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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Há tempos, alguém que, nas horas vagas, gosta de filosofar teceu estas considerações: Quando inesperadamente o raio cai sobre a árvore e a destroça, resta, após a luz que cega e o estrondo que ensurdece, a estupefacção, o assombro que paralisa; o silêncio. É um momento que irremediavelmente divide o tempo em dois, e nada mais volta a ser como até então. Porque, a partir daí, passa a haver o “antes” e o “depois”.

Foi em julho de 1996 que, neste jornal se publicou o meu último artigo, intitulado “Daqui de Cambeses”. Depois foi o silêncio. Não por razões de menos consideração por esta jornal e pelos amáveis leitores que estranharam a minha ausência, mas sim por razões pessoais que não cabe aqui explicitar.

O ser humano, porém, tem incalculáveis reservas de energia e dia vem em que, contra todas as expectativas, consegue olhar em redor e verificar que, apesar de já nada ser como dantes, o sol continua a brilhar. E há aves pelo meio da folhagem, e há seiva e húmus e vida.

E por tudo isso, e apesar de ter chegado a admitir que não mais seria capaz de voltar a escrever estes despretensiosos artigos que vozes amigas, ao inquirir da razão do meu silêncio, diziam apreciar (a amizade tem destas coisas), aqui estou, afinal, na intenção de encetar um novo conjunto de crónicas, muito ao meu jeito.

O título é outro, o modo de escrever também já não será o mesmo do tempo de antes. Mas o afeto pela terra onde me criei, esse não sofreu alteração. Senti-o com mais agudeza ainda, perante novas provações por que fui obrigada a passar quando o raio caiu de novo e de novo destroçou mais uma árvore.

Foi precisamente a partir desta nova provação que, nos testemunhos de consideração e afeto recebidos naqueles dolorosos dias de setembro passado, pude perceber que, em Cambeses, apesar das transformações exteriores, os valores tradicionais aí estavam inalteráveis, traduzidos no respeito perante a morte, nos gestos de solidariedade, nas manifestações de simpatia, e onde, a par de discreta mágoa, havia sinais inequívocos de amizade.

E então, como forma de agradecimento, porque outra não sei, deitei mãos a um antigo projecto que era, dentro das minhas limitações, deixar em livro alguns apontamentos sobre a minha terra. Por isso revi todos os informes colhidos durante vários anos, com inestimáveis ajudas daqueles que não mais o poderão fazer, consegui juntar a estes algumas outras informações, e a obra foi crescendo e o tempo virá, não muito longínquo, em que todas essas informações, como disse, pacientemente colhidas uma a uma e depois coligidas, tomarão a forma de livro.

Peço aos meus leitores, em especial, que nada terão a ver com Cambeses, me perdoem ter ocupado todo este espaço a falar de mim ( o que não gosto), das razões do meu silêncio, e do livro sobre Cambeses, consequência indirecta desse mesmo silêncio. Trata-se porém de uma obra que, ao ficar ao alcance de todos aqueles que, como eu, aí cresceram, lhes permitirá saber algo mais sobre esta terra que nos ajudou a fortalecer e, de um modo muito particular, nos ensinou a olhar o mundo.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 3 – 2 – 2000

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Já passaram largos dias, mas a imagem daquela tarde de domingo vivida com os meus conterrâneos de Cambeses está tão presente em mim como se hoje mesmo tivesse acontecido. Talvez mais terna, mais luminosa, porque guardada na memória afectiva, permitindo-se assim analisar, de forma mais serena, a emoção das horas intensamente vividas, tudo o que os meus sentidos, naquela tarde, puderam alcançar.

Sempre acreditei na amizade, sobretudo numa amizade como esta, alicerçada no mesmo chão, onde raízes comuns contribuíram directamente para que aquela tarde de domingo acontecesse. E também os conterrâneos presentes, sobretudo no momento do autógrafo, não perdiam a oportunidade de dizer uma palavra amiga ou de transmitir a mensagem de quem não pôde estar presente e gostaria de estar.

Quanto a nomes, embora gostasse de o fazer, não vou citar nenhum porque, involuntariamente se pode dar origem a situações menos desejosas.

Do êxito daquela tarde de domingo, que aconteceu porque Cambeses assim o quis, falaram os jornais barcelenses, pelo que não vou repetir o que ali foi dito. Mas uma coisa há que não posso deixar de salientar: é, para além da presença dos amigos que de longe vieram, o facto de a imprensa barcelense ter estado marcadamente representada, embora tivesse de percorrer muitos quilómetros para, na periferia do concelho, assistir a um evento de interesse local, depois de, generosamente, ter falado desse ato cultural que à freguesia, sobretudo, diz respeito.

