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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Foi depois de termos atravessado a cidade de Margão, a caminho do interior, que parámos para visitar um museu de arte sacra. Trata-se do Museu de Rachol, instalado num antigo seminário dos Jesuitas, e aberto há pouco tempo, graças à fundação Gulbenkian. É um belo conjunto de construções interligadas, de entre as quais sobressai a imponente igreja, a branquejar, tal como as restantes construções, numa elevação de terreno ajardinado, rodeada de arvoredo, e separada da estrada por um bonito gradeamento, igualmente branco.

Recebidos pelo seu conservador, um jovem entusiasta e já bom conhecedor de arte sacra, pudemos observar o precioso recheio deste museu, ouvir histórias, por vezes curiosas, das peripécias que algumas das peças sofreram desde que foram furtadas até, depois de recuperadas, serem incluídas no recheio do museu, onde estão em segurança.

Outras, quando foi possível reavê-las, tinham já sido mutiladas, como é o caso de uma cruz ali exposta, cujo Cristo em Ouro, bem como grande parte das ornamentações no mesmo metal, desapareceram, dela pouco mais restando do que a cruz, praticamente nua.

Um outro objecto para o qual foi chamada a nossa atenção, felizmente por motivos diferentes, foi uma cruz artisticamente trabalhada, onde se pode observar, como motivos ornamentais, elementos adotados da religião hindu, como por exemplo a imagem do sol, entre outros elementos próprios de objectos de culto naquela região.

Trata-se de peças que, como se imagina, eram executadas a pedido de portugueses, por artistas indianos, que nelas punham, como cunho pessoal, algum elemento da sua milenária civilização. Peças só aqui executadas, raras no mundo, e por isso mesmo admiradas por gente de várias latitudes.

Disso se colheu prova quando, em 1991, na Bélgica, se organizou a Europália, dedicada a Portugal, como muita gente se lembrará. E quem a visitou há de lembrar-se de ter observado, em Bruxelas, grupos de pessoas que esperavam pacientemente a sua vez de entrar num edifício, em cuja fachada se estendia uma faixa com letras suficientemente grandes para se verem de longe e onde se podia ler “De Goa a Lisboa”.

E de facto, quem ali entrasse não saia desiludido porque, desde objectos de pequenas dimensões até a um púlpito de talha artisticamente trabalhada, as preciosidades eram tantas e o deslumbramento acontecia.

Nesse museu de Rachol, ainda em fase incipiente, não há esse esplendor resultante da sumptuosa colecção que em Bruxelas foi possível reunir. Mas é um museu onde é já bem importante a coleção desses objectos de arte. Um museu que promete crescer para que o nome de Portugal não persista nessa parte do mundo, apenas como testemunho de uma época mas como forte laço dos afetos que as convulsões políticas não puderam desatar. Pelo menos até hoje.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 2 – 3 – 1995

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Li há tempos, não sei onde, um artigo onde se dizia contarem-se por centenas as invocações da Mãe de Jesus Cristo, que Maria se chamava.

Desde Nossa Senhora de Fátima ou de Lurdes, a Nossa Senhora do Ar ou dos Remédios, ou da Saúde, ou da Franqueira, muitas são, de facto, as invocações cujos nomes, no geral, andam ligados ao local do culto ou à intenção com que, pelo povo, e em tempos mais ou menos remotos, começou a ser invocada.

Na igreja de Cambeses, essa onde sempre tiveram lugar os momentos ligados à religião católica, mais importante da minha vida desde o baptizado, comunhão, crisma, casamento e outros baptizados, entre os quais o do meu primeiro neto, nessa igreja, dizia eu, a imagem da Virgem que mais me impressionou em tempos de meninice, era a da Senhora das Dores, envolta em cetins azuis e roxos, o rosto dolorido sobre o manto e, sobretudo, me impressionavam as sete espadas cravadas no seu coração, como símbolo da maior dor. Essa mesma imagem carregada de simbologia que, ainda hoje, em cada primeiro Domingo de Quaresma, na Procissão de Passos, tem um lugar de maior destaque na dramaturgia da Paixão que ali se efetua, numa tradição de séculos.

Tudo isto vem a propósito de uma imagem da Virgem que pude observar numa das igrejas da cidade da Velha Goa, a Basílica do Bom Jesus de que já aqui falei, essa mesma que guarda os restos mortais de S. Francisco Xavier.

Sob a invocação de Nossa Senhora da Esperança, essa imagem que assim despertou de modo particular a minha atenção, apresentava a particularidade de, em vez do tradicional manto imaginado pelos artistas ocidentais, ostentava a cabeça descoberta e o corpo envolto num belo sari que lhe cobria o ombro esquerdo deixando-lhe o braço direito livre para nele o Menino Jesus se sentar tranquilamente.

Imagem belíssima, exemplar perfeito da escultura religiosa indo-portuguesa, a qual se enquadra muito bem num rico altar de talha dourada barroca, esta de influência ocidental, à mistura com alguns elementos da arte indiana, como aliás acontece com muitos exemplares dessa mesma arte.

E porque me impressionou vivamente, não a esqueci, como terei esquecido algumas das muitas peças de arte religiosa cristã, onde o ocidente e o oriente se misturam, daí resultando uma beleza muito especial, rara no mundo da arte.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 19 – 1 – 1995


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Pela sua extensão e densidade populacional creio poder comparar-se a Índia com esse outro gigante que é a China. Mas, se sob o ponto de vista político, as diferenças são muito grandes, sob o ponto de vista religioso são maiores ainda, como se sabe.

E embora a forma de poder desses dois países seja diferente, talvez o oposto uma da outra (deixo isto ao cuidado dos estudiosos da política do nosso tempo, já que a minha formação académica é outra), é possível, a nível de rua, encontrar semelhanças, se me basear no que os meios de comunicação, acerca da Índia nos dão a conhecer, e nas informações que em Goa fui obtendo, e comparar esses elementos com a imagem que de Pequim e Xangai guardo, nos arquivos da memória.

E pensando num e noutro povo, pergunto-me se, realmente, o povo da Índia, que formiga pelas ruas das grandes cidades, aquele que dorme nas ruas, vive nas ruas, morre nas ruas, será mais livre que aquele que igualmente formigando pelas ruas de Pequim e Xangai, calado e ordeiro, segue a caminho de um emprego que mal lhe dá para a tigela do arroz. Povo que também dorme na rua, quando o calor é sufocante, já que grande parte das casas não tem o mínimo de condições para nelas se viver, mal dando para ali procurar refúgio quando, no inverno, a temperatura desce a muitos graus abaixo de zero.

Tornar o povo da China livre de se exprimir, atenuar as diferenças sociais, não é impossível. Pela força seria até praticável, e a esperança de ver esse povo livre, como o do Japão ou da Ilha Formosa, não é utopia.

Na Índia, porém, é difícil, senão impossível, atenuar as grandes diferenças sociais, as desigualdades tão acentuadas, porque a dominar este povo de civilização igualmente milenária que vive no respeito pela sua ancestralidade, os seus mitos, as suas antigas leis, está, não um governo com mãos de ferro, mas as suas próprias crenças, a sua profunda religiosidade.

Este povo que aceita voluntariamente continuar pobre, porque pobre nasceu e acredita que os seus males só em futuras reencarnações poderão ser atenuados.

Devo dizer, no entanto, que em Goa, apesar de ser Índia, não há essa miséria impressionante de Nova Deli ou Calcutá. Há pobreza, evidentemente. Miséria, não. E embora a presença de alguns pedintes em Goa seja um facto, parece, segundo me disseram, tratar-se, na quase totalidade, não de goeses, mas de indianos de outros estados, que para ali vêm de vez em quando.

