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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Ao evocar aqui as ruas de Margão ou Pangim, não posso ignorar as chamadas “casas portuguesas”, casas de certo modo imponentes, com as sacadas a nível do primeiro andar sobre a rua e as suas portas envidraçadas, as quais começam a ser restauradas, para de novo serem habitadas.

Há porém um outro tipo de casas que abunda ao longo das estradas e que é considerado como o tipo de casa goesa. Casas pequenas, de rés-do-chão, com varanda alpendrada na frente, onde geralmente os goeses gostam de dormir a sesta.

Casas recatadas, dentro de quintais, protegidas pela sombra dos coqueiros e embelezadas por maciças buganvílias sobre os muros dos terreiros onde porcos negros de comprido focinho se passeavam calmamente como se de cães de guarda se tratasse e onde por vezes se deparava com mantas estendidas, manchadas de vermelho pelas muitas pequenas vagens de pimenta a secar ao sol, a par de outras onde os grãos de arroz da segunda colheita, colheitas pequenas, obtidas na frescura dos vales, perto da floresta, secavam tão bem. Por vezes uma ou outra vaca dormia aí pachorrentamente, como se todas as horas do dia fossem horas de dormir a sesta.

Casas graciosas, não pelo estilo extremamente simples das suas paredes e telhado, mas pelas janelas. Janelas de um modo geral arredondadas na parte superior, frequentemente pintadas de azul, com caixilharia caprichosamente recortada, sobretudo na parte superior.

Mas para além de todos esses pormenores da sua graciosidade, uma coisa havia que as tornava únicas ao nosso olhar: a distinção que no geral fazem os seus proprietários ao informar quem passa, se a família que a habita é cristã ou hindu. No primeiro caso é uma cruz colocada no jardim ou junto à entrada. E no segundo uma espécie de pequeno obelisco, algumas vezes pintado de cores fortes, com um vaso de plantas colocado na parte superior como ornamento.

Mas o que mais impressiona é a convivência entre cristãos e hindus, cada qual com a sua religião, os seus costumes, o respeito pelo outro. Exemplo vivo de como a paz é possível.

Lição de compreensão, e respeito e tolerância mutuas, que o mundo poderia aprender, se quisesse.

A propósito, lembro-me desses lamentáveis incidentes, não há ainda muito tempo, que começaram num país muçulmano, onde os hindus residentes foram de tal modo maltratados que se refugiaram na Índia, aqueles que escaparam com vida. E logo como contrapartida, os muçulmanos da Índia, sofreram as inevitáveis represálias por parte dos hindus.

Goa, porém, onde cerca de 2% da população é muçulmana, passou ao largo de todos esses lamentáveis incidentes. E se acaso os muçulmanos de Goa se sobressaltaram, o sobressalto não passou daí, e a paz continuou, como é hábito, no seu dia a dia goês.

Quantas lições não se poderiam colher deste exemplo de coexistência pacífica, deste espírito de paz e compreensão, que em Goa domina gestos e vontades.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 18 – 6 – 1995

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Escutar uma banda de música é sempre agradável e julgo não exagerar afirmando que as bandas de música jamais serão destronadas pela música gravada, essa que grita nas romarias, as suas estridências por vezes arrepiantes, de pôr os nervos em franja.

Portanto, se escutar uma banda de música é um aprazimento, escutá-la longe, muito longe destas terras é, por vezes, a saudade, o enternecimento. Mas escutar essa banda executando o Hino Nacional de Portugal é muito mais que tudo isso junto. E se os acordes acompanharem o hastear da nossa bandeira, é a emoção a dar lugar ao empolgamento, a comoção que leva à vizinhança das lágrimas.

Aconteceu isso connosco, no dia da inauguração do consulado de Portugal em Goa, quando na hora própria, a banda, constituída por goeses, executou o hino nacional de Portugal, enquanto a bandeira das quinas ia subindo lentamente no mastro.

Não sei por quanto tempo o nosso olhar ficou preso na bandeira verde e rubra, ao lado da azul da CE, hasteada logo de seguida, ambas a drapejar aos ventos brandos de Goa, lá no alto do terraço do edifício, onde o Consulado ficou instalado. Sei apenas que é difícil explicar o que sente quem, estando do outro lado do Globo, vê de súbito as distâncias anularem-se e se deixa envolver por essa fraternidade muito especial, que a compreensão da língua portuguesa torna mais profunda.

Poderá parecer pieguice, essa pieguice que geralmente se receia e leva, numa situação destas, a tentar apagar qualquer vestígio de emoção.

Essa mesma que surpreendi no olhar de um jovem componente do nosso grupo que, num sorriso contrafeito, murmurou sem se dirigir a ninguém em especial: “ nunca pensei que isto mexesse assim tanto comigo, pá! Acho que estou a ficar velho…” Acrescentou ainda, tentando uma justificação para este breve estado emocional, que a sua condição de latino impelia a rejeitar.

Mas era a realidade, essa maneira de ser portuguesa, que só por si explica o desejo de voltar à terra de origem por muito bem que, materialmente se esteja numa terra de adoção.

Não se tratava aqui, porém, de um fenómeno de emigração mas de algo mais. Era o regresso (em moldes diferentes) de Portugal ao Oriente. Essa terra que nos recebia de braços abertos – lia-se no olhar dos muitos goeses que ali estavam, assistindo à inauguração.
Horas depois, no jantar incluído nestas cerimónias, e onde houve o cuidado de sentar às compridas mesas goeses e portugueses intercaladamente, razão das animadas conversas que em português se estabeleceram, no momento dos discursos que estas circunstâncias sempre exigem, o Cônsul Geral de Portugal, o primeiro a falar, disse mais ou menos estas palavras: ”Nós portugueses somos pequenos em muitas coisas, mas há uma em que realmente somos grandes: é a alma. Porque se não fosse a nossa grandeza de alma eles não nos teriam aceitado de volta!” Eles, os goeses, evidentemente…

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 5 – 1 – 1995

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Há quem, referindo-se a Goa, se detenha a enumerar os vários erros da colonização portuguesa, e um deles é o facto de se ter construído mais igrejas do que escolas (li isso ainda há pouco) esquecendo-se o articulista de que é errado avaliar factos antigos à luz da civilização actual, porque cada época tem os seus valores, e estes que agora nos parecem justos, talvez não sejam como tal considerados daqui a um século ou talvez menos.

Igualmente a colonização portuguesa em Goa é acusada de não ter desenvolvido economicamente esse território, tanto mais que, sabe-se, o seu subsolo é muito rico em minério. Mas se isso é verdade, é também verdade que não delapidou esses bens, tal como outros colonizadores fizeram nas terras que ocuparam.

Esses bens estão lá e começam agora a ser explorados pelos goeses, como por exemplo as minas de ferro a céu aberto, que tivemos ocasião de observar de longe, minas onde actualmente trabalham largas centenas de indianos, milhares talvez, delas se extraindo o minério que barcos transportam pelo rio até ao Porto de Mormugão, esse porto tão profundamente ligado à presença portuguesa por aquelas bandas.

Minas de grande produção – disseram-nos – elas são propriedade quase exclusiva de um só homem, que tivemos oportunidade de conhecer, o qual detém cerca de 90% das acções, segundo nos confidenciaram quando, pouco depois da nossa chegada, um amável convite, seu e de sua mulher, nos chegava às mãos. Um convite para um jantar que teria lugar na sua casa, na localidade ainda hoje chamada de Vasco da Gama.

E foi fatigados ainda, e mal adaptados a esse clima densamente húmido e quente que, no dia seguinte ao da nossa chegada, tomámos lugar, ao anoitecer, nos autocarros que haveriam de nos conduzir até à residência de Mister Salgaocar e esposa.

