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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Após um curto afastamento das páginas deste jornal, o qual se deve apenas aos muitos afazeres que estas coisas da literatura sempre nos atiram para os ombros (porque nem sempre o ato de escrever se pode reduzir à alegria de criar) por tudo isto, repito, tive de fazer uma curta pausa neste género de escrita, que talvez se prolongasse, se um telefonema amigo não me tivesse feito saber que a minha ausência era notada por alguns leitores, o que me desvaneceu (perdoem a vaidadezinha).

E agora aqui estou, cheia de boas intenções, que é como quem diz, animada do firme propósito de ser mais pontual na publicação das minhas singelas crónicas, que outro jeito não sei.

Claro que não poderei deixar de falar de Cambeses, terra das minhas raízes, presentes tantas vezes nos meus livros, com os nomes que para ela invento. Ainda há pouco, falando eu de Cambeses, numa roda de gente das Letras, me disseram em jeito de provocação, que eu era de uma “terra de escritores” evocando, como é natural, o nome do maior de todos nós, que é o escritor Vítor de Sá, personalidade que o País conhece e admira, dada a extensão da sua obra literária, a sua carreira de investigador e de pensador.

Homenageado em vários pontos do País, nomeadamente em universidades, como me foi dado assistir na Universidade do Porto, o Dr. Vítor de Sá, é praticamente ignorado em Barcelos e, sobretudo, em Cambeses.

No entanto, ele tem um afeto muito especial por Cambeses, julgo poder afirmá-lo. Nota-se na atenção com que ouve e lê tudo o que de Cambeses lhe dá notícia. Ele próprio, escrevendo tem citado, ao referir o tempo da sua infância, os anos que viveu em Cambeses, terra de seu pai e do pai de seu pai, e na memória guarda imagens da grande casa do seu avô, os hábitos de então, a gente cujo viver era bem outro.

E citando este ilustre filho da minha terra, não posso deixar de citar um outro que, sendo da mesma família, tem uma dimensão acentuadamente diferente, porque diferentes foram as circunstâncias que o rodearam ao longo da vida, dificultando-lhe a necessária preparação académica. Trata-se da veneranda figura que, em Cambeses tem ainda muito quem o recorde, e se chamou Camilo Gomes de Sá, e deixou testemunhos escritos de certa importância para a história recente da sua terra natal.

Mas para além destes dois há ainda uma outra escritora, baptizada em Cambeses, jovem ainda, mas já com um livro de ensaio literário publicado, e premiado e, consequentemente, com o seu nome nos ficheiros das bibliotecas do País.

Outros haverá, porque a Casa do Paço acolheu, nas suas venerandas e desaparecidas paredes, homens de cultura e de Saber, que se empenharam para que a vila de Cambeses fosse uma das primeiras destas redondezas a ter escola, e que a população se enriquecesse pelo Saber.

Foi assim que eu defendi, expondo factos concretos, a minha terra, que nem sempre tem sido direccionada para outros bens que não sejam os materiais, daí a ausência de uma só que seja, associação de índole cultural, quando noutras freguesias (e eu poderia citar nomes) se olha e estima esse bem comum que é o património cultural de uma terra, mesmo que essa terra seja uma aldeia idêntica a esta simples freguesia rural, que há muito deixou de ser vila.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 14 – 12 – 1995

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Reparei há tempos num jornal diário com uma fotografia da “Linha da Póvoa”, denunciadora do abandono a que a mesma foi votada pela CP e, a acompanhar a foto, uma curta frase: “E ninguém se importa!”

É na verdade um triste exemplo igual a outros. Li a notícia com alguma mágoa e, por uma associação de ideias, lembrei-me dos velhos caminhos rurais que não servem a tractores e, muito menos, a automóveis e, por isso mesmo, são votados ao abandono. Como se o caminhar a pé não fosse útil sob vários aspetos, incluindo a saúde. E, ante a imagem desses caminhos centenários, surpreendi-me a reflectir.

Todos sabemos que a história de uma terra faz-se sobretudo através de documentos escritos. Mas faz-se também através das suas pedras, que o mesmo é dizer, de monumentos, e ainda através das suas ruas e praças, para só falar destes elementos. No espaço rural também a história se faz igualmente através de documentos e pedras, sobretudo a partir dos caminhos rurais, esses caminhos que em Cambeses gosto de percorrer, se me é possível.

