sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Goa, a terra e o mito, 1994





Publicado em 1994, com o patrocínio da Câmara Municipal de Barcelos, capa e desenhos de Agostinho Santos e prefácio do jornalista Jorge Massada, que transcrevemos:

"Fascinação é a palavra-síntese. Descobrir Goa provoca sensações estranhas, como se aquela terra sempre tivesse estado dentro de nós e apenas disso nos apercebemos quando aterramos no aeroporto em Vasco da Gama.
O livro de Maria do Pilar Figueiredo é uma obra de sensações e apontamentos. Aquelas estão expostas, abertas, ao longo de páginas tornadas possíveis por apontamentos guardados ciosamente, para que nada falte.
Pequena viagem interior dentro de outra viagem, o texto de Pilar Figueiredo constitui simultaneamente um registo e um convite. Roteiro de dias corridos de surpresa, em que passado e presente se misturam numa simbiose inimaginada, é também um desafio: levar o leitor a querer embarcar na aventura, a não ficar em terra, a ver os Sousas, os Sequeiras, os Rodrigues do Mar Arábico, falando um português de canela e pimenta, doce e picante.
A viagem que Pilar Figueiredo narra com aquele carinho especial dado às coisas mais íntimas ocorreu na segunda quinzena de Abril de 1994. Quer isto dizer, em pleno verão goês, sob um calor e humidade intensos.
Nela participaram 61 pessoas, um grande grupo que, embora organizado sob a tutela do Clube de Jornalistas do Porto, não mantinha laços de especial amizade entre si, nomeadamente antes desses 15 dias vividos na antiga colónia portuguesa.
Apesar de várias manifestações passadas em conjunto, Maria do Pilar Figueiredo trata-as com um olhar muito pessoal. Diria que o faz com paixão, manifesta, alias, na riqueza de pormenores que enxameia o livro, alguns deles eventualmente só inteligíveis para quem os viveu.
Não haverá muita literatura de viagens em Portugal.
Também por isso a obra vem preencher uma lacuna ainda mais visível no que respeita a Goa.
Curiosamente, o trabalho de Pilar Figueiredo surge num momento em que a redescoberta do Estado indiano parece começar a sentir-se entre nós.
Há 33 anos que Goa passou a fazer parte da União Indiana.
A língua portuguesa foi caindo, progressivamente, em desuso. Mas resiste ainda, fruto do labor de uma geração que, um tanto inesperadamente, encara Portugal como a sua segunda pátria ( e só um certo pudor nos impede de  dizer que muitos goeses sentem o nosso país como a sua primeira pátria).
O livro de Maria do Pilar Figueiredo quase nos leva a pensar que esse hiato de 33 anos nunca existiu. Há uma nova realidade política e administrativa, obviamente. Mas existem fortes laços culturais, diriamos mesmo, uma atração fatal, com 496 anos de história."

"Trata-se de um itinerário minuciosamente escrito e com o sabor especial de quem transmite imagens ao vivo daquilo que atentamente observou. (...) De salientar o capítulo X, o qual abrange uma área de riqueza vocabular exemplar." - Alexandre Cabral, 18/12/94



quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Madrid, 1968


Nos Cem anos de Garcia Lorca (1998)



ECOS


Junho. Fuentes Vaquero. Cais da tua chegada.
Havia sol ou estrelas? Que cantos de Junho soaram, na voz tremida dos
ralos ou no ócio das cigarras? Cantos bem cedo promessa, em tempo de verdes frutos, odores de tenras searas:

Verde que te quiero verde
Verde Vento, Verdes ramas

Azul de voos razantes. Fogem dos ninhos, as asas... Chão de musgo.
Pedra nua.
Verde de água. Verde mar.

II

Pelas campinas abertas, correm cavalos bravios: Soltas crinas, solto freio.
Perde-se no tropel, ao longe, a voz que o sonho alimenta.

Se ha levantado el viento que nunca duerme.

Traz consigo o desassombro. Sacode a raiz, os ramos. Espalha a raiva e o lume.

III

Agosto de sol e cal.
Vozes de morte já soam pelas ruas de Granada. Torna-se a noite mais noite.

Como canta la zumaia, ay cómo canta en el arbol!

O medo. A fuga impossível. As grades. Inquieta espera na madrugada
remota. Flechas de fogo apontadas nos canos das espingardas

Ya mi talle se ha quebrado como caña de maíz.

Rosas vermelhas, ai quantas, levas no peitilho branco!
Já cobre a erva, em silêncio, o cinzento do teu corpo. Chão de azuladas
penumbras eriçadas de silêncio, esse chão onde ficaste.

Silêncio de cal y mirto. Malvas en las herbas finas.

Ninguém mais soube de ti.

IV

Gloriosas, transmudaram-se as cinzas, entre gessos e jasmins. Perdem 
sombras, ganhem sóis.
Corre o vento, em seu destino, milhentos nós de distância. É o tempo das 
crisálidas.
Libertos, sobem no azul, ecos da temida Voz. Como asas. Como nuvens,
Ou como estrelas.

Los muertos son mas fuertes y saben devorar pedaços de cielo.