E, refira-se, falaram de um modo que a todos nós, cambesenses, agradou profundamente o que, e para só citar um caso, não aconteceu no artigo inserido num grande jornal diário do Porto, em que o jornalista, como já tive ocasião de referir, apesar da sua conhecida competência, foi pouco feliz nas notas que tomou quando se deslocou a esta freguesia, e menos feliz ainda, no artigo que escreveu acerca da mesma.

Com os jornalistas da imprensa barcelense foi diferente. E tudo isso se deve ao bom profissionalismo desses mesmos jornalistas, a quem não posso deixar de agradecer a simpatia e cuidado postos nas notas que foram tomando para a elaboração do texto. Não pude agradecer-lhes pessoalmente, e dessa minha falta involuntária aqui me penitencio, embora sabendo que compreenderam a razão desse meu impedimento.

E ao mesmo tempo que agradeço à imprensa barcelense, quero agradecer aos meus amigos da cidade de Barcelos que, relegando para segundo plano o convívio com a família, tanto mais que era domingo e o sol brilhava generosamente, convidando a um passeio até à beira mar, não hesitaram em vir até aqui. Não vou citar nomes por razões óbvias.

Mas sei o sacrifício que alguns deles fizeram e o seu empenhamento para que este ato resultasse como resultou. Mais uma vez a todos o meu “muito obrigada”.

Quanto à Monografia, ela aí está, tentando explicar, dentro do possível, a razão de Cambeses ser, ainda hoje, conhecida por Couto, esperando que, a não ser malevolamente (e isso não é possível impedir) os outros, os que não são daqui, se refiram a esta terra com o respeito a que o povo desta freguesia sempre teve direito. Direito ao respeito, direito à admiração, pelo passado de coragem, persistência e fidelidade aos seus valores ancestrais.

Daí o meu orgulho pessoal de ter nascido em Cambeses, como minha bisavó Felícia nasceu, há muito mais de cem anos. Essa mesma terra onde minha bisavó Pilar, nascida na Galiza, quis ficar para sempre, junto dos restos mortais de seu filho Gonçalo.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 3 – 2 – 2000

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Como é sabido, há muitos escritores que são convidados para ir aqui ou acolá com o objectivo de dissertarem sobre este ou aquele tema, sobretudo livros, seja os da sua autoria, seja simplesmente “o livro” como meio difusor do conhecimento. E, a propósito, direi não ter por costume falar nestas páginas da minha faceta de escritora mas, na circunstância, não posso deixar de o fazer.

Vem isto a propósito do seguinte: acedendo a um simpático convite do corpo docente de uma escola barcelense do primeiro ciclo do Ensino Básico, como agora se chama ao antigo Ensino Primário (o qual por sua vez tinha já sido chamado “das Primeiras Letras”), desloquei-me um dia destes a uma dessas escolas, mais propriamente, à escola da Gandarinha, que fica na freguesia de Galegos, S. Martinho, uma terra de artistas do barro, segundo julgo saber.

Confesso que levava comigo alguma apreensão, para não dizer receio, quanto ao modo como iria ser recebida por essa gente de palmo e meio mas, mesmo assim, dispus-me a enfrentar esse grande grupo de gente pequena, embora não sabendo, por falta de experiência, o que me esperaria, tanto mais que aos meus ouvidos continuavam a soar vozes de alguns “velhos do restelo”, que os há em todos os lugares e situações.

Não tardou porém que todos os receios e prevenções de que vinha munida se evaporassem como por magia e, encantada, vi alguns deles aproximarem-se de mim de forma descontraída, como se há muito nos conhecêssemos e, ufanos, chamarem a minha atenção para os quadros expostos, ou seja, os desenhos com legendas que eles haviam feito, inspirados num determinado conto infantil, tendo alguns deles modelado em barro os animais que eram as personagens desse conto muito simples, que um dia escrevi.

E assim, após ter admirado a exposição dos pequenos artistas, foi-me dado assistir à dramatização do referido conto, toda ela desempenhada com muita sensibilidade e arte, merecedora de largos aplausos. Finda esta, os pequenos rostos (mais de cem) cujo olhar curioso e inquiridor me fez sentir como quem vai prestar provas perante um júri exigente e inexorável.