Por essa razão, além de outras, não posso deixar de aqui falar do caminho que, do lugar de Bouçó sobe até à Igreja Paroquial, afundado entre duas quintas, caminho centenário, com uma longa história, feita de muitos passos.

Pois bem. Esse caminho de encosta, em grande parte escalavrado por enxurradas invernosas, o que dificultou os passos de quem dela precisava, tem sofrido, sobretudo de há uns anos a esta parte, as derrocadas dos muros das duas quintas, sem que os proprietários sejam obrigados a retirar pedras e entulho da via pública. E, como se isso não bastasse, há uma poça rente ao caminho, pertença de uma das quintas, que para aí deixa escapar as águas, tornando intransitável o resto do percurso num caminho que é de todos. E para dizer como o autor do artigo referido: “E ninguém se importa!” com o que se faz a este e outros caminhos.

Houve uma altura, já lá vão anos, em que a situação melhorou, devo dizê-lo: o caminho foi limpo, restaurado dentro do possível, honra seja feita à Junta de Freguesia e aos moradores de Bouçó, Lama e Vinha, que contribuíram com o dinheiro para a manutenção do mesmo. Depois, por culpa de não sei quem, o caminho voltou ao abandono e assim está. E porque é quase impossível percorrê-lo (sei-o por experiência própria) os moradores foram obrigados a deixar de o utilizar.

Pode portanto alegar-se, tal como a CP, que há poucos utentes. Pois não. E quem se atreve por um chão daqueles, impraticável sob um teto de silvas e ramaria diversa? Pode alegar-se que há uma estrada e há o automóvel para ir à igreja. Pois é, só que nem toda a gente conduz. E o que acontece é os moradores serem obrigados a dar o dobro dos passos (e muitos dão) pelo percurso alternativo, percurso estafante, sobretudo para os menos jovens e menos fortes.

Portanto, se os transtornos causados não são de levar em conta, certo será que o abandono se instalará definitivamente, tal como na linha da Póvoa, porque essa é a decisão mais cómoda.

É pena, porque é um caminho com uma longa história, um caminho percorrido durante séculos, obrigatoriamente. Claro que nas cidades a ligação à igreja não é tão intensa, por isso este texto dificilmente seria entendido por Lisboa ou Porto. Mas nas aldeias essa ligação continua, apesar de tudo. Mas isso é outro assunto.

Por hoje propus-me falar apenas de velhos caminhos abandonados, irmãos no infortúnio das modestas linhas da CP. Caminhos tão veneráveis e tão humanizados como estes que aqui falei num SOS muito possivelmente inútil, porque “ninguém se importa” apesar da sua utilidade e sobretudo da sua longa história, feita de muitos passos:

Passos leves, ainda infantis, a caminho da Catequese. Passos jovens, pressurosos, de mal contida alegria, nos dias mais marcantes da sua vida. Passos arrastados, penosos, de quem cumpre a reta final. Percurso sem passos (o último) de quem cumpriu já o percurso que lhe fora dado cumprir.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 11 – 10 – 1996

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Como já aqui se disse, em números anteriores, Cambeses, no tempo do Conde D. Henrique, era uma terra com alguns habitantes, os quais se ocupavam da agricultura e, possivelmente, viviam agrupados ao redor de uma pequena igreja, a qual seria da invocação de Santiago, visto que, num documento de 1085, esta terra aparece como S. Iacobo d. Cambeses, o que está de acordo com a opinião de conceituados historiadores, segundo a qual dois caminhos que a Compostela conduziam passavam por aqui, e iam desembocar nos caminhos principais.

Depois houve a instituição de couto de Nossa Senhora da Sé de Braga e a criação do concelho municipal, como se sabe. E porque os reis se foram sucedendo, houve transformações de vária ordem, e as funções iniciais deste couto sofreram profunda alteração. Consequentemente, e ao contrário do que aconteceu com outros coutos da Igreja, Cambeses tornou-se num couto de homiziados, abrigo de gente de outras paragens, gente que era acusada de ter infringido a lei. Alguns desses indivíduos, que no couto se acolhiam, acabaram por partir, outros aqui morreram e outros ainda (talvez poucos) aqui batizaram os filhos que foram nascendo e que aqui se terão fixado, redimidos dos crimes cometidos.

Mas a população inicial, essa que já aqui estava do tempo de D. Afonso Henriques, e tinha adotado um nome para a sua terra, que era S. Tiago de Cambeses, era gente ordeira, respeitadora das leis que então vigoravam, cultivava as terras que, em rigor, não lhe pertenciam, entregando ao senhorio uma parte das colheitas, segundo as leis da época.

