terça-feira, 8 de novembro de 2016

Nítidas, persistentes, agora, muitas das imagens que de Goa trouxe comigo, pelo que forçosamente sobre elas irei escrever. Não um relato linear, minucioso, da viagem, mas antes impressões colhidas ao acaso e que a memória foi guardando. Imagens desordenadas que surgem por vezes de modo imprevisto, à medida que tento reconstruir factos ou simples impressões sobre o que me foi dado observar.

E Goa, onde chegámos ao fim da manhã, logo nos ofereceu, ao olhar, um conjunto de imagens que, no entanto, a fadiga não permitiu que apreciássemos devidamente. Fadiga agravada pelo calor pesado, saturado de humidade e pela longa espera que tivemos de suportar nas precárias instalações alfandegárias, perdidos em arredada burocracia.

Neste estado de espírito, cada vez mais impacientes e irritadiços, só ao fim de longuíssima hora pudemos transpor o último umbral do edifício alfandegário. E dominados por essa indisposição, a que se juntava a falta de sono, não conseguíamos corresponder como devíamos aos primeiros sorrisos goeses que, à saída do edifício nos aguardavam, levando-nos a quase ignorar o colorido dos saris e a gentileza do gesto com que nos ofereciam colares de flores, a troco de escassas rupias.

Portanto foi com alívio que, já instalados no autocarro, o sentimos pôr-se em marcha e seguir por uma estrada estreita, ladeada por extensas planícies cobertas de restolho, de secura. Uma paisagem de acordo com o nosso incómodo humor, a qual mal olhávamos da janela do autocarro, viatura obsoleta e ronceira, sem ar condicionado nem qualquer outro tipo de refrigeração, que tivemos de suportar ao longo de uma hora de viagem, atravessando matas de coqueiros, aldeias e a cidade de Margão, na qual mal reparámos, apesar da animação do seu mercado ao ar livre, repleto de frutas e legumes. Uma paisagem penosa que nem a gentileza dos sorrisos goeses, nem a curiosidade pela paisagem que lentamente íamos atravessando, nem a afabilidade do pessoal de transportes tinha conseguido amenizar. Uma viagem desgastante, que por vezes nos remetia para uma misericordiosa sonolência.

De súbito, porém, tudo se transformou como por encanto. Algo de imprevisível, feérico, se nos oferecia na visão esplendorosa dos maciços polícromos de buganvílias que, à entrada do extenso recinto, se estendiam pelos muros e vedações que delimitavam o espaço do hotel (o Leela Beach) onde nos aguardavam.

Era o oásis, quase irreal, que de imediato parecia fazer-nos esquecer as agruras da longa viagem que continuou ainda, por comprida área florida, ladeada de canteiros viçosos até que o autocarro se deteve num largo, onde sobressaíam exóticas palmeiras de leque, idênticas às que, em Singapura, tínhamos podido admirar.

E quando nos foi dado escutar, nesse pequeno largo, a água cantante dos repuxos do tanque circular, pintado de cor de rosa como as fachadas dos edifícios do complexo hoteleiro, e pudemos, enfim, repousar nos amplos salões da receção e deixámos que o olhar vagueasse pela vegetação, através das largas janelas e avistámos as águas cintilantes de uma nesga de mar, então sim, acreditámos que tinha valido a pena tanta incomodidade.

Aquele era realmente o oásis desejado. Real, acolhedor, fascinante.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 22 – 9 – 1994

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Foi na cidade histórica de Velha Goa que, tal como me havia já acontecido em Malaca, me lembrei, de súbito, de Cambeses.

Não pela paisagem, evidentemente, nem pelas pessoas, indianos na quase totalidade, que circulavam pelos espaços verdes que abundam entre as grandiosas igrejas desta antiga cidade, outrora capital de Goa, e hoje apenas, e muito é, uma cidade museu.

