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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Após um curto afastamento das páginas deste jornal, o qual se deve apenas aos muitos afazeres que estas coisas da literatura sempre nos atiram para os ombros (porque nem sempre o ato de escrever se pode reduzir à alegria de criar) por tudo isto, repito, tive de fazer uma curta pausa neste género de escrita, que talvez se prolongasse, se um telefonema amigo não me tivesse feito saber que a minha ausência era notada por alguns leitores, o que me desvaneceu (perdoem a vaidadezinha).

E agora aqui estou, cheia de boas intenções, que é como quem diz, animada do firme propósito de ser mais pontual na publicação das minhas singelas crónicas, que outro jeito não sei.

Claro que não poderei deixar de falar de Cambeses, terra das minhas raízes, presentes tantas vezes nos meus livros, com os nomes que para ela invento. Ainda há pouco, falando eu de Cambeses, numa roda de gente das Letras, me disseram em jeito de provocação, que eu era de uma “terra de escritores” evocando, como é natural, o nome do maior de todos nós, que é o escritor Vítor de Sá, personalidade que o País conhece e admira, dada a extensão da sua obra literária, a sua carreira de investigador e de pensador.

Homenageado em vários pontos do País, nomeadamente em universidades, como me foi dado assistir na Universidade do Porto, o Dr. Vítor de Sá, é praticamente ignorado em Barcelos e, sobretudo, em Cambeses.

No entanto, ele tem um afeto muito especial por Cambeses, julgo poder afirmá-lo. Nota-se na atenção com que ouve e lê tudo o que de Cambeses lhe dá notícia. Ele próprio, escrevendo tem citado, ao referir o tempo da sua infância, os anos que viveu em Cambeses, terra de seu pai e do pai de seu pai, e na memória guarda imagens da grande casa do seu avô, os hábitos de então, a gente cujo viver era bem outro.

E citando este ilustre filho da minha terra, não posso deixar de citar um outro que, sendo da mesma família, tem uma dimensão acentuadamente diferente, porque diferentes foram as circunstâncias que o rodearam ao longo da vida, dificultando-lhe a necessária preparação académica. Trata-se da veneranda figura que, em Cambeses tem ainda muito quem o recorde, e se chamou Camilo Gomes de Sá, e deixou testemunhos escritos de certa importância para a história recente da sua terra natal.

Mas para além destes dois há ainda uma outra escritora, baptizada em Cambeses, jovem ainda, mas já com um livro de ensaio literário publicado, e premiado e, consequentemente, com o seu nome nos ficheiros das bibliotecas do País.

Outros haverá, porque a Casa do Paço acolheu, nas suas venerandas e desaparecidas paredes, homens de cultura e de Saber, que se empenharam para que a vila de Cambeses fosse uma das primeiras destas redondezas a ter escola, e que a população se enriquecesse pelo Saber.

Foi assim que eu defendi, expondo factos concretos, a minha terra, que nem sempre tem sido direccionada para outros bens que não sejam os materiais, daí a ausência de uma só que seja, associação de índole cultural, quando noutras freguesias (e eu poderia citar nomes) se olha e estima esse bem comum que é o património cultural de uma terra, mesmo que essa terra seja uma aldeia idêntica a esta simples freguesia rural, que há muito deixou de ser vila.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 14 – 12 – 1995

sábado, 5 de novembro de 2016

Estive há pouco numa vila raiana, antiga fortificação militar, onde assisti a um simpósio que podia ser um simpósio igual a muitos que, nesta especialidade ou naquela, sempre vão acontecendo pelo país fora.

Mas não era um simpósio igual a tantos, e a diferença estava precisamente na VOZ. Voz que, naqueles três dias, que foi o tempo que o simpósio durou, se fazia ouvir para lá das palavras. Não era a voz das pedras gastas pelos muitos passos que as percorreram, nem a voz dos que, em defesa da vila, ou melhor, da pátria, ali tombaram.

Naquelas horas de estudo e de reflexão, a VOZ que se fazia ouvir, muito forte, muito pura, era simplesmente o apelo das raízes. Não é produto de retórica nem simples devaneio, isto que aqui se afirma, porque a VOZ estava lá, real, nas vozes dos que, serenamente, falavam do amor à terra. Amor dito com palavras e comprovado com factos.

