Elas sobem a corrente. Perdem-se a montante
Entre soutos, carvalhais e prados,
Soltam cantigas brejeiras
E risadas de água fresca
Folguedos de romaria…
Lenços de cor as enfeitam
E em noites de espadelada
Sonham com bragais de linho
Cordões de ouro, arrecadas…
Minhas avós diligentes construíram pedra a pedra
A casa, o forno, a lareira,
Seus passos ainda ressoam entre as hortas e a eira
No chão duro da cozinha,
Gestos de pão repetindo.
As minhas avós são belas, faces de milho ceifado
Nos olhos o sol da eira
Nas mãos ternura de brisa. Ou fúrias de ventania.
As minhas avós são fortes.
Se as tempestade as derruba, logo se erguem Sozinhas,
De punhos cerrados a enfrentam.
As minhas avós são sábias, Sabem do pão e do vinho
E das barrelas do linho. E sabem de benzeduras.
De preces e esconjuros.
As minhas avós são férteis.
Parem de dois em dois anos. Às vezes um pouco menos.
De seis em seis vai-se um filho. Às vezes um pouco mais.
Usam de recato na dor.
E em mal contida ternura esboçam mudas carícias,
Essas que o olhar desvenda no doce embalar do berço…
Cantam penas? Cantam risos?
Penélopes elas são. De tormentos sabem bem.
E de muitas fomes contidas e sedes mal apagadas.
Em branda melancolia evocam longes Brasis,
Partilhando solidão e cinzas que o vento não quis.
Minhas avós-coragem, p’la dor derradeira esperando
Não sabem de metafísicas, angústias existenciais,
E não rejeitam o eco da primeira dor sofrida,
Essa dor em que nasceram.
Blogue destinado à divulgação da vida e da obra literária da escritora Maria do Pilar Figueiredo
quinta-feira, 25 de maio de 2017
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Como um rio, a vida
Estrelas velidas, prenúncios de sorte...
Águas azuis por entre os salgueiros
Correndo ledas, correndo vão...
Plenilúnio. Erva cidreira.
Rosa de Agosto por sobre as águas.
Rio profundo, águas passadas...
Rio de vida, anelos, desvelos,
Que a vida insiste. E a rosa 'inda existe
Nos cabelos..
Crepitam secas, folhas de Outono,
Ao vento se dão e lá vão tão sós...
Que a vida insiste. E a rosa 'inda existe
Nos cabelos..
Crepitam secas, folhas de Outono,
Ao vento se dão e lá vão tão sós...
Acenos, presságios, fundos suspiros.
Pontes caídas.
Mais largas as margens
Mais perto
A foz.
(Inédito - Maio de 98)
quinta-feira, 11 de maio de 2017
CARTA PARA PABLO NERUDA
Te bastaria erguer a mão para tocar uma estrela,
Num tempo em que o tempo era de rosas.
Depois é o mar.
Altas arribas. Costa mordida pelo sal.
Como um búzio, respiras sonoramente
Lá onde batem as asas das gaivotas,
E a vastidão azul, imensa, é a paz.
Aí na tua Ilha Negra
Praças e ruas não existem. Apenas o mar.
E o céu tão perto “qual doce jacinto azul”…
Na rude falésia, precário abrigo, em pasmo te deténs.
Em rudimentar mesa, escreves
Palavras de amor, coragem e revolta. E em cada Poema voas mais alto.
Altas arribas. Costa mordida pelo sal.
Como um búzio, respiras sonoramente
Lá onde batem as asas das gaivotas,
E a vastidão azul, imensa, é a paz.
Aí na tua Ilha Negra
Praças e ruas não existem. Apenas o mar.
E o céu tão perto “qual doce jacinto azul”…
Na rude falésia, precário abrigo, em pasmo te deténs.
Em rudimentar mesa, escreves
Palavras de amor, coragem e revolta. E em cada Poema voas mais alto.
Por entre folhas secas de outono,
Aí onde renascem as palavras,
Tu e ela, dois rios cujas águas se juntaram, à hora do poente.
Aí, na Ilha Negra,
Vertical como falésia, permaneces
E o clarão do teu labor é aurora boreal.
Com mais ninguém te pareces…
Nostálgicas as horas, soam em cada entardecer violeta
Depois que a música escarlate dos teus versos
Se abrigou na concha do silêncio.
Crua é a madrugada, mordida pelo vento.
Aí onde renascem as palavras,
Tu e ela, dois rios cujas águas se juntaram, à hora do poente.
Aí, na Ilha Negra,
Vertical como falésia, permaneces
E o clarão do teu labor é aurora boreal.
Com mais ninguém te pareces…
Nostálgicas as horas, soam em cada entardecer violeta
Depois que a música escarlate dos teus versos
Se abrigou na concha do silêncio.
Crua é a madrugada, mordida pelo vento.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Há tempos, alguém que, nas horas vagas, gosta de filosofar teceu estas considerações: Quando inesperadamente o raio cai sobre a árvore e a destroça, resta, após a luz que cega e o estrondo que ensurdece, a estupefacção, o assombro que paralisa; o silêncio. É um momento que irremediavelmente divide o tempo em dois, e nada mais volta a ser como até então. Porque, a partir daí, passa a haver o “antes” e o “depois”.
Foi em julho de 1996 que, neste jornal se publicou o meu último artigo, intitulado “Daqui de Cambeses”. Depois foi o silêncio. Não por razões de menos consideração por esta jornal e pelos amáveis leitores que estranharam a minha ausência, mas sim por razões pessoais que não cabe aqui explicitar.
O ser humano, porém, tem incalculáveis reservas de energia e dia vem em que, contra todas as expectativas, consegue olhar em redor e verificar que, apesar de já nada ser como dantes, o sol continua a brilhar. E há aves pelo meio da folhagem, e há seiva e húmus e vida.
E por tudo isso, e apesar de ter chegado a admitir que não mais seria capaz de voltar a escrever estes despretensiosos artigos que vozes amigas, ao inquirir da razão do meu silêncio, diziam apreciar (a amizade tem destas coisas), aqui estou, afinal, na intenção de encetar um novo conjunto de crónicas, muito ao meu jeito.
O título é outro, o modo de escrever também já não será o mesmo do tempo de antes. Mas o afeto pela terra onde me criei, esse não sofreu alteração. Senti-o com mais agudeza ainda, perante novas provações por que fui obrigada a passar quando o raio caiu de novo e de novo destroçou mais uma árvore.
Foi precisamente a partir desta nova provação que, nos testemunhos de consideração e afeto recebidos naqueles dolorosos dias de setembro passado, pude perceber que, em Cambeses, apesar das transformações exteriores, os valores tradicionais aí estavam inalteráveis, traduzidos no respeito perante a morte, nos gestos de solidariedade, nas manifestações de simpatia, e onde, a par de discreta mágoa, havia sinais inequívocos de amizade.
E então, como forma de agradecimento, porque outra não sei, deitei mãos a um antigo projecto que era, dentro das minhas limitações, deixar em livro alguns apontamentos sobre a minha terra. Por isso revi todos os informes colhidos durante vários anos, com inestimáveis ajudas daqueles que não mais o poderão fazer, consegui juntar a estes algumas outras informações, e a obra foi crescendo e o tempo virá, não muito longínquo, em que todas essas informações, como disse, pacientemente colhidas uma a uma e depois coligidas, tomarão a forma de livro.
Peço aos meus leitores, em especial, que nada terão a ver com Cambeses, me perdoem ter ocupado todo este espaço a falar de mim ( o que não gosto), das razões do meu silêncio, e do livro sobre Cambeses, consequência indirecta desse mesmo silêncio. Trata-se porém de uma obra que, ao ficar ao alcance de todos aqueles que, como eu, aí cresceram, lhes permitirá saber algo mais sobre esta terra que nos ajudou a fortalecer e, de um modo muito particular, nos ensinou a olhar o mundo.
Foi em julho de 1996 que, neste jornal se publicou o meu último artigo, intitulado “Daqui de Cambeses”. Depois foi o silêncio. Não por razões de menos consideração por esta jornal e pelos amáveis leitores que estranharam a minha ausência, mas sim por razões pessoais que não cabe aqui explicitar.
O ser humano, porém, tem incalculáveis reservas de energia e dia vem em que, contra todas as expectativas, consegue olhar em redor e verificar que, apesar de já nada ser como dantes, o sol continua a brilhar. E há aves pelo meio da folhagem, e há seiva e húmus e vida.
E por tudo isso, e apesar de ter chegado a admitir que não mais seria capaz de voltar a escrever estes despretensiosos artigos que vozes amigas, ao inquirir da razão do meu silêncio, diziam apreciar (a amizade tem destas coisas), aqui estou, afinal, na intenção de encetar um novo conjunto de crónicas, muito ao meu jeito.
O título é outro, o modo de escrever também já não será o mesmo do tempo de antes. Mas o afeto pela terra onde me criei, esse não sofreu alteração. Senti-o com mais agudeza ainda, perante novas provações por que fui obrigada a passar quando o raio caiu de novo e de novo destroçou mais uma árvore.
Foi precisamente a partir desta nova provação que, nos testemunhos de consideração e afeto recebidos naqueles dolorosos dias de setembro passado, pude perceber que, em Cambeses, apesar das transformações exteriores, os valores tradicionais aí estavam inalteráveis, traduzidos no respeito perante a morte, nos gestos de solidariedade, nas manifestações de simpatia, e onde, a par de discreta mágoa, havia sinais inequívocos de amizade.
E então, como forma de agradecimento, porque outra não sei, deitei mãos a um antigo projecto que era, dentro das minhas limitações, deixar em livro alguns apontamentos sobre a minha terra. Por isso revi todos os informes colhidos durante vários anos, com inestimáveis ajudas daqueles que não mais o poderão fazer, consegui juntar a estes algumas outras informações, e a obra foi crescendo e o tempo virá, não muito longínquo, em que todas essas informações, como disse, pacientemente colhidas uma a uma e depois coligidas, tomarão a forma de livro.
Peço aos meus leitores, em especial, que nada terão a ver com Cambeses, me perdoem ter ocupado todo este espaço a falar de mim ( o que não gosto), das razões do meu silêncio, e do livro sobre Cambeses, consequência indirecta desse mesmo silêncio. Trata-se porém de uma obra que, ao ficar ao alcance de todos aqueles que, como eu, aí cresceram, lhes permitirá saber algo mais sobre esta terra que nos ajudou a fortalecer e, de um modo muito particular, nos ensinou a olhar o mundo.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 3 – 2 – 2000
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
Já passaram largos dias, mas a imagem daquela tarde de domingo vivida com os meus conterrâneos de Cambeses está tão presente em mim como se hoje mesmo tivesse acontecido. Talvez mais terna, mais luminosa, porque guardada na memória afectiva, permitindo-se assim analisar, de forma mais serena, a emoção das horas intensamente vividas, tudo o que os meus sentidos, naquela tarde, puderam alcançar.
Sempre acreditei na amizade, sobretudo numa amizade como esta, alicerçada no mesmo chão, onde raízes comuns contribuíram directamente para que aquela tarde de domingo acontecesse. E também os conterrâneos presentes, sobretudo no momento do autógrafo, não perdiam a oportunidade de dizer uma palavra amiga ou de transmitir a mensagem de quem não pôde estar presente e gostaria de estar.
Quanto a nomes, embora gostasse de o fazer, não vou citar nenhum porque, involuntariamente se pode dar origem a situações menos desejosas.
Do êxito daquela tarde de domingo, que aconteceu porque Cambeses assim o quis, falaram os jornais barcelenses, pelo que não vou repetir o que ali foi dito. Mas uma coisa há que não posso deixar de salientar: é, para além da presença dos amigos que de longe vieram, o facto de a imprensa barcelense ter estado marcadamente representada, embora tivesse de percorrer muitos quilómetros para, na periferia do concelho, assistir a um evento de interesse local, depois de, generosamente, ter falado desse ato cultural que à freguesia, sobretudo, diz respeito.
E, refira-se, falaram de um modo que a todos nós, cambesenses, agradou profundamente o que, e para só citar um caso, não aconteceu no artigo inserido num grande jornal diário do Porto, em que o jornalista, como já tive ocasião de referir, apesar da sua conhecida competência, foi pouco feliz nas notas que tomou quando se deslocou a esta freguesia, e menos feliz ainda, no artigo que escreveu acerca da mesma.