Lembrei-me de Cambeses porque a primeira igreja que nos foi dado visitar foi, precisamente, a Basílica do Bom Jesus. E lembrei-me apenas por causa do nome, porque no interior não encontrei, como na igreja de S. Pedro, em Malaca, os andores com o senhor dos Passos e a Senhora das Dores. Nesta igreja, construída sob a invocação do Bom Jesus, um outro culto nasceu e se instalou de tal modo no coração dos goeses que não pode ficar ignorado. O culto de S. Francisco Xavier que, como se sabe, morreu longe dali, e mais tarde foi trazido incorrupto para a velha Goa, assim de mantendo ao longo dos anos, até aos dias de hoje, repousando na sua urna de vidro com o único braço, o esquerdo, pousado sobre o peito, já que o outro, o direito, foi decepado e enviado a Roma, para que não se duvidasse da sua incorruptibilidade, sinónimo de santidade, numa altura em que o povo goês o tinha já canonizado e, fervorosamente, venerava os seus restos mortais.

Veneração que ainda hoje continua intensa, viva, tal como em Malaca, terra onde S. Francisco Xavier, homem de extraordinária energia, se devotou à cristianização dos povos orientais. Um santo que possuía tal poder de persuasão, que Malaca, cidade do vício e do crime, se deixou disciplinar pela força da sua palavra.

Como nota curiosa e exemplo vivo da devoção a S. Francisco Xavier, são muitos os Franciscos que podemos encontrar em Goa, nome aí tão vulgar como era, até há poucos anos, o nome de Maria em Portugal.

Disseram-nos, ainda, que é de tal modo profunda a devoção que os goeses têm por S. Francisco Xavier, que até muitos goeses ligados ancestralmente ao hinduísmo, lhe prestam o seu culto. Não sei até que ponto isto pode ser verdade, sei, isso sim, que muitos eram os indianos, famílias inteiras com crianças, que ali estavam, no interior do templo, demorando-se diante do altar onde o túmulo do apóstolo se encontra.

Aliás, nenhum outro motivo deveria haver para os trazer até ali, porque a cidade de Velha Goa, hoje cidade museu, com as suas grandes igrejas e os seus espaços verdes, onde não há casas comerciais nem de habitação, não tem nenhum outro atractivo para lhes oferecer, a não ser a devoção ou a atração que o mistério da sua incorruptibilidade representa.


Publicada no Jornal de Barcelos de 24 – 11 – 1994

sábado, 5 de novembro de 2016

Estive há pouco numa vila raiana, antiga fortificação militar, onde assisti a um simpósio que podia ser um simpósio igual a muitos que, nesta especialidade ou naquela, sempre vão acontecendo pelo país fora.

Mas não era um simpósio igual a tantos, e a diferença estava precisamente na VOZ. Voz que, naqueles três dias, que foi o tempo que o simpósio durou, se fazia ouvir para lá das palavras. Não era a voz das pedras gastas pelos muitos passos que as percorreram, nem a voz dos que, em defesa da vila, ou melhor, da pátria, ali tombaram.

Naquelas horas de estudo e de reflexão, a VOZ que se fazia ouvir, muito forte, muito pura, era simplesmente o apelo das raízes. Não é produto de retórica nem simples devaneio, isto que aqui se afirma, porque a VOZ estava lá, real, nas vozes dos que, serenamente, falavam do amor à terra. Amor dito com palavras e comprovado com factos.

Estava no empenho de uns quantos, decididos a que a vila cresça, mas de forma harmoniosa, sem agressões no seu património arquitectónico. Decididos a que o concelho progrida economicamente mas longe dessas ambições e sofreguidões que destroem os bens essenciais à vida, como o é a água, para não falar noutros. Decididos a que o concelho se modernize sem prejuízo da sua identidade cultural.

E sei que o vão conseguir (e muito conseguiram já) porque estão tomados de amor à sua terra, obedientes à voz do sangue, presos pelas raízes que, naquele chão pedregoso se afundam. E embora poucos, eram muitos, porque fortes e esclarecidos.

