tamanho máximo entre dois nós de caule, desaproveitada que era a parte mais grossa, junto ao pé, e a parte mais fina, junto da espiga.

Obtido o molho de palhas de tamanho desigual, e com cerca de dez centímetros de diâmetro, era este posto a demolhar. Logo que as palhas se apresentavam macias e flexíveis, tiravam-se da água e punham-se a escorrer. Seguidamente a artesã enrolava-lhes uma faixa de pano grosso para se proteger da humidade e, colocando-as sob o braço esquerdo, ficava com as mãos livres para manufacturar metros e metros de fita entrançada, que ia dependurando no braço direito. Fita de seis palhas, de oito e até de doze, conforme a necessidade. E assim, minuto após minuto, lá ia crescendo a grande meada que, pendurada do braço, quase rentava o chão. Parada ou a andar, sempre os seus dedos se moviam com uma velocidade incrível, sem uma falha, uma distracção, para que a fita saísse rectilínea, de bordos impecáveis.

E quando a quantidade de voltas da longa meada era já intransportável para o braço que a sustinha, dava-se por terminada aquela tarefa e iniciava-se outra meada. Era então que os menos hábeis da família, geralmente crianças, de tesoura em punho, se lançavam nos acabamentos, ou seja, “tosquiavam” a fita, cortando as pontas das palhas entrançadas com todo o cuidado.

Depois era essa fita mergulhada em água para que, humedecida, se tornasse maleável, e iniciava-se então a confecção do chapéu, tarefa esta que só os mais hábeis executavam, pois exigia uma especial atenção, para que a copa saísse na medida justa, a aba direita, oval ou redonda, e os pontos da grossa linha de algodão muito certos, bem rematados. E assim, munidas de grossa agulha e fio de algodão, apoiando o trabalho numa mesa apropriada, lá iam cozendo os primeiros decímetros de fita, dando forma a uma copa redonda ou oval, de acordo com a qualidade da palha e o modelo que afeiçoavam constantemente, com os dedos ágeis, e com o auxílio de um maço de madeira, mais ou menos do tamanho da copa alta de alguns modelos de chapéu.

Quando a aba atingia a largura pretendida, era esta em alguns casos, orlada com um bico feito de fina trança de quatro palhas. Um bico simples ou elaborado em ziguezague, o que dava um aspeto rendilhado ao chapéu. Os chapéus mais antigos que se conhecem eram de copa alta, ligeiramente pontiaguda, e aba redonda. Depois surgiram outros de copa oval, suficientemente alta para se enterrar bem na cabeça, e de aba não muito grande e, evidentemente, oval, muito utilizados nos trabalhos agrícolas. Estes chapéus eram de palha mais grossa, trança geralmente de seis palhas.

Posteriormente surgiu um modelo de copa baixa e larga, aba redonda, enfeitada com uma fita de seda, e que era possivelmente imitação das capelines que as elegantes dos anos quarenta ainda usavam nas cidades. Estes chapéus eram de palha fina e de fino entrançado, de dez ou doze palheiras. Havia, nessa altura, os chapéus de palha ferrã que, como se sabe, é a palha, neste caso de centeio, ceifada antes de estar completamente espigada. Uma palha muito fina e branca, da qual se faziam chapéus mais elaborados, para serem utilizados fora do trabalho e quando o sol assim o exigia. Eram chapéus bonitos e delicados, branqueados em caixas fechadas, com o auxílio do fumo de enxofre, que ardia, devidamente acautelado, dentro da caixa, ao lado dos chapéus.

Havia ainda os “rambóias”, chapéus de entrançado em várias cores, e onde o vermelho, azul, amarelo, verde, etc., se cruzavam em fita, geralmente de palha menos fina e de seis palheiras, que eram tingidas em púcaros fervendo nas rústicas lareiras, as anilinas compradas numa qualquer drogaria de Braga ou Barcelos, e onde as palhas, devidamente aparadas, eram mergulhadas, para se obter assim a cor desejada.

