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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Foi ao deparar com vasos de petúnias floridas, numas escadas exteriores de uma casa de Cambeses que, de súbito, me veio à lembrança a nossa chegada à Coreia do Sul, país que estava no programa visitarmos, e cuja visita se começava então a cumprir.

Tínhamos deixado a severa cidade de Pequim, bem como a trepidante cidade de Xangai, trazendo connosco a lembrança de uma certa forma de vida austera e cheia de limitações para quem aí anonimamente vive, sobretudo em Pequim, cidade de poucas flores e muitas árvores de médio porte.

Por isso foi com alegre surpresa que, ao desembarcarmos em Seul, deparámos logo à saída do Aeroporto com a garridice de vasos de petúnias intensamente floridas, alinhadas ao longo do passeio, do outro lado da rua, flores que não esperávamos encontrar na Coreia com tal profusão, sendo como é, e segundo os compêndios de botânica, uma flor oriunda da América do Sul, bem adaptada àquele clima tropical, para satisfação dos coreanos que, segundo nos pareceu, gostam de flores e de recantos ajardinados. E como se as flores que eles cultivam não fossem suficientes, pintam frequentemente motivos florais como decoração, muito em especial nas janelas dos autocarros de turismo, as quais ostentam bonitas grinaldas que funcionam como alegres dísticos de “boas vindas”.

É um detalhe curioso, que nos surpreendeu, tanto mais que Seul, tal como Pequim ou Xangai, é uma cidade demasiadamente povoada, e onde é bem notória a agressividade da indústria e do comércio, tendência que não anula, como seria de esperar, o gosto pela beleza, tanto da natureza como daquela que a Arte proporciona a quem dela sabe cuidar.

Uma cidade de contrastes, da qual falou com entusiasmo o nosso guia coreano, um jovem asiático que viveu alguns anos na Argentina, para onde seus pais haviam emigrado, e que cedo voltou à terra das suas raízes, confiante no futuro do seu país e empenhado em concluir o seu curso de Economia. Pedro, de seu nome, revelou-se um guia experimentado em nos mostrar as belezas da cidade, locais que nada tinham a ver com as ruas modernas, de seis faixas de rodagem e intenso trânsito, perigosas de atravessar, mesmo nas passadeiras com semáforos.

Diferente foi, no segundo dia da nossa estadia, a visita feita ao maravilhoso “Jardim Secreto”, onde se encontra ainda intacto o palácio real, vazio de realezas desde 1910. É um jardim paradisíaco, com belas construções e belíssimos recantos, Aí se passeava o rei, rodeado de muitos servidores e também de intelectuais, sendo famosa a biblioteca então ali existente, e cujo edifício se mantém intacto, bem como o gabinete de estudo, numa pequena e florida colina.

A propósito das camadas sociais da época real, Pedro explicou a curiosa divisão em classes, vigente nesse tempo. Em primeiro lugar, como é óbvio, figurava a família real. Em segundo lugar os intelectuais. Em terceiro a classe popular média, que incluía comerciantes, agricultores e operários. E por último, a classe popular mais baixa, que abrangia criados e, curiosamente, os carniceiros. Estes assim considerados por terem como profissão destruir a vida. Hoje evidentemente que é diferente, e os criados, se acaso ainda os há, são empregados como outros quaisquer, e os carniceiros, simples comerciantes ou industriais, em nada diferem dos demais.

Hoje, diferentes são os passos que percorrem os extensos arruamentos desse jardim Piwon, chamado “Pi”, que quer dizer jardim, e Won” que significa secreto. Jardim franqueado aos turistas sobretudo, que de todo o mundo ali chegam e se maravilham, o que não foi totalmente o nosso caso, porque aqui em Portugal temos jardins de flora diferente, é certo, mas de beleza nada inferior e onde as petúnias dão o seu colorido, a par das sécias e dos amores-perfeitos.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 17 – 3 – 1994

terça-feira, 18 de outubro de 2016


“Há boa água em Cambeses, ainda, suponho. Há em Bouçó boa água para beber, julgo poder afirmá-lo”. – Foi o que assim pensei, ao olhar a água que, vinda do interior do monte que lhe é sobranceiro, jorra dia e noite na fonte pública existente no lugar. Fonte que veio substituir a antiga fonte de mergulho que alimentava a necessidade das casas onde então havia muitas crianças. Mas não foi dessa fonte desaparecida que me lembrei, olhando a água. Lembrei-me antes, talvez por uma associação de ideias, dessa longínqua Singapura, cidade que em tempo de férias me foi dado admirar. Capital de um país independente, não é tão independente assim, porque depende dos países vizinhos para poder sobreviver. E digo “depende” porque é essa a palavra exata.