Estava no empenho de uns quantos, decididos a que a vila cresça, mas de forma harmoniosa, sem agressões no seu património arquitectónico. Decididos a que o concelho progrida economicamente mas longe dessas ambições e sofreguidões que destroem os bens essenciais à vida, como o é a água, para não falar noutros. Decididos a que o concelho se modernize sem prejuízo da sua identidade cultural.

E sei que o vão conseguir (e muito conseguiram já) porque estão tomados de amor à sua terra, obedientes à voz do sangue, presos pelas raízes que, naquele chão pedregoso se afundam. E embora poucos, eram muitos, porque fortes e esclarecidos.

E julgo não usar de indiscrição se, para melhor exemplificar, identificar alguns deles, dos quais destaco o presidente da edilidade, homem dali, da terra beirã de seus avós, ali nascido e embora mais tarde radicado em Lisboa, tudo lá deixou para, na sua terra, melhor lutar por ela.

Presidente eleito e reeleito sucessivamente, não porque é deste partido ou daquele, mas porque é o Homem que as populações idealizaram e querem. Homem que sobe, incansavelmente, escadas dos ministérios de Lisboa, que percorre corredores, que espera à porta dos gabinetes e, como não se resigna a regressar de mãos vazias, volta daí a pouco a atravessar o Terreiro do Paço, a subir escadas, a esperar à porta dos gabinetes, e tudo o mais é secundário para ele.

Um outro homem digno de menção era alguém que do Brasil tinha vindo, propositadamente, para ouvir falar da terra de onde partira menino ainda, ele que, mesmo longe, jamais deixara de se documentar sobre a sua terra, o que lhe permitira já escrever dois livros sobre a sua história. E falava em doar a sua biblioteca, que julgo valiosa, e falava em Casa de Cultura, em animação cultural dentro daquelas históricas muralhas.

Igual entusiasmo se via na voz do ilustre compositor, professor de música e padre, que fez questão de nos levar a ouvir música da sua aldeia “a aldeia mais pequena de Portugal”, segundo disse. E havia o exemplo espantoso daquele jovem casal, ele arquitecto e ela professora de inglês que, deixando Lisboa onde nasceram, cresceram e estudaram, se vieram instalar naquela terra que era a dos seus antepassados, para darem uma nova vida à velha quinta de família, até aí semiadormecida no tempo.

Não se julgue que é romantismo ou simples devaneio o que ficou dito. É uma realidade que tive o privilégio de constatar numa terra beirã que Lisboa não consegue esquecer porque ela está lá constantemente a bater-lhe à porta, a acordá-la, essa terra corajosa. Terra onde a natureza é madrasta se a compararmos com a nossa, esta terra barcelense, terra humosa, de verde e de sol, terra a que Cambeses pertence.

E sobre este assunto muito mais se poderia dizer. Mas talvez o que foi dito seja já suficiente para que alguns sobre o assunto se demorem e possam reflectir sobre os valores que aqui se defendem, se ainda estão suficientemente libertos para o fazerem, evidentemente.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 10 – 12 – 1992

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Não sei de onde partiu a ideia. Mas se não foi da igreja diocesana, teve pelo menos o seu beneplácito. Refiro-me ao actual costume de encimar igrejas e capelas com uma simbólica cruz cristã, constituída por lâmpadas, e que na noite das zonas rurais, sobretudo, brilha como uma mensagem de esperança e já não nos surpreende. 

Surpreendente foi, na noite coreana, por entre a profusa iluminação da cidade de Seul, termos deparado com algumas cruzes da religião cristã, traçadas a verde pela luz das lâmpadas elétricas. E olhando-as era como se estivesse do outro lado do mundo, e olhasse a cruz que, no alto da capela do Bom Jesus do Monte, brilha luminosamente verde, como mensagem de esperança para esta terra conhecida ainda hoje por Couto de Cambeses, embora do couto que foi, nenhuma memória em pedra haja já, a não ser o portão armoriado, aquele que dava entrada para essa casa carregada de história, onde a Justiça e a administração funcionaram durante séculos.

Mas voltando ao assunto inicial, que é o culto da religião católica em Seul, foi-nos dito por Pedro, o nosso guia asiático, que as religiões cristãs, católica e protestantes, têm muitos fiéis nessa cidade, cuja população excede a de Portugal. Ele próprio nos disse ser católico, daí a explicação para o seu nome, o nome do apóstolo. Daí também a explicação para as cruzes luminosas sobressaindo na noite coreana, como um sinal do Divino.

