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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Como já aqui se disse, em números anteriores, Cambeses, no tempo do Conde D. Henrique, era uma terra com alguns habitantes, os quais se ocupavam da agricultura e, possivelmente, viviam agrupados ao redor de uma pequena igreja, a qual seria da invocação de Santiago, visto que, num documento de 1085, esta terra aparece como S. Iacobo d. Cambeses, o que está de acordo com a opinião de conceituados historiadores, segundo a qual dois caminhos que a Compostela conduziam passavam por aqui, e iam desembocar nos caminhos principais.

Depois houve a instituição de couto de Nossa Senhora da Sé de Braga e a criação do concelho municipal, como se sabe. E porque os reis se foram sucedendo, houve transformações de vária ordem, e as funções iniciais deste couto sofreram profunda alteração. Consequentemente, e ao contrário do que aconteceu com outros coutos da Igreja, Cambeses tornou-se num couto de homiziados, abrigo de gente de outras paragens, gente que era acusada de ter infringido a lei. Alguns desses indivíduos, que no couto se acolhiam, acabaram por partir, outros aqui morreram e outros ainda (talvez poucos) aqui batizaram os filhos que foram nascendo e que aqui se terão fixado, redimidos dos crimes cometidos.

Mas a população inicial, essa que já aqui estava do tempo de D. Afonso Henriques, e tinha adotado um nome para a sua terra, que era S. Tiago de Cambeses, era gente ordeira, respeitadora das leis que então vigoravam, cultivava as terras que, em rigor, não lhe pertenciam, entregando ao senhorio uma parte das colheitas, segundo as leis da época.

Os séculos foram-se sucedendo. Sete ao todo. O couto foi extinto e o concelho municipal também. Consequência também de várias alterações de ordem política e social. Mas a vida continuou, e como sempre acontece, houve épocas de abastança e de miséria também.

Mas deixemos esse assunto e voltemos à história de Cambeses: após a extinção do Couto, o nome de Couto de Cambeses desapareceu nos documentos oficiais, para só ficar o nome de Cambeses, o que não impediu que esta freguesia continuasse a ser nomeada, nas redondezas, por “Couto” e raramente por Cambeses.

Falando neste assunto com quem, por formação académica, se ocupa a estudar comportamentos sociais deste género, e tendo-se sugerido se o motivo de tal atitude seria por a palavra “Couto” ser um a palavra mais curta que Cambeses e, consequentemente, mais fácil de pronunciar, essa opinião foi contrariada com o exemplo do que acontece em relação a outras terras que foram coutos e hoje já não são lembrados como tal. É o caso do couto de Arentim, que existia ainda no século XIX.

Portanto, pondo de parte esta hipótese, quase somos forçados a admitir que o nome de “Couto” persiste mais forte que o de Cambeses, porque este couto foi um couto poderoso. E, porque poderoso, protegeu muita gente, homens e mulheres, que vieram de fora, às vezes de muito longe. Uns seriam autores de crimes de alguma gravidade, outros nem isso. Mas as leis daquele tempo eram severas e as penas, por vezes, cruelmente aplicadas. Daí o medo, a fuga e o refúgio num couto como este, o que não acontecia com Arentim porque esse couto não era de homiziados, embora fosse confinante, em parte, com o de Cambeses.

Mas voltando aos seus habitantes: estes embora alheios às leis que criaram este sistema administrativo, tinam, ao contrário dos foragidos, os seus privilégios e obrigações, que nada teriam a ver com as obrigações impostas aos homiziados, porque no geral eram, como já se disse, pessoas ordeiras, que cultivavam a terra e dela prestavam contas ao senhorio.

Sabemos que a tradição pesa muito. E a tradição do nome couto ainda não se extinguiu na memória colectiva. Daí que, pelas redondezas, se nomeie, ainda hoje, esta terra por “Couto”. E quer alguns dos atuais habitantes gostem ou não, e prefiram dizer que são de Cambeses, o que está absolutamente correto, visto ser este o nome oficial, não se pode, por muito que isso pese, destruir a memória do Couto, pelo que temos de aceitar que esta freguesia seja assim nomeada.