A casa, de linhas modernas, muito ampla, entre extensos relvados e jardins, não nos surpreendeu quanto à sua imponência, porque era mais ou menos assim que a imaginávamos. Tanto mais que nos haviam dito ser ele um dos homens mais ricos da Índia, no que, admite-se, talvez de grandezas e misérias, terra de extremos, há como se sabe miséria intensa e fortunas colossais. Mas mesmo admitindo que, em vez da Índia, fosse dos homens mais ricos de Goa, era sem dúvida riquíssimo, para mais casado com uma das herdeiras mais ricas da sua geração.

Mas, devo dizê-lo, não foram as suas riquezas que nos impressionaram. Foi, isso sim, a simplicidade do jovem casal que além de ser jovem, era belo e simpático. Inteligente, muito possivelmente, o qual nos recebeu com essa simpatia própria de quem sabe as regras da cortesia e as põe em prática de modo muito simples.

E, de facto, quem observasse aquele homem em mangas de camisa, à ocidental, de sorriso simples, ao lado da sua elegante esposa (de sari, como seria de esperar) recebendo-nos amavelmente, preocupando-se com os cocktails que nos foram servindo até à hora do jantar, não poderia imaginar ser aquele um dos homens mais ricos, senão da Índia, pelo menos de Goa.


Atitude que mais nos impressionara, ainda, se compararmos esse comportamento com o de alguns dos novos ricos que por cá se julgam (problema de imaginação exacerbada) senhores de meio mundo, os quais muito teriam a aprender com este exemplo vivo do que é ser rico e aceitar a riqueza com humildade ou, pelo menos, sem desastradamente ou intencionalmente humilhar os outros, aqueles que, por qualquer razão, nunca tiveram mais do que tostões contados, um a um.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 12 – 1 – 1995

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Olhando com a mágoa de sempre o Rio Este, ainda há poucos anos cobiçado pelos pescadores desportivos e, por isso mesmo, vigiado pelos então denominados “Guarda-Rios”, profissão que, segundo julgo, se extinguiu por já não haver nenhum rio para guardar, lembro-me dos rios de Goa.

Rios de peixe, tal como mar de peixe é o Mar Arábico, que banha a costa ocidental da Índia, onde Goa se situa e, mais lá para o norte, a cerca de mil quilómetros, esses antigos estados portugueses de Damão e Diu, ali bem perto do mar, tal como Portugal.

Mar de peixe. Dadivoso, magnânimo. Mar de peixes enormes, a pesarem muitos e muitos quilos, os quais nos assombravam quando cozinhados inteiros, deles, os cozinheiros impecavelmente vestidos de branco, tiravam pequenos pedaços para os nossos pratos, durante os jantares ao ar livre, em diversos locais de Goa, de que fraternalmente participámos.

Mar de peixe, rios de peixe. Rios limpos, sem necessidade de guarda-rios para os vigiar. Rios com vida, porque a ganância desenfreada, a falta de sensibilidade que embota as consciências e deixa matar um rio ainda lá não se instalou, felizmente para eles, os goeses.

E porque o peixe é abundante e saboroso, continua presente nos seus hábitos alimentares. E de tal modo arreigado, que os habitantes de outros estados indianos contaram-nos que, se acaso se demoram em Goa, criticam os goeses por este hábito alimentar sem que consigam modificá-lo.

E a solução é retirarem-se ou adaptarem-se, porque é muito difícil fazer com que um goês deixe de comer o arroz e o peixe mais o caril, esse condimento que se obtém pela mistura de especiarias e algumas plantas aromáticas a que, em Goa, se costuma juntar coco ralado para, depois de tudo bem triturado e reduzido a pó, ser utilizado como condimento tanto ao gosto deles.

Ao gosto deles, evidentemente, que quanto a nós esse gosto, por vezes, se transformava em castigo. Um castigo idêntico ao adotado noutras eras, em algumas famílias, onde havia o costume de deitar pimenta na língua às criancinhas que proferiam irreverências.

Dificilmente os goeses aceitavam a nossa relutância quanto às especiarias. E o mais curioso era ouvir deles, até de médicos “que o caril não fazia mal à saúde”. Então porquê vedá-lo nos regimes dietéticos daqueles que sofrem de problemas do aparelho digestivo? Claro que não pretendo abrir aqui uma discussão cuja exclusividade é do foro médico.

Mas que gostava de saber até onde se pode aceitar a opinião dos goeses quanto ao seu caril, sem dúvida que gostava.


Crónica publicada no jornal de Barcelos de 9 – 3 – 1995

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Uma das imagens que gosto de evocar, evocando Goa, é a dos seus rios, dos quais já aqui falei, sendo o rio Sal o mais familiar para todos nós, que alojados estávamos perto deste rio, tal como os outros dois, mais ao norte, o Zuari e o Mandovi, poderosos e de grande importância na economia goesa.

Mas há outros rios pequenos, de pouca água, que para além de refrescarem a terra por onde passam, nenhuma outra vantagem terão para essa economia a não ser oferecer ao turista que experimente aventurar-se pela floresta, um cenário intacto na sua pureza essencial.

Rios pequenos que atravessam a floresta, de entre os quais o mais fascinante é o rio Dushagar que, antes de ser rio é cascata, a precipitar-se torrencialmente pela vertente, até se deter numa espécie de lagoa circular que amansa as suas águas e depois de as deixar correr pela floresta densa, num leito profundo, semeado de rochas xistosas, leito escavado ao longo de milénios.

Rio Dushagar, ou seja, rio de leite (traduzido) na brancura das suas espumas, precipitando-se em cascatas pela vertente, esse lugar onde não chegaria notícia da civilização, não fosse a passagem do comboio por sobre o leito da cascata, a meio da vertente, em alto pontão que a engenharia construiu. O único elemento de civilização ali presente, talvez para que os passageiros finalmente se maravilhem com os prodígios de uma natureza poderosa e sábia.

Mas se os passageiros podem, em parte, observar a queda impetuosa das águas, todo o restante percurso do rio Dushagar lhes é vedado ao olhar, sobretudo o agressivo leito depois da cascata.

Este percurso que tivemos de vencer para atingir a cascata, sem outra alternativa que não fosse a de saltar de pedra em pedra, rodeada por um cenário de árvores, água, montanhas, o oposto de um cenário conservado para turista ver comodamente e pagar por essa comodidade. Um cenário intacto na sua pureza inicial, antecedido por um outro idêntico, que tivemos de percorrer, até atingir as proximidades deste rio.

Cenário de árvores, rios e veredas que fomos desvendando, instalados em jipes seguramente conduzidos por experimentados motoristas goeses, habituados a estas andanças pela floresta. Experiência confirmada na decisão com que desciam as pequenas ribanceiras, atravessavam a água dos rios, cujo leito de seixos era suficientemente sólido para aguentar o impacto das quatro rodas e logo subir a ribanceira da margem oposta, para continuar pelos trilhos da floresta e, daí a pouco, outros rios atravessar.

Rios de floresta de pouca água, a par de outros que de leito seco esperavam pacientemente pelas chuvas das monções que lhes hão de restituir a vida e o dinamismo das suas águas.

Rios tímidos e transparentes, onde já no regresso, ao entardecer, deparámos com grupos de homens indianos lavando o corpo num hábito de higiene muito próprio deste povo, e que talvez não seja do conhecimento dos ocidentais, porque outras imagens por cá divulgadas, mais sensacionais, serão mais susceptíveis de captar audiências para os meios de comunicação as divulgarem.