Com os jornalistas da imprensa barcelense foi diferente. E tudo isso se deve ao bom profissionalismo desses mesmos jornalistas, a quem não posso deixar de agradecer a simpatia e cuidado postos nas notas que foram tomando para a elaboração do texto. Não pude agradecer-lhes pessoalmente, e dessa minha falta involuntária aqui me penitencio, embora sabendo que compreenderam a razão desse meu impedimento.
E ao mesmo tempo que agradeço à imprensa barcelense, quero agradecer aos meus amigos da cidade de Barcelos que, relegando para segundo plano o convívio com a família, tanto mais que era domingo e o sol brilhava generosamente, convidando a um passeio até à beira mar, não hesitaram em vir até aqui. Não vou citar nomes por razões óbvias.
Mas sei o sacrifício que alguns deles fizeram e o seu empenhamento para que este ato resultasse como resultou. Mais uma vez a todos o meu “muito obrigada”.
Quanto à Monografia, ela aí está, tentando explicar, dentro do possível, a razão de Cambeses ser, ainda hoje, conhecida por Couto, esperando que, a não ser malevolamente (e isso não é possível impedir) os outros, os que não são daqui, se refiram a esta terra com o respeito a que o povo desta freguesia sempre teve direito. Direito ao respeito, direito à admiração, pelo passado de coragem, persistência e fidelidade aos seus valores ancestrais.
Daí o meu orgulho pessoal de ter nascido em Cambeses, como minha bisavó Felícia nasceu, há muito mais de cem anos. Essa mesma terra onde minha bisavó Pilar, nascida na Galiza, quis ficar para sempre, junto dos restos mortais de seu filho Gonçalo.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 3 – 2 – 2000
Sempre acreditei na amizade, sobretudo numa amizade como esta, alicerçada no mesmo chão, onde raízes comuns contribuíram directamente para que aquela tarde de domingo acontecesse. E também os conterrâneos presentes, sobretudo no momento do autógrafo, não perdiam a oportunidade de dizer uma palavra amiga ou de transmitir a mensagem de quem não pôde estar presente e gostaria de estar.
Quanto a nomes, embora gostasse de o fazer, não vou citar nenhum porque, involuntariamente se pode dar origem a situações menos desejosas.
Do êxito daquela tarde de domingo, que aconteceu porque Cambeses assim o quis, falaram os jornais barcelenses, pelo que não vou repetir o que ali foi dito. Mas uma coisa há que não posso deixar de salientar: é, para além da presença dos amigos que de longe vieram, o facto de a imprensa barcelense ter estado marcadamente representada, embora tivesse de percorrer muitos quilómetros para, na periferia do concelho, assistir a um evento de interesse local, depois de, generosamente, ter falado desse ato cultural que à freguesia, sobretudo, diz respeito.
E, refira-se, falaram de um modo que a todos nós, cambesenses, agradou profundamente o que, e para só citar um caso, não aconteceu no artigo inserido num grande jornal diário do Porto, em que o jornalista, como já tive ocasião de referir, apesar da sua conhecida competência, foi pouco feliz nas notas que tomou quando se deslocou a esta freguesia, e menos feliz ainda, no artigo que escreveu acerca da mesma.
Com os jornalistas da imprensa barcelense foi diferente. E tudo isso se deve ao bom profissionalismo desses mesmos jornalistas, a quem não posso deixar de agradecer a simpatia e cuidado postos nas notas que foram tomando para a elaboração do texto. Não pude agradecer-lhes pessoalmente, e dessa minha falta involuntária aqui me penitencio, embora sabendo que compreenderam a razão desse meu impedimento.
E ao mesmo tempo que agradeço à imprensa barcelense, quero agradecer aos meus amigos da cidade de Barcelos que, relegando para segundo plano o convívio com a família, tanto mais que era domingo e o sol brilhava generosamente, convidando a um passeio até à beira mar, não hesitaram em vir até aqui. Não vou citar nomes por razões óbvias.
Mas sei o sacrifício que alguns deles fizeram e o seu empenhamento para que este ato resultasse como resultou. Mais uma vez a todos o meu “muito obrigada”.
Quanto à Monografia, ela aí está, tentando explicar, dentro do possível, a razão de Cambeses ser, ainda hoje, conhecida por Couto, esperando que, a não ser malevolamente (e isso não é possível impedir) os outros, os que não são daqui, se refiram a esta terra com o respeito a que o povo desta freguesia sempre teve direito. Direito ao respeito, direito à admiração, pelo passado de coragem, persistência e fidelidade aos seus valores ancestrais.
Daí o meu orgulho pessoal de ter nascido em Cambeses, como minha bisavó Felícia nasceu, há muito mais de cem anos. Essa mesma terra onde minha bisavó Pilar, nascida na Galiza, quis ficar para sempre, junto dos restos mortais de seu filho Gonçalo.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Como é sabido, há muitos escritores que são convidados para ir aqui ou acolá com o objectivo de dissertarem sobre este ou aquele tema, sobretudo livros, seja os da sua autoria, seja simplesmente “o livro” como meio difusor do conhecimento. E, a propósito, direi não ter por costume falar nestas páginas da minha faceta de escritora mas, na circunstância, não posso deixar de o fazer.
Vem isto a propósito do seguinte: acedendo a um simpático convite do corpo docente de uma escola barcelense do primeiro ciclo do Ensino Básico, como agora se chama ao antigo Ensino Primário (o qual por sua vez tinha já sido chamado “das Primeiras Letras”), desloquei-me um dia destes a uma dessas escolas, mais propriamente, à escola da Gandarinha, que fica na freguesia de Galegos, S. Martinho, uma terra de artistas do barro, segundo julgo saber.
Confesso que levava comigo alguma apreensão, para não dizer receio, quanto ao modo como iria ser recebida por essa gente de palmo e meio mas, mesmo assim, dispus-me a enfrentar esse grande grupo de gente pequena, embora não sabendo, por falta de experiência, o que me esperaria, tanto mais que aos meus ouvidos continuavam a soar vozes de alguns “velhos do restelo”, que os há em todos os lugares e situações.
Não tardou porém que todos os receios e prevenções de que vinha munida se evaporassem como por magia e, encantada, vi alguns deles aproximarem-se de mim de forma descontraída, como se há muito nos conhecêssemos e, ufanos, chamarem a minha atenção para os quadros expostos, ou seja, os desenhos com legendas que eles haviam feito, inspirados num determinado conto infantil, tendo alguns deles modelado em barro os animais que eram as personagens desse conto muito simples, que um dia escrevi.
E assim, após ter admirado a exposição dos pequenos artistas, foi-me dado assistir à dramatização do referido conto, toda ela desempenhada com muita sensibilidade e arte, merecedora de largos aplausos. Finda esta, os pequenos rostos (mais de cem) cujo olhar curioso e inquiridor me fez sentir como quem vai prestar provas perante um júri exigente e inexorável.
Passado porém o primeiro impacto e afastado o meu breve constrangimento, senti-me agradavelmente surpreendida com a atenção dessas “pessoas tão importantes” (não é ironia) que com a descontração própria da idade me dirigiram as primeiras perguntas. Perguntas bem estruturadas, ordenadas, por vezes imprevistas, as quais tiveram o condão de estabelecer entre nós uma rápida e firme empatia.
O tempo passou quase sem se dar conta e, como sempre acontece, a hora de terminar o nosso convívio chegou e vi-os retirarem-se ordeiramente (com a vivacidade que lhes é própria, evidentemente), sem uma advertência, uma repreensão, um aviso. Foi, ouso dizê-lo, uma experiência que resultou em pleno. Evidentemente que tal não aconteceria se antes não tivesse havido uma conjugação de esforços por parte de todos os elementos da escola, como aliás é indispensável que haja sempre que enfrentem situações que não tenham a ver com as do quotidiano. Que dizer mais? Dizer apenas que gostei não chega, porque me entusiasmei e também me comovi, tenho de o confessar.
Maravilhei-me, acrescento, e intimamente aplaudi o esforço desse grupo de jovens professores que soube encontrar forma de explicar à sua “gente de palmo e meio” a importância do livro e da leitura, incutir-lhe de forma indirecta, que um escritor é um ser humano como outro qualquer, que não vive numa redoma, e que, além de escrever histórias, sabe falar, rir e escutar, tal como os adultos com que eles, no seu dia a dia convivem, de uma forma ou de outra.
E, já de regresso, entregue às minhas reflexões, vieram-me à ideia os companheiros de escola, os da minha geração, que é a da palmatória, esses que, em grande parte, não só têm dificuldade em aceitar os atuais métodos de ensino, como também criticam e reprovam quase tudo o que é inovador, (não nego que haja nos novos programas aspectos que dificilmente poderão merecer o nosso aplauso), mas não podemos criticar a torto e a direito, só porque é diferente.
Por esta razão julgo que, se acaso alguns desses companheiros me lerem, talvez não acreditem na autenticidade das minhas impressões e emoções, e rebatam o meu ponto de vista, mas por aqui me fico. Não quero nem posso enredar-me em teorias que envolvam didácticas e pedagogias, porque correria o risco de revelar ignorância, uma vez que nunca exerci a docência neste nível de ensino.
E, além disso, seria alterar a minha intenção inicial, que é dizer, sobretudo, do meu agrado por ter estado na Escola da Gandarinha e porque fiquei feliz com essa experiência. Em relação aos professores, não posso deixar de testemunhar a minha viva admiração pelo trabalho que executaram previamente, para que esse encontro resultasse como resultou, tanto mais que, segundo julgo saber, uma parte significativa desses alunos provêm de famílias onde possivelmente pouco se falará de livros e de escritores e, muito menos, se perderá tempo com leituras.
Daí a razão de aqui ter vindo falar dessa experiência, porque, bem o sabemos, acontecimentos destes não despertam o interesse de quem tem por ofício dar a conhecer grandes acontecimentos (sobretudo chocantes).
Mas, julgo eu, se por um lado acontecimentos destes não chocam a opinião pública, por outro lado ninguém poderá negar o quanto é agradável falar da beleza de pequenos-grandes eventos como este. E saber-se deles também!
Vem isto a propósito do seguinte: acedendo a um simpático convite do corpo docente de uma escola barcelense do primeiro ciclo do Ensino Básico, como agora se chama ao antigo Ensino Primário (o qual por sua vez tinha já sido chamado “das Primeiras Letras”), desloquei-me um dia destes a uma dessas escolas, mais propriamente, à escola da Gandarinha, que fica na freguesia de Galegos, S. Martinho, uma terra de artistas do barro, segundo julgo saber.
Confesso que levava comigo alguma apreensão, para não dizer receio, quanto ao modo como iria ser recebida por essa gente de palmo e meio mas, mesmo assim, dispus-me a enfrentar esse grande grupo de gente pequena, embora não sabendo, por falta de experiência, o que me esperaria, tanto mais que aos meus ouvidos continuavam a soar vozes de alguns “velhos do restelo”, que os há em todos os lugares e situações.
Não tardou porém que todos os receios e prevenções de que vinha munida se evaporassem como por magia e, encantada, vi alguns deles aproximarem-se de mim de forma descontraída, como se há muito nos conhecêssemos e, ufanos, chamarem a minha atenção para os quadros expostos, ou seja, os desenhos com legendas que eles haviam feito, inspirados num determinado conto infantil, tendo alguns deles modelado em barro os animais que eram as personagens desse conto muito simples, que um dia escrevi.
E assim, após ter admirado a exposição dos pequenos artistas, foi-me dado assistir à dramatização do referido conto, toda ela desempenhada com muita sensibilidade e arte, merecedora de largos aplausos. Finda esta, os pequenos rostos (mais de cem) cujo olhar curioso e inquiridor me fez sentir como quem vai prestar provas perante um júri exigente e inexorável.
Passado porém o primeiro impacto e afastado o meu breve constrangimento, senti-me agradavelmente surpreendida com a atenção dessas “pessoas tão importantes” (não é ironia) que com a descontração própria da idade me dirigiram as primeiras perguntas. Perguntas bem estruturadas, ordenadas, por vezes imprevistas, as quais tiveram o condão de estabelecer entre nós uma rápida e firme empatia.