Os séculos foram-se sucedendo. Sete ao todo. O couto foi extinto e o concelho municipal também. Consequência também de várias alterações de ordem política e social. Mas a vida continuou, e como sempre acontece, houve épocas de abastança e de miséria também.

Mas deixemos esse assunto e voltemos à história de Cambeses: após a extinção do Couto, o nome de Couto de Cambeses desapareceu nos documentos oficiais, para só ficar o nome de Cambeses, o que não impediu que esta freguesia continuasse a ser nomeada, nas redondezas, por “Couto” e raramente por Cambeses.

Falando neste assunto com quem, por formação académica, se ocupa a estudar comportamentos sociais deste género, e tendo-se sugerido se o motivo de tal atitude seria por a palavra “Couto” ser um a palavra mais curta que Cambeses e, consequentemente, mais fácil de pronunciar, essa opinião foi contrariada com o exemplo do que acontece em relação a outras terras que foram coutos e hoje já não são lembrados como tal. É o caso do couto de Arentim, que existia ainda no século XIX.

Portanto, pondo de parte esta hipótese, quase somos forçados a admitir que o nome de “Couto” persiste mais forte que o de Cambeses, porque este couto foi um couto poderoso. E, porque poderoso, protegeu muita gente, homens e mulheres, que vieram de fora, às vezes de muito longe. Uns seriam autores de crimes de alguma gravidade, outros nem isso. Mas as leis daquele tempo eram severas e as penas, por vezes, cruelmente aplicadas. Daí o medo, a fuga e o refúgio num couto como este, o que não acontecia com Arentim porque esse couto não era de homiziados, embora fosse confinante, em parte, com o de Cambeses.

Mas voltando aos seus habitantes: estes embora alheios às leis que criaram este sistema administrativo, tinam, ao contrário dos foragidos, os seus privilégios e obrigações, que nada teriam a ver com as obrigações impostas aos homiziados, porque no geral eram, como já se disse, pessoas ordeiras, que cultivavam a terra e dela prestavam contas ao senhorio.

Sabemos que a tradição pesa muito. E a tradição do nome couto ainda não se extinguiu na memória colectiva. Daí que, pelas redondezas, se nomeie, ainda hoje, esta terra por “Couto”. E quer alguns dos atuais habitantes gostem ou não, e prefiram dizer que são de Cambeses, o que está absolutamente correto, visto ser este o nome oficial, não se pode, por muito que isso pese, destruir a memória do Couto, pelo que temos de aceitar que esta freguesia seja assim nomeada.

O que não podemos admitir, é que isso nos envergonhe, antes pelo contrário.


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Os Chapéus de Palha de Cambeses - Separata da “Barcelos – Revista” de 1991

Situada no extremo do concelho de Barcelos, é Cambeses limitada por freguesias de Braga e de Vila Nova de Famalicão.

É terra airosa e verdejante que, por encostas onduladas, desce qual cascata, ensolarada e colorida, até ao vale do Este, para de novo se erguer pela encosta fronteira, dominada pelo monte de Santo André.

O casario, quase todo situado na margem direita do rio Este, espalha-se por muitos e variados lugares, cuja toponímia nos oferece, ora nomes de certo modo elucidativos, como Carvalhal, Souto-Covo, Bouçó, Pomarinho, Azevinhos, Outeiro, ora nos brinda com nomes por vezes insólitos, como Brasil e Peneirada, sendo de destacar este último, como o lugar mais populoso da freguesia.

É sobretudo neste lugar, cujas razões para tal nome não podemos conhecer, que se manufacturavam e manufacturam ainda, em parte, os chapéus de palha de que iremos falar, e cuja matéria-prima é a palha de centeio, cereal este cultivado nas terras secas, onde, noutras eras se cultivava o milho-alvo, uma vez que, nesta muito antiga povoação de Cambeses, os seus habitantes sempre foram agricultores.

E a propósito da sua antiguidade, não queria deixar de referir que, nos primórdios da nossa nacionalidade, e por vontade política dos grandes de então, foi Cambeses anexada à Sé de Braga e, consequentemente, transformada num couto, um dos oito coutos que, no termo de Braga, tiveram lugar.