E, se por si só este facto dá da cidade uma imagem carregada de beleza espiritual, igualmente belo é o facto de povos que seguem credos diferentes como são os dos cristãos e, de entre outros, os confucionistas e budistas, que aqui têm os seus templos e, igualmente muitos fieis, viverem num clima de paz e concórdia, onde a mútua tolerância religiosa, a compreensão e a boa vontade não são palavras vãs numa cidade que, seria de admitir, estivesse muito materializada, dado o seu espectacular progresso, sobretudo a partir da preparação para os jogos olímpicos que, como se sabe, aqui tiveram lugar em 1988.

É, de facto, uma cidade que cresce continuamente e onde os altos prédios de dezenas de andares fizeram de Seul uma cidade moderna, sem no entanto deixar de conservar o mais possível os edifícios antigos, os parques arborizados, os museus e palácios e, sobretudo, as velhas igrejas protestantes e católicas, bem como os templos budistas, para que a cidade não se descaracterize, não perca a sua alma, para se devotar apenas ao lucro desenfreado, ao crescimento selvagem, como acontece entre nós, em cidades e aldeias até.

Todos nós conhecemos ou ouvimos contar casos de igrejas que se descaracterizam em nome do progresso, de prédios veneráveis porque carregados de história, os quais se arrasam porque não dão o rendimento que apetece, etc., acontece todos os dias bem perto de nós, quanta vez, às escâncaras, ou subtilmente ao abrigo de leis que se invocam e, por vezes podem ser interpretados segundo conveniências particulares, com absoluta indiferença pelo património cultural de uma comunidade.

Porque, acima de tudo, para uma certa camada social, o que interessa é o lucro que protege a imagem, o “parecer em detrimento do ser”. O que por vezes, sendo dispendioso é também doloroso, se acaso os sinais exteriores de riqueza não coincidem com a verdade. Estes, para quem a simbologia da cruz, luminosamente verde, tem muito menos importância que a luz real, utilitária, que emana dos vários faróis dos seus potentes carros.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 17 – 2 – 1994

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Há sempre algo a aprender quando visitamos uma terra, quando tomamos contacto com um povo até aí desconhecido. E, muito mais ainda, se se trata de uma civilização de milénios, sempre viva, apesar de todas as vicissitudes que a História registou e as lendas guardaram, como é o caso da civilização chinesa.

Fieis às suas leis ancestrais e aos seus princípios espirituais, eles aí estão, inalteráveis, apesar de tudo, no cumprimento daquilo que consideram os seus deveres, e onde incluem, a par do culto dos antepassados o respeito pelos idosos, os laços familiares.

E, de súbito, vem à memória a imagem que foi possível colher de relance dos cemitérios chineses que vimos dispersos pela Malásia. Sobretudo um deles, na “Colina da Princesa”, em Malaca, chamou-nos a atenção pela sua extensão, e a propósito do qual nos disseram ser o maior cemitério chinês fora da China. Trata-se, realmente, de um cemitério muito extenso, sem o espetro geométrico dos nossos mármores floridos, rigorosamente alinhados, e dos nossos cemitérios ocidentais, dominados, quanta vez, pelo desejo de um certo luxo ostentatório e onde se chama de “entes queridos” aqueles que morreram quase na solidão, ou mesmo na solidão, na fria indiferença de um lar de idosos, longe dos seus familiares.

Nos cemitérios chineses, geralmente em colinas desabrigadas, apenas se vê, assinalando as sepulturas dispersas, um semicírculo em betão ou tijolo revestido a argamassa, tendo no centro uma lápide com o nome, em caracteres chineses. Poderia parecer desleixo ou indiferença pela memória dos familiares se não soubéssemos a importância que o culto dos antepassados tem para eles, bem como o respeito pelos velhos que continuam a escutar como os detentores da experiência, que o mesmo é dizer sabedoria. E porque são escutados e respeitados, porque a sua presença é desejada e eles o sabem, não precisam, os velhos, de ser agressivos, exigentes, intolerantes, porque a família está lá por perto para os atender e amparar.

Mas sendo cuidadosos com os velhos, não deixam, também, de ser solidários entre si. E é sobretudo no estrangeiro que essa solidariedade mais se nota, entre eles, sendo bem conhecido esse conceito com que os outros os distinguem: “Onde estiver um chinês, é esperar, que uma centena deles não tardará a chegar.”