E julgo não usar de indiscrição se, para melhor exemplificar, identificar alguns deles, dos quais destaco o presidente da edilidade, homem dali, da terra beirã de seus avós, ali nascido e embora mais tarde radicado em Lisboa, tudo lá deixou para, na sua terra, melhor lutar por ela.

Presidente eleito e reeleito sucessivamente, não porque é deste partido ou daquele, mas porque é o Homem que as populações idealizaram e querem. Homem que sobe, incansavelmente, escadas dos ministérios de Lisboa, que percorre corredores, que espera à porta dos gabinetes e, como não se resigna a regressar de mãos vazias, volta daí a pouco a atravessar o Terreiro do Paço, a subir escadas, a esperar à porta dos gabinetes, e tudo o mais é secundário para ele.

Um outro homem digno de menção era alguém que do Brasil tinha vindo, propositadamente, para ouvir falar da terra de onde partira menino ainda, ele que, mesmo longe, jamais deixara de se documentar sobre a sua terra, o que lhe permitira já escrever dois livros sobre a sua história. E falava em doar a sua biblioteca, que julgo valiosa, e falava em Casa de Cultura, em animação cultural dentro daquelas históricas muralhas.

Igual entusiasmo se via na voz do ilustre compositor, professor de música e padre, que fez questão de nos levar a ouvir música da sua aldeia “a aldeia mais pequena de Portugal”, segundo disse. E havia o exemplo espantoso daquele jovem casal, ele arquitecto e ela professora de inglês que, deixando Lisboa onde nasceram, cresceram e estudaram, se vieram instalar naquela terra que era a dos seus antepassados, para darem uma nova vida à velha quinta de família, até aí semiadormecida no tempo.

Não se julgue que é romantismo ou simples devaneio o que ficou dito. É uma realidade que tive o privilégio de constatar numa terra beirã que Lisboa não consegue esquecer porque ela está lá constantemente a bater-lhe à porta, a acordá-la, essa terra corajosa. Terra onde a natureza é madrasta se a compararmos com a nossa, esta terra barcelense, terra humosa, de verde e de sol, terra a que Cambeses pertence.

E sobre este assunto muito mais se poderia dizer. Mas talvez o que foi dito seja já suficiente para que alguns sobre o assunto se demorem e possam reflectir sobre os valores que aqui se defendem, se ainda estão suficientemente libertos para o fazerem, evidentemente.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 10 – 12 – 1992

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Não tarda que uma nova época balnear surja e, com ela, a animação das praias, com carros a chegarem, logo de manhã, pelas estradas que à beira-mar vão dar. É o bulício, o ruido dos motores e claxons, a multidão ansiosa e alegre ao começo da manhã, fatigada e impaciente nas filas, à hora do regresso.

Assim em todas as praias. E um pouco mais nessa que foi a praia do meu fascínio em tempo de infância: a Póvoa de Varzim. Praia de mais fácil acesso para quem, naquele tempo, vivendo em Cambeses, podia utilizar o comboio até lá, sem incomodidades nem preocupações de maior.

Dias que a memória afectiva guardou, sem outros que se lhe pudessem comparar em beleza: a beleza desse mar das marés vivas de agosto, a arremeter pelo areal, ameaçador, poderoso. Um mar até hoje inalterável, e que é o oposto desse outro que, lá tão longe, conheci: o mar da China. Um mar calmo na baía de Aberdeen, um mar apetecido, não fosse a ameaça de tubarões, apesar da rede defensiva a todo o comprimento da praia, protecção que não deixa tranquilo quem queira aventurar-se nessas águas tépidas, irmãs dessas outras que se tem de navegar, se estando em Hong Kong e se deseja conhecer Macau.