Aos habitantes deste couto foram concedidos benefícios e, consequentemente, exigidas obrigações, situações a que se acomodaram, assim vivendo séculos. Por lameiros e por encostas semeadas de carvalhais e soutos apascentavam os seus rebanhos, colhiam os seus frutos. Depois vieram os pinheiros e, dado o seu rápido crescimento, tornou-se mais rentável esta produção florestal, pelo que cedo, os vetustos carvalhos e castanheiros deram lugar a densos pinhais (daí o adágio: “velhacos e pinhais cada vez há mais”).

Mas não foi só nas encostas arborizadas que a transformação aconteceu. O aspeto dos campos também se foi modificando quando o centeio destronou o milho-alvo, rei e senhor das terras de encosta, para mais tarde, e juntamente com o milho dos nossos dias, dar origem à alimentícia broa caseira, de mistura, sobretudo.

Mas falar em centeio não é apenas falar em pão delicioso, escuro e nutritivo. Falar em centeio é também evocar as altas cearas de longos caules verde acinzentado, cearas que, nas tardes de maio ondulavam docemente aos ventos da primavera, em campos de encosta orlados por macieiras e cerejeiras bravas.

Falar em centeio é falar das alegres e penosas malhadas de julho, sob o ardor do sol estival, o corpo crivado de sarugas agressivas. Falar em centeio é falar em palha que os bois calcavam nas largas eiras, para a quebrar, e que depois, acomodada em rotundas medas, encimadas pelo capucho de palha e pelo ramo do fim de festa das malhadas, que ali aguardava a sua vez de acudir à alimentação do gado bovino, em tempos de escassez de pastagens.

Falar de centeio é falar de colmeiros de hastes longas que, acomodados em lugar enxuto, esperavam a sua vez de renovarem os gastos colchões de palha das casas de família, ou então de se tornarem abrigo protector, defendendo do áspero sol estival.

Portanto falar em centeio é falar em chapéus de palha, imprescindíveis para do sol proteger quem, sob os seus raios tem de trabalhar, nas duras tarefas do campo.

Não sabemos quem foi a primeira mulher que teceu, com seus laboriosos dedos, as primeiras braças de fita, utilizando as palheiras aparadas de nós, nem sabemos quem, com essa fita, fez o primeiro chapéu. Sabemos apenas que se trata de uma forma de artesanato quase tão antiga como o cultivo do centeio nesta freguesia, e que em Peneirada e Souto-Covo, lugares de denso povoado, eram numerosas as mulheres que entrançavam longos metros de fita de palha, tal como ainda hoje algumas o fazem, e com ela confeccionavam os chapéus que depois vendiam.

Mas, até que o chapéu estivesse pronto a ser usado, eram várias as tarefas a que esta forma de artesanato obrigava, sendo, como é óbvio, necessário, antes de mais, a obtenção da matéria-prima: - a palha do centeio. Assim, lá iam elas pela porta dos lavradores, regatear o preço de um colmeiro, se a fartura desta palha era evidente, ou suplicar a venda, se esta escasseava.

Feito o negócio, era o grosso colmeiro carregado à cabeça pela compradora e instalado em casa, ao abrigo das intempéries. Dele se ia retirando pequenas porções de palha, conforme as necessidades. E assim, haste por haste, esta traçada em palheiras de comprimento diverso, ou seja, do tamanho máximo entre dois nós de caule, desaproveitada que era a parte mais grossa, junto ao pé, e a parte mais fina, junto da espiga.

Obtido o molho de palhas de tamanho desigual, e com cerca de dez centímetros de diâmetro, era este posto a demolhar. Logo que as palhas se apresentavam macias e flexíveis, tiravam-se da água e punham-se a escorrer. Seguidamente a artesã enrolava-lhes uma faixa de pano grosso para se proteger da humidade e, colocando-as sob o braço esquerdo, ficava com as mãos livres para manufacturar metros e metros de fita entrançada, que ia dependurando no braço direito. Fita de seis palhas, de oito e até de doze, conforme a necessidade. E assim, minuto após minuto, lá ia crescendo a grande meada que, pendurada do braço, quase rentava o chão. Parada ou a andar, sempre os seus dedos se moviam com uma velocidade incrível, sem uma falha, uma distracção, para que a fita saísse rectilínea, de bordos impecáveis.

E quando a quantidade de voltas da longa meada era já intransportável para o braço que a sustinha, dava-se por terminada aquela tarefa e iniciava-se outra meada. Era então que os menos hábeis da família, geralmente crianças, de tesoura em punho, se lançavam nos acabamentos, ou seja, “tosquiavam” a fita, cortando as pontas das palhas entrançadas com todo o cuidado.