Rios de Goa, rios amados pelo povo, rios que purificam como se fossem prolongamento desse longínquo Ganges. Rios puros, mesmo quando as suas águas, por razões geográficas, são barrentas e densas. Rios amados. Em contraste com os nossos tão mal amados rios, estes rios desta desgastada Europa.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 30 – 3 – 1995 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Vou novamente falar desse estabelecimento hoteleiro de Goa que é o Leela Beach, o qual sendo do nível de muitos bons hotéis que há pelo mundo fora, teve para nos oferecer algo de especial. Algo mais do que a tranquilidade que ali se pode usufruir. Algo que não tem a ver com o conforto e o bem-estar de um hotel como aquele, onde os hóspedes de várias raças e nacionalidades deixam o tempo correr livremente sem tédio, porque se desejarem o ambiente citadino basta tomar um táxi.

Ao referir-me a esse hotel, quero realçar algo diferente que aí nos foi oferecido e se relaciona com a simpatia. Não essa simpatia profissional, de alto preço, mas antes uma outra mais sólida, mais autêntica, prolongamento de um espírito fraterno que em Goa se experimenta, e continua vivo e atuante, apesar das convulsões políticas. É algo vindo do fundo da História, que nos fala de amizade, de laços de sangue, de mãos que se encontram, e que aí esteve presente de tal modo que, desde o primeiro instante, nos sentimos privilegiados. Não pelos dólares, que não seriam tantos assim, mas antes por algo diferente, que viria reforçar as primeiras impressões colhidas logo à chegada.

Impressões e imagens de entre as quais se destaca a do pessoal da receção do hotel, alinhado à entrada, sorridente, à espera de nos dar as boas vindas e os colares de flores que depois nos colocaram ao pescoço, bem como na testa a pinta vermelha carregada de simbologia. E a música portuguesa, na voz do rapaz da viola, cantando em português para nós, quando já sentados no amplo salão da receção, tomámos contacto com o específico paladar do leite de coco, servido do fruto, que uma branca flor de hibisco embelezava.

Atenções que poderiam ser apenas fruto de um bom profissionalismo, se essas atenções não continuassem a elevar-se em muitas pequenas gentilezas que ultrapassavam essa situação, as quais culminaram com um jantar oferecido pelo hotel, representado na pessoa do seu administrador, de nacionalidade americana, o qual veio de mesa em mesa cumprimentar-nos um por um e desejar-nos continuação de boa estadia. Atitude profissional gentil, que em minha opinião se alicerça nessa verdade irrefutável que é a da amizade que, a despeito de correntes contrárias, continua a existir entre Portugal e Goa. Daí que esse jantar ficasse memorável, por todas essas gentilizas e também pela corrente de empatia que depois se estabeleceu entre o público, que éramos nós, e os artistas de variedades que vieram animar o jantar e, em improvisado palco, embora tivessem cantado profissionalmente em inglês, para alguns dos hóspedes do hotel, que conosco aí estavam e também passaram, a determinada altura, a falar português e a cantar quase só música portuguesa, desde folclore à música pop. Corrente de empatia que se transformou em entusiasmo e atingiu o rubro quando o apresentador do programa soltou o seu primeiro “Viva Portugal!”

Foram momentos indescritíveis, vividos até final nesse vasto recinto iluminado pela luz das lâmpadas e pela dos archotes, num chão de areia perto do mar, onde nada mais parecia existir a não ser portugueses de Portugal e seus familiares de Goa, unidos num abraço de muitos séculos.
Entusiasmo que só terminou quando os músicos exaustos por ter excedido em tempo o programa, se substituíram por música gravada, o que, como se compreende, fez abrandar a força da corrente de empatia que insistia em se manter indefinidamente.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 17 – 11 – 1994

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Há por parte dos goeses um carinho muito especial pelos animais, não um carinho exibicionista pelos cães ou gatos de luxo, como às vezes se observa, mas antes uma outra espécie de carinho, onde a compreensão e preocupação pela sua vida estão presentes.

Desde as barulhentas gralhas que todo o dia nos enchem os ouvidos com o seu vozear rouco e insistente, até às famosas “vacas sagradas".

Vacas pertencentes a uma raça bovina muito resistente que vai comendo o que pode e não necessita de cuidados especiais para sobreviver. Ao contrário do que se pensa têm dono e, geralmente, voltam a casa ao anoitecer sem que ninguém as guie. E em segurança porque ninguém as rouba e, muito menos, as maltrata.

Delas, aproveitam o leite, que é escasso, dado o modo como se alimentam. E como não são fortes como aqueles bois que, ainda não há muitos anos víamos puxando os nossos arados e carros, elas são substituídas pelos búfalos domesticados: animais menos corpulentos, de chifres arqueados como quartos de lua voltados para o dorso negro.

Mas se as vacas são um dos ex-libris da Índia, neste caso de Goa, também há outra espécie de animais, ou melhor, de aves, que em Goa não se podem ignorar: as gralhas, essas que todos os dias nos acompanhavam com os seus gritos cavos, repetidos, a saltitar de ramo em ramo, astutas e precavidas, pelos jardins do nosso hotel, sem que aí nada se fizesse para as afugentar e, muito menos, destruir.

Mas nesse hotel de turismo, embora pertencente a uma cadeia internacional de hotéis, sabia-se cultivar o respeito pelas espécies naturais indígenas como se as normas que o regem fossem apenas goesas. Daí a presença de certo modo inevitável e bem aceite, não só das gralhas, mas também de animais domésticos, desde os cavalos que os hóspedes podiam montar, se soubessem evidentemente, até aos bandos de patos, brancos e barulhentos, que à tardinha víamos cirandar pelos relvados, com a finalidade – disseram-me – de detetar a presença indesejável de alguma cobra.

Se de facto assim é, aí está mais uma prova de como saber usar os meios que a própria natureza coloca ao alcance do homem para combater possíveis perigos, neste caso as cobras. E na verdade, que eu saiba, nunca nenhum hóspede se deparou com essa presença indesejável.

E muitas há em Goa, como em toda a Índia, das quais algumas raças são venenosas, incluindo a temível cobra-capelo que, na feira de Mapuçá vimos, obediente e dócil, erguer-se do cesto do encantador de serpentes sem ultrapassar os seus limites.

Imagem impressionante, com a sua carga de exotismo e mistério, a par de muitas outras imagens, mais acessíveis à nossa compreensão e que, por razões óbvias, sou levada a referir ao longo destas crónicas.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 8 – 12 – 1994

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

 Há dias, em Cambeses, olhando a paisagem de casas novas, incaracterísticas, que pontilham essa paisagem de intensa verdura, construções que, em grande parte, vieram substituir as oitocentistas e venerandas casas de lavoura, lembrei-me de Goa. 

E embora tivesse decidido não voltar a este tema, aqui estou para dizer que me lembrei, não pelo verde das encostas, mas pelas casas que, involuntariamente, trouxeram até mim a imagem das casas residenciais, que em Goa se denominam “casas portuguesas”, porque na sua traça têm muito da arquitectura ocidental: casas de primeiro andar, com sacadas abertas sobre a rua, e cujas portas envidraçadas ostentam, por vezes, vidros coloridos, de cores fortes, cores tão do agrado dos goeses. Cores que fazem ressaltar o caprichoso recorte das “bandeiras” que encimam as portas e condizem
com o rendilhado, fruto de artístico labor, que é o gradeamento em ferro das respectivas sacadas.

Há em algumas cidades, ruas onde se destacam conjuntos preciosos dessas casas que, se não estão renovadas, também não estão adulteradas, como infelizmente por aqui acontece. Casas que falam da história de Goa e da cidade sobretudo porque, todos o sabemos, são as casas o mais precioso testemunho humanizado da vida de uma cidade ou aldeia. Estou a referir-me àquelas casas com alma, com história, não às que se copiam de revistas estrangeiras com o principal intuito de ostentar riqueza (que às vezes nem é tanta assim).