Passado porém o primeiro impacto e afastado o meu breve constrangimento, senti-me agradavelmente surpreendida com a atenção dessas “pessoas tão importantes” (não é ironia) que com a descontração própria da idade me dirigiram as primeiras perguntas. Perguntas bem estruturadas, ordenadas, por vezes imprevistas, as quais tiveram o condão de estabelecer entre nós uma rápida e firme empatia.

O tempo passou quase sem se dar conta e, como sempre acontece, a hora de terminar o nosso convívio chegou e vi-os retirarem-se ordeiramente (com a vivacidade que lhes é própria, evidentemente), sem uma advertência, uma repreensão, um aviso. Foi, ouso dizê-lo, uma experiência que resultou em pleno. Evidentemente que tal não aconteceria se antes não tivesse havido uma conjugação de esforços por parte de todos os elementos da escola, como aliás é indispensável que haja sempre que enfrentem situações que não tenham a ver com as do quotidiano. Que dizer mais? Dizer apenas que gostei não chega, porque me entusiasmei e também me comovi, tenho de o confessar.

Maravilhei-me, acrescento, e intimamente aplaudi o esforço desse grupo de jovens professores que soube encontrar forma de explicar à sua “gente de palmo e meio” a importância do livro e da leitura, incutir-lhe de forma indirecta, que um escritor é um ser humano como outro qualquer, que não vive numa redoma, e que, além de escrever histórias, sabe falar, rir e escutar, tal como os adultos com que eles, no seu dia a dia convivem, de uma forma ou de outra.

E, já de regresso, entregue às minhas reflexões, vieram-me à ideia os companheiros de escola, os da minha geração, que é a da palmatória, esses que, em grande parte, não só têm dificuldade em aceitar os atuais métodos de ensino, como também criticam e reprovam quase tudo o que é inovador, (não nego que haja nos novos programas aspectos que dificilmente poderão merecer o nosso aplauso), mas não podemos criticar a torto e a direito, só porque é diferente.

Por esta razão julgo que, se acaso alguns desses companheiros me lerem, talvez não acreditem na autenticidade das minhas impressões e emoções, e rebatam o meu ponto de vista, mas por aqui me fico. Não quero nem posso enredar-me em teorias que envolvam didácticas e pedagogias, porque correria o risco de revelar ignorância, uma vez que nunca exerci a docência neste nível de ensino.

E, além disso, seria alterar a minha intenção inicial, que é dizer, sobretudo, do meu agrado por ter estado na Escola da Gandarinha e porque fiquei feliz com essa experiência. Em relação aos professores, não posso deixar de testemunhar a minha viva admiração pelo trabalho que executaram previamente, para que esse encontro resultasse como resultou, tanto mais que, segundo julgo saber, uma parte significativa desses alunos provêm de famílias onde possivelmente pouco se falará de livros e de escritores e, muito menos, se perderá tempo com leituras.

Daí a razão de aqui ter vindo falar dessa experiência, porque, bem o sabemos, acontecimentos destes não despertam o interesse de quem tem por ofício dar a conhecer grandes acontecimentos (sobretudo chocantes).

Mas, julgo eu, se por um lado acontecimentos destes não chocam a opinião pública, por outro lado ninguém poderá negar o quanto é agradável falar da beleza de pequenos-grandes eventos como este. E saber-se deles também!


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 6 – 11 – 2000

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Naquela época, o Natal era mais do que a ceia farta e sobremesas que só naquela altura comíamos.

Naquela época, o Natal era mais do que a azáfama na cozinha e a chegada dos avós com as suas misteriosas malas.

Naquela época o Natal era mais do que o findar de jejuns e abstinências, mais do que uma ceia diferente. Era a festa pela qual esperávamos desde meados de outubro, sem saber por que esperávamos. Sabíamos apenas que havia algo de místico e de misterioso, que até a essa noite nos conduzia.

Daquela época não guardo, portanto, lembrança de brinquedos espectaculares, esses que pouco esforço de imaginação exigem das crianças, e se destinam, muitas vezes, a serem aplaudidos e admirados pelos adultos, e também invejados pelos de bolsa mais magra.

Dessa época me ficaram na lembrança, mais do que a obtenção do desejado brinquedo, doces imagens do Natal popular, ingénuo e límpido, sem as seduções do consumismo prontamente adotado pelos citadinos, e só mais tarde pelos outros.