O tempo passou quase sem se dar conta e, como sempre acontece, a hora de terminar o nosso convívio chegou e vi-os retirarem-se ordeiramente (com a vivacidade que lhes é própria, evidentemente), sem uma advertência, uma repreensão, um aviso. Foi, ouso dizê-lo, uma experiência que resultou em pleno. Evidentemente que tal não aconteceria se antes não tivesse havido uma conjugação de esforços por parte de todos os elementos da escola, como aliás é indispensável que haja sempre que enfrentem situações que não tenham a ver com as do quotidiano. Que dizer mais? Dizer apenas que gostei não chega, porque me entusiasmei e também me comovi, tenho de o confessar.
Maravilhei-me, acrescento, e intimamente aplaudi o esforço desse grupo de jovens professores que soube encontrar forma de explicar à sua “gente de palmo e meio” a importância do livro e da leitura, incutir-lhe de forma indirecta, que um escritor é um ser humano como outro qualquer, que não vive numa redoma, e que, além de escrever histórias, sabe falar, rir e escutar, tal como os adultos com que eles, no seu dia a dia convivem, de uma forma ou de outra.
E, já de regresso, entregue às minhas reflexões, vieram-me à ideia os companheiros de escola, os da minha geração, que é a da palmatória, esses que, em grande parte, não só têm dificuldade em aceitar os atuais métodos de ensino, como também criticam e reprovam quase tudo o que é inovador, (não nego que haja nos novos programas aspectos que dificilmente poderão merecer o nosso aplauso), mas não podemos criticar a torto e a direito, só porque é diferente.
Por esta razão julgo que, se acaso alguns desses companheiros me lerem, talvez não acreditem na autenticidade das minhas impressões e emoções, e rebatam o meu ponto de vista, mas por aqui me fico. Não quero nem posso enredar-me em teorias que envolvam didácticas e pedagogias, porque correria o risco de revelar ignorância, uma vez que nunca exerci a docência neste nível de ensino.
E, além disso, seria alterar a minha intenção inicial, que é dizer, sobretudo, do meu agrado por ter estado na Escola da Gandarinha e porque fiquei feliz com essa experiência. Em relação aos professores, não posso deixar de testemunhar a minha viva admiração pelo trabalho que executaram previamente, para que esse encontro resultasse como resultou, tanto mais que, segundo julgo saber, uma parte significativa desses alunos provêm de famílias onde possivelmente pouco se falará de livros e de escritores e, muito menos, se perderá tempo com leituras.
Daí a razão de aqui ter vindo falar dessa experiência, porque, bem o sabemos, acontecimentos destes não despertam o interesse de quem tem por ofício dar a conhecer grandes acontecimentos (sobretudo chocantes).
Mas, julgo eu, se por um lado acontecimentos destes não chocam a opinião pública, por outro lado ninguém poderá negar o quanto é agradável falar da beleza de pequenos-grandes eventos como este. E saber-se deles também!
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 6 – 11 – 2000
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
Uma das imagens que de Goa trouxe comigo é a dos seus rios, e entre os quais não posso deixar de evocar o Rio Sal, rio pacífico e lento, semeado de ilhotas, a desenrolar-se em curvas caprichosas, que por vezes o colocam paralelo ao mar.
E foi precisamente num desses lugares entre mar e rio, já perto da sua foz que, há poucos anos ainda, se fez erguer um amplo complexo hoteleiro, o qual se enquadra perfeitamente na paisagem, e uma das razões é ter sido construído, não em altura mas em extensão, daí resultando uma série de pequenas “villas” que mais não são do que amplos quartos com portas directamente para o exterior e varanda aberta sobre as águas límpidas de lagoas artificiais, orladas de buganvílias polícromas, cujos ramos se estendem até às varandas, numa tentativa de suavizar, através desta imagem de frescura e cor, a elevada temperatura do ar, causticante em algumas épocas do ano.
Foi portanto num local onde ainda há poucos anos se agitavam coqueiros e rastejavam cobras por entre ervas duras, que o complexo hoteleiro foi construído sem essas agressões pseudo-arquitectónicas que por cá destruíram já tantas paisagens naturais. E se outra imagem não me ocorresse para reforçar o que aqui se afirma, bastaria evocar a asfixiante Albufeira dos nossos Algarves.
Mas voltando a Goa, a esse complexo hoteleiro, o Leela Beach (passe a publicidade) que me impressionou, não pelo conforto nem pela eficiência do pessoal que, diga-se, estava à altura de um hotel daqueles, mas sim pelo respeito havido pela paisagem envolvente, onde até a cor das construções, o rosa forte, tão ao gosto dos goeses, foi adotado. E um respeito muito especial pela flora local, onde os coqueiros continuam no lugar de sempre, havendo o cuidado de substituir aqueles que, pelas leis da Natureza, vão acabando.
A prova disso é a profusão de coqueiros muito jovens ainda, com frutos quase ao alcance da mão, que dão sombra e frescura às cadeiras em redor das piscinas onde, preguiçosamente, se deixava o tempo correr, e se não havia compromissos que nos obrigassem às necessárias deslocações, ou não apetecia ir até à praia, ali bem perto. Essa praia, antecipada por mata de antigos coqueiros, percorrendo comprida área orlada de coqueiros, boganvílias e tapetes de flores rasteiras, cujo nome desconheço.
Por esta razão, mais que as comodidades que a arquitectura do hotel oferecia, comodidades que em qualquer lugar do mundo se poderá encontrar, impressionou-me este respeito pela Natureza, esta valorização de riquezas sem preço como o são as árvores, por exemplo.
Atitude essa que não surpreenderá quem se detenha a observar o que, de um modo geral, se passa por todo o território goês, ou seja, um claro respeito pelos bens que a Natureza gratuitamente oferece. Um princípio por que se rege a vida naquelas paragens, princípio este que a nossa civilização ocidental parece ter esquecido.
E foi precisamente num desses lugares entre mar e rio, já perto da sua foz que, há poucos anos ainda, se fez erguer um amplo complexo hoteleiro, o qual se enquadra perfeitamente na paisagem, e uma das razões é ter sido construído, não em altura mas em extensão, daí resultando uma série de pequenas “villas” que mais não são do que amplos quartos com portas directamente para o exterior e varanda aberta sobre as águas límpidas de lagoas artificiais, orladas de buganvílias polícromas, cujos ramos se estendem até às varandas, numa tentativa de suavizar, através desta imagem de frescura e cor, a elevada temperatura do ar, causticante em algumas épocas do ano.
Foi portanto num local onde ainda há poucos anos se agitavam coqueiros e rastejavam cobras por entre ervas duras, que o complexo hoteleiro foi construído sem essas agressões pseudo-arquitectónicas que por cá destruíram já tantas paisagens naturais. E se outra imagem não me ocorresse para reforçar o que aqui se afirma, bastaria evocar a asfixiante Albufeira dos nossos Algarves.
Mas voltando a Goa, a esse complexo hoteleiro, o Leela Beach (passe a publicidade) que me impressionou, não pelo conforto nem pela eficiência do pessoal que, diga-se, estava à altura de um hotel daqueles, mas sim pelo respeito havido pela paisagem envolvente, onde até a cor das construções, o rosa forte, tão ao gosto dos goeses, foi adotado. E um respeito muito especial pela flora local, onde os coqueiros continuam no lugar de sempre, havendo o cuidado de substituir aqueles que, pelas leis da Natureza, vão acabando.
A prova disso é a profusão de coqueiros muito jovens ainda, com frutos quase ao alcance da mão, que dão sombra e frescura às cadeiras em redor das piscinas onde, preguiçosamente, se deixava o tempo correr, e se não havia compromissos que nos obrigassem às necessárias deslocações, ou não apetecia ir até à praia, ali bem perto. Essa praia, antecipada por mata de antigos coqueiros, percorrendo comprida área orlada de coqueiros, boganvílias e tapetes de flores rasteiras, cujo nome desconheço.
Por esta razão, mais que as comodidades que a arquitectura do hotel oferecia, comodidades que em qualquer lugar do mundo se poderá encontrar, impressionou-me este respeito pela Natureza, esta valorização de riquezas sem preço como o são as árvores, por exemplo.
Atitude essa que não surpreenderá quem se detenha a observar o que, de um modo geral, se passa por todo o território goês, ou seja, um claro respeito pelos bens que a Natureza gratuitamente oferece. Um princípio por que se rege a vida naquelas paragens, princípio este que a nossa civilização ocidental parece ter esquecido.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 27 – 10 - 1994
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Após um curto afastamento das páginas deste jornal, o qual se deve apenas aos muitos afazeres que estas coisas da literatura sempre nos atiram para os ombros (porque nem sempre o ato de escrever se pode reduzir à alegria de criar) por tudo isto, repito, tive de fazer uma curta pausa neste género de escrita, que talvez se prolongasse, se um telefonema amigo não me tivesse feito saber que a minha ausência era notada por alguns leitores, o que me desvaneceu (perdoem a vaidadezinha).
E agora aqui estou, cheia de boas intenções, que é como quem diz, animada do firme propósito de ser mais pontual na publicação das minhas singelas crónicas, que outro jeito não sei.
Claro que não poderei deixar de falar de Cambeses, terra das minhas raízes, presentes tantas vezes nos meus livros, com os nomes que para ela invento. Ainda há pouco, falando eu de Cambeses, numa roda de gente das Letras, me disseram em jeito de provocação, que eu era de uma “terra de escritores” evocando, como é natural, o nome do maior de todos nós, que é o escritor Vítor de Sá, personalidade que o País conhece e admira, dada a extensão da sua obra literária, a sua carreira de investigador e de pensador.
Homenageado em vários pontos do País, nomeadamente em universidades, como me foi dado assistir na Universidade do Porto, o Dr. Vítor de Sá, é praticamente ignorado em Barcelos e, sobretudo, em Cambeses.
No entanto, ele tem um afeto muito especial por Cambeses, julgo poder afirmá-lo. Nota-se na atenção com que ouve e lê tudo o que de Cambeses lhe dá notícia. Ele próprio, escrevendo tem citado, ao referir o tempo da sua infância, os anos que viveu em Cambeses, terra de seu pai e do pai de seu pai, e na memória guarda imagens da grande casa do seu avô, os hábitos de então, a gente cujo viver era bem outro.
E citando este ilustre filho da minha terra, não posso deixar de citar um outro que, sendo da mesma família, tem uma dimensão acentuadamente diferente, porque diferentes foram as circunstâncias que o rodearam ao longo da vida, dificultando-lhe a necessária preparação académica. Trata-se da veneranda figura que, em Cambeses tem ainda muito quem o recorde, e se chamou Camilo Gomes de Sá, e deixou testemunhos escritos de certa importância para a história recente da sua terra natal.
Mas para além destes dois há ainda uma outra escritora, baptizada em Cambeses, jovem ainda, mas já com um livro de ensaio literário publicado, e premiado e, consequentemente, com o seu nome nos ficheiros das bibliotecas do País.
Outros haverá, porque a Casa do Paço acolheu, nas suas venerandas e desaparecidas paredes, homens de cultura e de Saber, que se empenharam para que a vila de Cambeses fosse uma das primeiras destas redondezas a ter escola, e que a população se enriquecesse pelo Saber.
Foi assim que eu defendi, expondo factos concretos, a minha terra, que nem sempre tem sido direccionada para outros bens que não sejam os materiais, daí a ausência de uma só que seja, associação de índole cultural, quando noutras freguesias (e eu poderia citar nomes) se olha e estima esse bem comum que é o património cultural de uma terra, mesmo que essa terra seja uma aldeia idêntica a esta simples freguesia rural, que há muito deixou de ser vila.
E agora aqui estou, cheia de boas intenções, que é como quem diz, animada do firme propósito de ser mais pontual na publicação das minhas singelas crónicas, que outro jeito não sei.