Estes chapéus eram de copa redonda, não muito alta, e aba arqueada e pequena, chapéus alegres, a que o nome “rambóia” se ajustava muito bem. Com esta forma, mas em palha de cor natural, apareceu outro modelo, mais tarde, e que ainda hoje se usa, levando, geralmente, uma fita de seda azul-escura na copa.

Cada chapéu, e de acordo com o modelo, levava largos metros de fita de palha, que os dedos dessas mulheres agilmente coziam. E digo ”mulheres” porque esta era uma tarefa exclusivamente feminina. Se acaso algum homem, porque desocupado, se atrevesse a entrançar umas braçadas de fita, era de imediato objecto de troça dos seus conterrâneos.

Era, na sua maioria, gente das classes menos favorecidas, vivendo em casas de pedra solta e tabuado, quando não era só de tábuas, a casa, que mal os defendia da chuva e do frio.

De facto, as mulheres e filhas dos lavradores, as criadas das casas de lavoura e as jornaleiras diárias, não faziam fita nem cosiam chapéus, e olhavam de modo que poderíamos classificar de depreciativo, essas mulheres que se mantinham “de costas direitas”, embora os seus dedos laboriosos se mantivessem ativos todo o dia e parte da noite, em longos serões à escassa luz do petróleo.

Eram mulheres que raramente trabalhavam na lavoura, ocupadas dia e noite numa tarefa que seria fastidiosa se não se tratasse de uma ocupação que lhes permitia estarem sentadas ou passearem-se pelos caminhos da freguesia, atentas ao mais insignificante acontecimento. De um modo geral, qualquer facto era suficiente para lhes encher uma tarde de conversa, à fresca, nas tardes calmosas, à hora em que as outras se curvavam de suor pingante, para o chão humoso e exigente. Eram mulheres que revelavam um modo especial de pensar e de agir. Assim, lá iam pelos caminhos, passo lento e dedos ligeiros, olhos e ouvidos atentos, levando consigo, sob um braço, o molho de palhas húmidas e aparadas, a que já nos referimos, e do qual retiravam, palheira após palheira, toda a matéria prima de que necessitavam. E enquanto no outro braço, a longa meada de fita entrançada se tornava cada vez mais volumosa, o molho de palha ia diminuindo até se extinguir.

Numa comunidade de agricultores como Cambeses, não admira pois que as “mulheres da “fita” não gozassem de muita consideração. Elas eram diferentes das que, de estrelas a estrelas, andavam numa roda viva, da cozinha para as hortas e cortes, e dali para os campos. E estas, porque mais bem alimentadas, ginasticadas, ágeis e sempre atarefadas, não viam com bons olhos essas mulheres “da bisbilhotice e da preguiça” diziam, esquecendo-se que grande parte delas eram mulheres débeis, porque mal alimentadas. Mulheres bisbilhoteiras, não o eram com certeza na sua totalidade. Mas eram, pode-se afirmar, a gente mais pobre da freguesia, já que a quantia paga por cada metro de fita manufaturada era irrisória.

Para comercializar os chapéus, eram estes transportados em sacos enormes, pelo combóio que no apeadeiro parava, e os recebia no forgão, como se se tratasse de excedentes de bagagem de um qualquer passageiro, que neste caso era a mulher que os comercializava.

Depois houve alguém, na freguesia, que chamou a si e de forma organizada, este tipo de negócio, adquirindo os chapéus manufacturados durante o inverno, e que ia armazenando, para no verão os vender pelas feiras e casas comerciais. Mais tarde comprou uma máquina apropriada e os chapéus deixaram de ser cosidos à mão.

Deixou assim de ser puro artesanato, uma vez que a máquina passou a ser utilizada. Outros modelos vieram. Passou-se a fazer sacos de praia, seiras, etc., e a comercialização aumentou, ao mesmo tempo que esta forma de artesanato se tornou sofisticada, menos pura.

No entanto a fita de palha, essa continua a entrançar-se em Cambeses, manualmente, tal como há cinquenta anos, sessenta e muitos mais talvez. Possivelmente há mais de cem, como ainda há bem pouco tempo um quase nonagenário desta freguesia afiançava.