Portanto há pobres, e os pobres de Goa aceitam, também eles, a sua pobreza quando a há, não com a confirmação forçada ou a revolta dos ocidentais, mas antes como algo de natural e inevitável, sobretudo se são hindus. Uma filosofia de vida que nós, ocidentais, não podemos entender em toda a sua extensão e profundidade, mas que temos obrigação de respeitar.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 13 – 4 – 1995

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Sempre que me demoro na casa de Cambeses, procuro com o olhar, num hábito que vem da meninice, o sopé do monte de Santo André, junto do qual corre o rio Este, ao mesmo tempo que tento ignorar a imagem de miséria física em que ele se tornou.

E foi precisamente num desses momentos que a memória me trouxe a imagem dos rios de Goa, com os quais este pobre rio Este não tem, aliás, a mínima semelhança: rios tranquilos, espraiando-se largamente junto à foz, no mar arábico, dos quais o mais estreito é o rio Sal, de que já aqui falei. Rio no entanto navegado por traineiras que dele fazem porto de abrigo. O primeiro rio que percorremos de lancha, contornando ilhotas de densa vegetação, afugentando gaivotas e olhando as margens, junto das quais dormitam barcos e se aninham casas pequenas, ao lado de medas de palha de arroz, medas semelhantes às de palha de centeio que antigamente por cá se viam junto às eiras.

Terras de arroz. Rio de peixe. Rio preguiçoso que quase todos os dias podia admirar, ali bem perto das nossas instalações. Ao contrário dos outros rios, lá mais para o norte, o primeiro dos quais o Zuari que muitas vezes atravessámos por comprida ponte de branco gradeamento. Rio largo, navegável, embora não tanto como o larguíssimo rio Mandovi, que desagua perto deste, ao lado da cidade de Pangim, sob o olhar atento da colina que “Altinho” se chama, zona residencial nobre da cidade, à qual tivemos ocasião, numa tarde, de subir, para de lá admirar a paisagem urbana que é Pangim e a larga superfície aquática do rio Mandovi junto à sua foz.

Rio que haveríamos de ter o prazer de navegar, num desses grandes barcos de recreio destinados a proporcionar aos turistas um passeio tranquilo, pelas calmas e extensas águas perto do mar, entre a cidade e a montanha, onde no alto se divisa o Forte dos Reis Magos e o farol construído pelos portugueses que, no tempo, foi o primeiro da Ásia. Farol agora desativado, substituído por um outro electrónico, mas que, apesar disso, continua conservado e respeitado, a branquejar lá no alto, como testemunho de lutas entre os homens e a natureza, lutas pela sobrevivência nas águas outrora navegadas por caravelas e naus,

Agora, sulcando a superfície lisa das águas, já não se divisam essas graciosas embarcações seiscentistas, as caravelas. Agora são os pesados e feios batelões, carregados de minério, os que mais sulcam o rio. Esse rio tranquilo, largo e suave. Esse doce Mandovi, como lhe chamam os poetas.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 2-1-1995

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Ainda tinha comigo, vivas, as imagens que, do Oriente trouxera, quando surgiu, inesperadamente, uma daquelas oportunidades que só em casos muito especiais se pode desperdiçar: uma viagem que tinha como finalidade, entre outras, a de assistir à inauguração do consulado de Portugal em Goa.
Efetuada a viagem, por ali nos demorámos cerca de duas semanas e, já de regresso, ao dispor-me a contar o que vira e observara, verifiquei que era difícil ordenar as imagens que comigo trouxera porque quase todas, senão todas, estavam envoltas por uma afectividade impossível de anular. Era como se tivesse visitado velhos parentes, que só de nome conhecesse, e daí resultasse escutar a inevitável voz do sangue. Essa voz quase sempre poderosa. Por esta razão só agora consigo falar dessa Goa aonde cheguei num propositado estado de quase ignorância.
Tudo o que de Goa sabia era o que na escola aprendera e o pouco que os meios de comunicação, de longe em longe, me vão dando a conhecer. Não procurei informar-me, não fiz leituras prévias, não me debrucei sobre compêndios, porque queria chegar a Goa nesse estado de quase inocência que costumo adotar quando visito uma terra pela primeira vez. E isto porque prefiro sobrepor o prazer da surpresa, da descoberta, ao prévio conhecimento, que sempre nos coloca numa posição de avaliadores entre o que sabemos e o que constatamos “in loco”.
Para mim, é muito mais aliciante receber, sem qualquer defesa, todas essas impressões e sensações, todo esse acumular de sentimentos que, na circunstância, geralmente se experimenta, e deste modo, simplesmente me surpreende maravilhar-me, indignar-me até, se for caso disso, razão porque ia ávida de conhecimento, expectante e receosa também. E um dos receios resultava precisamente de saber que nós, portugueses, durante séculos, fomos “os tais colonizadores, cruéis e déspotas, expulsos pela força” como alguns teimam em, deste modo, ver a nossa presença lá.
Por essa razão, estava mais ou menos preparada para enfrentar alguma antipatia e até animosidade por parte dos goeses. Mas cedo vi que estava enganada, porque muitas foram as provas em contrário, algumas das quais bastante curiosas e enternecedoras.
Provas de apreço, não só no hotel onde ficámos alojados, mas também nos convívios que, por vezes, nos eram proporcionados e até em plena rua. E, a propósito, lembro-me que, numa das cidades de Goa, ao negociar na rua, a compra de uma dessas bugigangas que sempre nos tentam, a vendedora, uma mulher de sari, perguntou-me, em inglês, se eu era italiana. Disse-lhe, quase a medo, bloqueada ainda pelas falsas ideias em mim conservadas, que era portuguesa, e logo o seu rosto se iluminou de um largo sorriso e exclamou: “Oh! Nice!”
É um caso pontual, evidentemente, que nada teria de significativo, se outros não tivesse presenciado ou vivido, e que talvez um dia aqui venha a relatar.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 15 – 9 – 1994

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Como já aqui se disse, em números anteriores, Cambeses, no tempo do Conde D. Henrique, era uma terra com alguns habitantes, os quais se ocupavam da agricultura e, possivelmente, viviam agrupados ao redor de uma pequena igreja, a qual seria da invocação de Santiago, visto que, num documento de 1085, esta terra aparece como S. Iacobo d. Cambeses, o que está de acordo com a opinião de conceituados historiadores, segundo a qual dois caminhos que a Compostela conduziam passavam por aqui, e iam desembocar nos caminhos principais.

Depois houve a instituição de couto de Nossa Senhora da Sé de Braga e a criação do concelho municipal, como se sabe. E porque os reis se foram sucedendo, houve transformações de vária ordem, e as funções iniciais deste couto sofreram profunda alteração. Consequentemente, e ao contrário do que aconteceu com outros coutos da Igreja, Cambeses tornou-se num couto de homiziados, abrigo de gente de outras paragens, gente que era acusada de ter infringido a lei. Alguns desses indivíduos, que no couto se acolhiam, acabaram por partir, outros aqui morreram e outros ainda (talvez poucos) aqui batizaram os filhos que foram nascendo e que aqui se terão fixado, redimidos dos crimes cometidos.

Mas a população inicial, essa que já aqui estava do tempo de D. Afonso Henriques, e tinha adotado um nome para a sua terra, que era S. Tiago de Cambeses, era gente ordeira, respeitadora das leis que então vigoravam, cultivava as terras que, em rigor, não lhe pertenciam, entregando ao senhorio uma parte das colheitas, segundo as leis da época.

Os séculos foram-se sucedendo. Sete ao todo. O couto foi extinto e o concelho municipal também. Consequência também de várias alterações de ordem política e social. Mas a vida continuou, e como sempre acontece, houve épocas de abastança e de miséria também.

Mas deixemos esse assunto e voltemos à história de Cambeses: após a extinção do Couto, o nome de Couto de Cambeses desapareceu nos documentos oficiais, para só ficar o nome de Cambeses, o que não impediu que esta freguesia continuasse a ser nomeada, nas redondezas, por “Couto” e raramente por Cambeses.