Mas voltando às casas de Goa. Muitas foram essas casas que pudemos observar nas ruas de Margão, de Pangim e outras, mas só numa tivemos o prazer de sermos recebidos pelos donos, o casal Pereira de Bragança, na povoação de Chandor.

Com uma gentileza de trato inexcedível, o Dr. Pereira de Bragança, goês de muitas gerações, e advogado por formação, pertencente à família Pereira de Bragança, fez questão de explicar que a casa esteve sempre na posse da família Pereira de Bragança, e que a sua geração era já a décima segunda. E embora as mudanças políticas, que em Goa se processaram, lhe tivessem tirado muitos dos rendimentos que alimentavam aquela grande casa, construída num tempo em que, na India, ainda havia vice-reis, eles, por um apego sem limites às raízes, continuavam a lutar por a manter intacta e bem conservada, como tivemos ocasião de admirar.

De facto, se a casa exteriormente é bela, o seu interior é mais belo ainda, com o seu chão de mármore ladrilhado brilhando impecável, a condizer com as portas envidraçadas, o seu valioso recheio constituído por preciosos móveis, candelabros e lustres, porcelanas, e a nota familiar de várias fotografias de membros da família que por ali passaram ao longo de muitas gerações, e cujo brasão está esculpido no espaldar dos cadeirões – o mais belo e imponente, como se compreenderá.

Já à saída, tivemos ocasião de, uma vez mais, observar do exterior este magnífico edifício, com as suas muitas sacadas de portas envidraçadas a abrir sobre a extensa faixa de jardim que o separa do largo da aldeia onde se ergue um cruzeiro e, ao fundo, a igreja, a fazer ângulo com a grande casa.

E demorando o olhar na comprida fachada de muitas portas envidraçadas, lembra-me dessa malograda Casa do Paço, do Couto de Cambeses, cuja fachadas, se não tinha o mesmo esplendor, tinha igualmente a dignidade, a alma, que o tempo empresta às grandes casas

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 18 – 1 – 1996

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Para além de sentimentos e impressões colhidos em Goa, várias foram também as sensações experimentadas. Essas a que, na circunstância, não se consegue fugir, a primeira das quais costuma ser a visual, se acaso se chega de dia a qualquer terra desconhecida. Essa mesma que se nos ofereceu, à chegada a Goa, onde imagens várias se nos depararam, ainda através da janela do avião, ávido o olhar, despertos os sentidos.

E mais tarde, quando já refeitos da viagem, pudemos partir à descoberta de Goa, foram de novo as sensações visuais que mais nos empolgaram, através do esplendor da flora goesa, tão rica, tão variada, tão fascinante. Apesar disso, a imagem dos coqueiros conseguiu impor-se à nossa atenção, dada a sua profusão: coqueiros na borda da estrada, perigosamente inclinados para a faixa de rodagem, coqueiros nos quintais murados, ao lado das típicas casas goesas de rés-do-chão.

Coqueiros que iríamos encontrar em todas as praias, em todos os jardins, pelas áleas – finas silhuetas no contraluz do rápido entardecer, essa hora em que as cores se tornam mais íntimas.

As cores de Goa, sensação visual intensa, nela recordo as cores dos saris, belíssimos, de fina seda. As cores dos frutos. A cor vermelha das vagens da pimenta a secar em mantas diante das casas, ao lado das flores, em especial a dos maciços de buganvílias polícromas e sumptuosas, pujantes como ainda não vi em Portugal, mesmo em tempo de intensa floração, quase anulando os hibiscos, escarlate ou brancos, e as acácias, mais discretas na sua floração amarela.

E os seus perfumes, aliados aos perfumes das especiarias que, na feira de Mapusa, vi vender. Especiarias naturais ou manuseadas no caril, esse condimento tão usado na cozinha indiana, cujo paladar intenso quase diria explosivo, nos deixava por vezes semi-sufocados.

E a sensação de calor, mais violenta nos meses que antecedem as chuvas, esse calor persistente, pesado, carregado de humidade, que dia e noite nos fustigava, mas cuja incomodidade conseguíamos vencer.

E o canto das aves, e muito especialmente o grito intenso das gralhas, rouco e cavo, persistente, mesmo de noite, a encher-nos o ouvido com seu tenaz protesto. Gralhas ladinas e astutas, a saltitar muito leves até ao extremo dos ramos.

E os sons do mar, manso e continuo, a estender-se pelas praias longas e limpas, quase desertas, orladas de coqueiros, onde o tempo parece correr mais devagar, sem lembranças nem preocupações, frente a esse mar tépido e pacífico.

E os rios quase silenciosos e lentos, tranquilos, cujas águas a ganância e a inconstância dos homens ainda não poluíram. Rios barrentos ou límpidos, rios de peixe, rios de pão.

Rios. Mar. Praia. Florestas. Casas pequenas. E em tudo uma sensação de paz, de tranquilidade, de confiança. Sensações estas aliadas à, de dia para dia mais forte impressão, certeza – posso dizer – de que éramos bem vindos, estimados e fraternalmente aceites.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 13 – 7 – 1995

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Foi depois de termos atravessado a cidade de Margão, a caminho do interior, que parámos para visitar um museu de arte sacra. Trata-se do Museu de Rachol, instalado num antigo seminário dos Jesuitas, e aberto há pouco tempo, graças à fundação Gulbenkian. É um belo conjunto de construções interligadas, de entre as quais sobressai a imponente igreja, a branquejar, tal como as restantes construções, numa elevação de terreno ajardinado, rodeada de arvoredo, e separada da estrada por um bonito gradeamento, igualmente branco.

Recebidos pelo seu conservador, um jovem entusiasta e já bom conhecedor de arte sacra, pudemos observar o precioso recheio deste museu, ouvir histórias, por vezes curiosas, das peripécias que algumas das peças sofreram desde que foram furtadas até, depois de recuperadas, serem incluídas no recheio do museu, onde estão em segurança.

Outras, quando foi possível reavê-las, tinham já sido mutiladas, como é o caso de uma cruz ali exposta, cujo Cristo em Ouro, bem como grande parte das ornamentações no mesmo metal, desapareceram, dela pouco mais restando do que a cruz, praticamente nua.

Um outro objecto para o qual foi chamada a nossa atenção, felizmente por motivos diferentes, foi uma cruz artisticamente trabalhada, onde se pode observar, como motivos ornamentais, elementos adotados da religião hindu, como por exemplo a imagem do sol, entre outros elementos próprios de objectos de culto naquela região.

Trata-se de peças que, como se imagina, eram executadas a pedido de portugueses, por artistas indianos, que nelas punham, como cunho pessoal, algum elemento da sua milenária civilização. Peças só aqui executadas, raras no mundo, e por isso mesmo admiradas por gente de várias latitudes.

Disso se colheu prova quando, em 1991, na Bélgica, se organizou a Europália, dedicada a Portugal, como muita gente se lembrará. E quem a visitou há de lembrar-se de ter observado, em Bruxelas, grupos de pessoas que esperavam pacientemente a sua vez de entrar num edifício, em cuja fachada se estendia uma faixa com letras suficientemente grandes para se verem de longe e onde se podia ler “De Goa a Lisboa”.

E de facto, quem ali entrasse não saia desiludido porque, desde objectos de pequenas dimensões até a um púlpito de talha artisticamente trabalhada, as preciosidades eram tantas e o deslumbramento acontecia.