É a importância dos laços familiares a estender-se também colateralmente, a despeito de todas as limitações que as atuais leis, que todos conhecemos, impõem. Solidariedade que espanta a quem os observa. Será porque, desde sempre, as atribulações e o sofrimento estiveram na vida da população, excluindo as camadas ditas superiores?

Seja como for, é difícil para nós, ocidentais, compreender esse povo que, desde sempre, tão fustigado tem sido, até pela própria natureza. (Basta dizer que, em Agosto, em Pequim, as temperaturas do ar são superiores aos 40 graus, e, no inverno, quando a noite vem, o termómetro desce aos 20 graus negativos). E assim sendo, que mais dizer?

Será que a solidariedade só é autêntica quando o sofrimento é colectivo?


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 14 - 4 – 1994

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A alteração do título desta nova série de crónicas não significa que a qualidade de vida em Cambeses tenha deixado de estar presente nas minhas preocupações. Nem tão pouco significa que deixei de acreditar numa melhor qualidade de vida para Cambeses, no que respeita à preservação dos seus valores culturais, bem como na adoção de outros que possam complementarizar os ainda existentes.

Porque uma freguesia como esta, que foi na região de Braga e Barcelos, uma das primeiras a ter a sua “escola das primeiras letras”, não pode, agora que tem melhor nível de vida, economicamente falando, deixar desaparecer a herança legada por esses antepassados que, em Cambeses, lutaram por um melhor nível de vida cultural para os seus habitantes.

Porque nunca é demais repeti-lo, uma terra como esta, mais antiga que a nossa nacionalidade, uma terra durante séculos ligada estreitamente à Sé de Braga, não pode esquecer os valores espirituais que a ela sempre presidiram, em momentos difíceis da sua história.

E já que não resisti a falar de valores espirituais, seria injusto se não louvasse aqui uma associação ou, mais exactamente, uma confraria velha de séculos, que através dos tempos chegou até nós bem estruturada, ciosa de bem cumprir, no respeito pelas leis ancestrais que os regem, que o mesmo é dizer, pelos bens espirituais que cultivam.

Estou a referir-me, como não podia deixar de ser, à Confraria do Senhor dos Passos que, sem subsídios nem apoio de entidades oficiais, mas unicamente pelo sacrifício e devoção aos irmãos da Confraria, sempre, em cada primeiro domingo da quaresma, levam a efeito as solenidades dos Passos, as primeiras da Diocese.

Sempre em cada novo ano que surge, tudo corre normalmente, sem atritos nem desacertos entre eles, porque alimentados pela força das raízes ancestrais, que as seculares leis lhes transmitem.

Aliás, é sobretudo através das velhas e fundas raízes que as grandes árvores melhor se sustentam e sustem de pé.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 26 – 11 – 1992

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Nunca foi minha intenção falar aqui do escritor Virgílio Ferreira, porque nenhum laço o prende a Barcelos, nem sequer ao Minho, embora saibamos que um escritor dessa dimensão não é pertença exclusiva da terra onde nasceu e viveu. Ele é de todo o mundo.

Mas hoje, ao passar um primeiro olhar pelo Jornal de Barcelos, deparei com a pequena nota, que também poderá ser notícia, da responsabilidade de Virgílio Ferreira, na qual se apontava para o exemplo da Faculdade de Letras do Porto, que não esperou pela morte desse grande escritor, para o homenagear em vida, trazendo até lá estudiosos da sua obra, vindos de diversas partes do mundo, que sobre ela falaram para todos nós.

E porque eu estive lá, na qualidade de participante convidado, e conservo ainda nos olhos e nos ouvidos todo o deslumbramento do que foram esses três dias, não posso deixar de aqui dar o meu testemunho e falar sobretudo da minha emoção que durante esses dias, no tempo de que pude dispor, ter convivido com esse homem de letras que, sendo gigante, se apequenava na sua simplicidade e na tranquila singeleza com que, apesar da enorme fadiga que situações do género por vezes acarretam, sempre esteve presente.

Simpático, atencioso e paciente para com todos os que, sempre que possível, se lhe dirigiam para o cumprimentar, para lhe falar, para o louvar, assim se manteve inalteravelmente, talvez porque é o senhor de uma consciência serena, nos seus 77 anos, completados no primeiro dia do Colóquio. Uma vida já longa de que falou, na sua singeleza tão natural, uma vida com futuro, enquanto os Altos Desígnios assim o permitirem.