O “jet-foil” que faz a ligação entre os dois territórios é rápido, seguro e tão confortável como o interior de um avião. E o mar é calmo e tranquilo para quem o olha: um mar muito belo, de um verde tenro, a condizer, não só com as ilhotas desertas que se vão encontrando ao longo do percurso, mas também com as montanhas costeiras do território chinês, cobertas de vegetação rasteira, montanhas poderosas que, no seu conjunto, tornariam a paisagem austera, se não fosse o verde húmido, acetinado, que as reveste, desde os cumes até à linha de água.

Águas verdes, da cor do jade, num mar sempre igual, que só se altera na cor, com a aproximação de Macau ou, mais propriamente, com a foz do Rio das Pérolas, cujas águas barrentas dão outra tonalidade ao mar que se vai navegando.

Mesmo que não venha a propósito, recordo as margens desse mesmo rio, admiradas mais tarde, de perto, quando percorríamos a cidade.

Esse rio que, em parte, separa a cidade das terras da velha China continental, terras agressivamente defendidas por arame farpado e rede, a desencorajar qualquer desembarque ou fuga ou simples escapadela para, em Macau, dar satisfação a um vício tão do agrado dos chineses: o jogo de azar. Vício que na China não é permitido satisfazer, nem tão pouco em Hong Kong, a não ser nos jogos de apostas, nos hipódromos, tão do agrado dos ingleses, como é sabido.

A sedução da roleta, porém, é, para muitos mais forte, porque imediata. Por isso são os chineses de Hong Kong que vão a Macau, atraídos pelos casinos, cujo movimento, disseram-nos, é comparável a Monte Carlo ou Las Vegas. Não sei se há exagero nesta afirmação. O que sei é que o movimento é intenso, daqueles que ali chegam para arriscar a sorte, e quantas vezes dar motivo a histórias dramáticas, como essas que, no tempo da minha infância, ouvia contar acerca dos casinos. Histórias de fortunas ganhas numa noite e logo esbanjadas. Histórias de fortunas herdadas e definitivamente perdidas à roleta, fortunas desbaratadas, com seu cortejo de dramas familiares.

E hoje?

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 24 – 3 – 1994

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Foi lá para o sul da Malásia, no outro lado do Mundo, que de súbito senti saudades de Cambeses e, por momentos, a memória afectiva trouxe até mim cenários conhecidos e, sobrepondo-se, o “Dia de Passos”, a procissão, as imagens de Jesus e Maria dos andores: toda a dramaturgia da Paixão, num ritual de séculos.

Vindos da capital da Malásia, Kuala Lumpur, tínhamos há pouco chegado à cidade de Malaca e, seduzidos pela História, logo procurámos tomar contacto com as ruas de casas antigas, o Museu Memorial de Malaca, onde a presença portuguesa está testemunhada em documentos e imagens; tínhamo-nos detido junto à porta de Santiago para, de seguida, subirmos à colina onde S. Francisco Xavier viveu os últimos anos da sua vida.

Após um curto deambular e visita às ruinas da igreja de S. Paulo, ao lado da qual se ergue a estátua de S. Francisco Xavier, foi a vez de descermos em direcção à igreja de S. Pedro, essa igreja onde, de súbito, senti saudades de Cambeses. Trata-se de uma igreja muito bem conservada, cuja fachada, curiosamente, está pintada de verde-claro.

Já no interior, detivemo-nos por momentos junto da pia baptismal em granito, a lembrar um pouco aquela onde, em Cambeses, fui baptizada. Depois seguimos ao longo da ampla nave central, admirando os altares onde S. José, Santo António, O Arcanjo Gabriel e outros são venerados e, de súbito, ausentei-me desta terra malaia para ter, diante dos olhos da memória afectiva, Cambeses em “Dia de Passos”.

Foi um encontro inesperado esse, com as imagens do “Senhos dos Passos”, a “Senhora das Dores”, numa das capelas laterais, imagens colocadas em andores, semelhantes aos que, no primeiro domingo de Quaresma, saem da Igreja Matriz em solene procissão quaresmal. Imagens representativas de um mesmo catolicismo e, no entanto, diferentes como a expressão de arte, na Arte que lhes deu origem.