Nesse museu de Rachol, ainda em fase incipiente, não há esse esplendor resultante da sumptuosa colecção que em Bruxelas foi possível reunir. Mas é um museu onde é já bem importante a coleção desses objectos de arte. Um museu que promete crescer para que o nome de Portugal não persista nessa parte do mundo, apenas como testemunho de uma época mas como forte laço dos afetos que as convulsões políticas não puderam desatar. Pelo menos até hoje.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 2 – 3 – 1995

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Li há tempos, não sei onde, um artigo onde se dizia contarem-se por centenas as invocações da Mãe de Jesus Cristo, que Maria se chamava.

Desde Nossa Senhora de Fátima ou de Lurdes, a Nossa Senhora do Ar ou dos Remédios, ou da Saúde, ou da Franqueira, muitas são, de facto, as invocações cujos nomes, no geral, andam ligados ao local do culto ou à intenção com que, pelo povo, e em tempos mais ou menos remotos, começou a ser invocada.

Na igreja de Cambeses, essa onde sempre tiveram lugar os momentos ligados à religião católica, mais importante da minha vida desde o baptizado, comunhão, crisma, casamento e outros baptizados, entre os quais o do meu primeiro neto, nessa igreja, dizia eu, a imagem da Virgem que mais me impressionou em tempos de meninice, era a da Senhora das Dores, envolta em cetins azuis e roxos, o rosto dolorido sobre o manto e, sobretudo, me impressionavam as sete espadas cravadas no seu coração, como símbolo da maior dor. Essa mesma imagem carregada de simbologia que, ainda hoje, em cada primeiro Domingo de Quaresma, na Procissão de Passos, tem um lugar de maior destaque na dramaturgia da Paixão que ali se efetua, numa tradição de séculos.

Tudo isto vem a propósito de uma imagem da Virgem que pude observar numa das igrejas da cidade da Velha Goa, a Basílica do Bom Jesus de que já aqui falei, essa mesma que guarda os restos mortais de S. Francisco Xavier.

Sob a invocação de Nossa Senhora da Esperança, essa imagem que assim despertou de modo particular a minha atenção, apresentava a particularidade de, em vez do tradicional manto imaginado pelos artistas ocidentais, ostentava a cabeça descoberta e o corpo envolto num belo sari que lhe cobria o ombro esquerdo deixando-lhe o braço direito livre para nele o Menino Jesus se sentar tranquilamente.

Imagem belíssima, exemplar perfeito da escultura religiosa indo-portuguesa, a qual se enquadra muito bem num rico altar de talha dourada barroca, esta de influência ocidental, à mistura com alguns elementos da arte indiana, como aliás acontece com muitos exemplares dessa mesma arte.

E porque me impressionou vivamente, não a esqueci, como terei esquecido algumas das muitas peças de arte religiosa cristã, onde o ocidente e o oriente se misturam, daí resultando uma beleza muito especial, rara no mundo da arte.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 19 – 1 – 1995


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Pela sua extensão e densidade populacional creio poder comparar-se a Índia com esse outro gigante que é a China. Mas, se sob o ponto de vista político, as diferenças são muito grandes, sob o ponto de vista religioso são maiores ainda, como se sabe.

E embora a forma de poder desses dois países seja diferente, talvez o oposto uma da outra (deixo isto ao cuidado dos estudiosos da política do nosso tempo, já que a minha formação académica é outra), é possível, a nível de rua, encontrar semelhanças, se me basear no que os meios de comunicação, acerca da Índia nos dão a conhecer, e nas informações que em Goa fui obtendo, e comparar esses elementos com a imagem que de Pequim e Xangai guardo, nos arquivos da memória.

E pensando num e noutro povo, pergunto-me se, realmente, o povo da Índia, que formiga pelas ruas das grandes cidades, aquele que dorme nas ruas, vive nas ruas, morre nas ruas, será mais livre que aquele que igualmente formigando pelas ruas de Pequim e Xangai, calado e ordeiro, segue a caminho de um emprego que mal lhe dá para a tigela do arroz. Povo que também dorme na rua, quando o calor é sufocante, já que grande parte das casas não tem o mínimo de condições para nelas se viver, mal dando para ali procurar refúgio quando, no inverno, a temperatura desce a muitos graus abaixo de zero.

Tornar o povo da China livre de se exprimir, atenuar as diferenças sociais, não é impossível. Pela força seria até praticável, e a esperança de ver esse povo livre, como o do Japão ou da Ilha Formosa, não é utopia.

Na Índia, porém, é difícil, senão impossível, atenuar as grandes diferenças sociais, as desigualdades tão acentuadas, porque a dominar este povo de civilização igualmente milenária que vive no respeito pela sua ancestralidade, os seus mitos, as suas antigas leis, está, não um governo com mãos de ferro, mas as suas próprias crenças, a sua profunda religiosidade.

Este povo que aceita voluntariamente continuar pobre, porque pobre nasceu e acredita que os seus males só em futuras reencarnações poderão ser atenuados.

Devo dizer, no entanto, que em Goa, apesar de ser Índia, não há essa miséria impressionante de Nova Deli ou Calcutá. Há pobreza, evidentemente. Miséria, não. E embora a presença de alguns pedintes em Goa seja um facto, parece, segundo me disseram, tratar-se, na quase totalidade, não de goeses, mas de indianos de outros estados, que para ali vêm de vez em quando.

Portanto há pobres, e os pobres de Goa aceitam, também eles, a sua pobreza quando a há, não com a confirmação forçada ou a revolta dos ocidentais, mas antes como algo de natural e inevitável, sobretudo se são hindus. Uma filosofia de vida que nós, ocidentais, não podemos entender em toda a sua extensão e profundidade, mas que temos obrigação de respeitar.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 13 – 4 – 1995

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Sempre que me demoro na casa de Cambeses, procuro com o olhar, num hábito que vem da meninice, o sopé do monte de Santo André, junto do qual corre o rio Este, ao mesmo tempo que tento ignorar a imagem de miséria física em que ele se tornou.

E foi precisamente num desses momentos que a memória me trouxe a imagem dos rios de Goa, com os quais este pobre rio Este não tem, aliás, a mínima semelhança: rios tranquilos, espraiando-se largamente junto à foz, no mar arábico, dos quais o mais estreito é o rio Sal, de que já aqui falei. Rio no entanto navegado por traineiras que dele fazem porto de abrigo. O primeiro rio que percorremos de lancha, contornando ilhotas de densa vegetação, afugentando gaivotas e olhando as margens, junto das quais dormitam barcos e se aninham casas pequenas, ao lado de medas de palha de arroz, medas semelhantes às de palha de centeio que antigamente por cá se viam junto às eiras.

Terras de arroz. Rio de peixe. Rio preguiçoso que quase todos os dias podia admirar, ali bem perto das nossas instalações. Ao contrário dos outros rios, lá mais para o norte, o primeiro dos quais o Zuari que muitas vezes atravessámos por comprida ponte de branco gradeamento. Rio largo, navegável, embora não tanto como o larguíssimo rio Mandovi, que desagua perto deste, ao lado da cidade de Pangim, sob o olhar atento da colina que “Altinho” se chama, zona residencial nobre da cidade, à qual tivemos ocasião, numa tarde, de subir, para de lá admirar a paisagem urbana que é Pangim e a larga superfície aquática do rio Mandovi junto à sua foz.