Porque os chapéus de palha de centeio, nesta era dos plásticos, não puderam ainda ser substituídos com total êxito, por qualquer matéria prima sintética, acreditamos que esta forma de artesanato, poderá continuar a ser minimamente rentável para quem dela se queira ocupar.

Mas tirando as mais idosas, que ainda em Cambeses fazem “fita”, depois delas será difícil encontrar quem pela fita de palha se interesse, pois que da gente nova, e até de meia-idade, poucos serão os que desta forma de artesanato se ocupam agora, dada a sua falta de rentabilidade. Preferem ocupar-se de outras profissões mais rentáveis, como é óbvio que as há, felizmente para eles. Isto sob o ponto de vista económico, evidentemente.



In Barcelos – Revista, 2ª Série - 1991- Nº 2. Director Sebastião Matos. Barcelos, Câmara Municipal, págs. 223 – 229.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Uma Terra, Outra Terra



Texto de Albano Martins publicado na revista Sol XXI em Agosto de 1994:

"Se eu fosse crítico, escreveria um texto para os jornais a dizer: aqui está um livro enxuto, de prosa escorreita como já por aí não se vê e que, no seu tom despretencioso, só pede: "Deixem-me existir assim, de cara lavada, como os ares de Terroso, donde provenho. Deixem-me ser assim natural, isto é, sem outros adornos ou artifícios que não sejam os que a natureza me deu, afeiçoados embora por algumas tintas de poesia que fui colhendo no painel dos dias e se me impuseram, para dar coloração ao rosto. E deixem que a minha fala se cumpra assim, vestida da mesma naturalidade, aquela naturalidade que é a das gentes da minha terra, não contaminada das estranhezas (e das impurezas) que por aí afloram a cada passo na boca (e na pena) de alguns senhores da política, da informação e da literatura. Não estrangeirada pela aceitação sem critério das técnicas narrativas importadas dos modelos transoceânicos e transfronteiriços.
Histórias da emigração (da "diáspora portuguesa", como diz, no final, o "convite ao leitor"), os contos deste livro são também histórias exemplares (de "proveito e exemplo", como as de Trancoso) de situações que por aí abundam desde que os homens (e as mulheres) deste país, de há uns trinta ou quarenta anos para cá, se meteram pelos caminhos da Europa, não à descoberta desta, mas do pão para a boca. Ou da aventura, como essa "menina ausente", a Maria dos Prazeres, que vende o seu corpo pelos bares de Espanha. Ou movidos pelo "desejo de estranhas distâncias", como o malogrado Porfírio, que, "resolvido a vencer", passou das oceanias às américas e acabou, afinal, vencido pela má sorte e pelo álcool.
Algumas destas situações encontram-se já prefiguradas, ou mesmo já anunciadas (diria melhor, denunciadas), nos autos de Gil Vicente: a aventura da India, dos "fumos da India", que, como diz Sá de Miranda, "ao cheiro desta canela / o Reino nos despovoa", já forneceu pano a outras histórias (verdadeiras) da degradação dos costumes e da desagregação das famílias. Um eterno retorno nietzchiano, de cariz social. E, se o pano é o mesmo, porque tecido das mesmas fibras e da mesma carne dos homens, as malhas, essas, não são já as que o império tece(u), mas as das encruzilhadas das europas que nos ficam à porta. As que, cerzidas pela mão de Maria do Pilar Figueiredo, se estendem de Terroso a Vigo, a Paris ou a Frankfurt. As que, enfim, entretecidas dos fios do sonho e da miragem, convocam para o horizonte dum quotidiano de humilhação e de pobreza os novos eldorados do prazer e da abundância.
É desta epopeia ( e dizer epopeia é dizer aventura) que se alimentam os contos de Uma Terra, Outra Terra. Na sobriedade e modéstia do seu discurso (mas a modéstia, se não é falsa, traz impressa a marca da virtude), falam os dramas e aspirações de um povo que, de olhos postos no mar, com os adamastores à vista, sempre buscou na terra (numa terra, noutra terra...) os frutos apetecidos de que se sustentam o corpo e a alma.