Era uma imagem do Senhor dos Passos em tamanho natural, tal como a existente na capela do Bom Jesus, vestida, não de veludo roxo mas de veludo púrpura, a cor da dignidade real. Tinha a mesma expressão sofredora sob o peso da enorme cruz de madeira, joelho dobrado pela exaustão a que o sofrimento levou.

As feições, porém, eram as de um homem oriental, de pele muito morena e olhos negros, diferentes dos da gente do ocidente, tais como o rosto da Senhora, um rosto de cor azeitonado, como o das mulheres malaias.

Mas não foi esta visão do artista que mais me impressionou. Impressionou-me sim, que este culto do Senhor dos Passos, que o mesmo é dizer do Senhor da Cruz, tenha resistido às viragens políticas, aos conflitos bélicos, às invasões de dominadores cuja religião oficial não era a católica, e continue ainda hoje, num país onde a religião oficial é a islâmica.

Por isso, ao sentir saudades de Cambeses, não pude deixar de me maravilhar também, perante este testemunho devocional, traduzido na Procissão que os andores me levaram a imaginar, não ao longo de um percurso difícil de percorrer como é o de Cambeses, mas antes pelas ruas planas de Malaca, à beira do mar, longe de Lisboa, onde a primeira procissão dos Passos, ao que se julga saber, teve lugar em 1587, dramaturgia da Paixão intensamente vivida pelos lisboetas, tal como ainda hoje o é pelos habitantes de Cambeses, tal como será pelos católicos de Malaca, seguidores de um catolicismo que os portugueses lhes levaram nesse longínquo tempo das caravelas, por vontade de El-Rei de Portugal.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 3 - 2- 1994

Reta Final


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Os Chapéus de Palha de Cambeses - Separata da “Barcelos – Revista” de 1991

Situada no extremo do concelho de Barcelos, é Cambeses limitada por freguesias de Braga e de Vila Nova de Famalicão.

É terra airosa e verdejante que, por encostas onduladas, desce qual cascata, ensolarada e colorida, até ao vale do Este, para de novo se erguer pela encosta fronteira, dominada pelo monte de Santo André.

O casario, quase todo situado na margem direita do rio Este, espalha-se por muitos e variados lugares, cuja toponímia nos oferece, ora nomes de certo modo elucidativos, como Carvalhal, Souto-Covo, Bouçó, Pomarinho, Azevinhos, Outeiro, ora nos brinda com nomes por vezes insólitos, como Brasil e Peneirada, sendo de destacar este último, como o lugar mais populoso da freguesia.

É sobretudo neste lugar, cujas razões para tal nome não podemos conhecer, que se manufacturavam e manufacturam ainda, em parte, os chapéus de palha de que iremos falar, e cuja matéria-prima é a palha de centeio, cereal este cultivado nas terras secas, onde, noutras eras se cultivava o milho-alvo, uma vez que, nesta muito antiga povoação de Cambeses, os seus habitantes sempre foram agricultores.

E a propósito da sua antiguidade, não queria deixar de referir que, nos primórdios da nossa nacionalidade, e por vontade política dos grandes de então, foi Cambeses anexada à Sé de Braga e, consequentemente, transformada num couto, um dos oito coutos que, no termo de Braga, tiveram lugar.

Aos habitantes deste couto foram concedidos benefícios e, consequentemente, exigidas obrigações, situações a que se acomodaram, assim vivendo séculos. Por lameiros e por encostas semeadas de carvalhais e soutos apascentavam os seus rebanhos, colhiam os seus frutos. Depois vieram os pinheiros e, dado o seu rápido crescimento, tornou-se mais rentável esta produção florestal, pelo que cedo, os vetustos carvalhos e castanheiros deram lugar a densos pinhais (daí o adágio: “velhacos e pinhais cada vez há mais”).