Daquela época não guardo lembranças desse pinheiro exótico que nada tinha a ver com os pinheiros bravos dos nossos montes e que gentes de outros países convencionaram chamar “Árvore de Natal”.

Daquela época não guardo lembranças de renas e trenós e de branca neve, e muito menos de um obeso Pai Natal com o saco repleto de brinquedos.

Dessa época guardo, isso sim, a imagem do presépio monumental que os rapazes da freguesia construíam num recanto da igreja, e do pequeno presépio que toscamente tentávamos imitar, num recanto da nossa sala, aonde chegavam, vindos da cozinha, o cheiro da canela e do açúcar, o som de palavras soltas e do vaivém dos passos.

E com esse frenesim as chegadas e as partidas, o trânsito das pessoas que, de olhar iluminado, iam consoar “lá” ou vinham “cá”. Os avós, a tia que vivia só, a prima viúva, as criadas (era assim que então se dizia), as quais passavam no caminho, ao fim da tarde, com o cesto da consoada à cabeça, coberto por toalha de linho, o qual escondia o recheio que tornaria rica a ceia na casa pobre dos pais.

Dessa época guardo, com serena emoção, a lembrança das novenas do Menino, dos cânticos acentuando o recolhimento íntimo, e da fé com que antecipadamente vivíamos o Natal, pelas madrugadas frias de dezembro. Novenas do Menino, a que se assistia à luz pardacenta do alvorecer, as quais eram abrilhantadas por uma tuna composta, entre outras, pela rabeca do Sr. Camilo, pelo violão do Joaquim do Rego e pela flauta do Zé da Vinha. Cânticos entoados pelas vozes soltas das mulheres e das raparigas: cânticos vigorosos, repercutindo-se na abóbada, onde S. Tiago – Padroeiro as olhava complacente.

Era um Natal vivido com simplicidade, na noite fria, onde estrelas cintilavam, e onde havia, nas casas, o lume de boa lenha que para esta noite se guardava. Fogueira a bailar alegremente, fazendo com que perto dela todos se reunissem fraternos e mais alegres, nos jogos que, com pinhões, as crianças improvisavam sob o olhar complacente e paciente dos adultos.

Não havia troca de prendas, nem tal era necessário, porque havia a espontânea troca de gestos fraternos, de palavras suaves, de olhares afetuosos e límpidos, que faziam daquele tempo um tempo que sentiam ser diferente, um tempo de mistério, de espectativa, de maravilha.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 21 – 12 – 2000

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Como já aqui se disse, em números anteriores, Cambeses, no tempo do Conde D. Henrique, era uma terra com alguns habitantes, os quais se ocupavam da agricultura e, possivelmente, viviam agrupados ao redor de uma pequena igreja, a qual seria da invocação de Santiago, visto que, num documento de 1085, esta terra aparece como S. Iacobo d. Cambeses, o que está de acordo com a opinião de conceituados historiadores, segundo a qual dois caminhos que a Compostela conduziam passavam por aqui, e iam desembocar nos caminhos principais.

Depois houve a instituição de couto de Nossa Senhora da Sé de Braga e a criação do concelho municipal, como se sabe. E porque os reis se foram sucedendo, houve transformações de vária ordem, e as funções iniciais deste couto sofreram profunda alteração. Consequentemente, e ao contrário do que aconteceu com outros coutos da Igreja, Cambeses tornou-se num couto de homiziados, abrigo de gente de outras paragens, gente que era acusada de ter infringido a lei. Alguns desses indivíduos, que no couto se acolhiam, acabaram por partir, outros aqui morreram e outros ainda (talvez poucos) aqui batizaram os filhos que foram nascendo e que aqui se terão fixado, redimidos dos crimes cometidos.

Mas a população inicial, essa que já aqui estava do tempo de D. Afonso Henriques, e tinha adotado um nome para a sua terra, que era S. Tiago de Cambeses, era gente ordeira, respeitadora das leis que então vigoravam, cultivava as terras que, em rigor, não lhe pertenciam, entregando ao senhorio uma parte das colheitas, segundo as leis da época.

Os séculos foram-se sucedendo. Sete ao todo. O couto foi extinto e o concelho municipal também. Consequência também de várias alterações de ordem política e social. Mas a vida continuou, e como sempre acontece, houve épocas de abastança e de miséria também.