A Doce Flor do Hibisco - Do Real Imaginário ao Imaginário Real






Texto de Nassalete Miranda no "Das Artes e das Letras" de 30 de Julho de 2007:




segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Viagem ao Sonho, 1989



Publicado pela Editora Justiça e Paz, esta antologia foi organizada pela Associação de Escritores de Gaia, em 1989, e inclui, além de Maria do Pilar Figueiredo, os escritores: José Vaz, José da Silva Ferreira, Anabela Mimoso, Avelina Vieira, Adriana Guimarães, Francisco Silva, Agostinho Santos e Pedro Barbosa.

Da autoria de Maria do Pilar Figueiredo, a antologia inclui os contos "Tudo como Dantes", "O Sol e o Sapo" e "O Moinho de Vento".

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Goa, a terra e o mito, 1994





Publicado em 1994, com o patrocínio da Câmara Municipal de Barcelos, capa e desenhos de Agostinho Santos e prefácio do jornalista Jorge Massada, que transcrevemos:

"Fascinação é a palavra-síntese. Descobrir Goa provoca sensações estranhas, como se aquela terra sempre tivesse estado dentro de nós e apenas disso nos apercebemos quando aterramos no aeroporto em Vasco da Gama.
O livro de Maria do Pilar Figueiredo é uma obra de sensações e apontamentos. Aquelas estão expostas, abertas, ao longo de páginas tornadas possíveis por apontamentos guardados ciosamente, para que nada falte.
Pequena viagem interior dentro de outra viagem, o texto de Pilar Figueiredo constitui simultaneamente um registo e um convite. Roteiro de dias corridos de surpresa, em que passado e presente se misturam numa simbiose inimaginada, é também um desafio: levar o leitor a querer embarcar na aventura, a não ficar em terra, a ver os Sousas, os Sequeiras, os Rodrigues do Mar Arábico, falando um português de canela e pimenta, doce e picante.
A viagem que Pilar Figueiredo narra com aquele carinho especial dado às coisas mais íntimas ocorreu na segunda quinzena de Abril de 1994. Quer isto dizer, em pleno verão goês, sob um calor e humidade intensos.
Nela participaram 61 pessoas, um grande grupo que, embora organizado sob a tutela do Clube de Jornalistas do Porto, não mantinha laços de especial amizade entre si, nomeadamente antes desses 15 dias vividos na antiga colónia portuguesa.
Apesar de várias manifestações passadas em conjunto, Maria do Pilar Figueiredo trata-as com um olhar muito pessoal. Diria que o faz com paixão, manifesta, alias, na riqueza de pormenores que enxameia o livro, alguns deles eventualmente só inteligíveis para quem os viveu.
Não haverá muita literatura de viagens em Portugal.
Também por isso a obra vem preencher uma lacuna ainda mais visível no que respeita a Goa.
Curiosamente, o trabalho de Pilar Figueiredo surge num momento em que a redescoberta do Estado indiano parece começar a sentir-se entre nós.
Há 33 anos que Goa passou a fazer parte da União Indiana.
A língua portuguesa foi caindo, progressivamente, em desuso. Mas resiste ainda, fruto do labor de uma geração que, um tanto inesperadamente, encara Portugal como a sua segunda pátria ( e só um certo pudor nos impede de  dizer que muitos goeses sentem o nosso país como a sua primeira pátria).
O livro de Maria do Pilar Figueiredo quase nos leva a pensar que esse hiato de 33 anos nunca existiu. Há uma nova realidade política e administrativa, obviamente. Mas existem fortes laços culturais, diriamos mesmo, uma atração fatal, com 496 anos de história."