Claro que não poderei deixar de falar de Cambeses, terra das minhas raízes, presentes tantas vezes nos meus livros, com os nomes que para ela invento. Ainda há pouco, falando eu de Cambeses, numa roda de gente das Letras, me disseram em jeito de provocação, que eu era de uma “terra de escritores” evocando, como é natural, o nome do maior de todos nós, que é o escritor Vítor de Sá, personalidade que o País conhece e admira, dada a extensão da sua obra literária, a sua carreira de investigador e de pensador.
Homenageado em vários pontos do País, nomeadamente em universidades, como me foi dado assistir na Universidade do Porto, o Dr. Vítor de Sá, é praticamente ignorado em Barcelos e, sobretudo, em Cambeses.
No entanto, ele tem um afeto muito especial por Cambeses, julgo poder afirmá-lo. Nota-se na atenção com que ouve e lê tudo o que de Cambeses lhe dá notícia. Ele próprio, escrevendo tem citado, ao referir o tempo da sua infância, os anos que viveu em Cambeses, terra de seu pai e do pai de seu pai, e na memória guarda imagens da grande casa do seu avô, os hábitos de então, a gente cujo viver era bem outro.
E citando este ilustre filho da minha terra, não posso deixar de citar um outro que, sendo da mesma família, tem uma dimensão acentuadamente diferente, porque diferentes foram as circunstâncias que o rodearam ao longo da vida, dificultando-lhe a necessária preparação académica. Trata-se da veneranda figura que, em Cambeses tem ainda muito quem o recorde, e se chamou Camilo Gomes de Sá, e deixou testemunhos escritos de certa importância para a história recente da sua terra natal.
Mas para além destes dois há ainda uma outra escritora, baptizada em Cambeses, jovem ainda, mas já com um livro de ensaio literário publicado, e premiado e, consequentemente, com o seu nome nos ficheiros das bibliotecas do País.
Outros haverá, porque a Casa do Paço acolheu, nas suas venerandas e desaparecidas paredes, homens de cultura e de Saber, que se empenharam para que a vila de Cambeses fosse uma das primeiras destas redondezas a ter escola, e que a população se enriquecesse pelo Saber.
Foi assim que eu defendi, expondo factos concretos, a minha terra, que nem sempre tem sido direccionada para outros bens que não sejam os materiais, daí a ausência de uma só que seja, associação de índole cultural, quando noutras freguesias (e eu poderia citar nomes) se olha e estima esse bem comum que é o património cultural de uma terra, mesmo que essa terra seja uma aldeia idêntica a esta simples freguesia rural, que há muito deixou de ser vila.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 14 – 12 – 1995
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
Numa destas tardes domingueiras, aqui em Cambeses, ao folhear distraidamente uma dessas revistas que falam da moda feminina, vieram-me à ideia as mulheres de Goa e os belos saris que quase todas usavam.
Vi-as de sari a trabalhar no campo, mancha colorida nas extensas planícies de terra seca, amarelada. Vi-as nos vales, entre montanhas, nos pequenos campos de arroz, a ceifar manualmente a segunda colheita do ano. Vi-as carregar cestos à cabeça, vi-as na berma das estradas por onde circulávamos frequentemente. Vi-as pelas feiras ou pelas praias, tentando vender bugigangas aos turistas ocidentais.
Vi-as em Pangim, nas scooters como penduras, sentadas de lado, as sedas garridas esvoaçantes como asas coloridas de borboletas. E vi-as conduzindo elas próprias a scooter, como se em vez de sedas usassem jeans. E vi-as nas receções oficiais, usando-o com uma distinção e elegância que só elas o poderão conseguir.
Curiosamente uma das primeiras mulheres goesas com quem tive oportunidade de conversar no dia da inauguração do Consulado de Portugal em Goa, era uma senhora de sari verde, de cabelos já grisalhos, que falava correctamente o português, e cujo nome era, como o de tantos outros, português também. Além de médica, era presidente do instituto Indo-Português onde, sem qualquer apoio governamental, contra ventos e marés, ensinavam como podiam a língua portuguesa e estavam a preparar um curso de culinária portuguesa, tendo-me confidenciado haver muitos jovens que desejavam aprender o português para estabelecer contactos, não só com Portugal, mas com todo o mundo lusófono.
Mulher igualmente muito interessante, culta e simples, foi uma outra que dias depois conheci num jantar, numa outra localidade goesa. Médica também, e professora universitária, disse só usar o sari em ocasiões especiais como aquela, porque no uso da sua profissão, o sari não lhe deixava os movimentos livres, como é de calcular.
São modelos de vestuário feminino que, à parte um ou outro pequeno pormenor, não se alteram de uma geração para outra e são fáceis de confeccionar, segundo julgo.
Mas o maior conjunto de saris que me foi dado observar teve lugar num casamento hindu, no famoso templo Shiri Mangesh, ao lado dessa belíssima torre branca, conhecida por “Torre da luz”, o qual teve lugar, não na sala onde se guardam os símbolos sagrados da religião hindu, e onde os fieis se recolhem em oração, mas numa outra ala desse conjunto de edifícios, num amplo salão repleto de amigos, vizinhos e familiares dos noivos.
De toda essa assembleia, constituída por gente de idade vária, incluindo crianças, sobressaiam as mulheres com coloridos saris e flores naturais nos cabelos, a condizer com as sedas finas e leves, que usavam, daí resultando um espectáculo colorido, fascinante, ímpar.
Embora os homens se vestissem à ocidental: camisas de seda e calças escuras, o noivo, curiosamente vestido de branco, usava, a distingui-lo dos trajes ocidentais, uma espécie de estola vermelha e um especial turbante branco.
A noiva, que chegou depois, vinha toucada de flores naturais, que acompanhavam a longa trança, entretecida pacientemente, num trabalho de cabeleireira que nenhuma cabeleireira ocidental conseguiria efectuar, julgo eu, tal a minúcia e delicadeza com que as flores estavam entrançadas, juntamente com os longos cabelos. O sari era de rica seda de tons roxo, vermelho e dourado.
Pudemos assistir ao casamento por gentileza dos familiares dos noivos, que nos acolheram com simpatia. Um casamento cujo ritual, complicado e demorado, me dispenso de relatar, porque não o entendi na sua espiritualidade e, como é evidente, falar de uma religião, neste caso o hinduísmo, sem o entender, é muito delicado. Posso apenas acrescentar que era lua cheia e que nessa altura havia muitos casamentos hindus. Porque para eles a lua cheia é sinónimo de prosperidade e, sobretudo, de fertilidade e felicidade também.
Vi-as de sari a trabalhar no campo, mancha colorida nas extensas planícies de terra seca, amarelada. Vi-as nos vales, entre montanhas, nos pequenos campos de arroz, a ceifar manualmente a segunda colheita do ano. Vi-as carregar cestos à cabeça, vi-as na berma das estradas por onde circulávamos frequentemente. Vi-as pelas feiras ou pelas praias, tentando vender bugigangas aos turistas ocidentais.
Vi-as em Pangim, nas scooters como penduras, sentadas de lado, as sedas garridas esvoaçantes como asas coloridas de borboletas. E vi-as conduzindo elas próprias a scooter, como se em vez de sedas usassem jeans. E vi-as nas receções oficiais, usando-o com uma distinção e elegância que só elas o poderão conseguir.
Curiosamente uma das primeiras mulheres goesas com quem tive oportunidade de conversar no dia da inauguração do Consulado de Portugal em Goa, era uma senhora de sari verde, de cabelos já grisalhos, que falava correctamente o português, e cujo nome era, como o de tantos outros, português também. Além de médica, era presidente do instituto Indo-Português onde, sem qualquer apoio governamental, contra ventos e marés, ensinavam como podiam a língua portuguesa e estavam a preparar um curso de culinária portuguesa, tendo-me confidenciado haver muitos jovens que desejavam aprender o português para estabelecer contactos, não só com Portugal, mas com todo o mundo lusófono.
Mulher igualmente muito interessante, culta e simples, foi uma outra que dias depois conheci num jantar, numa outra localidade goesa. Médica também, e professora universitária, disse só usar o sari em ocasiões especiais como aquela, porque no uso da sua profissão, o sari não lhe deixava os movimentos livres, como é de calcular.
São modelos de vestuário feminino que, à parte um ou outro pequeno pormenor, não se alteram de uma geração para outra e são fáceis de confeccionar, segundo julgo.
Mas o maior conjunto de saris que me foi dado observar teve lugar num casamento hindu, no famoso templo Shiri Mangesh, ao lado dessa belíssima torre branca, conhecida por “Torre da luz”, o qual teve lugar, não na sala onde se guardam os símbolos sagrados da religião hindu, e onde os fieis se recolhem em oração, mas numa outra ala desse conjunto de edifícios, num amplo salão repleto de amigos, vizinhos e familiares dos noivos.
De toda essa assembleia, constituída por gente de idade vária, incluindo crianças, sobressaiam as mulheres com coloridos saris e flores naturais nos cabelos, a condizer com as sedas finas e leves, que usavam, daí resultando um espectáculo colorido, fascinante, ímpar.
Embora os homens se vestissem à ocidental: camisas de seda e calças escuras, o noivo, curiosamente vestido de branco, usava, a distingui-lo dos trajes ocidentais, uma espécie de estola vermelha e um especial turbante branco.
A noiva, que chegou depois, vinha toucada de flores naturais, que acompanhavam a longa trança, entretecida pacientemente, num trabalho de cabeleireira que nenhuma cabeleireira ocidental conseguiria efectuar, julgo eu, tal a minúcia e delicadeza com que as flores estavam entrançadas, juntamente com os longos cabelos. O sari era de rica seda de tons roxo, vermelho e dourado.
Pudemos assistir ao casamento por gentileza dos familiares dos noivos, que nos acolheram com simpatia. Um casamento cujo ritual, complicado e demorado, me dispenso de relatar, porque não o entendi na sua espiritualidade e, como é evidente, falar de uma religião, neste caso o hinduísmo, sem o entender, é muito delicado. Posso apenas acrescentar que era lua cheia e que nessa altura havia muitos casamentos hindus. Porque para eles a lua cheia é sinónimo de prosperidade e, sobretudo, de fertilidade e felicidade também.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 16 – 3 – 1995
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
Há algumas dezenas de anos, não muitas, li uma notícia que, apesar de simples, me deixou perplexa: a de que, em certos países da Europa, já altamente industrializados, se vendia água simples, como a da fonte de Bouçó, em garrafas. Eu, que só conhecia, comercializadas deste modo, as águas medicinais, encarei isto como algo jamais aceitável na nossa terra. Mas não tardou muito que isso viesse a acontecer.
Porém, para quem vive em Bouçó, ainda hoje não há necessidade de adquirir essa água, que não me parece melhor que a que, continuamente, jorra na velha fonte do lugar. Mas… Há sempre um “mas”. Alguém que se considera bem informado (alguns, diria melhor) vieram falar-me de ameaças sérias que parecem pairar sobre as águas desta parte da freguesia. E, a ser verdade , não há dúvida que ali acontecerá mais um dos pequenos desastres ecológicos, se esse empreendimento de que me falaram for autorizado. Um empreendimento altamente poluente, como o são, geralmente, as grandes explorações industriais de pocilgas, aviários ou vacarias. Não faltam exemplos de revolta popular, dos quais os media dão notícia, problemas difíceis de resolver, porque já instalados. Por aqui ainda nada disso aconteceu. Mas, sem dúvida que, a acontecer em Bouçó, será o adeus às boas águas da nossa fonte, dos nossos poços, dos nossos pequenos fios de água.
Mas, quanto a este hipotético problema de que me vieram falar, ninguém se mostrou muito disposto a concordar comigo e responderam-me, evocando, com desencanto, alguns exemplos que por aqui parece que vão acontecendo. E mais não me disseram nem me explicaram.
Que o tente averiguar quem disso tiver obrigação, porque profissionalmente preparado.
Porém, para quem vive em Bouçó, ainda hoje não há necessidade de adquirir essa água, que não me parece melhor que a que, continuamente, jorra na velha fonte do lugar. Mas… Há sempre um “mas”. Alguém que se considera bem informado (alguns, diria melhor) vieram falar-me de ameaças sérias que parecem pairar sobre as águas desta parte da freguesia. E, a ser verdade , não há dúvida que ali acontecerá mais um dos pequenos desastres ecológicos, se esse empreendimento de que me falaram for autorizado. Um empreendimento altamente poluente, como o são, geralmente, as grandes explorações industriais de pocilgas, aviários ou vacarias. Não faltam exemplos de revolta popular, dos quais os media dão notícia, problemas difíceis de resolver, porque já instalados. Por aqui ainda nada disso aconteceu. Mas, sem dúvida que, a acontecer em Bouçó, será o adeus às boas águas da nossa fonte, dos nossos poços, dos nossos pequenos fios de água.