Mas não foi só nas encostas arborizadas que a transformação aconteceu. O aspeto dos campos também se foi modificando quando o centeio destronou o milho-alvo, rei e senhor das terras de encosta, para mais tarde, e juntamente com o milho dos nossos dias, dar origem à alimentícia broa caseira, de mistura, sobretudo.

Mas falar em centeio não é apenas falar em pão delicioso, escuro e nutritivo. Falar em centeio é também evocar as altas cearas de longos caules verde acinzentado, cearas que, nas tardes de maio ondulavam docemente aos ventos da primavera, em campos de encosta orlados por macieiras e cerejeiras bravas.

Falar em centeio é falar das alegres e penosas malhadas de julho, sob o ardor do sol estival, o corpo crivado de sarugas agressivas. Falar em centeio é falar em palha que os bois calcavam nas largas eiras, para a quebrar, e que depois, acomodada em rotundas medas, encimadas pelo capucho de palha e pelo ramo do fim de festa das malhadas, que ali aguardava a sua vez de acudir à alimentação do gado bovino, em tempos de escassez de pastagens.

Falar de centeio é falar de colmeiros de hastes longas que, acomodados em lugar enxuto, esperavam a sua vez de renovarem os gastos colchões de palha das casas de família, ou então de se tornarem abrigo protector, defendendo do áspero sol estival.

Portanto falar em centeio é falar em chapéus de palha, imprescindíveis para do sol proteger quem, sob os seus raios tem de trabalhar, nas duras tarefas do campo.

Não sabemos quem foi a primeira mulher que teceu, com seus laboriosos dedos, as primeiras braças de fita, utilizando as palheiras aparadas de nós, nem sabemos quem, com essa fita, fez o primeiro chapéu. Sabemos apenas que se trata de uma forma de artesanato quase tão antiga como o cultivo do centeio nesta freguesia, e que em Peneirada e Souto-Covo, lugares de denso povoado, eram numerosas as mulheres que entrançavam longos metros de fita de palha, tal como ainda hoje algumas o fazem, e com ela confeccionavam os chapéus que depois vendiam.

Mas, até que o chapéu estivesse pronto a ser usado, eram várias as tarefas a que esta forma de artesanato obrigava, sendo, como é óbvio, necessário, antes de mais, a obtenção da matéria-prima: - a palha do centeio. Assim, lá iam elas pela porta dos lavradores, regatear o preço de um colmeiro, se a fartura desta palha era evidente, ou suplicar a venda, se esta escasseava.

Feito o negócio, era o grosso colmeiro carregado à cabeça pela compradora e instalado em casa, ao abrigo das intempéries. Dele se ia retirando pequenas porções de palha, conforme as necessidades. E assim, haste por haste, esta traçada em palheiras de comprimento diverso, ou seja, do tamanho máximo entre dois nós de caule, desaproveitada que era a parte mais grossa, junto ao pé, e a parte mais fina, junto da espiga.

Obtido o molho de palhas de tamanho desigual, e com cerca de dez centímetros de diâmetro, era este posto a demolhar. Logo que as palhas se apresentavam macias e flexíveis, tiravam-se da água e punham-se a escorrer. Seguidamente a artesã enrolava-lhes uma faixa de pano grosso para se proteger da humidade e, colocando-as sob o braço esquerdo, ficava com as mãos livres para manufacturar metros e metros de fita entrançada, que ia dependurando no braço direito. Fita de seis palhas, de oito e até de doze, conforme a necessidade. E assim, minuto após minuto, lá ia crescendo a grande meada que, pendurada do braço, quase rentava o chão. Parada ou a andar, sempre os seus dedos se moviam com uma velocidade incrível, sem uma falha, uma distracção, para que a fita saísse rectilínea, de bordos impecáveis.

E quando a quantidade de voltas da longa meada era já intransportável para o braço que a sustinha, dava-se por terminada aquela tarefa e iniciava-se outra meada. Era então que os menos hábeis da família, geralmente crianças, de tesoura em punho, se lançavam nos acabamentos, ou seja, “tosquiavam” a fita, cortando as pontas das palhas entrançadas com todo o cuidado.