Rio que haveríamos de ter o prazer de navegar, num desses grandes barcos de recreio destinados a proporcionar aos turistas um passeio tranquilo, pelas calmas e extensas águas perto do mar, entre a cidade e a montanha, onde no alto se divisa o Forte dos Reis Magos e o farol construído pelos portugueses que, no tempo, foi o primeiro da Ásia. Farol agora desativado, substituído por um outro electrónico, mas que, apesar disso, continua conservado e respeitado, a branquejar lá no alto, como testemunho de lutas entre os homens e a natureza, lutas pela sobrevivência nas águas outrora navegadas por caravelas e naus,

Agora, sulcando a superfície lisa das águas, já não se divisam essas graciosas embarcações seiscentistas, as caravelas. Agora são os pesados e feios batelões, carregados de minério, os que mais sulcam o rio. Esse rio tranquilo, largo e suave. Esse doce Mandovi, como lhe chamam os poetas.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 2-1-1995

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Ainda tinha comigo, vivas, as imagens que, do Oriente trouxera, quando surgiu, inesperadamente, uma daquelas oportunidades que só em casos muito especiais se pode desperdiçar: uma viagem que tinha como finalidade, entre outras, a de assistir à inauguração do consulado de Portugal em Goa.
Efetuada a viagem, por ali nos demorámos cerca de duas semanas e, já de regresso, ao dispor-me a contar o que vira e observara, verifiquei que era difícil ordenar as imagens que comigo trouxera porque quase todas, senão todas, estavam envoltas por uma afectividade impossível de anular. Era como se tivesse visitado velhos parentes, que só de nome conhecesse, e daí resultasse escutar a inevitável voz do sangue. Essa voz quase sempre poderosa. Por esta razão só agora consigo falar dessa Goa aonde cheguei num propositado estado de quase ignorância.
Tudo o que de Goa sabia era o que na escola aprendera e o pouco que os meios de comunicação, de longe em longe, me vão dando a conhecer. Não procurei informar-me, não fiz leituras prévias, não me debrucei sobre compêndios, porque queria chegar a Goa nesse estado de quase inocência que costumo adotar quando visito uma terra pela primeira vez. E isto porque prefiro sobrepor o prazer da surpresa, da descoberta, ao prévio conhecimento, que sempre nos coloca numa posição de avaliadores entre o que sabemos e o que constatamos “in loco”.
Para mim, é muito mais aliciante receber, sem qualquer defesa, todas essas impressões e sensações, todo esse acumular de sentimentos que, na circunstância, geralmente se experimenta, e deste modo, simplesmente me surpreende maravilhar-me, indignar-me até, se for caso disso, razão porque ia ávida de conhecimento, expectante e receosa também. E um dos receios resultava precisamente de saber que nós, portugueses, durante séculos, fomos “os tais colonizadores, cruéis e déspotas, expulsos pela força” como alguns teimam em, deste modo, ver a nossa presença lá.
Por essa razão, estava mais ou menos preparada para enfrentar alguma antipatia e até animosidade por parte dos goeses. Mas cedo vi que estava enganada, porque muitas foram as provas em contrário, algumas das quais bastante curiosas e enternecedoras.
Provas de apreço, não só no hotel onde ficámos alojados, mas também nos convívios que, por vezes, nos eram proporcionados e até em plena rua. E, a propósito, lembro-me que, numa das cidades de Goa, ao negociar na rua, a compra de uma dessas bugigangas que sempre nos tentam, a vendedora, uma mulher de sari, perguntou-me, em inglês, se eu era italiana. Disse-lhe, quase a medo, bloqueada ainda pelas falsas ideias em mim conservadas, que era portuguesa, e logo o seu rosto se iluminou de um largo sorriso e exclamou: “Oh! Nice!”
É um caso pontual, evidentemente, que nada teria de significativo, se outros não tivesse presenciado ou vivido, e que talvez um dia aqui venha a relatar.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 15 – 9 – 1994

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Nítidas, persistentes, agora, muitas das imagens que de Goa trouxe comigo, pelo que forçosamente sobre elas irei escrever. Não um relato linear, minucioso, da viagem, mas antes impressões colhidas ao acaso e que a memória foi guardando. Imagens desordenadas que surgem por vezes de modo imprevisto, à medida que tento reconstruir factos ou simples impressões sobre o que me foi dado observar.

E Goa, onde chegámos ao fim da manhã, logo nos ofereceu, ao olhar, um conjunto de imagens que, no entanto, a fadiga não permitiu que apreciássemos devidamente. Fadiga agravada pelo calor pesado, saturado de humidade e pela longa espera que tivemos de suportar nas precárias instalações alfandegárias, perdidos em arredada burocracia.

Neste estado de espírito, cada vez mais impacientes e irritadiços, só ao fim de longuíssima hora pudemos transpor o último umbral do edifício alfandegário. E dominados por essa indisposição, a que se juntava a falta de sono, não conseguíamos corresponder como devíamos aos primeiros sorrisos goeses que, à saída do edifício nos aguardavam, levando-nos a quase ignorar o colorido dos saris e a gentileza do gesto com que nos ofereciam colares de flores, a troco de escassas rupias.

Portanto foi com alívio que, já instalados no autocarro, o sentimos pôr-se em marcha e seguir por uma estrada estreita, ladeada por extensas planícies cobertas de restolho, de secura. Uma paisagem de acordo com o nosso incómodo humor, a qual mal olhávamos da janela do autocarro, viatura obsoleta e ronceira, sem ar condicionado nem qualquer outro tipo de refrigeração, que tivemos de suportar ao longo de uma hora de viagem, atravessando matas de coqueiros, aldeias e a cidade de Margão, na qual mal reparámos, apesar da animação do seu mercado ao ar livre, repleto de frutas e legumes. Uma paisagem penosa que nem a gentileza dos sorrisos goeses, nem a curiosidade pela paisagem que lentamente íamos atravessando, nem a afabilidade do pessoal de transportes tinha conseguido amenizar. Uma viagem desgastante, que por vezes nos remetia para uma misericordiosa sonolência.

De súbito, porém, tudo se transformou como por encanto. Algo de imprevisível, feérico, se nos oferecia na visão esplendorosa dos maciços polícromos de buganvílias que, à entrada do extenso recinto, se estendiam pelos muros e vedações que delimitavam o espaço do hotel (o Leela Beach) onde nos aguardavam.

Era o oásis, quase irreal, que de imediato parecia fazer-nos esquecer as agruras da longa viagem que continuou ainda, por comprida área florida, ladeada de canteiros viçosos até que o autocarro se deteve num largo, onde sobressaíam exóticas palmeiras de leque, idênticas às que, em Singapura, tínhamos podido admirar.

E quando nos foi dado escutar, nesse pequeno largo, a água cantante dos repuxos do tanque circular, pintado de cor de rosa como as fachadas dos edifícios do complexo hoteleiro, e pudemos, enfim, repousar nos amplos salões da receção e deixámos que o olhar vagueasse pela vegetação, através das largas janelas e avistámos as águas cintilantes de uma nesga de mar, então sim, acreditámos que tinha valido a pena tanta incomodidade.

Aquele era realmente o oásis desejado. Real, acolhedor, fascinante.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 22 – 9 – 1994

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Foi na cidade histórica de Velha Goa que, tal como me havia já acontecido em Malaca, me lembrei, de súbito, de Cambeses.

Não pela paisagem, evidentemente, nem pelas pessoas, indianos na quase totalidade, que circulavam pelos espaços verdes que abundam entre as grandiosas igrejas desta antiga cidade, outrora capital de Goa, e hoje apenas, e muito é, uma cidade museu.