E no entanto Singapura, cidade jovem, densamente povoada, capital de um país em contínuo crescimento económico, rica, moderna, semeada de arranha-céus onde se instalaram bancos poderosos e grandes hotéis, parece, à primeira vista, ser auto-suficiente e não necessitar de nenhuma ajuda. Mas necessita e muito, embora, aos olhos do turista, pareça quase um paraíso.

E de facto é essa a imagem que da cidade se colhe, quando se percorre as suas ruas: os edifícios coloniais do século passado estão bem conservados e aproveitados, bem como muitos outros vestígios da sua curta história. Os passeios estão continuamente pejados de gente jovem, sorridente, aparentemente educada, e o trânsito intenso é bem ordenado. Há grande profusão de estabelecimentos e centros comerciais, onde orquídeas florescem à entrada, Ruas escrupulosamente limpas e bem iluminadas à noite, mas rigorosamente vigiadas, para que a limpeza e a segurança dos cidadãos não seja letra morta. 


Pois bem, essa cidade rica, moderna, ordenada, florescente, depende, como se disse, dos seus vizinhos e sem eles todo esse esplendor acabaria em bem pouco tempo e a qualidade de vida também, porque lhes faltaria o principal para viverem: a água.

Água que vai (pude observar) em canalizações de larguíssimo diâmetro, ao longo da ponte, que modernamente liga a ilha de Singapura à Malásia. Ponte que é sobretudo de arrojada engenharia moderna, tal como são as estações do metro, floridas, apesar de subterrâneas, os arranha-céus de muitas dezenas de andares, onde se nota um certo gosto pelo belo, nos vários arranjos artísticos que tornam mais leves e graciosas essas grandiosas e mastodônticas construções.

Resumindo: Esta cidade moderna, segura, rica, onde as orquídeas florescem exuberantemente, das quais a vermelha é, poeticamente, a flor oficial do país, esta cidade à beira mar nascida, cidade de poderoso comércio, é uma cidade frágil, apesar de se manter sem a ajuda de terceiros porque, como disse, lhe falta um dos elementos mais necessários à vida: água doce.

“Se nos jardins do palácio governamental jorrasse a frescura das águas desta fonte de Bouçó, se os de Singapura tivessem um só dos nossos rios, sem dúvida que ele seria um rio cristalino e puro. Um rio sagrado… - penso ainda, ao afastar-me acompanhada pelo som cristalino da água caindo, - E nós?”

Para quê falar da nossa vergonha?


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 19 – 5 – 1994

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Num passeio apetecido em dia soalheiro, atravessámos a ponte que em Cambeses liga as duas margens do rio Este, uma ponte rústica e sólida, como o atestam as pedras de que é feita e a resistência que sempre tem oferecido às cheias que, agora, menos frequentemente acontecem, tornando mais triste este rio triste e sujo, por razões estranhas à vontade das gentes de Cambeses.

O lugar, para quem, de um modo geral, tem os olhos habituados à paisagem citadina, é de uma grande beleza, desde que não olhem para baixo, para as águas grossas e negras do rio, vazio de peixe, ele que, não há ainda muitos anos, era um paraíso para os pescadores desportivos.

E foi atravessando a ponte rústica e rudimentar, que mais não exigia o trânsito que por ali passa, que me lembrei de Seul, a cidade coreana do rio Hang Gang, que muitas pontes ali o atravessam. Mas não foi pelo rio nem pela cidade arquitectónica, nem tão pouco pelas muitas pontes, umas antigas, outras modernas e funcionais, que me lembrei de Seul, a cidade do rio Hang Gang.

E lembrei-me de Seul, porque me lembrei do dia em que seguimos por uma das pontes mais modernas em direcção ao edifício mais alto de Seul onde, num dos seus 65 pisos, nos esperava o almoço programado, um almoço tipicamente coreano. E lembro-me da nossa estranheza quando, paralelo à comprida ponte por onde seguíamos, deparámos com aquilo que parecia serem os pegões de uma ponte moderna inacabada.

E antes que formulássemos a inevitável pergunta do porquê da interrupção dessa obra, a jusante da ponte, por onde continuávamos, o nosso guia coreano, que Pedro, catolicamente, se chamava, apressou-se a dar-nos a explicação.

Aquela ponte tinha sido projectada, aprovada e começada a construir sem que ninguém se tivesse apercebido que o local era um abrigo de aves marinhas, que ali costumavam nidificar.