Falando neste assunto com quem, por formação académica, se ocupa a estudar comportamentos sociais deste género, e tendo-se sugerido se o motivo de tal atitude seria por a palavra “Couto” ser um a palavra mais curta que Cambeses e, consequentemente, mais fácil de pronunciar, essa opinião foi contrariada com o exemplo do que acontece em relação a outras terras que foram coutos e hoje já não são lembrados como tal. É o caso do couto de Arentim, que existia ainda no século XIX.

Portanto, pondo de parte esta hipótese, quase somos forçados a admitir que o nome de “Couto” persiste mais forte que o de Cambeses, porque este couto foi um couto poderoso. E, porque poderoso, protegeu muita gente, homens e mulheres, que vieram de fora, às vezes de muito longe. Uns seriam autores de crimes de alguma gravidade, outros nem isso. Mas as leis daquele tempo eram severas e as penas, por vezes, cruelmente aplicadas. Daí o medo, a fuga e o refúgio num couto como este, o que não acontecia com Arentim porque esse couto não era de homiziados, embora fosse confinante, em parte, com o de Cambeses.

Mas voltando aos seus habitantes: estes embora alheios às leis que criaram este sistema administrativo, tinam, ao contrário dos foragidos, os seus privilégios e obrigações, que nada teriam a ver com as obrigações impostas aos homiziados, porque no geral eram, como já se disse, pessoas ordeiras, que cultivavam a terra e dela prestavam contas ao senhorio.

Sabemos que a tradição pesa muito. E a tradição do nome couto ainda não se extinguiu na memória colectiva. Daí que, pelas redondezas, se nomeie, ainda hoje, esta terra por “Couto”. E quer alguns dos atuais habitantes gostem ou não, e prefiram dizer que são de Cambeses, o que está absolutamente correto, visto ser este o nome oficial, não se pode, por muito que isso pese, destruir a memória do Couto, pelo que temos de aceitar que esta freguesia seja assim nomeada.

O que não podemos admitir, é que isso nos envergonhe, antes pelo contrário.


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Nítidas, persistentes, agora, muitas das imagens que de Goa trouxe comigo, pelo que forçosamente sobre elas irei escrever. Não um relato linear, minucioso, da viagem, mas antes impressões colhidas ao acaso e que a memória foi guardando. Imagens desordenadas que surgem por vezes de modo imprevisto, à medida que tento reconstruir factos ou simples impressões sobre o que me foi dado observar.

E Goa, onde chegámos ao fim da manhã, logo nos ofereceu, ao olhar, um conjunto de imagens que, no entanto, a fadiga não permitiu que apreciássemos devidamente. Fadiga agravada pelo calor pesado, saturado de humidade e pela longa espera que tivemos de suportar nas precárias instalações alfandegárias, perdidos em arredada burocracia.

Neste estado de espírito, cada vez mais impacientes e irritadiços, só ao fim de longuíssima hora pudemos transpor o último umbral do edifício alfandegário. E dominados por essa indisposição, a que se juntava a falta de sono, não conseguíamos corresponder como devíamos aos primeiros sorrisos goeses que, à saída do edifício nos aguardavam, levando-nos a quase ignorar o colorido dos saris e a gentileza do gesto com que nos ofereciam colares de flores, a troco de escassas rupias.

Portanto foi com alívio que, já instalados no autocarro, o sentimos pôr-se em marcha e seguir por uma estrada estreita, ladeada por extensas planícies cobertas de restolho, de secura. Uma paisagem de acordo com o nosso incómodo humor, a qual mal olhávamos da janela do autocarro, viatura obsoleta e ronceira, sem ar condicionado nem qualquer outro tipo de refrigeração, que tivemos de suportar ao longo de uma hora de viagem, atravessando matas de coqueiros, aldeias e a cidade de Margão, na qual mal reparámos, apesar da animação do seu mercado ao ar livre, repleto de frutas e legumes. Uma paisagem penosa que nem a gentileza dos sorrisos goeses, nem a curiosidade pela paisagem que lentamente íamos atravessando, nem a afabilidade do pessoal de transportes tinha conseguido amenizar. Uma viagem desgastante, que por vezes nos remetia para uma misericordiosa sonolência.

De súbito, porém, tudo se transformou como por encanto. Algo de imprevisível, feérico, se nos oferecia na visão esplendorosa dos maciços polícromos de buganvílias que, à entrada do extenso recinto, se estendiam pelos muros e vedações que delimitavam o espaço do hotel (o Leela Beach) onde nos aguardavam.

Era o oásis, quase irreal, que de imediato parecia fazer-nos esquecer as agruras da longa viagem que continuou ainda, por comprida área florida, ladeada de canteiros viçosos até que o autocarro se deteve num largo, onde sobressaíam exóticas palmeiras de leque, idênticas às que, em Singapura, tínhamos podido admirar.

E quando nos foi dado escutar, nesse pequeno largo, a água cantante dos repuxos do tanque circular, pintado de cor de rosa como as fachadas dos edifícios do complexo hoteleiro, e pudemos, enfim, repousar nos amplos salões da receção e deixámos que o olhar vagueasse pela vegetação, através das largas janelas e avistámos as águas cintilantes de uma nesga de mar, então sim, acreditámos que tinha valido a pena tanta incomodidade.

Aquele era realmente o oásis desejado. Real, acolhedor, fascinante.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 22 – 9 – 1994

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Foi na cidade histórica de Velha Goa que, tal como me havia já acontecido em Malaca, me lembrei, de súbito, de Cambeses.

Não pela paisagem, evidentemente, nem pelas pessoas, indianos na quase totalidade, que circulavam pelos espaços verdes que abundam entre as grandiosas igrejas desta antiga cidade, outrora capital de Goa, e hoje apenas, e muito é, uma cidade museu.

Lembrei-me de Cambeses porque a primeira igreja que nos foi dado visitar foi, precisamente, a Basílica do Bom Jesus. E lembrei-me apenas por causa do nome, porque no interior não encontrei, como na igreja de S. Pedro, em Malaca, os andores com o senhor dos Passos e a Senhora das Dores. Nesta igreja, construída sob a invocação do Bom Jesus, um outro culto nasceu e se instalou de tal modo no coração dos goeses que não pode ficar ignorado. O culto de S. Francisco Xavier que, como se sabe, morreu longe dali, e mais tarde foi trazido incorrupto para a velha Goa, assim de mantendo ao longo dos anos, até aos dias de hoje, repousando na sua urna de vidro com o único braço, o esquerdo, pousado sobre o peito, já que o outro, o direito, foi decepado e enviado a Roma, para que não se duvidasse da sua incorruptibilidade, sinónimo de santidade, numa altura em que o povo goês o tinha já canonizado e, fervorosamente, venerava os seus restos mortais.

Veneração que ainda hoje continua intensa, viva, tal como em Malaca, terra onde S. Francisco Xavier, homem de extraordinária energia, se devotou à cristianização dos povos orientais. Um santo que possuía tal poder de persuasão, que Malaca, cidade do vício e do crime, se deixou disciplinar pela força da sua palavra.

Como nota curiosa e exemplo vivo da devoção a S. Francisco Xavier, são muitos os Franciscos que podemos encontrar em Goa, nome aí tão vulgar como era, até há poucos anos, o nome de Maria em Portugal.

Disseram-nos, ainda, que é de tal modo profunda a devoção que os goeses têm por S. Francisco Xavier, que até muitos goeses ligados ancestralmente ao hinduísmo, lhe prestam o seu culto. Não sei até que ponto isto pode ser verdade, sei, isso sim, que muitos eram os indianos, famílias inteiras com crianças, que ali estavam, no interior do templo, demorando-se diante do altar onde o túmulo do apóstolo se encontra.

Aliás, nenhum outro motivo deveria haver para os trazer até ali, porque a cidade de Velha Goa, hoje cidade museu, com as suas grandes igrejas e os seus espaços verdes, onde não há casas comerciais nem de habitação, não tem nenhum outro atractivo para lhes oferecer, a não ser a devoção ou a atração que o mistério da sua incorruptibilidade representa.