Mas, quanto a este hipotético problema de que me vieram falar, ninguém se mostrou muito disposto a concordar comigo e responderam-me, evocando, com desencanto, alguns exemplos que por aqui parece que vão acontecendo. E mais não me disseram nem me explicaram.
Que o tente averiguar quem disso tiver obrigação, porque profissionalmente preparado.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 4 – 7 – 1996
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
Naquela época, o Natal era mais do que a ceia farta e sobremesas que só naquela altura comíamos.
Naquela época, o Natal era mais do que a azáfama na cozinha e a chegada dos avós com as suas misteriosas malas.
Naquela época o Natal era mais do que o findar de jejuns e abstinências, mais do que uma ceia diferente. Era a festa pela qual esperávamos desde meados de outubro, sem saber por que esperávamos. Sabíamos apenas que havia algo de místico e de misterioso, que até a essa noite nos conduzia.
Daquela época não guardo, portanto, lembrança de brinquedos espectaculares, esses que pouco esforço de imaginação exigem das crianças, e se destinam, muitas vezes, a serem aplaudidos e admirados pelos adultos, e também invejados pelos de bolsa mais magra.
Dessa época me ficaram na lembrança, mais do que a obtenção do desejado brinquedo, doces imagens do Natal popular, ingénuo e límpido, sem as seduções do consumismo prontamente adotado pelos citadinos, e só mais tarde pelos outros.
Daquela época não guardo lembranças desse pinheiro exótico que nada tinha a ver com os pinheiros bravos dos nossos montes e que gentes de outros países convencionaram chamar “Árvore de Natal”.
Daquela época não guardo lembranças de renas e trenós e de branca neve, e muito menos de um obeso Pai Natal com o saco repleto de brinquedos.
Dessa época guardo, isso sim, a imagem do presépio monumental que os rapazes da freguesia construíam num recanto da igreja, e do pequeno presépio que toscamente tentávamos imitar, num recanto da nossa sala, aonde chegavam, vindos da cozinha, o cheiro da canela e do açúcar, o som de palavras soltas e do vaivém dos passos.
E com esse frenesim as chegadas e as partidas, o trânsito das pessoas que, de olhar iluminado, iam consoar “lá” ou vinham “cá”. Os avós, a tia que vivia só, a prima viúva, as criadas (era assim que então se dizia), as quais passavam no caminho, ao fim da tarde, com o cesto da consoada à cabeça, coberto por toalha de linho, o qual escondia o recheio que tornaria rica a ceia na casa pobre dos pais.
Dessa época guardo, com serena emoção, a lembrança das novenas do Menino, dos cânticos acentuando o recolhimento íntimo, e da fé com que antecipadamente vivíamos o Natal, pelas madrugadas frias de dezembro. Novenas do Menino, a que se assistia à luz pardacenta do alvorecer, as quais eram abrilhantadas por uma tuna composta, entre outras, pela rabeca do Sr. Camilo, pelo violão do Joaquim do Rego e pela flauta do Zé da Vinha. Cânticos entoados pelas vozes soltas das mulheres e das raparigas: cânticos vigorosos, repercutindo-se na abóbada, onde S. Tiago – Padroeiro as olhava complacente.
Era um Natal vivido com simplicidade, na noite fria, onde estrelas cintilavam, e onde havia, nas casas, o lume de boa lenha que para esta noite se guardava. Fogueira a bailar alegremente, fazendo com que perto dela todos se reunissem fraternos e mais alegres, nos jogos que, com pinhões, as crianças improvisavam sob o olhar complacente e paciente dos adultos.
Não havia troca de prendas, nem tal era necessário, porque havia a espontânea troca de gestos fraternos, de palavras suaves, de olhares afetuosos e límpidos, que faziam daquele tempo um tempo que sentiam ser diferente, um tempo de mistério, de espectativa, de maravilha.
Naquela época, o Natal era mais do que a azáfama na cozinha e a chegada dos avós com as suas misteriosas malas.
Naquela época o Natal era mais do que o findar de jejuns e abstinências, mais do que uma ceia diferente. Era a festa pela qual esperávamos desde meados de outubro, sem saber por que esperávamos. Sabíamos apenas que havia algo de místico e de misterioso, que até a essa noite nos conduzia.
Daquela época não guardo, portanto, lembrança de brinquedos espectaculares, esses que pouco esforço de imaginação exigem das crianças, e se destinam, muitas vezes, a serem aplaudidos e admirados pelos adultos, e também invejados pelos de bolsa mais magra.
Dessa época me ficaram na lembrança, mais do que a obtenção do desejado brinquedo, doces imagens do Natal popular, ingénuo e límpido, sem as seduções do consumismo prontamente adotado pelos citadinos, e só mais tarde pelos outros.
Daquela época não guardo lembranças desse pinheiro exótico que nada tinha a ver com os pinheiros bravos dos nossos montes e que gentes de outros países convencionaram chamar “Árvore de Natal”.
Daquela época não guardo lembranças de renas e trenós e de branca neve, e muito menos de um obeso Pai Natal com o saco repleto de brinquedos.
Dessa época guardo, isso sim, a imagem do presépio monumental que os rapazes da freguesia construíam num recanto da igreja, e do pequeno presépio que toscamente tentávamos imitar, num recanto da nossa sala, aonde chegavam, vindos da cozinha, o cheiro da canela e do açúcar, o som de palavras soltas e do vaivém dos passos.
E com esse frenesim as chegadas e as partidas, o trânsito das pessoas que, de olhar iluminado, iam consoar “lá” ou vinham “cá”. Os avós, a tia que vivia só, a prima viúva, as criadas (era assim que então se dizia), as quais passavam no caminho, ao fim da tarde, com o cesto da consoada à cabeça, coberto por toalha de linho, o qual escondia o recheio que tornaria rica a ceia na casa pobre dos pais.
Dessa época guardo, com serena emoção, a lembrança das novenas do Menino, dos cânticos acentuando o recolhimento íntimo, e da fé com que antecipadamente vivíamos o Natal, pelas madrugadas frias de dezembro. Novenas do Menino, a que se assistia à luz pardacenta do alvorecer, as quais eram abrilhantadas por uma tuna composta, entre outras, pela rabeca do Sr. Camilo, pelo violão do Joaquim do Rego e pela flauta do Zé da Vinha. Cânticos entoados pelas vozes soltas das mulheres e das raparigas: cânticos vigorosos, repercutindo-se na abóbada, onde S. Tiago – Padroeiro as olhava complacente.
Era um Natal vivido com simplicidade, na noite fria, onde estrelas cintilavam, e onde havia, nas casas, o lume de boa lenha que para esta noite se guardava. Fogueira a bailar alegremente, fazendo com que perto dela todos se reunissem fraternos e mais alegres, nos jogos que, com pinhões, as crianças improvisavam sob o olhar complacente e paciente dos adultos.
Não havia troca de prendas, nem tal era necessário, porque havia a espontânea troca de gestos fraternos, de palavras suaves, de olhares afetuosos e límpidos, que faziam daquele tempo um tempo que sentiam ser diferente, um tempo de mistério, de espectativa, de maravilha.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 21 – 12 – 2000
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
Ao evocar aqui as ruas de Margão ou Pangim, não posso ignorar as chamadas “casas portuguesas”, casas de certo modo imponentes, com as sacadas a nível do primeiro andar sobre a rua e as suas portas envidraçadas, as quais começam a ser restauradas, para de novo serem habitadas.
Há porém um outro tipo de casas que abunda ao longo das estradas e que é considerado como o tipo de casa goesa. Casas pequenas, de rés-do-chão, com varanda alpendrada na frente, onde geralmente os goeses gostam de dormir a sesta.
Casas recatadas, dentro de quintais, protegidas pela sombra dos coqueiros e embelezadas por maciças buganvílias sobre os muros dos terreiros onde porcos negros de comprido focinho se passeavam calmamente como se de cães de guarda se tratasse e onde por vezes se deparava com mantas estendidas, manchadas de vermelho pelas muitas pequenas vagens de pimenta a secar ao sol, a par de outras onde os grãos de arroz da segunda colheita, colheitas pequenas, obtidas na frescura dos vales, perto da floresta, secavam tão bem. Por vezes uma ou outra vaca dormia aí pachorrentamente, como se todas as horas do dia fossem horas de dormir a sesta.
Casas graciosas, não pelo estilo extremamente simples das suas paredes e telhado, mas pelas janelas. Janelas de um modo geral arredondadas na parte superior, frequentemente pintadas de azul, com caixilharia caprichosamente recortada, sobretudo na parte superior.
Mas para além de todos esses pormenores da sua graciosidade, uma coisa havia que as tornava únicas ao nosso olhar: a distinção que no geral fazem os seus proprietários ao informar quem passa, se a família que a habita é cristã ou hindu. No primeiro caso é uma cruz colocada no jardim ou junto à entrada. E no segundo uma espécie de pequeno obelisco, algumas vezes pintado de cores fortes, com um vaso de plantas colocado na parte superior como ornamento.
Mas o que mais impressiona é a convivência entre cristãos e hindus, cada qual com a sua religião, os seus costumes, o respeito pelo outro. Exemplo vivo de como a paz é possível.
Lição de compreensão, e respeito e tolerância mutuas, que o mundo poderia aprender, se quisesse.
A propósito, lembro-me desses lamentáveis incidentes, não há ainda muito tempo, que começaram num país muçulmano, onde os hindus residentes foram de tal modo maltratados que se refugiaram na Índia, aqueles que escaparam com vida. E logo como contrapartida, os muçulmanos da Índia, sofreram as inevitáveis represálias por parte dos hindus.
Goa, porém, onde cerca de 2% da população é muçulmana, passou ao largo de todos esses lamentáveis incidentes. E se acaso os muçulmanos de Goa se sobressaltaram, o sobressalto não passou daí, e a paz continuou, como é hábito, no seu dia a dia goês.
Quantas lições não se poderiam colher deste exemplo de coexistência pacífica, deste espírito de paz e compreensão, que em Goa domina gestos e vontades.
Há porém um outro tipo de casas que abunda ao longo das estradas e que é considerado como o tipo de casa goesa. Casas pequenas, de rés-do-chão, com varanda alpendrada na frente, onde geralmente os goeses gostam de dormir a sesta.
Casas recatadas, dentro de quintais, protegidas pela sombra dos coqueiros e embelezadas por maciças buganvílias sobre os muros dos terreiros onde porcos negros de comprido focinho se passeavam calmamente como se de cães de guarda se tratasse e onde por vezes se deparava com mantas estendidas, manchadas de vermelho pelas muitas pequenas vagens de pimenta a secar ao sol, a par de outras onde os grãos de arroz da segunda colheita, colheitas pequenas, obtidas na frescura dos vales, perto da floresta, secavam tão bem. Por vezes uma ou outra vaca dormia aí pachorrentamente, como se todas as horas do dia fossem horas de dormir a sesta.
Casas graciosas, não pelo estilo extremamente simples das suas paredes e telhado, mas pelas janelas. Janelas de um modo geral arredondadas na parte superior, frequentemente pintadas de azul, com caixilharia caprichosamente recortada, sobretudo na parte superior.
Mas para além de todos esses pormenores da sua graciosidade, uma coisa havia que as tornava únicas ao nosso olhar: a distinção que no geral fazem os seus proprietários ao informar quem passa, se a família que a habita é cristã ou hindu. No primeiro caso é uma cruz colocada no jardim ou junto à entrada. E no segundo uma espécie de pequeno obelisco, algumas vezes pintado de cores fortes, com um vaso de plantas colocado na parte superior como ornamento.
Mas o que mais impressiona é a convivência entre cristãos e hindus, cada qual com a sua religião, os seus costumes, o respeito pelo outro. Exemplo vivo de como a paz é possível.