Quando alertados, os homens do Poder, compreenderam que, se a ponte fosse construída, o consequente tráfego iria perturbar a vida das aves, afugentá-las dali, interrompendo assim o seu ciclo de reprodução, mandaram que a obra fosse suspensa. A ordem foi cumprida e o projecto anulado, apesar dos dinheiros já gastos. E a ponte que depois se construiu, a levante da primeira, estava suficientemente afastada da outra, para não prejudicar o ciclo de vida dessas aves.

Atitude de admirar, sobretudo porque se trata de uma cidade voltada para o progresso económico, para a competitividade, para o trabalho. E também é nosso dever apresentar, para a qualidade de vida dos habitantes, porque a dimensão desse género, há de forçosamente reflectir-se noutras situações, onde a qualidade de vida é um dos principais valores a ter em conta.

“Foi assim que pensaram os homens do Poder e da economia bracarense quando permitiram, e continuaram a permitir que a vida animal, piscícola neste caso, se extinguisse de vez? “ perguntou alguém ironicamente, apontando para o rio onde a morte reina há muito. Claro que a atitude de quem poderia evitar ou minimamente remediar esta pequena catástrofe é a indiferença, porque é a mais cómoda. Pior ainda se tem a vida demasiado limitada pelo cifrão. E, penso eu, se por acaso forem a Seul e lhes contarem, orgulhosamente, essa decisão coreana, dos homens do Poder, talvez nem oiçam. E se ouvirem, darão como opinião um sorriso, de cínica condescendência, perante essa atitude do Poder.

Cada um, mais não pode dar que aquilo que possui, não é verdade?


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 24 – 2 – 1994

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Há muita gente que teme as transformações, sejam elas quais forem, tal como teme as mudanças, as revoluções (pacíficas), as novidades.

Também este pequeno lugar que Bouçó se chama e que continuo a considerar o meu berço, sofreu já, “no seu seio”, como diziam os românticos, profundas alterações, com o seu cortejo de benefícios e malefícios também.

A primeira e a mais acentuada foi há mais de um século, com o traçado da via férrea, chamado de “Ramal de Braga”, a qual cortou o lugar em dois e, pior ainda, cortou já a vida de várias pessoas, quer na célebre tragédia de 1916, quando ali perto um vagão desatrelado e carregado de pólvora e outros materiais perigosos explodiu, abalando casas e pessoas, quer na passagem de nível de Bouçó, felizmente agora sem utilização obrigatória, porque a recente estrada camarária disso defende.

Esta estrada que, tal como a via férrea, cortou campos produtivos e, consequentemente, o lugar de Bouçó, dividido agora em três pedaços. E se a estrada trouxe benefícios (ninguém o nega) também trouxe malefícios. Não me estou a referir a ter retalhado o lugar de Bouçó, nem tão pouco à insegurança que a velocidade desajustada de certos veículos que por aqui passam, possa causar. São perigos que cada um pode evitar em relação a si próprio.

Refiro-me a outro tipo de malefícios, a que aliás, já aqui aludi, e que, a exemplo do que se passa a nível mundial, nunca é demais insistir: os perigos da poluição, que a falta de regras e de vigilância desencadeiam por vezes, com gravíssimas consequências.

E, mesmo que não achem a propósito, eu insisto, porque não me estou a referir à poluição dos escapes das viaturas, embora esta seja bem nociva também, só que os venenos estão em relação direta com as quantidades.

Estou a referir-me à poluição que os meios de comunicação rodoviária proporcionam, ao proporcionarem a instalação de empreendimentos poluentes, porque instalados longe das vistas e sem outro objectivo que não seja o do lucro imediato, a custo seja do que for, obra desses modernos criminosos (ou pecadores, a quem o Papa já apontou o dedo acusador), que nos assustam, que assustam o mundo. E há-os de todos os níveis. Os que poluem os grandes rios, como o Vouga ou o Cávado, ou ainda o pobre do pequeno Este que em Cambeses passa a par da linha e a par da velha estrada, que de Braga vem, quase sempre a seu lado. Rios de grande ou pequeno curso. Poucos escapam e todos se sentem ameaçados.

Como ameaçados se sentem os fios de água que no subsolo de Bouçó correm limpidamente para alimentarem a fonte, o ribeiro e os pequenos poços que dão vida às pessoas, animais e plantas.

