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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A alteração do título desta nova série de crónicas não significa que a qualidade de vida em Cambeses tenha deixado de estar presente nas minhas preocupações. Nem tão pouco significa que deixei de acreditar numa melhor qualidade de vida para Cambeses, no que respeita à preservação dos seus valores culturais, bem como na adoção de outros que possam complementarizar os ainda existentes.

Porque uma freguesia como esta, que foi na região de Braga e Barcelos, uma das primeiras a ter a sua “escola das primeiras letras”, não pode, agora que tem melhor nível de vida, economicamente falando, deixar desaparecer a herança legada por esses antepassados que, em Cambeses, lutaram por um melhor nível de vida cultural para os seus habitantes.

Porque nunca é demais repeti-lo, uma terra como esta, mais antiga que a nossa nacionalidade, uma terra durante séculos ligada estreitamente à Sé de Braga, não pode esquecer os valores espirituais que a ela sempre presidiram, em momentos difíceis da sua história.

E já que não resisti a falar de valores espirituais, seria injusto se não louvasse aqui uma associação ou, mais exactamente, uma confraria velha de séculos, que através dos tempos chegou até nós bem estruturada, ciosa de bem cumprir, no respeito pelas leis ancestrais que os regem, que o mesmo é dizer, pelos bens espirituais que cultivam.

Estou a referir-me, como não podia deixar de ser, à Confraria do Senhor dos Passos que, sem subsídios nem apoio de entidades oficiais, mas unicamente pelo sacrifício e devoção aos irmãos da Confraria, sempre, em cada primeiro domingo da quaresma, levam a efeito as solenidades dos Passos, as primeiras da Diocese.

Sempre em cada novo ano que surge, tudo corre normalmente, sem atritos nem desacertos entre eles, porque alimentados pela força das raízes ancestrais, que as seculares leis lhes transmitem.

Aliás, é sobretudo através das velhas e fundas raízes que as grandes árvores melhor se sustentam e sustem de pé.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 26 – 11 – 1992

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Num dos últimos artigos falei da inauguração de uma escola em Cambeses e do que isso representará para a sua qualidade de vida.

E agora, neste novo espaço, vou tentar falar de um passado que, não sendo muito remoto é, de certo modo, um passado já longínquo. Um passado em que Cambeses, por ser concelho rural e couto de homiziados era uma terra com alguma importância.

Mas, ao focar este espeto, não vou aqui mencionar o poder político e administrativo que, possivelmente, os senhores do Couto teriam, nem tão pouco falar dos bens materiais que consequentemente guardariam dentro dessas vetustas paredes da grande casa que foi a Casa do Paço.

Vou, isso sim, falar da sua escola e do que, para Cambeses representava o privilégio de ter sido das primeiras localidades a ter ensino oficial. Para se avaliar dessa importância, bastará referir que, no século XVIII, raras eram as freguesias rurais que tinham condições para os seus habitantes aprenderem as primeiras letras. E até mesmo a então vila de Barcelos, que sempre fora terra importante, tinha, no início de 1700, apenas uma cadeira de primeiras letras, cujo mestre era pago através dos cofres da Câmara.

É possível que, antes de a Câmara de Barcelos cuidar da instrução pública, tenha havido, em Cambeses, ensino particular, como era de tradição em algumas freguesias rurais. Mas, quanto a este aspeto, temos de nos quedar pelas simples suposições, já que não nos foi possível obter mais esclarecimentos a este respeito.

Uma coisa, porém, é certa: a instrução teve um lugar muito importante em Cambeses e teve-o porque aqueles que estavam à frente dos destinos desta terra se empenharam em obter, para ela, esse benefício, no intuito de melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes.

Porque se ninguém duvida que a instrução é um dos aspectos mais importantes da qualidade de vida em qualquer terra, em Cambeses também terá forçosamente de o ser.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 5-3-1992

quinta-feira, 14 de julho de 2016

DAQUI, DE CAMBESES


Ao tentar reconstituir a História desta terra que já se chamava Cambeses antes do nosso primeiro rei se chamar Afonso, ao tentar reconstituir a sua vida, ao longo de séculos, de uma coisa não temos dúvida: - que foi terra poderosa se tivermos a coragem de a comparar com a aldeia rural da primeira metade deste século, uma aldeia cheia de privações e carências de toda a ordem.

Terra de tal modo abandonada pelo poder, que os habitantes diziam, por chalaça, que a Câmara se tinha afogado debaixo da ponte e que já não existia, pelo menos para a freguesia de Cambeses.

Hoje o panorama é diferente do princípio do século, apesar de nessa altura existir já uma estrada a atravessar a freguesia, uma linha de caminho-de-ferro e uma escola. Mas a estrada desse tempo, que levou a completar mais de 70 anos a completar, só em 1972 se pode considerar uma estrada minimamente aceitável.

Quanto ao caminho-de-ferro, quando ele aqui chegou, foi apenas para cortar campos produtivos, demolir muros, fazer trincheiras e aterros que desfiguraram a paisagem sem que os seus habitantes lucrassem visivelmente com tais sinais de progresso. Só mais tarde os representantes do povo viram os seus esforços coroados de êxito com a criação do apeadeiro, num lugar onde a estrada atravessa a linha e onde, desde então, sempre houve guarda da passagem de nível. Por uma curiosa coincidência, o lugar onde se situa o apeadeiro já se chamava “lugar da guarda” muito antes de a freguesia sonhar com a estrada e muito menos com o comboio. Talvez o topónimo “guarda” esteja relacionado com o funcionamento da administração do Couto. Não sei.

Sei, isso sim, que Cambeses é hoje uma terra regularmente servida por transportes ferroviários, que a população largamente aproveita para se deslocar aos seus empregos, nas cidades mais próximas ou, no que diz respeito à população mais jovem, para frequentar estabelecimentos de ensino. Quanto ao ensino primário, tem como se sabe, uma escola moderna, com capacidade, segundo julgo saber, para o triplo dos alunos que, como em toda a parte do país, cada vez são menos. Tem estradas pelo interior da freguesia, novas, embora de traçado irregular, com lombas e curvas que poderiam talvez ser atenuadas, se tivesse havido uma maior fiscalização e cuidado na construção das mesmas. Acabaram-se as fontes de mergulho na quase totalidade, e as suas águas continuam, milagrosamente, a ser boas.

Daqui se conclui que, em alguns aspectos, a qualidade de vida melhorou espectacularmente em Cambeses. Aspectos materiais, sobretudo. Mas, e os outros valores?

De entre eles, atrevo-me a perguntar pelos valores espirituais (não os religiosos, porque estes me ultrapassam) valores que vemos cultivarem-se em muitas freguesias do Concelho e que são remédio para a ameaça do individualismo a que muitas terras estão condenadas, valores espirituais como sejam as diferentes formas de arte e cultura.

Não há um grupo etnográfico, nem coral (à exceção do que atua, e muito bem, nos atos de culto da igreja paroquial). Nem grupo de teatro, nem uma biblioteca, por pequena que seja. Nem, o que é importante, um simples centro paroquial, de convívio, que pudesse atenuar esse individualismo frio, materializado e exibicionista, porque negativamente competitivo, que domina a actual civilização e à qual Cambeses, como muitas outras aldeias, começa a entregar-se.

Porquê esta passividade?

Publicada no jornal de Barcelos em 14-7-1992