Publicada no Jornal de Barcelos de 24 – 11 – 1994

sábado, 5 de novembro de 2016

Estive há pouco numa vila raiana, antiga fortificação militar, onde assisti a um simpósio que podia ser um simpósio igual a muitos que, nesta especialidade ou naquela, sempre vão acontecendo pelo país fora.

Mas não era um simpósio igual a tantos, e a diferença estava precisamente na VOZ. Voz que, naqueles três dias, que foi o tempo que o simpósio durou, se fazia ouvir para lá das palavras. Não era a voz das pedras gastas pelos muitos passos que as percorreram, nem a voz dos que, em defesa da vila, ou melhor, da pátria, ali tombaram.

Naquelas horas de estudo e de reflexão, a VOZ que se fazia ouvir, muito forte, muito pura, era simplesmente o apelo das raízes. Não é produto de retórica nem simples devaneio, isto que aqui se afirma, porque a VOZ estava lá, real, nas vozes dos que, serenamente, falavam do amor à terra. Amor dito com palavras e comprovado com factos.

Estava no empenho de uns quantos, decididos a que a vila cresça, mas de forma harmoniosa, sem agressões no seu património arquitectónico. Decididos a que o concelho progrida economicamente mas longe dessas ambições e sofreguidões que destroem os bens essenciais à vida, como o é a água, para não falar noutros. Decididos a que o concelho se modernize sem prejuízo da sua identidade cultural.

E sei que o vão conseguir (e muito conseguiram já) porque estão tomados de amor à sua terra, obedientes à voz do sangue, presos pelas raízes que, naquele chão pedregoso se afundam. E embora poucos, eram muitos, porque fortes e esclarecidos.

E julgo não usar de indiscrição se, para melhor exemplificar, identificar alguns deles, dos quais destaco o presidente da edilidade, homem dali, da terra beirã de seus avós, ali nascido e embora mais tarde radicado em Lisboa, tudo lá deixou para, na sua terra, melhor lutar por ela.

Presidente eleito e reeleito sucessivamente, não porque é deste partido ou daquele, mas porque é o Homem que as populações idealizaram e querem. Homem que sobe, incansavelmente, escadas dos ministérios de Lisboa, que percorre corredores, que espera à porta dos gabinetes e, como não se resigna a regressar de mãos vazias, volta daí a pouco a atravessar o Terreiro do Paço, a subir escadas, a esperar à porta dos gabinetes, e tudo o mais é secundário para ele.

Um outro homem digno de menção era alguém que do Brasil tinha vindo, propositadamente, para ouvir falar da terra de onde partira menino ainda, ele que, mesmo longe, jamais deixara de se documentar sobre a sua terra, o que lhe permitira já escrever dois livros sobre a sua história. E falava em doar a sua biblioteca, que julgo valiosa, e falava em Casa de Cultura, em animação cultural dentro daquelas históricas muralhas.

Igual entusiasmo se via na voz do ilustre compositor, professor de música e padre, que fez questão de nos levar a ouvir música da sua aldeia “a aldeia mais pequena de Portugal”, segundo disse. E havia o exemplo espantoso daquele jovem casal, ele arquitecto e ela professora de inglês que, deixando Lisboa onde nasceram, cresceram e estudaram, se vieram instalar naquela terra que era a dos seus antepassados, para darem uma nova vida à velha quinta de família, até aí semiadormecida no tempo.

Não se julgue que é romantismo ou simples devaneio o que ficou dito. É uma realidade que tive o privilégio de constatar numa terra beirã que Lisboa não consegue esquecer porque ela está lá constantemente a bater-lhe à porta, a acordá-la, essa terra corajosa. Terra onde a natureza é madrasta se a compararmos com a nossa, esta terra barcelense, terra humosa, de verde e de sol, terra a que Cambeses pertence.

E sobre este assunto muito mais se poderia dizer. Mas talvez o que foi dito seja já suficiente para que alguns sobre o assunto se demorem e possam reflectir sobre os valores que aqui se defendem, se ainda estão suficientemente libertos para o fazerem, evidentemente.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 10 – 12 – 1992

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Não tarda que uma nova época balnear surja e, com ela, a animação das praias, com carros a chegarem, logo de manhã, pelas estradas que à beira-mar vão dar. É o bulício, o ruido dos motores e claxons, a multidão ansiosa e alegre ao começo da manhã, fatigada e impaciente nas filas, à hora do regresso.

Assim em todas as praias. E um pouco mais nessa que foi a praia do meu fascínio em tempo de infância: a Póvoa de Varzim. Praia de mais fácil acesso para quem, naquele tempo, vivendo em Cambeses, podia utilizar o comboio até lá, sem incomodidades nem preocupações de maior.

Dias que a memória afectiva guardou, sem outros que se lhe pudessem comparar em beleza: a beleza desse mar das marés vivas de agosto, a arremeter pelo areal, ameaçador, poderoso. Um mar até hoje inalterável, e que é o oposto desse outro que, lá tão longe, conheci: o mar da China. Um mar calmo na baía de Aberdeen, um mar apetecido, não fosse a ameaça de tubarões, apesar da rede defensiva a todo o comprimento da praia, protecção que não deixa tranquilo quem queira aventurar-se nessas águas tépidas, irmãs dessas outras que se tem de navegar, se estando em Hong Kong e se deseja conhecer Macau.

O “jet-foil” que faz a ligação entre os dois territórios é rápido, seguro e tão confortável como o interior de um avião. E o mar é calmo e tranquilo para quem o olha: um mar muito belo, de um verde tenro, a condizer, não só com as ilhotas desertas que se vão encontrando ao longo do percurso, mas também com as montanhas costeiras do território chinês, cobertas de vegetação rasteira, montanhas poderosas que, no seu conjunto, tornariam a paisagem austera, se não fosse o verde húmido, acetinado, que as reveste, desde os cumes até à linha de água.

Águas verdes, da cor do jade, num mar sempre igual, que só se altera na cor, com a aproximação de Macau ou, mais propriamente, com a foz do Rio das Pérolas, cujas águas barrentas dão outra tonalidade ao mar que se vai navegando.

Mesmo que não venha a propósito, recordo as margens desse mesmo rio, admiradas mais tarde, de perto, quando percorríamos a cidade.

Esse rio que, em parte, separa a cidade das terras da velha China continental, terras agressivamente defendidas por arame farpado e rede, a desencorajar qualquer desembarque ou fuga ou simples escapadela para, em Macau, dar satisfação a um vício tão do agrado dos chineses: o jogo de azar. Vício que na China não é permitido satisfazer, nem tão pouco em Hong Kong, a não ser nos jogos de apostas, nos hipódromos, tão do agrado dos ingleses, como é sabido.

A sedução da roleta, porém, é, para muitos mais forte, porque imediata. Por isso são os chineses de Hong Kong que vão a Macau, atraídos pelos casinos, cujo movimento, disseram-nos, é comparável a Monte Carlo ou Las Vegas. Não sei se há exagero nesta afirmação. O que sei é que o movimento é intenso, daqueles que ali chegam para arriscar a sorte, e quantas vezes dar motivo a histórias dramáticas, como essas que, no tempo da minha infância, ouvia contar acerca dos casinos. Histórias de fortunas ganhas numa noite e logo esbanjadas. Histórias de fortunas herdadas e definitivamente perdidas à roleta, fortunas desbaratadas, com seu cortejo de dramas familiares.

E hoje?

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 24 – 3 – 1994

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Foi lá para o sul da Malásia, no outro lado do Mundo, que de súbito senti saudades de Cambeses e, por momentos, a memória afectiva trouxe até mim cenários conhecidos e, sobrepondo-se, o “Dia de Passos”, a procissão, as imagens de Jesus e Maria dos andores: toda a dramaturgia da Paixão, num ritual de séculos.