Já aqui falei deste receio que Bouçó começa a viver. Oxalá não volte a falar no assunto. E muito menos a falar de algo muito grave, que por hora apenas se teme e ainda se pode evitar perfeitamente. Eu quero querer que o perigo vai ser evitado.



Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 1-7-1996

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Estranharão aqueles que por ventura me lêem que, ao falar da qualidade de vida em Cambeses, não foque a má qualidade de vida que é a passagem por esta freguesia de um miserável curso de água que ainda dá pelo nome de Rio Este,

Não falei e, se hoje o faço, é apenas para me justificar, porque a mágoa que me toma, ao falar do estado deplorável do rio é tão grande, quanto a lembrança que guardo desse rio da minha meninice é doce e suave.

Era um rio bonito, um rio rico de bogas, escalos, barbos, eiroses e até trutas. Um rio onde a garotada, à vinda da escola, em tempo de primeiros dias estivais, se banhava na cristalina “piscina” que era o açude do moleiro.

Um rio bendito que, a correr desde Braga, atravessava o lado sul da freguesia, por entre veigas, onde o milho crescia luxuriante, e foi riqueza num passado ainda recente.

Não falei desse rio nem da sua intensa poluição, porque o problema transcende a freguesia, o concelho, e até talvez o próprio distrito. Remediar este mal será muito difícil. Mas, pior que esta situação é, quem pode, não evitar que outros males aconteçam, porque ainda há fontes de água pura a brotarem dos montes. Ainda há regatos a descer das encostas, milagrosamente cristalinos. Ainda há minas de água pura. Mas por quanto tempo?

O Rio Este está morto. Mas a morte de um rio é diferente da morte de um ser animal ou vegetal. É uma morte que não traz o desaparecimento do ser amado nem, consequentemente, traz o seu esquecimento. O Rio Este está diante dos nossos olhos morto, acusador, cruel como um remorso. E nós, que podemos nós fazer? Salvem-se ao menos as fontes, as minas de águas que ainda há no subsolo, os riachos, porque suponho, não há nenhum rio, presentemente, que não esteja condenado à morte, “só porque uns quantos querem enriquecer depressa e por qualquer preço”, dizem-me. E eu sou levada a acreditar.

Enriquecer, ostentar riqueza, é a meta de certa sociedade consumista. Mas até quando? Qual a nossa autêntica qualidade de vida? Qual?


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 21 – 5 – 1992

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Cambeses de hoje, que tem a antecedê-lo muitos séculos de história, também se interrogará, tal como as outras terras, quanto ao seu futuro no novo milénio, que uns vêem com algum receio e outros com muita esperança.

Diga-se a propósito que o tempo presente em Cambeses, nada tem a ver com esse tempo passado anterior à fundação da nacionalidade, em que este pedaço de terra existia já com este mesmo nome. Nem tem a ver, de forma acentuada, com o tempo vivido na primeira metade do século passado, dado que, a partir dessa data, a situação socioeconómica de Cambeses, tal como a de todas s freguesias do concelho, para só falar nestas, sofreu uma reviravolta nunca antes imaginada. A prosperidade chegou finalmente e as classes sociais, em termos de riqueza, ficaram muito menos desniveladas.

No entanto, nem tudo são rosas, e a outra face da medalha aí está, com problemas vários, sobretudo os de ordem ecológica, a atingir predominantemente as águas, e tudo porque a ânsia de lucros imediatos se sobrepõe ao respeito pelos direitos da comunidade, que o mesmo é dizer, da saúde pública.

Mas não são só estes aspectos que nos deverão preocupar. Outros há, que apesar de menos visíveis, não deixam de ter as suas consequências. E uma delas é o quase desaparecimento de algumas espécies de animais, senão vejamos: onde pára toda essa gama de pequenas aves que vinham até cá ou por cá permaneciam? Porque são cada vez menos as andorinhas? E os chascos? E os piscos? E os tordos que em bandos densos ainda há pouco se avistavam no outono? E as levandiscas, também chamadas de boieiras, porque saltitavam pelas leivas que o arado, puxado pelos bois, ia abrindo?

Restam os pardais, embora menos, e até mesmo os melros robustos e desconfiados parecem estar a desaparecer. E tudo, segundo me dizem, por causa dos pesticidas que vieram substituir a tarefa dessas pequenas aves, que era caçar os insectos prejudiciais à agricultura.

Não tenho formação científica para aqui analisar o problema. Por isso me limito a evocar, com os olhos da minha infância, essas pequenas aves e o tempo em que descobrir um ninho de chasco, num silvado, era uma emoção. E procurar outros, nas altas ramadas, era uma aventura. Agora essas pequenas aves, que para além da sua utilidade, enchiam os campos de música e de vida, tendem a desaparecer, sem que nada se possa fazer para deter tal extermínio.