"Trata-se de um itinerário minuciosamente escrito e com o sabor especial de quem transmite imagens ao vivo daquilo que atentamente observou. (...) De salientar o capítulo X, o qual abrange uma área de riqueza vocabular exemplar." - Alexandre Cabral, 18/12/94



sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Nos Cem anos de Garcia Lorca (1998)



ECOS

I 

Junho. Fuentes Vaquero. Cais da tua chegada.
Havia sol ou estrelas? Que cantos de Junho soaram, na voz tremida dos
ralos ou no ócio das cigarras? Cantos bem cedo promessa, em tempo de verdes frutos, odores de tenras searas:

Verde que te quiero verde
Verde Vento, Verdes ramas

Azul de voos razantes. Fogem dos ninhos, as asas... Chão de musgo.
Pedra nua.
Verde de água. Verde mar.

II

Pelas campinas abertas, correm cavalos bravios: Soltas crinas, solto freio.
Perde-se no tropel, ao longe, a voz que o sonho alimenta.

Se ha levantado el viento que nunca duerme.

Traz consigo o desassombro. Sacode a raiz, os ramos. Espalha a raiva e o lume.

III

Agosto de sol e cal.
Vozes de morte já soam pelas ruas de Granada. Torna-se a noite mais noite.

Como canta la zumaia, ay cómo canta en el arbol!

O medo. A fuga impossível. As grades. Inquieta espera na madrugada
remota. Flechas de fogo apontadas nos canos das espingardas

Ya mi talle se ha quebrado como caña de maíz.

Rosas vermelhas, ai quantas, levas no peitilho branco!
Já cobre a erva, em silêncio, o cinzento do teu corpo. Chão de azuladas
penumbras eriçadas de silêncio, esse chão onde ficaste.

Silêncio de cal y mirto. Malvas en las herbas finas.

Ninguém mais soube de ti.

IV

Gloriosas, transmudaram-se as cinzas, entre gessos e jasmins. Perdem 
sombras, ganhem sóis.
Corre o vento, em seu destino, milhentos nós de distância. É o tempo das 
crisálidas.
Libertos, sobem no azul, ecos da temida Voz. Como asas. Como nuvens,
Ou como estrelas.

Los muertos son mas fuertes y saben devorar pedaços de cielo.

sábado, 21 de novembro de 2015

De Viva Voz


Bernardina


O Seixo Branco




Passagem de Nível



A revolução que há de alterar profundamente o status quo e as mentalidades de Santiago d'Este não teve impacto imediato.
A manhã do dia 25 de Abril de 1974 começou com uma questão mais premente: a vaca da Conceição Manique assustou-se à passagem do comboio e caiu à poça, onde ficou toda a manhã, até que a população unida a conseguiu retirar.
As mudanças acontecem aos poucos e surgem-nos pelo ponto de vista da professora primária que, até ali, fora autoridade, a par do padre e do médico.
O verão quente, o ataque à sede do CDS, as primeiras eleições legislativas e presidenciais, as sessões de esclarecimento... um mundo onde a tradição era a lei choca com o novo mundo onde tudo se deseja novo.

Pedra Angular


Telha Mourisca


Horizontes de Bruma


O vento e as Raízes




por Barroso da Fonte, no jornal Época de 11/12/1973:
"O Vento e as Raízes" de Maria do Pilar Figueiredo