Vindos da capital da Malásia, Kuala Lumpur, tínhamos há pouco chegado à cidade de Malaca e, seduzidos pela História, logo procurámos tomar contacto com as ruas de casas antigas, o Museu Memorial de Malaca, onde a presença portuguesa está testemunhada em documentos e imagens; tínhamo-nos detido junto à porta de Santiago para, de seguida, subirmos à colina onde S. Francisco Xavier viveu os últimos anos da sua vida.

Após um curto deambular e visita às ruinas da igreja de S. Paulo, ao lado da qual se ergue a estátua de S. Francisco Xavier, foi a vez de descermos em direcção à igreja de S. Pedro, essa igreja onde, de súbito, senti saudades de Cambeses. Trata-se de uma igreja muito bem conservada, cuja fachada, curiosamente, está pintada de verde-claro.

Já no interior, detivemo-nos por momentos junto da pia baptismal em granito, a lembrar um pouco aquela onde, em Cambeses, fui baptizada. Depois seguimos ao longo da ampla nave central, admirando os altares onde S. José, Santo António, O Arcanjo Gabriel e outros são venerados e, de súbito, ausentei-me desta terra malaia para ter, diante dos olhos da memória afectiva, Cambeses em “Dia de Passos”.

Foi um encontro inesperado esse, com as imagens do “Senhos dos Passos”, a “Senhora das Dores”, numa das capelas laterais, imagens colocadas em andores, semelhantes aos que, no primeiro domingo de Quaresma, saem da Igreja Matriz em solene procissão quaresmal. Imagens representativas de um mesmo catolicismo e, no entanto, diferentes como a expressão de arte, na Arte que lhes deu origem.

Era uma imagem do Senhor dos Passos em tamanho natural, tal como a existente na capela do Bom Jesus, vestida, não de veludo roxo mas de veludo púrpura, a cor da dignidade real. Tinha a mesma expressão sofredora sob o peso da enorme cruz de madeira, joelho dobrado pela exaustão a que o sofrimento levou.

As feições, porém, eram as de um homem oriental, de pele muito morena e olhos negros, diferentes dos da gente do ocidente, tais como o rosto da Senhora, um rosto de cor azeitonado, como o das mulheres malaias.

Mas não foi esta visão do artista que mais me impressionou. Impressionou-me sim, que este culto do Senhor dos Passos, que o mesmo é dizer do Senhor da Cruz, tenha resistido às viragens políticas, aos conflitos bélicos, às invasões de dominadores cuja religião oficial não era a católica, e continue ainda hoje, num país onde a religião oficial é a islâmica.

Por isso, ao sentir saudades de Cambeses, não pude deixar de me maravilhar também, perante este testemunho devocional, traduzido na Procissão que os andores me levaram a imaginar, não ao longo de um percurso difícil de percorrer como é o de Cambeses, mas antes pelas ruas planas de Malaca, à beira do mar, longe de Lisboa, onde a primeira procissão dos Passos, ao que se julga saber, teve lugar em 1587, dramaturgia da Paixão intensamente vivida pelos lisboetas, tal como ainda hoje o é pelos habitantes de Cambeses, tal como será pelos católicos de Malaca, seguidores de um catolicismo que os portugueses lhes levaram nesse longínquo tempo das caravelas, por vontade de El-Rei de Portugal.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 3 - 2- 1994

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Não sei de onde partiu a ideia. Mas se não foi da igreja diocesana, teve pelo menos o seu beneplácito. Refiro-me ao actual costume de encimar igrejas e capelas com uma simbólica cruz cristã, constituída por lâmpadas, e que na noite das zonas rurais, sobretudo, brilha como uma mensagem de esperança e já não nos surpreende. 

Surpreendente foi, na noite coreana, por entre a profusa iluminação da cidade de Seul, termos deparado com algumas cruzes da religião cristã, traçadas a verde pela luz das lâmpadas elétricas. E olhando-as era como se estivesse do outro lado do mundo, e olhasse a cruz que, no alto da capela do Bom Jesus do Monte, brilha luminosamente verde, como mensagem de esperança para esta terra conhecida ainda hoje por Couto de Cambeses, embora do couto que foi, nenhuma memória em pedra haja já, a não ser o portão armoriado, aquele que dava entrada para essa casa carregada de história, onde a Justiça e a administração funcionaram durante séculos.

Mas voltando ao assunto inicial, que é o culto da religião católica em Seul, foi-nos dito por Pedro, o nosso guia asiático, que as religiões cristãs, católica e protestantes, têm muitos fiéis nessa cidade, cuja população excede a de Portugal. Ele próprio nos disse ser católico, daí a explicação para o seu nome, o nome do apóstolo. Daí também a explicação para as cruzes luminosas sobressaindo na noite coreana, como um sinal do Divino.

E, se por si só este facto dá da cidade uma imagem carregada de beleza espiritual, igualmente belo é o facto de povos que seguem credos diferentes como são os dos cristãos e, de entre outros, os confucionistas e budistas, que aqui têm os seus templos e, igualmente muitos fieis, viverem num clima de paz e concórdia, onde a mútua tolerância religiosa, a compreensão e a boa vontade não são palavras vãs numa cidade que, seria de admitir, estivesse muito materializada, dado o seu espectacular progresso, sobretudo a partir da preparação para os jogos olímpicos que, como se sabe, aqui tiveram lugar em 1988.

É, de facto, uma cidade que cresce continuamente e onde os altos prédios de dezenas de andares fizeram de Seul uma cidade moderna, sem no entanto deixar de conservar o mais possível os edifícios antigos, os parques arborizados, os museus e palácios e, sobretudo, as velhas igrejas protestantes e católicas, bem como os templos budistas, para que a cidade não se descaracterize, não perca a sua alma, para se devotar apenas ao lucro desenfreado, ao crescimento selvagem, como acontece entre nós, em cidades e aldeias até.

Todos nós conhecemos ou ouvimos contar casos de igrejas que se descaracterizam em nome do progresso, de prédios veneráveis porque carregados de história, os quais se arrasam porque não dão o rendimento que apetece, etc., acontece todos os dias bem perto de nós, quanta vez, às escâncaras, ou subtilmente ao abrigo de leis que se invocam e, por vezes podem ser interpretados segundo conveniências particulares, com absoluta indiferença pelo património cultural de uma comunidade.

Porque, acima de tudo, para uma certa camada social, o que interessa é o lucro que protege a imagem, o “parecer em detrimento do ser”. O que por vezes, sendo dispendioso é também doloroso, se acaso os sinais exteriores de riqueza não coincidem com a verdade. Estes, para quem a simbologia da cruz, luminosamente verde, tem muito menos importância que a luz real, utilitária, que emana dos vários faróis dos seus potentes carros.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 17 – 2 – 1994

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Foi em Xangai, de visita ao Museu de História, ouvindo as explicações do guia acerca das porcelanas expostas que, por uma associação de ideias, me lembrei dos barros da nossa terra, de cuja origem não me vou ocupar aqui por várias razões, entre elas a de não ter formação académica específica que me permita alongar-me sobre o assunto.

Portanto limitar-me-ei a dizer que gostei de ouvir Wang, o nosso guia chinês em Xangai, que se expressava em espanhol, contar-nos a história da cerâmica chinesa, materializada em objectos utilitários e de adorno, cuja história se perde nos tempos, ao mesmo tempo que documentam a milenar história da China em épocas várias.

Segundo uma lenda chinesa, o primeiro recipiente em barro resultou por acaso, quando alguém, tendo construído um cesto em palha, o pintou com barro para o tornar mais útil e firme. Depois deu-se um incêndio e a palha do cesto foi destruída e, consequentemente, o barro cozido, o que o tornou suficientemente sólido para se aguentar no uso a que se destinava.