Depois era essa fita mergulhada em água para que, humedecida, se tornasse maleável, e iniciava-se então a confecção do chapéu, tarefa esta que só os mais hábeis executavam, pois exigia uma especial atenção, para que a copa saísse na medida justa, a aba direita, oval ou redonda, e os pontos da grossa linha de algodão muito certos, bem rematados. E assim, munidas de grossa agulha e fio de algodão, apoiando o trabalho numa mesa apropriada, lá iam cozendo os primeiros decímetros de fita, dando forma a uma copa redonda ou oval, de acordo com a qualidade da palha e o modelo que afeiçoavam constantemente, com os dedos ágeis, e com o auxílio de um maço de madeira, mais ou menos do tamanho da copa alta de alguns modelos de chapéu.

Quando a aba atingia a largura pretendida, era esta em alguns casos, orlada com um bico feito de fina trança de quatro palhas. Um bico simples ou elaborado em ziguezague, o que dava um aspeto rendilhado ao chapéu. Os chapéus mais antigos que se conhecem eram de copa alta, ligeiramente pontiaguda, e aba redonda. Depois surgiram outros de copa oval, suficientemente alta para se enterrar bem na cabeça, e de aba não muito grande e, evidentemente, oval, muito utilizados nos trabalhos agrícolas. Estes chapéus eram de palha mais grossa, trança geralmente de seis palhas.

Posteriormente surgiu um modelo de copa baixa e larga, aba redonda, enfeitada com uma fita de seda, e que era possivelmente imitação das capelines que as elegantes dos anos quarenta ainda usavam nas cidades. Estes chapéus eram de palha fina e de fino entrançado, de dez ou doze palheiras. Havia, nessa altura, os chapéus de palha ferrã que, como se sabe, é a palha, neste caso de centeio, ceifada antes de estar completamente espigada. Uma palha muito fina e branca, da qual se faziam chapéus mais elaborados, para serem utilizados fora do trabalho e quando o sol assim o exigia. Eram chapéus bonitos e delicados, branqueados em caixas fechadas, com o auxílio do fumo de enxofre, que ardia, devidamente acautelado, dentro da caixa, ao lado dos chapéus.

Havia ainda os “rambóias”, chapéus de entrançado em várias cores, e onde o vermelho, azul, amarelo, verde, etc., se cruzavam em fita, geralmente de palha menos fina e de seis palheiras, que eram tingidas em púcaros fervendo nas rústicas lareiras, as anilinas compradas numa qualquer drogaria de Braga ou Barcelos, e onde as palhas, devidamente aparadas, eram mergulhadas, para se obter assim a cor desejada.

Estes chapéus eram de copa redonda, não muito alta, e aba arqueada e pequena, chapéus alegres, a que o nome “rambóia” se ajustava muito bem. Com esta forma, mas em palha de cor natural, apareceu outro modelo, mais tarde, e que ainda hoje se usa, levando, geralmente, uma fita de seda azul-escura na copa.

Cada chapéu, e de acordo com o modelo, levava largos metros de fita de palha, que os dedos dessas mulheres agilmente coziam. E digo ”mulheres” porque esta era uma tarefa exclusivamente feminina. Se acaso algum homem, porque desocupado, se atrevesse a entrançar umas braçadas de fita, era de imediato objecto de troça dos seus conterrâneos.

Era, na sua maioria, gente das classes menos favorecidas, vivendo em casas de pedra solta e tabuado, quando não era só de tábuas, a casa, que mal os defendia da chuva e do frio.

De facto, as mulheres e filhas dos lavradores, as criadas das casas de lavoura e as jornaleiras diárias, não faziam fita nem cosiam chapéus, e olhavam de modo que poderíamos classificar de depreciativo, essas mulheres que se mantinham “de costas direitas”, embora os seus dedos laboriosos se mantivessem ativos todo o dia e parte da noite, em longos serões à escassa luz do petróleo.

Eram mulheres que raramente trabalhavam na lavoura, ocupadas dia e noite numa tarefa que seria fastidiosa se não se tratasse de uma ocupação que lhes permitia estarem sentadas ou passearem-se pelos caminhos da freguesia, atentas ao mais insignificante acontecimento. De um modo geral, qualquer facto era suficiente para lhes encher uma tarde de conversa, à fresca, nas tardes calmosas, à hora em que as outras se curvavam de suor pingante, para o chão humoso e exigente. Eram mulheres que revelavam um modo especial de pensar e de agir. Assim, lá iam pelos caminhos, passo lento e dedos ligeiros, olhos e ouvidos atentos, levando consigo, sob um braço, o molho de palhas húmidas e aparadas, a que já nos referimos, e do qual retiravam, palheira após palheira, toda a matéria prima de que necessitavam. E enquanto no outro braço, a longa meada de fita entrançada se tornava cada vez mais volumosa, o molho de palha ia diminuindo até se extinguir.