Mas deixemos esse assunto e voltemos à história de Cambeses: após a extinção do Couto, o nome de Couto de Cambeses desapareceu nos documentos oficiais, para só ficar o nome de Cambeses, o que não impediu que esta freguesia continuasse a ser nomeada, nas redondezas, por “Couto” e raramente por Cambeses.

Falando neste assunto com quem, por formação académica, se ocupa a estudar comportamentos sociais deste género, e tendo-se sugerido se o motivo de tal atitude seria por a palavra “Couto” ser um a palavra mais curta que Cambeses e, consequentemente, mais fácil de pronunciar, essa opinião foi contrariada com o exemplo do que acontece em relação a outras terras que foram coutos e hoje já não são lembrados como tal. É o caso do couto de Arentim, que existia ainda no século XIX.

Portanto, pondo de parte esta hipótese, quase somos forçados a admitir que o nome de “Couto” persiste mais forte que o de Cambeses, porque este couto foi um couto poderoso. E, porque poderoso, protegeu muita gente, homens e mulheres, que vieram de fora, às vezes de muito longe. Uns seriam autores de crimes de alguma gravidade, outros nem isso. Mas as leis daquele tempo eram severas e as penas, por vezes, cruelmente aplicadas. Daí o medo, a fuga e o refúgio num couto como este, o que não acontecia com Arentim porque esse couto não era de homiziados, embora fosse confinante, em parte, com o de Cambeses.

Mas voltando aos seus habitantes: estes embora alheios às leis que criaram este sistema administrativo, tinam, ao contrário dos foragidos, os seus privilégios e obrigações, que nada teriam a ver com as obrigações impostas aos homiziados, porque no geral eram, como já se disse, pessoas ordeiras, que cultivavam a terra e dela prestavam contas ao senhorio.

Sabemos que a tradição pesa muito. E a tradição do nome couto ainda não se extinguiu na memória colectiva. Daí que, pelas redondezas, se nomeie, ainda hoje, esta terra por “Couto”. E quer alguns dos atuais habitantes gostem ou não, e prefiram dizer que são de Cambeses, o que está absolutamente correto, visto ser este o nome oficial, não se pode, por muito que isso pese, destruir a memória do Couto, pelo que temos de aceitar que esta freguesia seja assim nomeada.

O que não podemos admitir, é que isso nos envergonhe, antes pelo contrário.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Estamos numa nova era e tudo são interrogações e projectos, e algum temor também, perante um futuro que, ninguém duvida, vai ser diferente deste último século que já é passado. 

E se há as guerras e as catástrofes, há também os inventos, as descobertas científicas, e as novas ideias que, embora vindas, algumas delas, de tempos anteriores, se ocuparam do homem e da sua condição de vida, procurando torná-la mais justa. E mais suave também, mais facilitada. Claro que se está muito longe do modelo idealizado. Mas também se está longe do modelo que, na primeira metade do século há pouco terminado, ainda persistia.

Por esta razão alguém disse há dias, referindo-se à época actual: se outra razão não houvesse para olharmos o futuro com algum optimismo, bastaria, só por si, o facto de, diluídas as grandes diferenças sociais, e galgadas todas as latitudes, termos podido festejar em conjunto a passagem para um novo milénio.

De facto, pese embora alguns perigos, o progresso fez deste planeta um “aldeia global”, tal a facilidade em comunicar e a rapidez com que percorremos latitudes e longitudes e vamos até ao outro lado do globo com mais facilidade do que, em meados do século XIX, se ia de Barcelos a Lisboa, capital do reino. E vai-se de Cambeses ao Porto mais rapidamente do que nos tempos da administração do Couto, os nossos antepassados iam a Braga em demanda da sé, onde o poder estava instalado.

Mas voltando à facilidade em viajar, não posso deixar de referir aqui uma viagem (diria de estudo) ao arquipélago dos Galápagos, pertença do Equador, o país dos grandes vulcões, das montanhas andinas e do local geográfico que os cientistas, no século XIX, denominaram de latitude zero, viagem esta, de que participei na companhia de muitos jornalistas e seus familiares. E porque naquele tempo ainda tinha o espírito liberto das sombras que depois vieram, pude tomar apontamentos, rever estudos, tirar fotografias, coligir todo esse material e, com um pouco de imaginação, urdir pequenas intrigas, daí resultando uma narrativa de viagens romanceada, a qual pouco mais que rascunhada, acabou por ficar largo tempo no fundo de uma gaveta, até que finalmente tomou a forma de livro, e começa a ser distribuído pelas livrarias.