Lembrei-me de Cambeses porque a primeira igreja que nos foi dado visitar foi, precisamente, a Basílica do Bom Jesus. E lembrei-me apenas por causa do nome, porque no interior não encontrei, como na igreja de S. Pedro, em Malaca, os andores com o senhor dos Passos e a Senhora das Dores. Nesta igreja, construída sob a invocação do Bom Jesus, um outro culto nasceu e se instalou de tal modo no coração dos goeses que não pode ficar ignorado. O culto de S. Francisco Xavier que, como se sabe, morreu longe dali, e mais tarde foi trazido incorrupto para a velha Goa, assim de mantendo ao longo dos anos, até aos dias de hoje, repousando na sua urna de vidro com o único braço, o esquerdo, pousado sobre o peito, já que o outro, o direito, foi decepado e enviado a Roma, para que não se duvidasse da sua incorruptibilidade, sinónimo de santidade, numa altura em que o povo goês o tinha já canonizado e, fervorosamente, venerava os seus restos mortais.

Veneração que ainda hoje continua intensa, viva, tal como em Malaca, terra onde S. Francisco Xavier, homem de extraordinária energia, se devotou à cristianização dos povos orientais. Um santo que possuía tal poder de persuasão, que Malaca, cidade do vício e do crime, se deixou disciplinar pela força da sua palavra.

Como nota curiosa e exemplo vivo da devoção a S. Francisco Xavier, são muitos os Franciscos que podemos encontrar em Goa, nome aí tão vulgar como era, até há poucos anos, o nome de Maria em Portugal.

Disseram-nos, ainda, que é de tal modo profunda a devoção que os goeses têm por S. Francisco Xavier, que até muitos goeses ligados ancestralmente ao hinduísmo, lhe prestam o seu culto. Não sei até que ponto isto pode ser verdade, sei, isso sim, que muitos eram os indianos, famílias inteiras com crianças, que ali estavam, no interior do templo, demorando-se diante do altar onde o túmulo do apóstolo se encontra.

Aliás, nenhum outro motivo deveria haver para os trazer até ali, porque a cidade de Velha Goa, hoje cidade museu, com as suas grandes igrejas e os seus espaços verdes, onde não há casas comerciais nem de habitação, não tem nenhum outro atractivo para lhes oferecer, a não ser a devoção ou a atração que o mistério da sua incorruptibilidade representa.


Publicada no Jornal de Barcelos de 24 – 11 – 1994

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Foi lá para o sul da Malásia, no outro lado do Mundo, que de súbito senti saudades de Cambeses e, por momentos, a memória afectiva trouxe até mim cenários conhecidos e, sobrepondo-se, o “Dia de Passos”, a procissão, as imagens de Jesus e Maria dos andores: toda a dramaturgia da Paixão, num ritual de séculos.

Vindos da capital da Malásia, Kuala Lumpur, tínhamos há pouco chegado à cidade de Malaca e, seduzidos pela História, logo procurámos tomar contacto com as ruas de casas antigas, o Museu Memorial de Malaca, onde a presença portuguesa está testemunhada em documentos e imagens; tínhamo-nos detido junto à porta de Santiago para, de seguida, subirmos à colina onde S. Francisco Xavier viveu os últimos anos da sua vida.

Após um curto deambular e visita às ruinas da igreja de S. Paulo, ao lado da qual se ergue a estátua de S. Francisco Xavier, foi a vez de descermos em direcção à igreja de S. Pedro, essa igreja onde, de súbito, senti saudades de Cambeses. Trata-se de uma igreja muito bem conservada, cuja fachada, curiosamente, está pintada de verde-claro.

Já no interior, detivemo-nos por momentos junto da pia baptismal em granito, a lembrar um pouco aquela onde, em Cambeses, fui baptizada. Depois seguimos ao longo da ampla nave central, admirando os altares onde S. José, Santo António, O Arcanjo Gabriel e outros são venerados e, de súbito, ausentei-me desta terra malaia para ter, diante dos olhos da memória afectiva, Cambeses em “Dia de Passos”.

Foi um encontro inesperado esse, com as imagens do “Senhos dos Passos”, a “Senhora das Dores”, numa das capelas laterais, imagens colocadas em andores, semelhantes aos que, no primeiro domingo de Quaresma, saem da Igreja Matriz em solene procissão quaresmal. Imagens representativas de um mesmo catolicismo e, no entanto, diferentes como a expressão de arte, na Arte que lhes deu origem.

Era uma imagem do Senhor dos Passos em tamanho natural, tal como a existente na capela do Bom Jesus, vestida, não de veludo roxo mas de veludo púrpura, a cor da dignidade real. Tinha a mesma expressão sofredora sob o peso da enorme cruz de madeira, joelho dobrado pela exaustão a que o sofrimento levou.

As feições, porém, eram as de um homem oriental, de pele muito morena e olhos negros, diferentes dos da gente do ocidente, tais como o rosto da Senhora, um rosto de cor azeitonado, como o das mulheres malaias.

Mas não foi esta visão do artista que mais me impressionou. Impressionou-me sim, que este culto do Senhor dos Passos, que o mesmo é dizer do Senhor da Cruz, tenha resistido às viragens políticas, aos conflitos bélicos, às invasões de dominadores cuja religião oficial não era a católica, e continue ainda hoje, num país onde a religião oficial é a islâmica.

Por isso, ao sentir saudades de Cambeses, não pude deixar de me maravilhar também, perante este testemunho devocional, traduzido na Procissão que os andores me levaram a imaginar, não ao longo de um percurso difícil de percorrer como é o de Cambeses, mas antes pelas ruas planas de Malaca, à beira do mar, longe de Lisboa, onde a primeira procissão dos Passos, ao que se julga saber, teve lugar em 1587, dramaturgia da Paixão intensamente vivida pelos lisboetas, tal como ainda hoje o é pelos habitantes de Cambeses, tal como será pelos católicos de Malaca, seguidores de um catolicismo que os portugueses lhes levaram nesse longínquo tempo das caravelas, por vontade de El-Rei de Portugal.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 3 - 2- 1994

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Não sei de onde partiu a ideia. Mas se não foi da igreja diocesana, teve pelo menos o seu beneplácito. Refiro-me ao actual costume de encimar igrejas e capelas com uma simbólica cruz cristã, constituída por lâmpadas, e que na noite das zonas rurais, sobretudo, brilha como uma mensagem de esperança e já não nos surpreende. 

Surpreendente foi, na noite coreana, por entre a profusa iluminação da cidade de Seul, termos deparado com algumas cruzes da religião cristã, traçadas a verde pela luz das lâmpadas elétricas. E olhando-as era como se estivesse do outro lado do mundo, e olhasse a cruz que, no alto da capela do Bom Jesus do Monte, brilha luminosamente verde, como mensagem de esperança para esta terra conhecida ainda hoje por Couto de Cambeses, embora do couto que foi, nenhuma memória em pedra haja já, a não ser o portão armoriado, aquele que dava entrada para essa casa carregada de história, onde a Justiça e a administração funcionaram durante séculos.

Mas voltando ao assunto inicial, que é o culto da religião católica em Seul, foi-nos dito por Pedro, o nosso guia asiático, que as religiões cristãs, católica e protestantes, têm muitos fiéis nessa cidade, cuja população excede a de Portugal. Ele próprio nos disse ser católico, daí a explicação para o seu nome, o nome do apóstolo. Daí também a explicação para as cruzes luminosas sobressaindo na noite coreana, como um sinal do Divino.

E, se por si só este facto dá da cidade uma imagem carregada de beleza espiritual, igualmente belo é o facto de povos que seguem credos diferentes como são os dos cristãos e, de entre outros, os confucionistas e budistas, que aqui têm os seus templos e, igualmente muitos fieis, viverem num clima de paz e concórdia, onde a mútua tolerância religiosa, a compreensão e a boa vontade não são palavras vãs numa cidade que, seria de admitir, estivesse muito materializada, dado o seu espectacular progresso, sobretudo a partir da preparação para os jogos olímpicos que, como se sabe, aqui tiveram lugar em 1988.