Numa comunidade de agricultores como Cambeses, não admira pois que as “mulheres da “fita” não gozassem de muita consideração. Elas eram diferentes das que, de estrelas a estrelas, andavam numa roda viva, da cozinha para as hortas e cortes, e dali para os campos. E estas, porque mais bem alimentadas, ginasticadas, ágeis e sempre atarefadas, não viam com bons olhos essas mulheres “da bisbilhotice e da preguiça” diziam, esquecendo-se que grande parte delas eram mulheres débeis, porque mal alimentadas. Mulheres bisbilhoteiras, não o eram com certeza na sua totalidade. Mas eram, pode-se afirmar, a gente mais pobre da freguesia, já que a quantia paga por cada metro de fita manufaturada era irrisória.

Para comercializar os chapéus, eram estes transportados em sacos enormes, pelo combóio que no apeadeiro parava, e os recebia no forgão, como se se tratasse de excedentes de bagagem de um qualquer passageiro, que neste caso era a mulher que os comercializava.

Depois houve alguém, na freguesia, que chamou a si e de forma organizada, este tipo de negócio, adquirindo os chapéus manufacturados durante o inverno, e que ia armazenando, para no verão os vender pelas feiras e casas comerciais. Mais tarde comprou uma máquina apropriada e os chapéus deixaram de ser cosidos à mão.

Deixou assim de ser puro artesanato, uma vez que a máquina passou a ser utilizada. Outros modelos vieram. Passou-se a fazer sacos de praia, seiras, etc., e a comercialização aumentou, ao mesmo tempo que esta forma de artesanato se tornou sofisticada, menos pura.

No entanto a fita de palha, essa continua a entrançar-se em Cambeses, manualmente, tal como há cinquenta anos, sessenta e muitos mais talvez. Possivelmente há mais de cem, como ainda há bem pouco tempo um quase nonagenário desta freguesia afiançava.

Porque os chapéus de palha de centeio, nesta era dos plásticos, não puderam ainda ser substituídos com total êxito, por qualquer matéria prima sintética, acreditamos que esta forma de artesanato, poderá continuar a ser minimamente rentável para quem dela se queira ocupar.

Mas tirando as mais idosas, que ainda em Cambeses fazem “fita”, depois delas será difícil encontrar quem pela fita de palha se interesse, pois que da gente nova, e até de meia-idade, poucos serão os que desta forma de artesanato se ocupam agora, dada a sua falta de rentabilidade. Preferem ocupar-se de outras profissões mais rentáveis, como é óbvio que as há, felizmente para eles. Isto sob o ponto de vista económico, evidentemente.



In Barcelos – Revista, 2ª Série - 1991- Nº 2. Director Sebastião Matos. Barcelos, Câmara Municipal, págs. 223 – 229.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Hoje vou falar da Quinta do Paço de Palmeira, cuja casa tive o privilégio de recentemente visitar, quinta que tendo sido pertença dos dignitários eclesiásticos de Braga, é hoje pertença de uma entidade bancária. Quinta que teve a sorte de, numa época materializada como a nossa, se ter encontrado um dia com o olhar de um homem que, sendo financeiramente poderoso, era também um homem sensível, amante da arte. Um homem que não se deixou ofuscar pelos sinais exteriores de riqueza nem abusou do poder que o dinheiro dá e, muito menos, se entregou, de corpo e alma, à sedução do poderio pelo dinheiro, já que parte da sua fortuna foi colocada ao serviço da cultura, do que é prova irrefutável a Fundação que ele deixou.

E se falo aqui na Quinta do Paço, de Palmeira, ali perto de Braga, é porque não posso deixar de evocar uma outra de igual nome, aqui em Cambeses, que simbolizada no seu vetusto edifício de vários séculos, falava de um passado quase tão antigo como a nacionalidade. Falava… mas já não fala porque desapareceu do campo visual.

