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quinta-feira, 11 de maio de 2017

CARTA PARA PABLO NERUDA


Eras jovem e poeta. Eras tão jovem!
Te bastaria erguer a mão para tocar uma estrela,
Num tempo em que o tempo era de rosas.

Depois é o mar.
Altas arribas. Costa mordida pelo sal.
Como um búzio, respiras sonoramente
Lá onde batem as asas das gaivotas,
E a vastidão azul, imensa, é a paz.

Aí na tua Ilha Negra
Praças e ruas não existem. Apenas o mar.
E o céu tão perto “qual doce jacinto azul”…
Na rude falésia, precário abrigo, em pasmo te deténs.
Em rudimentar mesa, escreves
Palavras de amor, coragem e revolta. E em cada Poema voas mais alto.


Por entre folhas secas de outono,
Aí onde renascem as palavras,
Tu e ela, dois rios cujas águas se juntaram, à hora do poente.

Aí, na Ilha Negra,
Vertical como falésia, permaneces
E o clarão do teu labor é aurora boreal.
Com mais ninguém te pareces…

Nostálgicas as horas, soam em cada entardecer violeta
Depois que a música escarlate dos teus versos
Se abrigou na concha do silêncio.


Crua é a madrugada, mordida pelo vento.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Viagem ao Sonho, 1989



Publicado pela Editora Justiça e Paz, esta antologia foi organizada pela Associação de Escritores de Gaia, em 1989, e inclui, além de Maria do Pilar Figueiredo, os escritores: José Vaz, José da Silva Ferreira, Anabela Mimoso, Avelina Vieira, Adriana Guimarães, Francisco Silva, Agostinho Santos e Pedro Barbosa.

Da autoria de Maria do Pilar Figueiredo, a antologia inclui os contos "Tudo como Dantes", "O Sol e o Sapo" e "O Moinho de Vento".

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Nos Cem anos de Garcia Lorca (1998)



ECOS

I 

Junho. Fuentes Vaquero. Cais da tua chegada.
Havia sol ou estrelas? Que cantos de Junho soaram, na voz tremida dos
ralos ou no ócio das cigarras? Cantos bem cedo promessa, em tempo de verdes frutos, odores de tenras searas:

Verde que te quiero verde
Verde Vento, Verdes ramas

Azul de voos razantes. Fogem dos ninhos, as asas... Chão de musgo.
Pedra nua.
Verde de água. Verde mar.

II

Pelas campinas abertas, correm cavalos bravios: Soltas crinas, solto freio.
Perde-se no tropel, ao longe, a voz que o sonho alimenta.

Se ha levantado el viento que nunca duerme.

Traz consigo o desassombro. Sacode a raiz, os ramos. Espalha a raiva e o lume.

III

Agosto de sol e cal.
Vozes de morte já soam pelas ruas de Granada. Torna-se a noite mais noite.

Como canta la zumaia, ay cómo canta en el arbol!

O medo. A fuga impossível. As grades. Inquieta espera na madrugada
remota. Flechas de fogo apontadas nos canos das espingardas

Ya mi talle se ha quebrado como caña de maíz.

Rosas vermelhas, ai quantas, levas no peitilho branco!
Já cobre a erva, em silêncio, o cinzento do teu corpo. Chão de azuladas
penumbras eriçadas de silêncio, esse chão onde ficaste.

Silêncio de cal y mirto. Malvas en las herbas finas.

Ninguém mais soube de ti.

IV

Gloriosas, transmudaram-se as cinzas, entre gessos e jasmins. Perdem 
sombras, ganhem sóis.
Corre o vento, em seu destino, milhentos nós de distância. É o tempo das 
crisálidas.
Libertos, sobem no azul, ecos da temida Voz. Como asas. Como nuvens,
Ou como estrelas.

Los muertos son mas fuertes y saben devorar pedaços de cielo.