Assim começou, segundo a lenda, a fabricação da loiça que, milénios depois, iria dar lugar às delicadas porcelanas chinesas que, para serem autênticas, dizia-nos Wang, têm de ser transparentes como jade, finas como o papel, brilhantes como um espelho e sonoras como uma campainha.

Evidentemente que as peças do nosso barro não têm estas características, mas não deixam de ser belas e de ter projecção internacional, como é o caso do galo, cujo simbolismo corre o mundo e é um feliz exemplo de criatividade artística. No que se refere a objectos de uso diário, criados a partir da roda do oleiro, se não têm as características delicadas da porcelana chinesa, têm uma harmonia e delicadeza de formas notável, como por exemplo o cântaro de barro que as mulheres iam encher à fonte e transportavam à cabeça, sem o segurar com as mãos, num prodígio de equilíbrio e elegância dignos de registo.

Belas como esses cântaros são as caçoilas de três pernas e os alguidares vermelhos e vidrados, bem como as almofias e prateiras, igualmente vidradas, apresentando desenhos ornamentais delicados e imaginativos. Hoje quase se poderia dizer que esses objectos mais não são do que peças decorativas, porque o plástico veio substitui-los na utilização diária. Daí, ao serem transformados em objectos de adorno, tornaram-se, consequentemente, apreciados, não pela funcionalidade, mas sim pela elegância de linhas e delicadeza de decoração, sobretudo se se trata de barro vidrado.

Em tudo isto pensei, escutando as explicações do solícito guia, que Wang se chamava, e orgulhosamente falava da milenária história da China, que os fragmentos de cerâmica das vitrinas documentavam, tal como acontece em qualquer parte do mundo em que há arqueólogos apaixonados, como aliás acontece em Barcelos, sendo exemplo essa exposição de arqueologia que saiu dos muros da cidade e se estendeu ao mundo rural para, deste modo, dar a conhecer as origens desta terra chamada Barcelos.

Por tal motivo não posso deixar de aproveitar a oportunidade para dizer aos mentores e executores de tal acontecimento: Parabéns!

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 27 – 1 – 1994

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Aproveitando uma pausa domingueira em Cambeses, vou folheando distraidamente a revista – magazine do JN, com fotografias do Oriente, essa parte do mundo que me foi dado visitar e da qual trouxe um emaranhado de lembranças que, a pouco e pouco, vou desenredando.

Lembranças e também uma espécie de ternura muito especial pelo povo da China continental, sacrificado desde sempre aos caprichos dos grandes senhores, no tempo dos imperadores, sacrificado, ainda hoje, à inflexibilidade das leis ditadas pelos novos imperadores, que vieram substituir os das dinastias.

Conhecido como sendo um povo paciente, persistente, amigo de arriscar no jogo, é também um povo muito supersticioso. E, a propósito, vem-me à lembrança um episódio banal, acontecido em Xangai:

Tínhamos acedido ao convite para visitar uma casa típica de um operário chinês, e lá fomos, cheios de curiosidade, embora prevenidos quanto à inevitável encenação em casos semelhantes. Recebidos pelo dono da casa, um homem de meia-idade, de trato afável, como o são no geral os chineses, pudemos através do interprete, expor-lhe as nossas questões, às quais foi respondendo gentilmente, tecendo, como seria de esperar, elogios ao Poder político, que lhe proporcionou a possibilidade de adquirir a casa onde vivia com os familiares, incluindo os pais dele. Uma casa que teríamos de considerar singela, rudimentar, se a compararmos com grande parte das casas que vemos pelas aldeias e vilas do distrito; uma casa que, se comparada com muitas da parte antiga de Pequim, era indiscutivelmente óptima.

E enquanto o dono da casa falava, a esposa, discreta e sorridente, como é próprio das chinesas, veio sentar-se na sala ao nosso lado, sem interferir no diálogo que o marido continuava a manter com qualquer um de nós. E, já no final da conversa, alguém se lembrou de tirar uma fotografia com a dona da casa e, apontando a máquina, pediu-lhe por gestos para se colocar numa posição favorável à fotografia.

Inesperadamente, porém, a mulher fez uma expressão de pavor, levantou-se bruscamente e, quase a correr, saiu da sala, deixando-nos perplexos e… mudos.

Mais tarde, viemos a saber que os chineses não gostam de tirar fotografias com flash porque a luz pode roubar-lhes um pedaço da alma.

Devia ter sido essa, também, a razão que, na dinâmica e ocidentalizada cidade de Hong-Kong, levou duas raparigas chinesas a fazerem igual recusa perante a máquina fotográfica: uma recusa peremptória, definitiva, e sem sorrisos, o que, de certo modo nos surpreendeu, pois tratava-se, não de uma mulher de meia-idade, discreta e tímida, como a de Xangai, mas de duas recepcionistas de um restaurante flutuante, frequentado por turistas de todo o mundo, muito belas, espectacularmente vestidas de seda vermelha, aparentemente cultas e delicadas e, por dever de ofício, conhecedoras dos costumes “dos bárbaros ocidentais”.

Mas a superstição é algo que amedronta e, amedrontando, interfere muito no comportamento das pessoas. Vimos isso em Macau e até nos chineses que professam a religião católica.

E por cá?

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 12 – 5 – 1994

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Foi ao deparar com vasos de petúnias floridas, numas escadas exteriores de uma casa de Cambeses que, de súbito, me veio à lembrança a nossa chegada à Coreia do Sul, país que estava no programa visitarmos, e cuja visita se começava então a cumprir.

Tínhamos deixado a severa cidade de Pequim, bem como a trepidante cidade de Xangai, trazendo connosco a lembrança de uma certa forma de vida austera e cheia de limitações para quem aí anonimamente vive, sobretudo em Pequim, cidade de poucas flores e muitas árvores de médio porte.

Por isso foi com alegre surpresa que, ao desembarcarmos em Seul, deparámos logo à saída do Aeroporto com a garridice de vasos de petúnias intensamente floridas, alinhadas ao longo do passeio, do outro lado da rua, flores que não esperávamos encontrar na Coreia com tal profusão, sendo como é, e segundo os compêndios de botânica, uma flor oriunda da América do Sul, bem adaptada àquele clima tropical, para satisfação dos coreanos que, segundo nos pareceu, gostam de flores e de recantos ajardinados. E como se as flores que eles cultivam não fossem suficientes, pintam frequentemente motivos florais como decoração, muito em especial nas janelas dos autocarros de turismo, as quais ostentam bonitas grinaldas que funcionam como alegres dísticos de “boas vindas”.

É um detalhe curioso, que nos surpreendeu, tanto mais que Seul, tal como Pequim ou Xangai, é uma cidade demasiadamente povoada, e onde é bem notória a agressividade da indústria e do comércio, tendência que não anula, como seria de esperar, o gosto pela beleza, tanto da natureza como daquela que a Arte proporciona a quem dela sabe cuidar.

Uma cidade de contrastes, da qual falou com entusiasmo o nosso guia coreano, um jovem asiático que viveu alguns anos na Argentina, para onde seus pais haviam emigrado, e que cedo voltou à terra das suas raízes, confiante no futuro do seu país e empenhado em concluir o seu curso de Economia. Pedro, de seu nome, revelou-se um guia experimentado em nos mostrar as belezas da cidade, locais que nada tinham a ver com as ruas modernas, de seis faixas de rodagem e intenso trânsito, perigosas de atravessar, mesmo nas passadeiras com semáforos.

Diferente foi, no segundo dia da nossa estadia, a visita feita ao maravilhoso “Jardim Secreto”, onde se encontra ainda intacto o palácio real, vazio de realezas desde 1910. É um jardim paradisíaco, com belas construções e belíssimos recantos, Aí se passeava o rei, rodeado de muitos servidores e também de intelectuais, sendo famosa a biblioteca então ali existente, e cujo edifício se mantém intacto, bem como o gabinete de estudo, numa pequena e florida colina.