Sede do concelho rural que Cambeses foi, as grandes e várias salas da Casa do Paço, de que muitos de Cambeses se hão de lembrar, não teve a sorte de receber a visita que a sua homónima de Palmeira terá recebido. Por isso as suas salas não foram restauradas nem nelas se instalaram móveis e objectos de arte que dessem testemunho vivo de um passado de séculos que, sem dúvida, seria motivo de orgulho para os habitantes deste velho Couto, tal com o a Quinta do Paço, em Palmeira, o é hoje para aquela freguesia, não só pela História, mas também porque é nome que anda na boca dos poderosos e ilustres, e também dos que simplesmente amam a arte e a história.

Do que foi a multicentenária Casa do Paço, do Couto de Cambeses, nada resta. Do que foi a sua remota grandeza, poucos vestígios há hoje. Sei que não adianta recriminar os homens do Poder de então, que tão facilmente deram autorização para que o desastre acontecesse. Um desastre legal, nada que as leis de então proibissem.

“Hoje talvez fosse diferente…” pensei quando, da velha casa do Couto me lembrei, ao percorrer essa outra de que aqui falo. E, inesperadamente, surpreendi-me a devanear. “Se esse homem do Louro, que tão perto vivia do velho Couto de Cambeses, tivesse passado por ali…”

Mas não passou. Nem ele nem nenhum santo protector dos edifícios que são pedras vivas, pedras que falam do passado. Para tudo se quer sorte. Até para as casas carregadas de séculos de História, como esta que foi a Casa do Paço do Couto de Cambeses, e que tão ingloriamente terminou. Sei que não adianta falar, porque já nenhuma solução pode haver, que restitua ao velho Couto a casa que foi símbolo do seu poderio. Tudo acabou. Ponto final.

Mas que esta terra, que ainda hoje é conhecida simplesmente por “Couto”, ficou mais pobre, sem dúvida que ficou.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 17 – 6 – 1993

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Numa das minhas andanças pela Biblioteca Municipal do Porto, tive nas mãos um volume da autoria do Pe. Carvalho da Costa, presbítero secular que nasceu em 1650 e faleceu em 1715. A sua Corografia Portuguesa, datada de 1706, nela se referindo ao Couto de Cambeses nestes termos:
he abundante de centeyo, linho galego, frutos & bastante vinho, levando o Alcayde Mor os quartos dos frutos da terra. Havia então em Cambeses cento e oitenta vizinhos.
E após a leitura destes fragmentos da sua obra, deixei-me ficar no silêncio da biblioteca, reconstituindo mentalmente um pouco da história deste couto que, embora extinto no século XIX, continuou a ser chamado de Couto de Cambeses ou, simplesmente, Couto. E apesar de ter perdido a sua câmara e tribunal, e outros sinais de Poder, era ainda, nos finais do século passado, e segundo Pinho Leal, no seu dicionário geográfico uma vila, tendo na Casa do Paço o símbolo desse poder perdido.
No entanto o pagamento de foros à antiga casa continuou. Há de haver em Cambeses quem ainda se lembre de ter observado a preocupação dos pais, ou outros familiares, em juntar os valores necessários para pagamento desse foro. E há quem se lembre também de olhar com um certo arrepio as janelas gradeadas, voltadas para o caminho, para lá das quais, dizia-se, fora a cadeia. Cadeia não apenas para os habitantes, mas muito possivelmente também para os foragidos, que vinham de longe, até de Lisboa, ali se acoitarem sob a protecção do alcaide-mor, porque as leis assim o permitiam, protecção que, como é obvio, seria obtida à custa de valores ou de serviços obrigatoriamente cumpridos. Quando não, era a penalização.
Depois novas mudanças surgiram. Um a um, os foros foram sendo remidos, e os habitantes de Cambeses, finalmente libertos dessas obrigações, enquanto a casa lá continuava inalterável. Depois a casa passou a mãos particulares. Nessa altura já o povo tinha deixado de pagar os quartos dos frutos da terra ao Alcayde Mor.
Dela guardo ainda a lembrança das muitas janelas de guilhotina, na sua moldura de granito em arco, a embelezar a longa fachada cor de amarelo ocre, as quais, sempre fechadas, acentuavam o seu ar de mistério.
Lembro-me que, da casa onde nasci e cresci, gostava de olhar essas muitas janelas da casa, para mim carregadas de memórias, algumas tenebrosas, segundo a voz popular, outras de grandeza e poder. Parecia-me então que, para lá das janelas fechadas, emanava da casa um certo encanto, um fascínio alicerçado na dignidade que o tempo sempre empresta às grandes casas.
Depois a casa mudou de donos uma vez mais e foi então que a sua sentença de morte foi lavrada e o juiz que tal sentença ditou, por mais incrível que pareça, foi a Câmara Municipal de Barcelos, da época, atitude de certo modo inaceitável, tanto mais que não se tratava de um desses solares de finais do século XVIII, construído por qualquer visconde que, à custa do dinheiro tivesse obtido um efémero título nobiliárquico e, consequentemente, se apressasse, tal como hoje acontece com os novos ricos, a dar todos os sinais exteriores possíveis da sua riqueza.
A Casa do Paço era de facto diferente. Embora de linhas simples, sem ornamentos barrocos, era uma casa com séculos de história, um elemento importante na história dos coutos em Portugal. Um elemento de certo modo importante na história do concelho de Barcelos, para não falar na história da outrora “vila” do Couto de Cambeses.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 01-02-1996