Não vou falar aqui do escritor, e muito menos da sua obra literária, que ele continua a produzir, e da qual disse, a propósito, que se passava com ele o mesmo que com a “Académica” da sua mocidade, quando todos entusiasmados com os golos a seu favor, pediam em coro “ Mais um, mais um!” Pedido que a ele sempre fazem: “mais um, mais um livro!”

E foi neste espírito de entusiasmo e admiração que, no final do jantar, que teve lugar, no Hotel Sharaton, os presentes (e muitos eram, e de várias nacionalidades e condição) o aplaudiram na despedida, com um coro de “Mais um, mais um, Virgílio!” quebrando deste modo os formalismos e “poses” que um espaço físico como aquele por vezes impõe.

Alguns dias passaram já e a emoção vai serenando para dar lugar à reflexão. E por isso hoje, ao ler a nota do Jornal de Barcelos sobre Virgílio Ferreira, não pude deixar de pensar nos que em Barcelos, saberão quem é porque, mesmo sendo bastantes, é sempre uma parcela muito pequena da sua população. No entanto, outro seria o panorama, se Virgílio Ferreira fosse nome de jogador de futebol ou hóquei, de político da moda ou até um desses que se passeiam ao volante de carro de alto preço, preocupados com os sinais exteriores da sua fugaz e inglória riqueza. Sim, porque a riqueza do escritor agora homenageado não é fugaz nem inglória, nem se perde pelas aparências.

Quem se lembra dos poderosos contemporâneos de Fernão Lopes, exceptuando aqueles que o seu testemunho escrito deu vida ao longo dos séculos?

Mas voltando ao tema da notícia, que foi consequentemente tema desta crónica, eu direi apenas que este desinteresse pela literatura, por certos valores espirituais, é muito da responsabilidade do Poder que, salvo as excepções que confirmam a regra, tem tendência a investir no que de imediato poderá dar dividendos, que o mesmo é dizer “votos”. Pondo de parte a educação de um povo que olha o livro como um objecto a esquecer após a escolaridade obrigatória.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 18 - 2 - 1993

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Poderá parecer descabido falar aqui de um colóquio que teve como finalidade homenagear Miguel Torga, um escritor transmontano.

Mas embora nada pareça justificar estas linhas num jornal de Barcelos – excluindo evidentemente a dimensão do escritor, que não é só de Trás-os-Montes nem de Portugal mas de todo o mundo, como foi afirmado mais de uma vez pelos oradores - eu vou falar desse colóquio, que teve o seu início no Porto e o seu encerramento em Vila Real, na Universidade de Trás-os-Montes.

Momentos houve, durante o colóquio, dignos de serem aqui referidos, mas apesar disso vou relegá-los para segundo plano, e colocar em primeiro os acontecimentos que, em S. Martinho de Anta, aldeia onde o escritor nasceu e cresceu, tiveram lugar: Ali chegados, com significativo atraso, foi o espanto a primeira sensação que nós, componentes da extensa caravana automóvel, experimentámos ao depararmos com a aldeia em peso, que ali esperara pacientemente e com alegria nos recebia, acompanhada pelos sons festivos de uma banda de música e o estalejar de foguetes.

Espanto maior seria, para os estrangeiros, gente de gabinete e de cidade, para quem aquela cerimónia exuberante tinha o seu quê de insólito, e os deixara atónitos primeiro e deslumbrados depois. E digo “deslumbrados” porque o deslumbramento estava-lhes estampado no rosto, ao incorporarem-se, sem hesitações, no cortejo, à frente do qual a banda de música e os homens da Junta de Freguesia seguiam, em direcção à pequena casa onde Torga nasceu.

E ali, diante dessa casa singela, que Torga nunca quis transformar em casa espectacular - ali, dizia eu, a banda terminou a sua partitura, sob o olhar atento e respeitoso da multidão. Depois foi novamente o desfilar pelas ruas da aldeia até ao largo principal, onde citadinos e rurais, ombreando, se apinharam sob os olhares entusiasmados dos que pejavam as janelas que se abriam para o largo, correspondendo com acenos e sorrisos aos acenos e sorrisos que, sobretudo os estrangeiros, lhes dirigiam, como se todos eles fossem familiares do grande escritor.