Vão aparecendo, de quando em vez, nomes femininos que às letras dão o melhor da sua intelectualidade. Não são muitas, infelizmente, aquelas que surgem com direito a permanência, embora abundem as tribunas da mulher que se diz fadada para isto e para aquilo, quando nada tem que a recomende, em matéria de literatura. E se pouca são as verdadeiras cultoras das letras, há que bater-lhes palmas e convidá-las para o ariópago em que têm justo cabimento.
É o caso de Maria do Pilar Figueiredo que aparece, pela primeira vez, ao natural, sem recomendações de quem quer que seja, com um livro digno de a consagrar ensaísta de eleição.
Conhecemos pessoalmente a escritora, por ter sido sucessivamente distinguida com os melhores prémios, em certames literários, realizados depois de 1966. Quem se dê ao trabalho de ler a relação dos premiados desses concursos habituais entre nós e que constituem das poucas tentativas de cultura de certos meios, logo depara com o nome de Maria do Pilar Figueiredo, porque efectivamente concorre, sob pseudónimo e é-lhe, por norma, reconhecido o mérito que de outra forma iria parar àsd mãos de nomes familiares  do júri.
É daí que conhecemos Maria do Pilar Figueiredo, das sessões de entrega dos prémios, em que a sua modéstia temperamental se nota, o que mais a valoriza, já que a humildade continua a prestigiar as pessoas.
Ainda nos recentes Jogos Florais de Montalegre felicitámos a notável escritora, pelos troféus conquistados. E uma vez mais nos deu a nobre lição dessa humildade que tão bem assenta nas pessoas, sobretudo em ambientes de entusiasmo.
É desse conhecimento com Maia do Pilar que somos levados a tecer-lhe os encómios devidos, pela obra interessante que tem realizado e parte da qual reuniu no volume a que chamou "O Vento e as Raízes", distinguida pelo S.E.I.T. com o Prémio Revelação 1971.
São catorze episódios, que a autora compendiou, dentre os muitos que possuía e que deram nas vistas do júri daquele organismo oficial. Entendeu-se oportuna a sua publicação e aí temos um livro de estreia que nos afirma o muito mérito da estreante. Maria do Pilar chama-lhes histórias de emigração e, depois da sua leitura nota-se, efectivamente, uma vivência activa dos problemas emigratórios, tão próprios da última década. O conto Maria-Maria que lhe mereceu um honroso prémio num jornal diário, é exemplo expressivo da alta sensibilidade de Maria do Pilar Figueiredo, que redige admiravelmente e que sabe aliar a esse dom artístico a ficção fiel do drama quotidiano. Que belo fragmento de antologia resulta deste conto de "O Vento e as Raízes"! E há mais na obra pouco divulgada, mas profundamente vivida desta mulher que tarde enfrentou o público, mas que muito cedo lhe granjeou o apreço e a simpatia.
Diante de obras como esta, não receamos afirmar que continuam as letras contemporâneas a contar com valores altos, dentre a vivência feminina.







domingo, 15 de novembro de 2015

Montes e Fontes, 2008




Registamos aqui o texto que Maria do Carmo Sequeira muito gentilmente partilhou no perfil de Maria do Pilar Figueiredo, e que reproduz as palavras que proferiu na sua apresentação do  livro "Montes e Fontes": 

"Montes e Fontes" conta uma história e conta-a na primeira pessoa, nesse jeito narratológico de nos transmitir os acontecimentos através de uma focalização específica, singular e única que acaba por nos envolver emocionalmente, sem nos deslocar para outras visões ou outras possibilidades internas de interpretar o seu percurso ficcional, mas que, paradoxalmente, permite ao leitor uma maior intervenção na análise e uma maior possibilidade de abrir o texto, sob o aparente fechamento do discurso. A temática de uma certa solidão, acompanhada pela presença silenciosa de familiares próximos, cuja expressão significativa não vem sequer dos gestos, mas da proximidade de afectos escondidos e suspensos, quase envergonhados; a vivência de um quotidiano rural que acompanha o Portugal de todas as carências motivadas pela 2ª grande guerra; o Portugal que atravessa a ditadura de Salazar até os anos da revolução e pós-revolução de Abril, esta temática, dizia, encontra-se com uma certa forma de narrar que é também um regresso àquele período incerto na configuração estética, que vai do modernismo ao pós modernismo, sem neste penetrar. Com um intervalo longo no tempo, mas curto no discurso diegético, passado em Lisboa – cidade vista pela protagonista em pequenos ângulos e pequenos fragmentos, como num intervalo de aventura; esta curta fuga a um passado igualmente curto (porque sintetizado) parece existir só para poder explicar o regresso às origens já transformadas e quase desconhecidas, criando ambiguidade na personagem e ambiguidade no leitor, como fusão da própria ambiguidade romanesca…