Depois era essa fita mergulhada em água para que, humedecida, se tornasse maleável, e iniciava-se então a confecção do chapéu, tarefa esta que só os mais hábeis executavam, pois exigia uma especial atenção, para que a copa saísse na medida justa, a aba direita, oval ou redonda, e os pontos da grossa linha de algodão muito certos, bem rematados. E assim, munidas de grossa agulha e fio de algodão, apoiando o trabalho numa mesa apropriada, lá iam cozendo os primeiros decímetros de fita, dando forma a uma copa redonda ou oval, de acordo com a qualidade da palha e o modelo que afeiçoavam constantemente, com os dedos ágeis, e com o auxílio de um maço de madeira, mais ou menos do tamanho da copa alta de alguns modelos de chapéu.

Quando a aba atingia a largura pretendida, era esta em alguns casos, orlada com um bico feito de fina trança de quatro palhas. Um bico simples ou elaborado em ziguezague, o que dava um aspeto rendilhado ao chapéu. Os chapéus mais antigos que se conhecem eram de copa alta, ligeiramente pontiaguda, e aba redonda. Depois surgiram outros de copa oval, suficientemente alta para se enterrar bem na cabeça, e de aba não muito grande e, evidentemente, oval, muito utilizados nos trabalhos agrícolas. Estes chapéus eram de palha mais grossa, trança geralmente de seis palhas.

Posteriormente surgiu um modelo de copa baixa e larga, aba redonda, enfeitada com uma fita de seda, e que era possivelmente imitação das capelines que as elegantes dos anos quarenta ainda usavam nas cidades. Estes chapéus eram de palha fina e de fino entrançado, de dez ou doze palheiras. Havia, nessa altura, os chapéus de palha ferrã que, como se sabe, é a palha, neste caso de centeio, ceifada antes de estar completamente espigada. Uma palha muito fina e branca, da qual se faziam chapéus mais elaborados, para serem utilizados fora do trabalho e quando o sol assim o exigia. Eram chapéus bonitos e delicados, branqueados em caixas fechadas, com o auxílio do fumo de enxofre, que ardia, devidamente acautelado, dentro da caixa, ao lado dos chapéus.

Havia ainda os “rambóias”, chapéus de entrançado em várias cores, e onde o vermelho, azul, amarelo, verde, etc., se cruzavam em fita, geralmente de palha menos fina e de seis palheiras, que eram tingidas em púcaros fervendo nas rústicas lareiras, as anilinas compradas numa qualquer drogaria de Braga ou Barcelos, e onde as palhas, devidamente aparadas, eram mergulhadas, para se obter assim a cor desejada.

Estes chapéus eram de copa redonda, não muito alta, e aba arqueada e pequena, chapéus alegres, a que o nome “rambóia” se ajustava muito bem. Com esta forma, mas em palha de cor natural, apareceu outro modelo, mais tarde, e que ainda hoje se usa, levando, geralmente, uma fita de seda azul-escura na copa.

Cada chapéu, e de acordo com o modelo, levava largos metros de fita de palha, que os dedos dessas mulheres agilmente coziam. E digo ”mulheres” porque esta era uma tarefa exclusivamente feminina. Se acaso algum homem, porque desocupado, se atrevesse a entrançar umas braçadas de fita, era de imediato objecto de troça dos seus conterrâneos.

Era, na sua maioria, gente das classes menos favorecidas, vivendo em casas de pedra solta e tabuado, quando não era só de tábuas, a casa, que mal os defendia da chuva e do frio.

De facto, as mulheres e filhas dos lavradores, as criadas das casas de lavoura e as jornaleiras diárias, não faziam fita nem cosiam chapéus, e olhavam de modo que poderíamos classificar de depreciativo, essas mulheres que se mantinham “de costas direitas”, embora os seus dedos laboriosos se mantivessem ativos todo o dia e parte da noite, em longos serões à escassa luz do petróleo.