Um largo de casas antigas, bem cuidado, tal como o nome de Torga exige, esse largo onde exerceu clínica e onde se patenteou, ao olhar curioso dos visitantes, reconstituído por acção da Junta de Freguesia, com móveis oferecidos por Torga, testemunhos de uma vida vivida verticalmente.

E foi então que a tuna estudantil, que do Porto viera, exteriorizou o seu entusiasmo e, acamaradando com os componentes da banda em improvisadas peças musicais, deu largas à sua natural euforia. E as saudações académicas, soando no largo da aldeia, nada tinham de insólito porque todos, cada um a seu modo, comungavam desse entusiasmo, dessa emoção. E já mais tarde, no edifício novo da escola, uma vez mais a surpresa aconteceu, no Porto de Honra que esperava os visitantes. Não pelo Porto, servido, - que de tantas vezes acontecer a qualquer um daqueles visitantes, quase se banalizara – mas antes porque algo havia ali de diferente. Não no vinho (de óptima qualidade) mas no carinho, esmero e atenção postos em todos os detalhes com que esse Porto foi servido, acompanhado de doces caseiros que – via-se – mãos femininas da aldeia haviam confeccionado, prestando assim colaboração pessoal, inestimável, à junta de freguesia incansável, sobretudo o seu presidente, orgulhoso e feliz.

Depois foram os discursos, os cumprimentos e agradecimentos de parte a parte. Mas o que mais impressionava era o orgulho patente em muitos rostos, sobretudo em alguns elementos da Junta, por sua freguesia estar ligada ao nome de Miguel Torga. E julgo poder afirmar que tinha sobejas razões para isso. Sem querer fazer futurologia, julgo poder afirmar, também, que é uma honra que se irá prolongar por muitas gerações.

Porque o valor de Torga não é efémero, como o de tantos ídolos que, apoiados pelos meios de comunicação, escudados pelo dinheiro, todo o país conhece agora e vai esquecer amanhã. O valor espiritual de Torga está reflectido na obra que ele produziu. E por isso quase se poderá dizer, sem cair no pecado de exagero, ser ele um daqueles homens, citados por Camões, um desses que “…por obras valerosas se vão da lei da morte libertando.”


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 26-6-1994


quinta-feira, 22 de setembro de 2016


Creio que já citei aqui aquela frase ouvida não sei onde: ”Um país constrói-se com homens e com livros”, frase de que me recordei ao ler um artigo, no “Jornal de Letras”, intitulado “Livros e editores”.

Desse artigo, que me deixou pensativa mas não surpreendida, transcrevo aqui uma pequena parte: “Na Noruega e na Alemanha, cada habitante gasta cerca de seis vezes mais em LIVROS do que um português; mesmo em Espanha, gasta cerca de três vezes mais. Portugal está em último lugar, a esse nível, entre todos os países da União Europeia”.

Mesmo tendo em conta os erros de que as estatísticas por vezes padecem, julgo podermos acreditar que há um fundo de verdade nessas afirmações.

E a propósito sou tentada a, um pouco malevolamente, pôr no ar esta interrogação:

- Como vai Barcelos em relação à aquisição de livros?

Evidentemente que não me estou a referir àqueles ricamente encadernados e ilustrados, de alto preço, colocados nas estantes como qualquer outro objecto de adorno, e que estão de acordo com a mobília e o carro de boa marca. Estou sim, a referir-me aos livros que se compram para serem lidos, manuseados, gastos.

Pertencemos a uma geração em que o verbo “ter” e, pior ainda, o verbo “parecer” são conjugados frequentemente, em detrimento do verbo “ser”. E isto acontece até mesmo com aqueles que obtiveram um diploma académico. De facto, muitos deles puseram de parte ideais juvenis, onde a cultura tinha um lugar importante, para acabarem exactamente como os outros: aqueles que, não tendo grande riqueza interior, se preocupam sobretudo com os sinais exteriores de riqueza.

Claro que não podemos esperar que uma cidade, de um momento para o outro, mude os seus hábitos, adote outros ideais, que aprenda a considerar como valores, outros que não só o cifrão, o futebol, o poder político, porque todos eles são extremamente frágeis, falíveis e efémeros até, ao passo que o enriquecimento cultural do indivíduo é perene, ou melhor, dura enquanto a sua vida durar, pelo menos.

Senão vejamos: quem dá notícia hoje dos poderosos contemporâneos de Camões, Garcia da Orta ou Grão Vasco?