Não é meu costume falar aqui das obras que vou escrevendo. Mas, desta vez, quase fui obrigada a fazê-lo, porque por amizade assim mo “impuseram”. Portanto, se alguém achar excessiva esta minha atitude, resta-me, desde já pedir desculpa, por assim abusar das páginas deste jornal.

E resta-me também agradecer a todos aqueles que, direta ou indirectamente, me ajudaram a sair do silêncio a que me remetera, e da inércia em que me deixei ficar durante todo este tempo. E agradecer também o ânimo que me deram, ao mostrarem-se empenhados em que esta escritora, que se orgulha de ser barcelense, tenha o seu lugar no mundo literário da língua portuguesa. É o que vou tentar fazer, embora ciente das minhas limitações.

Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 16-03-2000

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Cambeses Nova Era

Como já se verificou, este é o novo título de uma série de crónicas já iniciada, do qual consta, como sempre, o nome Cambeses, o que não impede que o tema a desenvolver seja mais abrangente e que aborde, portanto, outras terras, muito em especial Barcelos, o Barcelos actual, onde alguns tentam, esforçadamente, abrir caminho por entre o emaranhado matagal da indiferença e até, por vezes, da incompreensão.

Portanto, e antes de referir diversos eventos que, em prol da Cultura, estão a ser levados a cabo, não se pode deixar de evocar a obra desenvolvida pelo pelouro da cultura no último mandato, durante o qual, se mais não houvesse, bastaria salientar os esforços despendidos nessa gigantesca e utilíssima obra que foi dotar a cidade de uma biblioteca moderna, funcional e exemplar, e salientar igualmente, a par de outros eventos, o congresso “Barcelos Terra Condal”, muito bem organizado e participado por estudiosos de todo o país e o qual, dada a sua amplitude, deixou marcas profundas na história da cultura barcelense, marcas que muito dificilmente se apagarão, porque os livros das atas, com pontualidade rara, aliada a um grande cuidado gráfico, excepcionalmente bem executado, aí estão à disposição de quem os queira consultar.

Claro que obras destas passam quase despercebidas, ao contrário do que acontece com a inauguração dessas aparatosas obras de betão, que é o que certos autarcas mais gostam de mandar executar, porque é o que mais dá nas vistas.

Embora não se negue a utilidade de obras desse género, não podemos deixar de salientar a importância dos estudos do passado desta terra, a que o Congresso deu força, porque, como já alguns têm afirmado “é estudando o passado que melhor se poderá entender o presente e programar o futuro”. Claro que a cultura não deve ser exercida apenas a nível de elites, e a cultura popular de Barcelos com certeza que também não foi descurada nesse último mandato.

Mas passando ao novo pelouro da cultura, forçoso é dizer que se verificou já um novo estilo, numa nova forma de servir a cultura, ou seja, levá-la mais insistentemente até outras camadas que não serão propriamente as dos denominados “intelectuais” mas sim ao grande público.

Assim, e nos últimos tempos, tem-se assistido ao anúncio e concretização de toda uma série de eventos, ao alcance do grande público, nomeadamente os incluídos no programa “Memórias do século XX”, dos quais quero destacar, porque inéditos em Barcelos, os passeios denominados “Roteiro Cultural – Conhecer Barcelos”, a par de exposições como as de imagens de “Santiago em Barcelos”, na qual esteve presente a imagem de Santiago que em Cambeses se venera. Outras exposições houve, das quais se destaca a exposição de escultura e cerâmica, entre outras.

Isto, e as “Primeiras Jornadas de Olaria”, e as “1ªs Jornadas de História Contemporânea – Portugal no Estado Novo”, sem esquecer a contínua dinamização da biblioteca, com aproveitamento do seu auditório, onde têm tido lugar diversos eventos, o que prova que a biblioteca municipal não é apenas um lugar onde se requisitam livros e se lêem os jornais da região e pouco mais. De salientar ainda o “XV Festival de Teatro Popular”, “Encontro de Poetas Populares”, a criação de um prémio literário, etc., etc..

Evidentemente não vou citar nomes, porque é sempre delicado enveredar por aí, pois corre-se o risco de omissões. Diria antes que é toda uma junção de esforços que, mesmo tendo por vezes alguma razão para desânimos, nunca esta equipa se dá por desanimada porque, vê-se, gosta do que em prol da cultura está a fazer. Daí o seu inegável sucesso.


Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 10-2-2000