A propósito das camadas sociais da época real, Pedro explicou a curiosa divisão em classes, vigente nesse tempo. Em primeiro lugar, como é óbvio, figurava a família real. Em segundo lugar os intelectuais. Em terceiro a classe popular média, que incluía comerciantes, agricultores e operários. E por último, a classe popular mais baixa, que abrangia criados e, curiosamente, os carniceiros. Estes assim considerados por terem como profissão destruir a vida. Hoje evidentemente que é diferente, e os criados, se acaso ainda os há, são empregados como outros quaisquer, e os carniceiros, simples comerciantes ou industriais, em nada diferem dos demais.

Hoje, diferentes são os passos que percorrem os extensos arruamentos desse jardim Piwon, chamado “Pi”, que quer dizer jardim, e Won” que significa secreto. Jardim franqueado aos turistas sobretudo, que de todo o mundo ali chegam e se maravilham, o que não foi totalmente o nosso caso, porque aqui em Portugal temos jardins de flora diferente, é certo, mas de beleza nada inferior e onde as petúnias dão o seu colorido, a par das sécias e dos amores-perfeitos.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 17 – 3 – 1994

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Num passeio apetecido em dia soalheiro, atravessámos a ponte que em Cambeses liga as duas margens do rio Este, uma ponte rústica e sólida, como o atestam as pedras de que é feita e a resistência que sempre tem oferecido às cheias que, agora, menos frequentemente acontecem, tornando mais triste este rio triste e sujo, por razões estranhas à vontade das gentes de Cambeses.

O lugar, para quem, de um modo geral, tem os olhos habituados à paisagem citadina, é de uma grande beleza, desde que não olhem para baixo, para as águas grossas e negras do rio, vazio de peixe, ele que, não há ainda muitos anos, era um paraíso para os pescadores desportivos.

E foi atravessando a ponte rústica e rudimentar, que mais não exigia o trânsito que por ali passa, que me lembrei de Seul, a cidade coreana do rio Hang Gang, que muitas pontes ali o atravessam. Mas não foi pelo rio nem pela cidade arquitectónica, nem tão pouco pelas muitas pontes, umas antigas, outras modernas e funcionais, que me lembrei de Seul, a cidade do rio Hang Gang.

E lembrei-me de Seul, porque me lembrei do dia em que seguimos por uma das pontes mais modernas em direcção ao edifício mais alto de Seul onde, num dos seus 65 pisos, nos esperava o almoço programado, um almoço tipicamente coreano. E lembro-me da nossa estranheza quando, paralelo à comprida ponte por onde seguíamos, deparámos com aquilo que parecia serem os pegões de uma ponte moderna inacabada.

E antes que formulássemos a inevitável pergunta do porquê da interrupção dessa obra, a jusante da ponte, por onde continuávamos, o nosso guia coreano, que Pedro, catolicamente, se chamava, apressou-se a dar-nos a explicação.

Aquela ponte tinha sido projectada, aprovada e começada a construir sem que ninguém se tivesse apercebido que o local era um abrigo de aves marinhas, que ali costumavam nidificar.

Quando alertados, os homens do Poder, compreenderam que, se a ponte fosse construída, o consequente tráfego iria perturbar a vida das aves, afugentá-las dali, interrompendo assim o seu ciclo de reprodução, mandaram que a obra fosse suspensa. A ordem foi cumprida e o projecto anulado, apesar dos dinheiros já gastos. E a ponte que depois se construiu, a levante da primeira, estava suficientemente afastada da outra, para não prejudicar o ciclo de vida dessas aves.

Atitude de admirar, sobretudo porque se trata de uma cidade voltada para o progresso económico, para a competitividade, para o trabalho. E também é nosso dever apresentar, para a qualidade de vida dos habitantes, porque a dimensão desse género, há de forçosamente reflectir-se noutras situações, onde a qualidade de vida é um dos principais valores a ter em conta.

“Foi assim que pensaram os homens do Poder e da economia bracarense quando permitiram, e continuaram a permitir que a vida animal, piscícola neste caso, se extinguisse de vez? “ perguntou alguém ironicamente, apontando para o rio onde a morte reina há muito. Claro que a atitude de quem poderia evitar ou minimamente remediar esta pequena catástrofe é a indiferença, porque é a mais cómoda. Pior ainda se tem a vida demasiado limitada pelo cifrão. E, penso eu, se por acaso forem a Seul e lhes contarem, orgulhosamente, essa decisão coreana, dos homens do Poder, talvez nem oiçam. E se ouvirem, darão como opinião um sorriso, de cínica condescendência, perante essa atitude do Poder.

Cada um, mais não pode dar que aquilo que possui, não é verdade?


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 24 – 2 – 1994

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A alteração do título desta nova série de crónicas não significa que a qualidade de vida em Cambeses tenha deixado de estar presente nas minhas preocupações. Nem tão pouco significa que deixei de acreditar numa melhor qualidade de vida para Cambeses, no que respeita à preservação dos seus valores culturais, bem como na adoção de outros que possam complementarizar os ainda existentes.

Porque uma freguesia como esta, que foi na região de Braga e Barcelos, uma das primeiras a ter a sua “escola das primeiras letras”, não pode, agora que tem melhor nível de vida, economicamente falando, deixar desaparecer a herança legada por esses antepassados que, em Cambeses, lutaram por um melhor nível de vida cultural para os seus habitantes.

Porque nunca é demais repeti-lo, uma terra como esta, mais antiga que a nossa nacionalidade, uma terra durante séculos ligada estreitamente à Sé de Braga, não pode esquecer os valores espirituais que a ela sempre presidiram, em momentos difíceis da sua história.

E já que não resisti a falar de valores espirituais, seria injusto se não louvasse aqui uma associação ou, mais exactamente, uma confraria velha de séculos, que através dos tempos chegou até nós bem estruturada, ciosa de bem cumprir, no respeito pelas leis ancestrais que os regem, que o mesmo é dizer, pelos bens espirituais que cultivam.

Estou a referir-me, como não podia deixar de ser, à Confraria do Senhor dos Passos que, sem subsídios nem apoio de entidades oficiais, mas unicamente pelo sacrifício e devoção aos irmãos da Confraria, sempre, em cada primeiro domingo da quaresma, levam a efeito as solenidades dos Passos, as primeiras da Diocese.

Sempre em cada novo ano que surge, tudo corre normalmente, sem atritos nem desacertos entre eles, porque alimentados pela força das raízes ancestrais, que as seculares leis lhes transmitem.

Aliás, é sobretudo através das velhas e fundas raízes que as grandes árvores melhor se sustentam e sustem de pé.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 26 – 11 – 1992

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Da minha estadia em Goa e do muito que aí me surpreendeu e me enterneceu, não posso deixar de destacar um passeio pelo rio Mandovi, um desses passeios oferecidos aos turistas, como aliás é vulgar acontecer em qualquer parte do mundo. E o barco que nos levou a admirar o pôr do sol – era essa a intenção – nas águas largas e tranquilas do rio Mandovi, nada teria de especial, para além da paisagem que nos oferecia, e das cores vermelhas de um pôr do sol quente e rubro como só acontece por aquelas paragens, se não tivesse havido, no programa de animação incluído no passeio, algo que não só alegremente nos distraiu mas também me surpreendeu e enterneceu.

Um programa de animação em princípio destinado a todos os passageiros turistas, indianos uns, outros turistas de cabelos loiros, talvez germânicos, talvez americanos ou nórdicos, não sei.

Sei apenas que o grupo artístico, goês, que a si mesmo se intitulava “Grupo Alegria” depois de se dirigir em inglês ao público em geral, e era bastante naquele espaçoso barco, começou a falar em português, traduzindo o que havia dito já, e acrescentando que o espetáculo era dedicado a um grupo de portugueses que tinham vindo assistir à inauguração do consulado de Portugal. E ainda ele não tinha terminado esta frase, já uma salva de palmas revoava no espaço aberto entre céu e rio. Olhando em redor, pude observar que o maior entusiasmo nas palmas era dos passageiros de raça indiana, embora houvesse gente loira que os secundasse.