Lição de compreensão, e respeito e tolerância mutuas, que o mundo poderia aprender, se quisesse.
A propósito, lembro-me desses lamentáveis incidentes, não há ainda muito tempo, que começaram num país muçulmano, onde os hindus residentes foram de tal modo maltratados que se refugiaram na Índia, aqueles que escaparam com vida. E logo como contrapartida, os muçulmanos da Índia, sofreram as inevitáveis represálias por parte dos hindus.
Goa, porém, onde cerca de 2% da população é muçulmana, passou ao largo de todos esses lamentáveis incidentes. E se acaso os muçulmanos de Goa se sobressaltaram, o sobressalto não passou daí, e a paz continuou, como é hábito, no seu dia a dia goês.
Quantas lições não se poderiam colher deste exemplo de coexistência pacífica, deste espírito de paz e compreensão, que em Goa domina gestos e vontades.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 18 – 6 – 1995
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
Escutar uma banda de música é sempre agradável e julgo não exagerar afirmando que as bandas de música jamais serão destronadas pela música gravada, essa que grita nas romarias, as suas estridências por vezes arrepiantes, de pôr os nervos em franja.
Portanto, se escutar uma banda de música é um aprazimento, escutá-la longe, muito longe destas terras é, por vezes, a saudade, o enternecimento. Mas escutar essa banda executando o Hino Nacional de Portugal é muito mais que tudo isso junto. E se os acordes acompanharem o hastear da nossa bandeira, é a emoção a dar lugar ao empolgamento, a comoção que leva à vizinhança das lágrimas.
Aconteceu isso connosco, no dia da inauguração do consulado de Portugal em Goa, quando na hora própria, a banda, constituída por goeses, executou o hino nacional de Portugal, enquanto a bandeira das quinas ia subindo lentamente no mastro.
Não sei por quanto tempo o nosso olhar ficou preso na bandeira verde e rubra, ao lado da azul da CE, hasteada logo de seguida, ambas a drapejar aos ventos brandos de Goa, lá no alto do terraço do edifício, onde o Consulado ficou instalado. Sei apenas que é difícil explicar o que sente quem, estando do outro lado do Globo, vê de súbito as distâncias anularem-se e se deixa envolver por essa fraternidade muito especial, que a compreensão da língua portuguesa torna mais profunda.
Poderá parecer pieguice, essa pieguice que geralmente se receia e leva, numa situação destas, a tentar apagar qualquer vestígio de emoção.
Essa mesma que surpreendi no olhar de um jovem componente do nosso grupo que, num sorriso contrafeito, murmurou sem se dirigir a ninguém em especial: “ nunca pensei que isto mexesse assim tanto comigo, pá! Acho que estou a ficar velho…” Acrescentou ainda, tentando uma justificação para este breve estado emocional, que a sua condição de latino impelia a rejeitar.
Mas era a realidade, essa maneira de ser portuguesa, que só por si explica o desejo de voltar à terra de origem por muito bem que, materialmente se esteja numa terra de adoção.
Não se tratava aqui, porém, de um fenómeno de emigração mas de algo mais. Era o regresso (em moldes diferentes) de Portugal ao Oriente. Essa terra que nos recebia de braços abertos – lia-se no olhar dos muitos goeses que ali estavam, assistindo à inauguração.
Horas depois, no jantar incluído nestas cerimónias, e onde houve o cuidado de sentar às compridas mesas goeses e portugueses intercaladamente, razão das animadas conversas que em português se estabeleceram, no momento dos discursos que estas circunstâncias sempre exigem, o Cônsul Geral de Portugal, o primeiro a falar, disse mais ou menos estas palavras: ”Nós portugueses somos pequenos em muitas coisas, mas há uma em que realmente somos grandes: é a alma. Porque se não fosse a nossa grandeza de alma eles não nos teriam aceitado de volta!” Eles, os goeses, evidentemente…
Portanto, se escutar uma banda de música é um aprazimento, escutá-la longe, muito longe destas terras é, por vezes, a saudade, o enternecimento. Mas escutar essa banda executando o Hino Nacional de Portugal é muito mais que tudo isso junto. E se os acordes acompanharem o hastear da nossa bandeira, é a emoção a dar lugar ao empolgamento, a comoção que leva à vizinhança das lágrimas.
Aconteceu isso connosco, no dia da inauguração do consulado de Portugal em Goa, quando na hora própria, a banda, constituída por goeses, executou o hino nacional de Portugal, enquanto a bandeira das quinas ia subindo lentamente no mastro.
Não sei por quanto tempo o nosso olhar ficou preso na bandeira verde e rubra, ao lado da azul da CE, hasteada logo de seguida, ambas a drapejar aos ventos brandos de Goa, lá no alto do terraço do edifício, onde o Consulado ficou instalado. Sei apenas que é difícil explicar o que sente quem, estando do outro lado do Globo, vê de súbito as distâncias anularem-se e se deixa envolver por essa fraternidade muito especial, que a compreensão da língua portuguesa torna mais profunda.
Poderá parecer pieguice, essa pieguice que geralmente se receia e leva, numa situação destas, a tentar apagar qualquer vestígio de emoção.
Essa mesma que surpreendi no olhar de um jovem componente do nosso grupo que, num sorriso contrafeito, murmurou sem se dirigir a ninguém em especial: “ nunca pensei que isto mexesse assim tanto comigo, pá! Acho que estou a ficar velho…” Acrescentou ainda, tentando uma justificação para este breve estado emocional, que a sua condição de latino impelia a rejeitar.
Mas era a realidade, essa maneira de ser portuguesa, que só por si explica o desejo de voltar à terra de origem por muito bem que, materialmente se esteja numa terra de adoção.
Não se tratava aqui, porém, de um fenómeno de emigração mas de algo mais. Era o regresso (em moldes diferentes) de Portugal ao Oriente. Essa terra que nos recebia de braços abertos – lia-se no olhar dos muitos goeses que ali estavam, assistindo à inauguração.
Horas depois, no jantar incluído nestas cerimónias, e onde houve o cuidado de sentar às compridas mesas goeses e portugueses intercaladamente, razão das animadas conversas que em português se estabeleceram, no momento dos discursos que estas circunstâncias sempre exigem, o Cônsul Geral de Portugal, o primeiro a falar, disse mais ou menos estas palavras: ”Nós portugueses somos pequenos em muitas coisas, mas há uma em que realmente somos grandes: é a alma. Porque se não fosse a nossa grandeza de alma eles não nos teriam aceitado de volta!” Eles, os goeses, evidentemente…
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 5 – 1 – 1995
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Há quem, referindo-se a Goa, se detenha a enumerar os vários erros da colonização portuguesa, e um deles é o facto de se ter construído mais igrejas do que escolas (li isso ainda há pouco) esquecendo-se o articulista de que é errado avaliar factos antigos à luz da civilização actual, porque cada época tem os seus valores, e estes que agora nos parecem justos, talvez não sejam como tal considerados daqui a um século ou talvez menos.
Igualmente a colonização portuguesa em Goa é acusada de não ter desenvolvido economicamente esse território, tanto mais que, sabe-se, o seu subsolo é muito rico em minério. Mas se isso é verdade, é também verdade que não delapidou esses bens, tal como outros colonizadores fizeram nas terras que ocuparam.
Esses bens estão lá e começam agora a ser explorados pelos goeses, como por exemplo as minas de ferro a céu aberto, que tivemos ocasião de observar de longe, minas onde actualmente trabalham largas centenas de indianos, milhares talvez, delas se extraindo o minério que barcos transportam pelo rio até ao Porto de Mormugão, esse porto tão profundamente ligado à presença portuguesa por aquelas bandas.
Minas de grande produção – disseram-nos – elas são propriedade quase exclusiva de um só homem, que tivemos oportunidade de conhecer, o qual detém cerca de 90% das acções, segundo nos confidenciaram quando, pouco depois da nossa chegada, um amável convite, seu e de sua mulher, nos chegava às mãos. Um convite para um jantar que teria lugar na sua casa, na localidade ainda hoje chamada de Vasco da Gama.
E foi fatigados ainda, e mal adaptados a esse clima densamente húmido e quente que, no dia seguinte ao da nossa chegada, tomámos lugar, ao anoitecer, nos autocarros que haveriam de nos conduzir até à residência de Mister Salgaocar e esposa.
A casa, de linhas modernas, muito ampla, entre extensos relvados e jardins, não nos surpreendeu quanto à sua imponência, porque era mais ou menos assim que a imaginávamos. Tanto mais que nos haviam dito ser ele um dos homens mais ricos da Índia, no que, admite-se, talvez de grandezas e misérias, terra de extremos, há como se sabe miséria intensa e fortunas colossais. Mas mesmo admitindo que, em vez da Índia, fosse dos homens mais ricos de Goa, era sem dúvida riquíssimo, para mais casado com uma das herdeiras mais ricas da sua geração.
Mas, devo dizê-lo, não foram as suas riquezas que nos impressionaram. Foi, isso sim, a simplicidade do jovem casal que além de ser jovem, era belo e simpático. Inteligente, muito possivelmente, o qual nos recebeu com essa simpatia própria de quem sabe as regras da cortesia e as põe em prática de modo muito simples.
E, de facto, quem observasse aquele homem em mangas de camisa, à ocidental, de sorriso simples, ao lado da sua elegante esposa (de sari, como seria de esperar) recebendo-nos amavelmente, preocupando-se com os cocktails que nos foram servindo até à hora do jantar, não poderia imaginar ser aquele um dos homens mais ricos, senão da Índia, pelo menos de Goa.
Atitude que mais nos impressionara, ainda, se compararmos esse comportamento com o de alguns dos novos ricos que por cá se julgam (problema de imaginação exacerbada) senhores de meio mundo, os quais muito teriam a aprender com este exemplo vivo do que é ser rico e aceitar a riqueza com humildade ou, pelo menos, sem desastradamente ou intencionalmente humilhar os outros, aqueles que, por qualquer razão, nunca tiveram mais do que tostões contados, um a um.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 12 – 1 – 1995
Igualmente a colonização portuguesa em Goa é acusada de não ter desenvolvido economicamente esse território, tanto mais que, sabe-se, o seu subsolo é muito rico em minério. Mas se isso é verdade, é também verdade que não delapidou esses bens, tal como outros colonizadores fizeram nas terras que ocuparam.
Esses bens estão lá e começam agora a ser explorados pelos goeses, como por exemplo as minas de ferro a céu aberto, que tivemos ocasião de observar de longe, minas onde actualmente trabalham largas centenas de indianos, milhares talvez, delas se extraindo o minério que barcos transportam pelo rio até ao Porto de Mormugão, esse porto tão profundamente ligado à presença portuguesa por aquelas bandas.
Minas de grande produção – disseram-nos – elas são propriedade quase exclusiva de um só homem, que tivemos oportunidade de conhecer, o qual detém cerca de 90% das acções, segundo nos confidenciaram quando, pouco depois da nossa chegada, um amável convite, seu e de sua mulher, nos chegava às mãos. Um convite para um jantar que teria lugar na sua casa, na localidade ainda hoje chamada de Vasco da Gama.
E foi fatigados ainda, e mal adaptados a esse clima densamente húmido e quente que, no dia seguinte ao da nossa chegada, tomámos lugar, ao anoitecer, nos autocarros que haveriam de nos conduzir até à residência de Mister Salgaocar e esposa.
A casa, de linhas modernas, muito ampla, entre extensos relvados e jardins, não nos surpreendeu quanto à sua imponência, porque era mais ou menos assim que a imaginávamos. Tanto mais que nos haviam dito ser ele um dos homens mais ricos da Índia, no que, admite-se, talvez de grandezas e misérias, terra de extremos, há como se sabe miséria intensa e fortunas colossais. Mas mesmo admitindo que, em vez da Índia, fosse dos homens mais ricos de Goa, era sem dúvida riquíssimo, para mais casado com uma das herdeiras mais ricas da sua geração.
Mas, devo dizê-lo, não foram as suas riquezas que nos impressionaram. Foi, isso sim, a simplicidade do jovem casal que além de ser jovem, era belo e simpático. Inteligente, muito possivelmente, o qual nos recebeu com essa simpatia própria de quem sabe as regras da cortesia e as põe em prática de modo muito simples.
E, de facto, quem observasse aquele homem em mangas de camisa, à ocidental, de sorriso simples, ao lado da sua elegante esposa (de sari, como seria de esperar) recebendo-nos amavelmente, preocupando-se com os cocktails que nos foram servindo até à hora do jantar, não poderia imaginar ser aquele um dos homens mais ricos, senão da Índia, pelo menos de Goa.
Atitude que mais nos impressionara, ainda, se compararmos esse comportamento com o de alguns dos novos ricos que por cá se julgam (problema de imaginação exacerbada) senhores de meio mundo, os quais muito teriam a aprender com este exemplo vivo do que é ser rico e aceitar a riqueza com humildade ou, pelo menos, sem desastradamente ou intencionalmente humilhar os outros, aqueles que, por qualquer razão, nunca tiveram mais do que tostões contados, um a um.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 12 – 1 – 1995
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Olhando com a mágoa de sempre o Rio Este, ainda há poucos anos cobiçado pelos pescadores desportivos e, por isso mesmo, vigiado pelos então denominados “Guarda-Rios”, profissão que, segundo julgo, se extinguiu por já não haver nenhum rio para guardar, lembro-me dos rios de Goa.
Rios de peixe, tal como mar de peixe é o Mar Arábico, que banha a costa ocidental da Índia, onde Goa se situa e, mais lá para o norte, a cerca de mil quilómetros, esses antigos estados portugueses de Damão e Diu, ali bem perto do mar, tal como Portugal.
Mar de peixe. Dadivoso, magnânimo. Mar de peixes enormes, a pesarem muitos e muitos quilos, os quais nos assombravam quando cozinhados inteiros, deles, os cozinheiros impecavelmente vestidos de branco, tiravam pequenos pedaços para os nossos pratos, durante os jantares ao ar livre, em diversos locais de Goa, de que fraternalmente participámos.
Mar de peixe, rios de peixe. Rios limpos, sem necessidade de guarda-rios para os vigiar. Rios com vida, porque a ganância desenfreada, a falta de sensibilidade que embota as consciências e deixa matar um rio ainda lá não se instalou, felizmente para eles, os goeses.
E porque o peixe é abundante e saboroso, continua presente nos seus hábitos alimentares. E de tal modo arreigado, que os habitantes de outros estados indianos contaram-nos que, se acaso se demoram em Goa, criticam os goeses por este hábito alimentar sem que consigam modificá-lo.
E a solução é retirarem-se ou adaptarem-se, porque é muito difícil fazer com que um goês deixe de comer o arroz e o peixe mais o caril, esse condimento que se obtém pela mistura de especiarias e algumas plantas aromáticas a que, em Goa, se costuma juntar coco ralado para, depois de tudo bem triturado e reduzido a pó, ser utilizado como condimento tanto ao gosto deles.
Ao gosto deles, evidentemente, que quanto a nós esse gosto, por vezes, se transformava em castigo. Um castigo idêntico ao adotado noutras eras, em algumas famílias, onde havia o costume de deitar pimenta na língua às criancinhas que proferiam irreverências.
Dificilmente os goeses aceitavam a nossa relutância quanto às especiarias. E o mais curioso era ouvir deles, até de médicos “que o caril não fazia mal à saúde”. Então porquê vedá-lo nos regimes dietéticos daqueles que sofrem de problemas do aparelho digestivo? Claro que não pretendo abrir aqui uma discussão cuja exclusividade é do foro médico.
Mas que gostava de saber até onde se pode aceitar a opinião dos goeses quanto ao seu caril, sem dúvida que gostava.
Rios de peixe, tal como mar de peixe é o Mar Arábico, que banha a costa ocidental da Índia, onde Goa se situa e, mais lá para o norte, a cerca de mil quilómetros, esses antigos estados portugueses de Damão e Diu, ali bem perto do mar, tal como Portugal.
Mar de peixe. Dadivoso, magnânimo. Mar de peixes enormes, a pesarem muitos e muitos quilos, os quais nos assombravam quando cozinhados inteiros, deles, os cozinheiros impecavelmente vestidos de branco, tiravam pequenos pedaços para os nossos pratos, durante os jantares ao ar livre, em diversos locais de Goa, de que fraternalmente participámos.
Mar de peixe, rios de peixe. Rios limpos, sem necessidade de guarda-rios para os vigiar. Rios com vida, porque a ganância desenfreada, a falta de sensibilidade que embota as consciências e deixa matar um rio ainda lá não se instalou, felizmente para eles, os goeses.
E porque o peixe é abundante e saboroso, continua presente nos seus hábitos alimentares. E de tal modo arreigado, que os habitantes de outros estados indianos contaram-nos que, se acaso se demoram em Goa, criticam os goeses por este hábito alimentar sem que consigam modificá-lo.
E a solução é retirarem-se ou adaptarem-se, porque é muito difícil fazer com que um goês deixe de comer o arroz e o peixe mais o caril, esse condimento que se obtém pela mistura de especiarias e algumas plantas aromáticas a que, em Goa, se costuma juntar coco ralado para, depois de tudo bem triturado e reduzido a pó, ser utilizado como condimento tanto ao gosto deles.
Ao gosto deles, evidentemente, que quanto a nós esse gosto, por vezes, se transformava em castigo. Um castigo idêntico ao adotado noutras eras, em algumas famílias, onde havia o costume de deitar pimenta na língua às criancinhas que proferiam irreverências.
Dificilmente os goeses aceitavam a nossa relutância quanto às especiarias. E o mais curioso era ouvir deles, até de médicos “que o caril não fazia mal à saúde”. Então porquê vedá-lo nos regimes dietéticos daqueles que sofrem de problemas do aparelho digestivo? Claro que não pretendo abrir aqui uma discussão cuja exclusividade é do foro médico.
Mas que gostava de saber até onde se pode aceitar a opinião dos goeses quanto ao seu caril, sem dúvida que gostava.
Crónica publicada no jornal de Barcelos de 9 – 3 – 1995
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Uma das imagens que gosto de evocar, evocando Goa, é a dos seus rios, dos quais já aqui falei, sendo o rio Sal o mais familiar para todos nós, que alojados estávamos perto deste rio, tal como os outros dois, mais ao norte, o Zuari e o Mandovi, poderosos e de grande importância na economia goesa.
Mas há outros rios pequenos, de pouca água, que para além de refrescarem a terra por onde passam, nenhuma outra vantagem terão para essa economia a não ser oferecer ao turista que experimente aventurar-se pela floresta, um cenário intacto na sua pureza essencial.
Rios pequenos que atravessam a floresta, de entre os quais o mais fascinante é o rio Dushagar que, antes de ser rio é cascata, a precipitar-se torrencialmente pela vertente, até se deter numa espécie de lagoa circular que amansa as suas águas e depois de as deixar correr pela floresta densa, num leito profundo, semeado de rochas xistosas, leito escavado ao longo de milénios.
Rio Dushagar, ou seja, rio de leite (traduzido) na brancura das suas espumas, precipitando-se em cascatas pela vertente, esse lugar onde não chegaria notícia da civilização, não fosse a passagem do comboio por sobre o leito da cascata, a meio da vertente, em alto pontão que a engenharia construiu. O único elemento de civilização ali presente, talvez para que os passageiros finalmente se maravilhem com os prodígios de uma natureza poderosa e sábia.
Mas se os passageiros podem, em parte, observar a queda impetuosa das águas, todo o restante percurso do rio Dushagar lhes é vedado ao olhar, sobretudo o agressivo leito depois da cascata.
Este percurso que tivemos de vencer para atingir a cascata, sem outra alternativa que não fosse a de saltar de pedra em pedra, rodeada por um cenário de árvores, água, montanhas, o oposto de um cenário conservado para turista ver comodamente e pagar por essa comodidade. Um cenário intacto na sua pureza inicial, antecedido por um outro idêntico, que tivemos de percorrer, até atingir as proximidades deste rio.
Cenário de árvores, rios e veredas que fomos desvendando, instalados em jipes seguramente conduzidos por experimentados motoristas goeses, habituados a estas andanças pela floresta. Experiência confirmada na decisão com que desciam as pequenas ribanceiras, atravessavam a água dos rios, cujo leito de seixos era suficientemente sólido para aguentar o impacto das quatro rodas e logo subir a ribanceira da margem oposta, para continuar pelos trilhos da floresta e, daí a pouco, outros rios atravessar.
Rios de floresta de pouca água, a par de outros que de leito seco esperavam pacientemente pelas chuvas das monções que lhes hão de restituir a vida e o dinamismo das suas águas.
Rios tímidos e transparentes, onde já no regresso, ao entardecer, deparámos com grupos de homens indianos lavando o corpo num hábito de higiene muito próprio deste povo, e que talvez não seja do conhecimento dos ocidentais, porque outras imagens por cá divulgadas, mais sensacionais, serão mais susceptíveis de captar audiências para os meios de comunicação as divulgarem.
Rios de Goa, rios amados pelo povo, rios que purificam como se fossem prolongamento desse longínquo Ganges. Rios puros, mesmo quando as suas águas, por razões geográficas, são barrentas e densas. Rios amados. Em contraste com os nossos tão mal amados rios, estes rios desta desgastada Europa.
Mas há outros rios pequenos, de pouca água, que para além de refrescarem a terra por onde passam, nenhuma outra vantagem terão para essa economia a não ser oferecer ao turista que experimente aventurar-se pela floresta, um cenário intacto na sua pureza essencial.
Rios pequenos que atravessam a floresta, de entre os quais o mais fascinante é o rio Dushagar que, antes de ser rio é cascata, a precipitar-se torrencialmente pela vertente, até se deter numa espécie de lagoa circular que amansa as suas águas e depois de as deixar correr pela floresta densa, num leito profundo, semeado de rochas xistosas, leito escavado ao longo de milénios.
Rio Dushagar, ou seja, rio de leite (traduzido) na brancura das suas espumas, precipitando-se em cascatas pela vertente, esse lugar onde não chegaria notícia da civilização, não fosse a passagem do comboio por sobre o leito da cascata, a meio da vertente, em alto pontão que a engenharia construiu. O único elemento de civilização ali presente, talvez para que os passageiros finalmente se maravilhem com os prodígios de uma natureza poderosa e sábia.
Mas se os passageiros podem, em parte, observar a queda impetuosa das águas, todo o restante percurso do rio Dushagar lhes é vedado ao olhar, sobretudo o agressivo leito depois da cascata.
Este percurso que tivemos de vencer para atingir a cascata, sem outra alternativa que não fosse a de saltar de pedra em pedra, rodeada por um cenário de árvores, água, montanhas, o oposto de um cenário conservado para turista ver comodamente e pagar por essa comodidade. Um cenário intacto na sua pureza inicial, antecedido por um outro idêntico, que tivemos de percorrer, até atingir as proximidades deste rio.
Cenário de árvores, rios e veredas que fomos desvendando, instalados em jipes seguramente conduzidos por experimentados motoristas goeses, habituados a estas andanças pela floresta. Experiência confirmada na decisão com que desciam as pequenas ribanceiras, atravessavam a água dos rios, cujo leito de seixos era suficientemente sólido para aguentar o impacto das quatro rodas e logo subir a ribanceira da margem oposta, para continuar pelos trilhos da floresta e, daí a pouco, outros rios atravessar.
Rios de floresta de pouca água, a par de outros que de leito seco esperavam pacientemente pelas chuvas das monções que lhes hão de restituir a vida e o dinamismo das suas águas.
Rios tímidos e transparentes, onde já no regresso, ao entardecer, deparámos com grupos de homens indianos lavando o corpo num hábito de higiene muito próprio deste povo, e que talvez não seja do conhecimento dos ocidentais, porque outras imagens por cá divulgadas, mais sensacionais, serão mais susceptíveis de captar audiências para os meios de comunicação as divulgarem.
Rios de Goa, rios amados pelo povo, rios que purificam como se fossem prolongamento desse longínquo Ganges. Rios puros, mesmo quando as suas águas, por razões geográficas, são barrentas e densas. Rios amados. Em contraste com os nossos tão mal amados rios, estes rios desta desgastada Europa.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 30 – 3 – 1995
quinta-feira, 1 de dezembro de 2016
Vou novamente falar desse estabelecimento hoteleiro de Goa que é o Leela Beach, o qual sendo do nível de muitos bons hotéis que há pelo mundo fora, teve para nos oferecer algo de especial. Algo mais do que a tranquilidade que ali se pode usufruir. Algo que não tem a ver com o conforto e o bem-estar de um hotel como aquele, onde os hóspedes de várias raças e nacionalidades deixam o tempo correr livremente sem tédio, porque se desejarem o ambiente citadino basta tomar um táxi.
Ao referir-me a esse hotel, quero realçar algo diferente que aí nos foi oferecido e se relaciona com a simpatia. Não essa simpatia profissional, de alto preço, mas antes uma outra mais sólida, mais autêntica, prolongamento de um espírito fraterno que em Goa se experimenta, e continua vivo e atuante, apesar das convulsões políticas. É algo vindo do fundo da História, que nos fala de amizade, de laços de sangue, de mãos que se encontram, e que aí esteve presente de tal modo que, desde o primeiro instante, nos sentimos privilegiados. Não pelos dólares, que não seriam tantos assim, mas antes por algo diferente, que viria reforçar as primeiras impressões colhidas logo à chegada.
Impressões e imagens de entre as quais se destaca a do pessoal da receção do hotel, alinhado à entrada, sorridente, à espera de nos dar as boas vindas e os colares de flores que depois nos colocaram ao pescoço, bem como na testa a pinta vermelha carregada de simbologia. E a música portuguesa, na voz do rapaz da viola, cantando em português para nós, quando já sentados no amplo salão da receção, tomámos contacto com o específico paladar do leite de coco, servido do fruto, que uma branca flor de hibisco embelezava.
Atenções que poderiam ser apenas fruto de um bom profissionalismo, se essas atenções não continuassem a elevar-se em muitas pequenas gentilezas que ultrapassavam essa situação, as quais culminaram com um jantar oferecido pelo hotel, representado na pessoa do seu administrador, de nacionalidade americana, o qual veio de mesa em mesa cumprimentar-nos um por um e desejar-nos continuação de boa estadia. Atitude profissional gentil, que em minha opinião se alicerça nessa verdade irrefutável que é a da amizade que, a despeito de correntes contrárias, continua a existir entre Portugal e Goa. Daí que esse jantar ficasse memorável, por todas essas gentilizas e também pela corrente de empatia que depois se estabeleceu entre o público, que éramos nós, e os artistas de variedades que vieram animar o jantar e, em improvisado palco, embora tivessem cantado profissionalmente em inglês, para alguns dos hóspedes do hotel, que conosco aí estavam e também passaram, a determinada altura, a falar português e a cantar quase só música portuguesa, desde folclore à música pop. Corrente de empatia que se transformou em entusiasmo e atingiu o rubro quando o apresentador do programa soltou o seu primeiro “Viva Portugal!”
Foram momentos indescritíveis, vividos até final nesse vasto recinto iluminado pela luz das lâmpadas e pela dos archotes, num chão de areia perto do mar, onde nada mais parecia existir a não ser portugueses de Portugal e seus familiares de Goa, unidos num abraço de muitos séculos.
Ao referir-me a esse hotel, quero realçar algo diferente que aí nos foi oferecido e se relaciona com a simpatia. Não essa simpatia profissional, de alto preço, mas antes uma outra mais sólida, mais autêntica, prolongamento de um espírito fraterno que em Goa se experimenta, e continua vivo e atuante, apesar das convulsões políticas. É algo vindo do fundo da História, que nos fala de amizade, de laços de sangue, de mãos que se encontram, e que aí esteve presente de tal modo que, desde o primeiro instante, nos sentimos privilegiados. Não pelos dólares, que não seriam tantos assim, mas antes por algo diferente, que viria reforçar as primeiras impressões colhidas logo à chegada.
Impressões e imagens de entre as quais se destaca a do pessoal da receção do hotel, alinhado à entrada, sorridente, à espera de nos dar as boas vindas e os colares de flores que depois nos colocaram ao pescoço, bem como na testa a pinta vermelha carregada de simbologia. E a música portuguesa, na voz do rapaz da viola, cantando em português para nós, quando já sentados no amplo salão da receção, tomámos contacto com o específico paladar do leite de coco, servido do fruto, que uma branca flor de hibisco embelezava.
Atenções que poderiam ser apenas fruto de um bom profissionalismo, se essas atenções não continuassem a elevar-se em muitas pequenas gentilezas que ultrapassavam essa situação, as quais culminaram com um jantar oferecido pelo hotel, representado na pessoa do seu administrador, de nacionalidade americana, o qual veio de mesa em mesa cumprimentar-nos um por um e desejar-nos continuação de boa estadia. Atitude profissional gentil, que em minha opinião se alicerça nessa verdade irrefutável que é a da amizade que, a despeito de correntes contrárias, continua a existir entre Portugal e Goa. Daí que esse jantar ficasse memorável, por todas essas gentilizas e também pela corrente de empatia que depois se estabeleceu entre o público, que éramos nós, e os artistas de variedades que vieram animar o jantar e, em improvisado palco, embora tivessem cantado profissionalmente em inglês, para alguns dos hóspedes do hotel, que conosco aí estavam e também passaram, a determinada altura, a falar português e a cantar quase só música portuguesa, desde folclore à música pop. Corrente de empatia que se transformou em entusiasmo e atingiu o rubro quando o apresentador do programa soltou o seu primeiro “Viva Portugal!”
Foram momentos indescritíveis, vividos até final nesse vasto recinto iluminado pela luz das lâmpadas e pela dos archotes, num chão de areia perto do mar, onde nada mais parecia existir a não ser portugueses de Portugal e seus familiares de Goa, unidos num abraço de muitos séculos.
Entusiasmo que só terminou quando os músicos exaustos por ter excedido em tempo o programa, se substituíram por música gravada, o que, como se compreende, fez abrandar a força da corrente de empatia que insistia em se manter indefinidamente.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 17 – 11 – 1994
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
Reparei há tempos num jornal diário com uma fotografia da “Linha da Póvoa”, denunciadora do abandono a que a mesma foi votada pela CP e, a acompanhar a foto, uma curta frase: “E ninguém se importa!”
É na verdade um triste exemplo igual a outros. Li a notícia com alguma mágoa e, por uma associação de ideias, lembrei-me dos velhos caminhos rurais que não servem a tractores e, muito menos, a automóveis e, por isso mesmo, são votados ao abandono. Como se o caminhar a pé não fosse útil sob vários aspetos, incluindo a saúde. E, ante a imagem desses caminhos centenários, surpreendi-me a reflectir.
Todos sabemos que a história de uma terra faz-se sobretudo através de documentos escritos. Mas faz-se também através das suas pedras, que o mesmo é dizer, de monumentos, e ainda através das suas ruas e praças, para só falar destes elementos. No espaço rural também a história se faz igualmente através de documentos e pedras, sobretudo a partir dos caminhos rurais, esses caminhos que em Cambeses gosto de percorrer, se me é possível.
Por essa razão, além de outras, não posso deixar de aqui falar do caminho que, do lugar de Bouçó sobe até à Igreja Paroquial, afundado entre duas quintas, caminho centenário, com uma longa história, feita de muitos passos.
Pois bem. Esse caminho de encosta, em grande parte escalavrado por enxurradas invernosas, o que dificultou os passos de quem dela precisava, tem sofrido, sobretudo de há uns anos a esta parte, as derrocadas dos muros das duas quintas, sem que os proprietários sejam obrigados a retirar pedras e entulho da via pública. E, como se isso não bastasse, há uma poça rente ao caminho, pertença de uma das quintas, que para aí deixa escapar as águas, tornando intransitável o resto do percurso num caminho que é de todos. E para dizer como o autor do artigo referido: “E ninguém se importa!” com o que se faz a este e outros caminhos.
Houve uma altura, já lá vão anos, em que a situação melhorou, devo dizê-lo: o caminho foi limpo, restaurado dentro do possível, honra seja feita à Junta de Freguesia e aos moradores de Bouçó, Lama e Vinha, que contribuíram com o dinheiro para a manutenção do mesmo. Depois, por culpa de não sei quem, o caminho voltou ao abandono e assim está. E porque é quase impossível percorrê-lo (sei-o por experiência própria) os moradores foram obrigados a deixar de o utilizar.
Pode portanto alegar-se, tal como a CP, que há poucos utentes. Pois não. E quem se atreve por um chão daqueles, impraticável sob um teto de silvas e ramaria diversa? Pode alegar-se que há uma estrada e há o automóvel para ir à igreja. Pois é, só que nem toda a gente conduz. E o que acontece é os moradores serem obrigados a dar o dobro dos passos (e muitos dão) pelo percurso alternativo, percurso estafante, sobretudo para os menos jovens e menos fortes.
Portanto, se os transtornos causados não são de levar em conta, certo será que o abandono se instalará definitivamente, tal como na linha da Póvoa, porque essa é a decisão mais cómoda.
É pena, porque é um caminho com uma longa história, um caminho percorrido durante séculos, obrigatoriamente. Claro que nas cidades a ligação à igreja não é tão intensa, por isso este texto dificilmente seria entendido por Lisboa ou Porto. Mas nas aldeias essa ligação continua, apesar de tudo. Mas isso é outro assunto.
Por hoje propus-me falar apenas de velhos caminhos abandonados, irmãos no infortúnio das modestas linhas da CP. Caminhos tão veneráveis e tão humanizados como estes que aqui falei num SOS muito possivelmente inútil, porque “ninguém se importa” apesar da sua utilidade e sobretudo da sua longa história, feita de muitos passos:
Passos leves, ainda infantis, a caminho da Catequese. Passos jovens, pressurosos, de mal contida alegria, nos dias mais marcantes da sua vida. Passos arrastados, penosos, de quem cumpre a reta final. Percurso sem passos (o último) de quem cumpriu já o percurso que lhe fora dado cumprir.
É na verdade um triste exemplo igual a outros. Li a notícia com alguma mágoa e, por uma associação de ideias, lembrei-me dos velhos caminhos rurais que não servem a tractores e, muito menos, a automóveis e, por isso mesmo, são votados ao abandono. Como se o caminhar a pé não fosse útil sob vários aspetos, incluindo a saúde. E, ante a imagem desses caminhos centenários, surpreendi-me a reflectir.
Todos sabemos que a história de uma terra faz-se sobretudo através de documentos escritos. Mas faz-se também através das suas pedras, que o mesmo é dizer, de monumentos, e ainda através das suas ruas e praças, para só falar destes elementos. No espaço rural também a história se faz igualmente através de documentos e pedras, sobretudo a partir dos caminhos rurais, esses caminhos que em Cambeses gosto de percorrer, se me é possível.
Por essa razão, além de outras, não posso deixar de aqui falar do caminho que, do lugar de Bouçó sobe até à Igreja Paroquial, afundado entre duas quintas, caminho centenário, com uma longa história, feita de muitos passos.
Pois bem. Esse caminho de encosta, em grande parte escalavrado por enxurradas invernosas, o que dificultou os passos de quem dela precisava, tem sofrido, sobretudo de há uns anos a esta parte, as derrocadas dos muros das duas quintas, sem que os proprietários sejam obrigados a retirar pedras e entulho da via pública. E, como se isso não bastasse, há uma poça rente ao caminho, pertença de uma das quintas, que para aí deixa escapar as águas, tornando intransitável o resto do percurso num caminho que é de todos. E para dizer como o autor do artigo referido: “E ninguém se importa!” com o que se faz a este e outros caminhos.
Houve uma altura, já lá vão anos, em que a situação melhorou, devo dizê-lo: o caminho foi limpo, restaurado dentro do possível, honra seja feita à Junta de Freguesia e aos moradores de Bouçó, Lama e Vinha, que contribuíram com o dinheiro para a manutenção do mesmo. Depois, por culpa de não sei quem, o caminho voltou ao abandono e assim está. E porque é quase impossível percorrê-lo (sei-o por experiência própria) os moradores foram obrigados a deixar de o utilizar.
Pode portanto alegar-se, tal como a CP, que há poucos utentes. