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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Recordar a Festa das Cruzes através das imagens de uma vivência anual de poucas horas seria quase impossível sem o recurso à memória afectiva da maior parte dos acontecimentos e a maior parte dos acontecimentos teria sido varrida da minha memória, se não houvesse o regresso, embora fugaz, ao espaço percorrido quando era criança ainda. Espaço que é, todo ele, tumulto de gentes, luzes, sensações que transcendem a minha capacidade de atenção num cenário de carros de bois, pipas de vinho, panos das tendas esvoaçando, mulheres de lenços coloridos, homens de varapau. Imagens que se desdobram diante dos meus olhos sempre que volto a ter nove anos e me deixo envolver pelo tumultuar da Festa. Imagens plasticamente magníficas, as quais os meus sentidos refazem numa antiga intimidade com sons, cheiros, e aquela poeira luminosa rodopiando no vasto campo.

Imagens retomadas com uma espécie de nostalgia que me devolve a ingenuidade daqueles tempos felizes e simples, porque são sempre simples e felizes os tempos de infância que na memória guardamos depois de exorcizados os outros. E é assim que torno a ver com nitidez caminhos percorridos e torno a sentir o prazer de passear ao acaso atraída por aquilo que então, de certo modo apreciava, e que era o som compacto de vozes humanas na aglomeração dos gestos e exclamações, amalgama, confusão. E a imaginação a fervilhar por entre aquela floresta de toldos, ao mesmo tempo que os olhos inquietos e ávidos procuravam, e os sentidos guardavam, fragmentos dessa paisagem incomparável que me tomou e tornou sua. Porque há muitas formas de pertencer a uma terra e esta é uma de entre muitas.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 7 – 5 – 1992

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Nessa época, tempo de austeridade e de grandes dificuldades económicas, ir de Cambeses a Barcelos a pé era uma jornada penosa, só executada em última necessidade. E ir de comboio, dada a escassez e precaridade desse único meio de transporte público, era uma odisseia enervante e dispendiosa.

Por isso Cambeses, que dista da sede do seu concelho cerca de uma dúzia de quilómetros, podia considerar-se aldeia longínqua, perdida nos confins do concelho, a confrontar com freguesias de Braga e de Famalicão. Não é portanto de admirar que poucos fossem os contactos entre a freguesia e a sede do concelho, a não ser em caso de obrigação a cumprir na câmara, no grémio ou no tribunal e pouco mais. Até mesmo a feira não era muito procurada para quem tinha gado ou produtos agrícolas para comercializar, já que a de Famalicão, a de Braga, e até mesmo a da Isabelinha, em Viatodos, se apresentavam mais cómodas quanto à deslocação a efectuar.

Tudo mudava, porém, quando se tratava das Cruzes. “Ir às Cruzes a Barcelos!” Uma tentação, uma festa, um desejo. Uma festa em cada ano repetida, sempre igual e sempre diferente. “As Cruzes” simplesmente.

“As Cruzes” daquele tempo, em dia de feira frança, com carros de bois, saias que já começavam a ser de pouco pano, blusas de seda e os mesmos cordões de ouro, as mesmas argolas nas mulheres, igual modo de pentear os cabelos, os mesmos lenços coloridos.

Arejavam-se pois os fatos do dia de festa, gastavam-se algumas economias na branca regueifa ou na trigueira rosca de trigo e centeio que acompanhava com postas de bacalhau frito a alegria das infusas onde o vinho espumava e logo era vertido nas malgas que passavam de mão em mão, na alegria dos reencontros.

Ajustavam-se contratos, namoriscava-se, trincavam-se doces de gema cobertos de açúcar cristalizado, E, se as finanças o permitiam, tomava-se lugar debaixo dos toldos, abancando às compridas mesas, ombro com ombro, onde, ao lado dos pirolitos e laranjadas havia petiscos e, sobretudo, o pipo de vinho, com muitos litros de alegria, para distribuir por centenas de gargantas sequiosas.

Mas mesmo para quem não se deixava tentar por uma ida à Festa, as cruzes tinham um lugar muito importante, porque incluído na calendarização dos hábitos, preceitos e acontecimentos da região, quando assim se marcava o tempo: – “Foi ali pela maré das Cruzes…”, “Foi antes das Cruzes que…”, “As Cruzes já tinham passado há um ror de semanas quando…”.

No tempo das Cruzes faziam-se as últimas vessadas, e iniciava-se nessa época um outro tipo de contrato de trabalho que incluía merenda aos jornaleiros, cláusula que durava até ao S. Miguel. E até uma simples sementeira de melões e melancias se calendarizava pelas Cruzes, porque nessa época deveriam os pequenos caules ter já quatro folhinhas em cruz. Estes e outros preceitos mais, não esquecidos ainda hoje, suponho.

Porque, se muitos hábitos mudaram e o aspeto exterior dos rurais indica melhoria de vida e até um certo aburguesamento, se a alimentação e tarefas agrícolas sofreram profunda alteração, tal como a sofreu o traje feminino e os meios de transporte utilizados para ir à feira, a festa das Cruzes, essa, julgo ser ainda a mesma, na medida em que é motivo de evasão, apetecida acalmia nas corridas a que as novas condições de trabalho obrigam. É o intervalo, a alteração da rotina. Por isso, e segundo creio, “As Cruzes” continuam a ser a radiografia de hábitos e tendências de um povo fiel, apesar de tudo, às suas raízes e a muitas das suas leis ancestrais.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 30-4-1992