É mais um problema a juntar aos outros problemas de ordem material e relativa gravidade.

No entanto, outros há diferentes mas igualmente de temer. O tal endividamento das famílias, de que se começa a falar nos meios de comunicação social, consequência de uma informação distorcida e de uma publicidade desenfreada e sedutora. Na verdade, o consumismo para o qual muitos não estavam preparados, é em grande parte, o motivo principal da angústia daqueles que se vêem a braços com situações difíceis de resolver.

Mas há ainda os outros, aqueles que, usufruindo de uma certa prosperidade, continuam a sentir-se insatisfeitos, dominados pelo espírito de competitividade (nem sempre no melhor sentido) e pelo tal consumismo que por todo o lado se instalou com intenções de ficar enquanto puder. A tal ponto que “nem os cemitérios escapam” como dizia há tempos um jornalista ainda jovem que, por razões familiares, só agora reparou nesse pormenor.

Defender esse ponto de vista é delicado, porque a atitude tomada pode ser classificada de nostalgia excessivamente conservadora ou até mesmo retrógrada. Por essa razão é dever esclarecer que apenas se quis apontar desequilíbrios que no entanto não serão de estranhar se pensarmos que quase toda a mudança os provoca. Mas muitos desses problemas poderiam ser evitados e outros solucionados, se enfrentados com a necessária isenção, empenhamento e coragem também.

Abordar este tema é delicado, repito, mas pior é ficarmos de braços cruzados, como até aqui tem acontecido.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 30-3-2000

sexta-feira, 15 de julho de 2016

DAQUI DE CAMBESES

Já aqui falei do rio Este, da sua decadência e morte, essa mesma morte que ameaça o Cávado da minha clara lembrança, quando alvoroçada ia de Cambeses à cidade e nele podia pousar o olhar.
De facto, nas poucas vezes que fui a Barcelos fora dos dias de feira, duas coisas havia que sempre me deslumbravam: as vetustas paredes dos Paços dos Condes–Duques debruçadas sobre a placidez das águas e esse rio que então era claro, translúcido, belo.
Não sei a razão dessa minha predisposição ao deslumbramento, sei que era algo vindo de muito longe e sei também que não era sem uma curiosidade emocionada que me aproximava dele, esse rio calado, translúcido, a deslizar brandamente poderoso, senhor de uma força inexplicável que me atraía. Densa e misteriosa força a irradiar das águas, que por entre várzeas frescas e produtivas, saltava alegremente os açudes na pressa de ver as terras de Esposende, onde chegam as marés e os voos planados das gaivotas.
Um rio que era promessa de fresco banho na piscina natural, onde aprendiam a nadar aqueles que facilmente ali se podiam deslocar em dias estivais, os rapazes evidentemente, que às meninas estava vedada tal satisfação, sobretudo se pertenciam a famílias mais tradicionais.
Mas o rio, se era a interdição, era também a sedução, o fascínio, o mistério, numa forma imprecisa de o contemplar, de nele repousar o olhar, embora Barcelos não perdesse tempo, creio, a contemplar o curso remançoso do rio, como acontece com outras povoações ribeirinhas. Parecia mesmo que Barcelos vivia de costas voltadas para ele, como se fosse uma outra cidade.
E deste modo a cidade, que pouca importância parecia dar ao seu rio, quando finalmente se quedou a olhá-lo, foi para constatar, estupefacta, que os homens tinham fixado a atenção nele, não para lhe repousar o olhar, mas sim para lhe infligir cruel e cobarde agressão, porque rio indefeso. Crime só possível porque a imprudência e desleixo de uns quantos permitiu que se concretizassem os propósitos de alguns em quererem enriquecer de qualquer modo e o mais depressa possível.
E por isso o claro e translúcido rio da minha lembrança adoeceu e, moribundo, não tardará a morrer tal como morreram já o Este, o Ave, o Leça e outros mais, tal como podem morrer as fontes das nossas aldeias, as minas de água que no subsolo correm e são razão de vida dos homens e dos animais, os pequenos regatos, alguns deles igualmente ameaçados com projectos industriais sempre poluentes, embora de início se apregoe o contrário.
E tudo isto acontece porque as Leis ainda não têm força suficiente para conter tal onda de crimes e também porque a ignorância e ganância de alguns permite que isto aconteça.
Mas, até quando?


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 2-7-1992