É, de facto, uma cidade que cresce continuamente e onde os altos prédios de dezenas de andares fizeram de Seul uma cidade moderna, sem no entanto deixar de conservar o mais possível os edifícios antigos, os parques arborizados, os museus e palácios e, sobretudo, as velhas igrejas protestantes e católicas, bem como os templos budistas, para que a cidade não se descaracterize, não perca a sua alma, para se devotar apenas ao lucro desenfreado, ao crescimento selvagem, como acontece entre nós, em cidades e aldeias até.

Todos nós conhecemos ou ouvimos contar casos de igrejas que se descaracterizam em nome do progresso, de prédios veneráveis porque carregados de história, os quais se arrasam porque não dão o rendimento que apetece, etc., acontece todos os dias bem perto de nós, quanta vez, às escâncaras, ou subtilmente ao abrigo de leis que se invocam e, por vezes podem ser interpretados segundo conveniências particulares, com absoluta indiferença pelo património cultural de uma comunidade.

Porque, acima de tudo, para uma certa camada social, o que interessa é o lucro que protege a imagem, o “parecer em detrimento do ser”. O que por vezes, sendo dispendioso é também doloroso, se acaso os sinais exteriores de riqueza não coincidem com a verdade. Estes, para quem a simbologia da cruz, luminosamente verde, tem muito menos importância que a luz real, utilitária, que emana dos vários faróis dos seus potentes carros.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 17 – 2 – 1994

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Foi em Xangai, de visita ao Museu de História, ouvindo as explicações do guia acerca das porcelanas expostas que, por uma associação de ideias, me lembrei dos barros da nossa terra, de cuja origem não me vou ocupar aqui por várias razões, entre elas a de não ter formação académica específica que me permita alongar-me sobre o assunto.

Portanto limitar-me-ei a dizer que gostei de ouvir Wang, o nosso guia chinês em Xangai, que se expressava em espanhol, contar-nos a história da cerâmica chinesa, materializada em objectos utilitários e de adorno, cuja história se perde nos tempos, ao mesmo tempo que documentam a milenar história da China em épocas várias.

Segundo uma lenda chinesa, o primeiro recipiente em barro resultou por acaso, quando alguém, tendo construído um cesto em palha, o pintou com barro para o tornar mais útil e firme. Depois deu-se um incêndio e a palha do cesto foi destruída e, consequentemente, o barro cozido, o que o tornou suficientemente sólido para se aguentar no uso a que se destinava.

Assim começou, segundo a lenda, a fabricação da loiça que, milénios depois, iria dar lugar às delicadas porcelanas chinesas que, para serem autênticas, dizia-nos Wang, têm de ser transparentes como jade, finas como o papel, brilhantes como um espelho e sonoras como uma campainha.

Evidentemente que as peças do nosso barro não têm estas características, mas não deixam de ser belas e de ter projecção internacional, como é o caso do galo, cujo simbolismo corre o mundo e é um feliz exemplo de criatividade artística. No que se refere a objectos de uso diário, criados a partir da roda do oleiro, se não têm as características delicadas da porcelana chinesa, têm uma harmonia e delicadeza de formas notável, como por exemplo o cântaro de barro que as mulheres iam encher à fonte e transportavam à cabeça, sem o segurar com as mãos, num prodígio de equilíbrio e elegância dignos de registo.

Belas como esses cântaros são as caçoilas de três pernas e os alguidares vermelhos e vidrados, bem como as almofias e prateiras, igualmente vidradas, apresentando desenhos ornamentais delicados e imaginativos. Hoje quase se poderia dizer que esses objectos mais não são do que peças decorativas, porque o plástico veio substitui-los na utilização diária. Daí, ao serem transformados em objectos de adorno, tornaram-se, consequentemente, apreciados, não pela funcionalidade, mas sim pela elegância de linhas e delicadeza de decoração, sobretudo se se trata de barro vidrado.

Em tudo isto pensei, escutando as explicações do solícito guia, que Wang se chamava, e orgulhosamente falava da milenária história da China, que os fragmentos de cerâmica das vitrinas documentavam, tal como acontece em qualquer parte do mundo em que há arqueólogos apaixonados, como aliás acontece em Barcelos, sendo exemplo essa exposição de arqueologia que saiu dos muros da cidade e se estendeu ao mundo rural para, deste modo, dar a conhecer as origens desta terra chamada Barcelos.

Por tal motivo não posso deixar de aproveitar a oportunidade para dizer aos mentores e executores de tal acontecimento: Parabéns!

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 27 – 1 – 1994

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Aproveitando uma pausa domingueira em Cambeses, vou folheando distraidamente a revista – magazine do JN, com fotografias do Oriente, essa parte do mundo que me foi dado visitar e da qual trouxe um emaranhado de lembranças que, a pouco e pouco, vou desenredando.

Lembranças e também uma espécie de ternura muito especial pelo povo da China continental, sacrificado desde sempre aos caprichos dos grandes senhores, no tempo dos imperadores, sacrificado, ainda hoje, à inflexibilidade das leis ditadas pelos novos imperadores, que vieram substituir os das dinastias.

Conhecido como sendo um povo paciente, persistente, amigo de arriscar no jogo, é também um povo muito supersticioso. E, a propósito, vem-me à lembrança um episódio banal, acontecido em Xangai:

Tínhamos acedido ao convite para visitar uma casa típica de um operário chinês, e lá fomos, cheios de curiosidade, embora prevenidos quanto à inevitável encenação em casos semelhantes. Recebidos pelo dono da casa, um homem de meia-idade, de trato afável, como o são no geral os chineses, pudemos através do interprete, expor-lhe as nossas questões, às quais foi respondendo gentilmente, tecendo, como seria de esperar, elogios ao Poder político, que lhe proporcionou a possibilidade de adquirir a casa onde vivia com os familiares, incluindo os pais dele. Uma casa que teríamos de considerar singela, rudimentar, se a compararmos com grande parte das casas que vemos pelas aldeias e vilas do distrito; uma casa que, se comparada com muitas da parte antiga de Pequim, era indiscutivelmente óptima.

E enquanto o dono da casa falava, a esposa, discreta e sorridente, como é próprio das chinesas, veio sentar-se na sala ao nosso lado, sem interferir no diálogo que o marido continuava a manter com qualquer um de nós. E, já no final da conversa, alguém se lembrou de tirar uma fotografia com a dona da casa e, apontando a máquina, pediu-lhe por gestos para se colocar numa posição favorável à fotografia.

Inesperadamente, porém, a mulher fez uma expressão de pavor, levantou-se bruscamente e, quase a correr, saiu da sala, deixando-nos perplexos e… mudos.

Mais tarde, viemos a saber que os chineses não gostam de tirar fotografias com flash porque a luz pode roubar-lhes um pedaço da alma.

Devia ter sido essa, também, a razão que, na dinâmica e ocidentalizada cidade de Hong-Kong, levou duas raparigas chinesas a fazerem igual recusa perante a máquina fotográfica: uma recusa peremptória, definitiva, e sem sorrisos, o que, de certo modo nos surpreendeu, pois tratava-se, não de uma mulher de meia-idade, discreta e tímida, como a de Xangai, mas de duas recepcionistas de um restaurante flutuante, frequentado por turistas de todo o mundo, muito belas, espectacularmente vestidas de seda vermelha, aparentemente cultas e delicadas e, por dever de ofício, conhecedoras dos costumes “dos bárbaros ocidentais”.

Mas a superstição é algo que amedronta e, amedrontando, interfere muito no comportamento das pessoas. Vimos isso em Macau e até nos chineses que professam a religião católica.

E por cá?

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 12 – 5 – 1994