Eram mulheres que raramente trabalhavam na lavoura, ocupadas dia e noite numa tarefa que seria fastidiosa se não se tratasse de uma ocupação que lhes permitia estarem sentadas ou passearem-se pelos caminhos da freguesia, atentas ao mais insignificante acontecimento. De um modo geral, qualquer facto era suficiente para lhes encher uma tarde de conversa, à fresca, nas tardes calmosas, à hora em que as outras se curvavam de suor pingante, para o chão humoso e exigente. Eram mulheres que revelavam um modo especial de pensar e de agir. Assim, lá iam pelos caminhos, passo lento e dedos ligeiros, olhos e ouvidos atentos, levando consigo, sob um braço, o molho de palhas húmidas e aparadas, a que já nos referimos, e do qual retiravam, palheira após palheira, toda a matéria prima de que necessitavam. E enquanto no outro braço, a longa meada de fita entrançada se tornava cada vez mais volumosa, o molho de palha ia diminuindo até se extinguir.

Numa comunidade de agricultores como Cambeses, não admira pois que as “mulheres da “fita” não gozassem de muita consideração. Elas eram diferentes das que, de estrelas a estrelas, andavam numa roda viva, da cozinha para as hortas e cortes, e dali para os campos. E estas, porque mais bem alimentadas, ginasticadas, ágeis e sempre atarefadas, não viam com bons olhos essas mulheres “da bisbilhotice e da preguiça” diziam, esquecendo-se que grande parte delas eram mulheres débeis, porque mal alimentadas. Mulheres bisbilhoteiras, não o eram com certeza na sua totalidade. Mas eram, pode-se afirmar, a gente mais pobre da freguesia, já que a quantia paga por cada metro de fita manufaturada era irrisória.

Para comercializar os chapéus, eram estes transportados em sacos enormes, pelo combóio que no apeadeiro parava, e os recebia no forgão, como se se tratasse de excedentes de bagagem de um qualquer passageiro, que neste caso era a mulher que os comercializava.

Depois houve alguém, na freguesia, que chamou a si e de forma organizada, este tipo de negócio, adquirindo os chapéus manufacturados durante o inverno, e que ia armazenando, para no verão os vender pelas feiras e casas comerciais. Mais tarde comprou uma máquina apropriada e os chapéus deixaram de ser cosidos à mão.

Deixou assim de ser puro artesanato, uma vez que a máquina passou a ser utilizada. Outros modelos vieram. Passou-se a fazer sacos de praia, seiras, etc., e a comercialização aumentou, ao mesmo tempo que esta forma de artesanato se tornou sofisticada, menos pura.

No entanto a fita de palha, essa continua a entrançar-se em Cambeses, manualmente, tal como há cinquenta anos, sessenta e muitos mais talvez. Possivelmente há mais de cem, como ainda há bem pouco tempo um quase nonagenário desta freguesia afiançava.

Porque os chapéus de palha de centeio, nesta era dos plásticos, não puderam ainda ser substituídos com total êxito, por qualquer matéria prima sintética, acreditamos que esta forma de artesanato, poderá continuar a ser minimamente rentável para quem dela se queira ocupar.

Mas tirando as mais idosas, que ainda em Cambeses fazem “fita”, depois delas será difícil encontrar quem pela fita de palha se interesse, pois que da gente nova, e até de meia-idade, poucos serão os que desta forma de artesanato se ocupam agora, dada a sua falta de rentabilidade. Preferem ocupar-se de outras profissões mais rentáveis, como é óbvio que as há, felizmente para eles. Isto sob o ponto de vista económico, evidentemente.



In Barcelos – Revista, 2ª Série - 1991- Nº 2. Director Sebastião Matos. Barcelos, Câmara Municipal, págs. 223 – 229.