Foi lá para o sul da Malásia, no outro lado do Mundo, que de súbito senti saudades de Cambeses e, por momentos, a memória afectiva trouxe até mim cenários conhecidos e, sobrepondo-se, o “Dia de Passos”, a procissão, as imagens de Jesus e Maria dos andores: toda a dramaturgia da Paixão, num ritual de séculos.
Vindos da capital da Malásia, Kuala Lumpur, tínhamos há pouco chegado à cidade de Malaca e, seduzidos pela História, logo procurámos tomar contacto com as ruas de casas antigas, o Museu Memorial de Malaca, onde a presença portuguesa está testemunhada em documentos e imagens; tínhamo-nos detido junto à porta de Santiago para, de seguida, subirmos à colina onde S. Francisco Xavier viveu os últimos anos da sua vida.
Após um curto deambular e visita às ruinas da igreja de S. Paulo, ao lado da qual se ergue a estátua de S. Francisco Xavier, foi a vez de descermos em direcção à igreja de S. Pedro, essa igreja onde, de súbito, senti saudades de Cambeses. Trata-se de uma igreja muito bem conservada, cuja fachada, curiosamente, está pintada de verde-claro.
Já no interior, detivemo-nos por momentos junto da pia baptismal em granito, a lembrar um pouco aquela onde, em Cambeses, fui baptizada. Depois seguimos ao longo da ampla nave central, admirando os altares onde S. José, Santo António, O Arcanjo Gabriel e outros são venerados e, de súbito, ausentei-me desta terra malaia para ter, diante dos olhos da memória afectiva, Cambeses em “Dia de Passos”.
Foi um encontro inesperado esse, com as imagens do “Senhos dos Passos”, a “Senhora das Dores”, numa das capelas laterais, imagens colocadas em andores, semelhantes aos que, no primeiro domingo de Quaresma, saem da Igreja Matriz em solene procissão quaresmal. Imagens representativas de um mesmo catolicismo e, no entanto, diferentes como a expressão de arte, na Arte que lhes deu origem.
Era uma imagem do Senhor dos Passos em tamanho natural, tal como a existente na capela do Bom Jesus, vestida, não de veludo roxo mas de veludo púrpura, a cor da dignidade real. Tinha a mesma expressão sofredora sob o peso da enorme cruz de madeira, joelho dobrado pela exaustão a que o sofrimento levou.
As feições, porém, eram as de um homem oriental, de pele muito morena e olhos negros, diferentes dos da gente do ocidente, tais como o rosto da Senhora, um rosto de cor azeitonado, como o das mulheres malaias.
Mas não foi esta visão do artista que mais me impressionou. Impressionou-me sim, que este culto do Senhor dos Passos, que o mesmo é dizer do Senhor da Cruz, tenha resistido às viragens políticas, aos conflitos bélicos, às invasões de dominadores cuja religião oficial não era a católica, e continue ainda hoje, num país onde a religião oficial é a islâmica.
Por isso, ao sentir saudades de Cambeses, não pude deixar de me maravilhar também, perante este testemunho devocional, traduzido na Procissão que os andores me levaram a imaginar, não ao longo de um percurso difícil de percorrer como é o de Cambeses, mas antes pelas ruas planas de Malaca, à beira do mar, longe de Lisboa, onde a primeira procissão dos Passos, ao que se julga saber, teve lugar em 1587, dramaturgia da Paixão intensamente vivida pelos lisboetas, tal como ainda hoje o é pelos habitantes de Cambeses, tal como será pelos católicos de Malaca, seguidores de um catolicismo que os portugueses lhes levaram nesse longínquo tempo das caravelas, por vontade de El-Rei de Portugal.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 3 - 2- 1994
Blogue destinado à divulgação da vida e da obra literária da escritora Maria do Pilar Figueiredo
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quarta-feira, 2 de novembro de 2016
quinta-feira, 20 de outubro de 2016
Há sempre algo a aprender quando visitamos uma terra, quando tomamos contacto com um povo até aí desconhecido. E, muito mais ainda, se se trata de uma civilização de milénios, sempre viva, apesar de todas as vicissitudes que a História registou e as lendas guardaram, como é o caso da civilização chinesa.
Fieis às suas leis ancestrais e aos seus princípios espirituais, eles aí estão, inalteráveis, apesar de tudo, no cumprimento daquilo que consideram os seus deveres, e onde incluem, a par do culto dos antepassados o respeito pelos idosos, os laços familiares.
E, de súbito, vem à memória a imagem que foi possível colher de relance dos cemitérios chineses que vimos dispersos pela Malásia. Sobretudo um deles, na “Colina da Princesa”, em Malaca, chamou-nos a atenção pela sua extensão, e a propósito do qual nos disseram ser o maior cemitério chinês fora da China. Trata-se, realmente, de um cemitério muito extenso, sem o espetro geométrico dos nossos mármores floridos, rigorosamente alinhados, e dos nossos cemitérios ocidentais, dominados, quanta vez, pelo desejo de um certo luxo ostentatório e onde se chama de “entes queridos” aqueles que morreram quase na solidão, ou mesmo na solidão, na fria indiferença de um lar de idosos, longe dos seus familiares.
Nos cemitérios chineses, geralmente em colinas desabrigadas, apenas se vê, assinalando as sepulturas dispersas, um semicírculo em betão ou tijolo revestido a argamassa, tendo no centro uma lápide com o nome, em caracteres chineses. Poderia parecer desleixo ou indiferença pela memória dos familiares se não soubéssemos a importância que o culto dos antepassados tem para eles, bem como o respeito pelos velhos que continuam a escutar como os detentores da experiência, que o mesmo é dizer sabedoria. E porque são escutados e respeitados, porque a sua presença é desejada e eles o sabem, não precisam, os velhos, de ser agressivos, exigentes, intolerantes, porque a família está lá por perto para os atender e amparar.
Mas sendo cuidadosos com os velhos, não deixam, também, de ser solidários entre si. E é sobretudo no estrangeiro que essa solidariedade mais se nota, entre eles, sendo bem conhecido esse conceito com que os outros os distinguem: “Onde estiver um chinês, é esperar, que uma centena deles não tardará a chegar.”
É a importância dos laços familiares a estender-se também colateralmente, a despeito de todas as limitações que as atuais leis, que todos conhecemos, impõem. Solidariedade que espanta a quem os observa. Será porque, desde sempre, as atribulações e o sofrimento estiveram na vida da população, excluindo as camadas ditas superiores?
Seja como for, é difícil para nós, ocidentais, compreender esse povo que, desde sempre, tão fustigado tem sido, até pela própria natureza. (Basta dizer que, em Agosto, em Pequim, as temperaturas do ar são superiores aos 40 graus, e, no inverno, quando a noite vem, o termómetro desce aos 20 graus negativos). E assim sendo, que mais dizer?
Será que a solidariedade só é autêntica quando o sofrimento é colectivo?
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 14 - 4 – 1994
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