Ou, a nível da nossa terra, dos que nos deixaram, quem fala deles, desses poderosos contemporâneos, por exemplo, do nosso eternamente jovem, o poeta António Fogaça? E desse longínquo Garcia de Guilhade?

Poderia deixar aqui muitos outros nomes barcelenses, mas estes chegam para exemplificar. E além disso correria o risco de ser considerada moralista, o que não é minha intenção.

Mas já que comecei por falar em livros, quero aqui lembrar que a FEIRA DO LIVRO de Barcelos está à porta. Não têm descanso já, aqueles que assumiram a responsabilidade de a organizar. Bom seria que muitos mais começassem a aprender o que é o LIVRO e correspondessem, em igualdade, ao entusiasmo sério dos que destas coisas se ocupam, e deste modo dão prova de uma certa riqueza interior.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 16-6-1994


quinta-feira, 14 de julho de 2016

DAQUI, DE CAMBESES


Ao tentar reconstituir a História desta terra que já se chamava Cambeses antes do nosso primeiro rei se chamar Afonso, ao tentar reconstituir a sua vida, ao longo de séculos, de uma coisa não temos dúvida: - que foi terra poderosa se tivermos a coragem de a comparar com a aldeia rural da primeira metade deste século, uma aldeia cheia de privações e carências de toda a ordem.

Terra de tal modo abandonada pelo poder, que os habitantes diziam, por chalaça, que a Câmara se tinha afogado debaixo da ponte e que já não existia, pelo menos para a freguesia de Cambeses.

Hoje o panorama é diferente do princípio do século, apesar de nessa altura existir já uma estrada a atravessar a freguesia, uma linha de caminho-de-ferro e uma escola. Mas a estrada desse tempo, que levou a completar mais de 70 anos a completar, só em 1972 se pode considerar uma estrada minimamente aceitável.

Quanto ao caminho-de-ferro, quando ele aqui chegou, foi apenas para cortar campos produtivos, demolir muros, fazer trincheiras e aterros que desfiguraram a paisagem sem que os seus habitantes lucrassem visivelmente com tais sinais de progresso. Só mais tarde os representantes do povo viram os seus esforços coroados de êxito com a criação do apeadeiro, num lugar onde a estrada atravessa a linha e onde, desde então, sempre houve guarda da passagem de nível. Por uma curiosa coincidência, o lugar onde se situa o apeadeiro já se chamava “lugar da guarda” muito antes de a freguesia sonhar com a estrada e muito menos com o comboio. Talvez o topónimo “guarda” esteja relacionado com o funcionamento da administração do Couto. Não sei.

Sei, isso sim, que Cambeses é hoje uma terra regularmente servida por transportes ferroviários, que a população largamente aproveita para se deslocar aos seus empregos, nas cidades mais próximas ou, no que diz respeito à população mais jovem, para frequentar estabelecimentos de ensino. Quanto ao ensino primário, tem como se sabe, uma escola moderna, com capacidade, segundo julgo saber, para o triplo dos alunos que, como em toda a parte do país, cada vez são menos. Tem estradas pelo interior da freguesia, novas, embora de traçado irregular, com lombas e curvas que poderiam talvez ser atenuadas, se tivesse havido uma maior fiscalização e cuidado na construção das mesmas. Acabaram-se as fontes de mergulho na quase totalidade, e as suas águas continuam, milagrosamente, a ser boas.

Daqui se conclui que, em alguns aspectos, a qualidade de vida melhorou espectacularmente em Cambeses. Aspectos materiais, sobretudo. Mas, e os outros valores?

De entre eles, atrevo-me a perguntar pelos valores espirituais (não os religiosos, porque estes me ultrapassam) valores que vemos cultivarem-se em muitas freguesias do Concelho e que são remédio para a ameaça do individualismo a que muitas terras estão condenadas, valores espirituais como sejam as diferentes formas de arte e cultura.

Não há um grupo etnográfico, nem coral (à exceção do que atua, e muito bem, nos atos de culto da igreja paroquial). Nem grupo de teatro, nem uma biblioteca, por pequena que seja. Nem, o que é importante, um simples centro paroquial, de convívio, que pudesse atenuar esse individualismo frio, materializado e exibicionista, porque negativamente competitivo, que domina a actual civilização e à qual Cambeses, como muitas outras aldeias, começa a entregar-se.

Porquê esta passividade?

Publicada no jornal de Barcelos em 14-7-1992