Depois foi um suceder de músicas, se não antigas, pelo menos com algumas décadas, como a aportuguesada “raspa”, e sobretudo música popular e folclórica, desde a “Tia Anica de Loulé” ou “Os Olhos da Marianita”, até ao nosso “Malhão”. Momentos musicais a que se juntava a atuação de um grupo de danças que coreografou histórias de pescadores e barqueiros do rio. Finalmente, mudando de traje, eles e elas, trocaram os trajes indianos por outros considerados como regionais portugueses, constando os delas de saia rodada, avental e lenço e os deles da calça e colete pretos, à ocidental, e faixa vermelha à cinta. E assim vestidos dançaram para nós o vira e o malhão, o corridinho e outros, numa interpretação onde o ocidente e o oriente se misturavam, resultando daí um espectáculo onde a ternura e a harmonia se davam as mãos. Surpreendeu-nos, no entanto, ouvir do apresentador a informação de que se tratava, não de música portuguesa mas de “música antiga goesa”. E quem, enternecidamente, não os compreenderia?

Mal escondido ainda, o sol, logo a noite, rápida como sempre, se anunciou, e com ela o final do passeio. E quando, por entre sorrisos trocados com as mulheres de sari e com quem as acompanhava, descemos as escadas a caminho do cais, estávamos felizes, sensibilizados e enternecidos, também. Quem não o estaria?

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 23 – 2 – 1995

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Se alguém ainda sonha com um passeio tranquilo pelas aldeias de Barcelos, é sonho vão, sobretudo se segue pelas estreitas e antigas estradas camarárias, em tardes de domingo, e tem de atravessar locais onde funcionam cafés, e sobretudo discotecas.

Acontece isso mesmo perto de Cambeses, já em Nine, junto a uma discoteca, na estrada que liga as duas freguesias. Há os estacionamentos que são onde calha, e há os grupos de pessoas que ficam a conversar, parados na estrada, como se estivessem num jardim, e há os incautos e os “donos disto tudo”. Por estas razões torna-se necessário efectuar autênticas gincanas com a maior calma possível. Não sei quem tem autoridade para disciplinar estas coisas. Ali, parece que ninguém. O mesmo acontece em Cambeses, junto ao apeadeiro, onde por vezes o trânsito é um pandemónio. Só se avança à custa de perícia e paciência e, mesmo assim, os “toques” vão acontecendo, felizmente sem desastres pessoais, o que se deve à reduzida velocidade praticada, muito inferior à das gincanas desportivas.

E deixando estas coisas que ninguém parece interessado em fazer melhorar, evoco de súbito o trânsito nas cidades chinesas que me foi dado visitar: trânsito de tal modo emaranhado de ciclistas que só um motorista chinês, paciente como só o são os chineses, consegue enfrentar, avançando por entre este autêntico formigueiro de ciclistas sem molestar nenhum deles.

Para se fazer uma ideia, basta dizer que, só na cidade de Pequim, há cerca de sete milhões de bicicletas, disseram-nos, e acredito, tantas elas eram diante dos nossos olhos, a surgir de todos os lados, a meterem-se diante do autocarro, que se limitava a seguir cautelosamente e a buzinar constantemente. Não um buzinar agressivo, próprio de quem está enervado, muito à nossa moda, mas um buzinar de quem pede licença suave e quase que com um sorriso, que é coisa de que os chineses costumam deitar mão, nas mais variadas circunstâncias.

Em Taipé, capital dessa ilha que embora chamada de Taiwan, também é conhecida por Formosa, que foi assim que os marinheiros portugueses a acharam e chamaram, em Taipé, dizia, o trânsito também é caótico, mas os veículos de duas rodas aqui são motorizados, sinal de progresso, esse progresso que arrasta consigo um fantasma negro chamado “poluição”. Uma poluição já de tal modo acentuada que muitos dos motociclistas conduziam de máscara! Eu vi.

Não tenho nada contra os veículos motorizados. Antes pelo contrário. Mas que se gasta muita gasolina só por gastar, sobretudo nas emaranhadas tardes de domingo, lá isso é verdade. Mas como cada um tem o direito de gastar como quer…

O mesmo não dirão os donos de automóveis em Quala Lumpur, capital da Malásia, cidade moderna, de modernos arranha-céus e ruas amplas, bem como a cidade de Singapura, das mais limpas e ordenadas que é possível apreciar, porque nas horas de ponta nenhum automobilista pode circular nestas cidades, só. Tem de levar consigo companhia ou pedir a quem o leve. Isto na intenção de reduzir o tráfego de carros ocupados por uma só pessoa, como é tão vulgar na nossa terra. E se essa moda se fazia lei, também, cá pelos nossos lados?

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 10 – 2 – 1994

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Várias foram as pessoas que indagaram junto de mim, das razões do meu afastamento das páginas deste jornal. Evidentemente que não se tratou de um afastamento, mas antes de uma curta ausência devida, em grande parte, ao amontoar de compromissos com a escrita, compromissos decorrentes, em certa medida, das impressões da viagem que, em tempo de férias, me foi possível efectuar ao longínquo oriente, com destaque para a milenária e misteriosa China, sem esquecer a Coreia e Malásia.

Daí que, ao retomar a minha colaboração nestas páginas, me seja difícil resistir a, uma vez por outra, falar de experiências vividas nessas terras, do outro lado do mundo. Não será propriamente um relato de viagem, mas antes uma ou outra pincelada, a propósito de pequenos incidentes de rua, como por exemplo este que, de súbito, me veio à lembrança. Foi no primeiro dia da nossa estadia em Pequim.

Após a acomodação no Hotel Sharaton, (em Pequim há excelentes hotéis modernos) estava programada uma visita ao Templo do Céu e Pavilhões Imperiais adjacentes, esses magníficos edifícios de telhados azuis de porcelana. E, cumprida esta, atravessámos o parque para, por uma outra porta, atingirmos o exterior.

Foi então, em plena rua, que deparámos com um espectáculo inesperado: centenas de crianças e pré-adolescentes, rapazes e raparigas, em uniforme escolar azul e branco, pejavam o passeio junto do qual, alguns autocarros estavam de portas abertas, sob o olhar de adultos, possivelmente professores, que pacientemente esperavam por aqueles que iriam embarcar.

Em pequenos grupos, trocavam palavras que não entendíamos, mas que nos pareciam afectuosas e não escondiam a emoção própria do momento, em vendo em muitos olhos sinais claros de lágrimas, e nos rostos femininos um ou outro desatado pranto, enquanto apertavam demoradamente as mãos, já que beijos e abraços na via pública, não é expressão de afeto adoptada desinibidamente no oriente.

E até mesmo um grupo que, num largo mais adiante, tocava viola e cantava, num jeito copiado do ocidente, revelava, ao dirigir-se para um autocarro, sinais de tristeza, que os sons sincopadamente alegres da viola não puderam anular.

Ao querermos saber da razão dessa separação, que se afigurava triste para quase todos eles, foi-nos dito que se tratava de um grupo de estudantes japoneses que, ao abrigo de um qualquer acordo, tinha passado uma temporada em Pequim, em convívio fraterno com os seus colegas chineses, do qual resultou uma espontânea amizade entre os estudantes destas duas nacionalidades, bem nítida no momento da separação.

Cena que podia apenas despertar uma terna e afectuosa apreciação, se não fosse impressionante, para além de significativa. E isto pela simples razão de nos lembrarmos que muitos deles serão talvez netos dos soldados que, décadas atrás, se guerrearam mutuamente, com o ódio e a crueldade que as guerras sempre comportam. E a guerra entre China e Japão não foi exceção, muito pelo contrário.

Ia continuar a divagar… inesperadamente porém interroguei-me: E porque não a esperança?

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 20 – 1 - 1994