O que não podemos admitir, é que isso nos envergonhe, antes pelo contrário.


terça-feira, 20 de setembro de 2016

Tem Cambeses por padroeiro o apóstolo Santiago, cujo dia festivo é já nos fins de Julho, um tempo em que a terra desabrocha em frutos e marca o início de uma época de fartura, porque é época de colheitas: ”Pelo Santiago pinta o bago…”

Como é do conhecimento geral, nesses recuados tempos da Idade Média, o culto de Santiago (ou São Tiago ou Sant’Iago) era muito intenso, e peregrinar até Compostela era desejo de todos os católicos, embora poucos, por razões várias, o pudessem fazer. Por isso, felizes se consideravam os que visitavam esse local e peregrinação, crentes de que se tornariam homens diferentes, porque mais perto da salvação.

Assim, durante séculos, peregrinos vindos de vários pontos da Europa, chegavam a Compostela depois de terem percorrido longos e demorados caminhos, dos quais ainda hoje se conhece o traçado, bem como se conhecem algumas albergarias e pontes que, à custa de donativos, se ergueram para que os peregrinos mais facilmente chegassem até ao túmulo do Santo.

Dos caminhos que atravessavam Portugal, os mais conhecidos são os da orla marítima e aqueles que demandavam Braga e Barcelos, e daí se dirigiam para o norte, pelo interior do Minho. Mescla destes dois será um que, vindo do sul até ao Porto, seguia até Rates, e daí a Braga, para depois prosseguir em direcção à Galiza. Sendo assim é de admitir que este caminho passasse muito perto de Cambeses ou mesmo por terras de Cambeses.

Ao longo desses caminhos, muitas foram as terras que, associadas a esse peregrinar, tomaram por padroeiro Santiago e, nas suas igrejas, colocaram símbolos desse culto, bem como a imagem do Santo. Cambeses, que já então assim se chamava, adotou Santiago para padroeiro, e é esse o principal sinal, a par de nomes de lugares como Santo André e Carreira, que hoje temos da sua adesão a esse peregrinar.

Diga-se a propósito que, em Barcelos, a devoção a Santiago, profunda na Idade Média, esmoreceu, segundo a opinião de ilustres estudiosos, desde que o milagre das Cruzes aconteceu, e a devoção ao Senhor da Cruz tomou a dimensão que hoje se conhece.

Em Cambeses, a devoção a Santiago deve, igualmente, ter esmorecido, ao dar lugar à devoção ao Senhor dos Passos, cuja capela data de 1678. Só assim se explica o quase esquecimento do seu padroeiro e a ausência de uma confraria tão bem estruturada como o é a do Senhor dos Passos.

Desconhece-se se em Cambeses, na Idade Média, o culto de Santiago teve a dimensão própria da época. Desconhece-se igualmente se a antiga igreja, situada um pouco a sul da que hoje ostenta a data de 1721, teria gravados, nas suas pedras, símbolos do culto a Santiago, tal como não há notícia de albergarias, nem tão pouco de pontes, porque o rio Este, de tão manso e pequeno, não se opunha a que o atravessassem a pé, em tempo de poucas chuvas.

No entanto Santiago está, como orago, na freguesia e a sua imagem venera-se, não só no interior da igreja, mas também no exterior, à esquerda do santuário do Bom Jesus, em local bem visível. Trata-se de uma estátua, fruto de arte popular, cujo autor se desconhece. Está colocada num pedestal, no alto de um penedo e voltada para a freguesia, como que a abençoá-la, o que indicia ter havido uma devoção acentuada ao Apóstolo.

Seria no entanto supérfluo estarmos aqui a especular sobre a importância de um culto ou outro, ou tentar demonstrar até à exaustão que, de facto, um dos caminhos de Santiago passou por Cambeses porque, para além do significado particular das confrarias, ou dos caminhos de Santiago, há os valores culturais e espirituais que lhes são subjacentes, os quais, sem dúvida, vão interferir na qualidade de vida dos povos que aceitam e cultivam esses valores. E creio que em Cambeses assim aconteceu.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 22-7-1993