quinta-feira, 14 de julho de 2016

DAQUI, DE CAMBESES


Ao tentar reconstituir a História desta terra que já se chamava Cambeses antes do nosso primeiro rei se chamar Afonso, ao tentar reconstituir a sua vida, ao longo de séculos, de uma coisa não temos dúvida: - que foi terra poderosa se tivermos a coragem de a comparar com a aldeia rural da primeira metade deste século, uma aldeia cheia de privações e carências de toda a ordem.

Terra de tal modo abandonada pelo poder, que os habitantes diziam, por chalaça, que a Câmara se tinha afogado debaixo da ponte e que já não existia, pelo menos para a freguesia de Cambeses.

Hoje o panorama é diferente do princípio do século, apesar de nessa altura existir já uma estrada a atravessar a freguesia, uma linha de caminho-de-ferro e uma escola. Mas a estrada desse tempo, que levou a completar mais de 70 anos a completar, só em 1972 se pode considerar uma estrada minimamente aceitável.

Quanto ao caminho-de-ferro, quando ele aqui chegou, foi apenas para cortar campos produtivos, demolir muros, fazer trincheiras e aterros que desfiguraram a paisagem sem que os seus habitantes lucrassem visivelmente com tais sinais de progresso. Só mais tarde os representantes do povo viram os seus esforços coroados de êxito com a criação do apeadeiro, num lugar onde a estrada atravessa a linha e onde, desde então, sempre houve guarda da passagem de nível. Por uma curiosa coincidência, o lugar onde se situa o apeadeiro já se chamava “lugar da guarda” muito antes de a freguesia sonhar com a estrada e muito menos com o comboio. Talvez o topónimo “guarda” esteja relacionado com o funcionamento da administração do Couto. Não sei.

Sei, isso sim, que Cambeses é hoje uma terra regularmente servida por transportes ferroviários, que a população largamente aproveita para se deslocar aos seus empregos, nas cidades mais próximas ou, no que diz respeito à população mais jovem, para frequentar estabelecimentos de ensino. Quanto ao ensino primário, tem como se sabe, uma escola moderna, com capacidade, segundo julgo saber, para o triplo dos alunos que, como em toda a parte do país, cada vez são menos. Tem estradas pelo interior da freguesia, novas, embora de traçado irregular, com lombas e curvas que poderiam talvez ser atenuadas, se tivesse havido uma maior fiscalização e cuidado na construção das mesmas. Acabaram-se as fontes de mergulho na quase totalidade, e as suas águas continuam, milagrosamente, a ser boas.

Daqui se conclui que, em alguns aspectos, a qualidade de vida melhorou espectacularmente em Cambeses. Aspectos materiais, sobretudo. Mas, e os outros valores?

De entre eles, atrevo-me a perguntar pelos valores espirituais (não os religiosos, porque estes me ultrapassam) valores que vemos cultivarem-se em muitas freguesias do Concelho e que são remédio para a ameaça do individualismo a que muitas terras estão condenadas, valores espirituais como sejam as diferentes formas de arte e cultura.

Não há um grupo etnográfico, nem coral (à exceção do que atua, e muito bem, nos atos de culto da igreja paroquial). Nem grupo de teatro, nem uma biblioteca, por pequena que seja. Nem, o que é importante, um simples centro paroquial, de convívio, que pudesse atenuar esse individualismo frio, materializado e exibicionista, porque negativamente competitivo, que domina a actual civilização e à qual Cambeses, como muitas outras aldeias, começa a entregar-se.

Porquê esta passividade?

Publicada no jornal de Barcelos em 14-7-1992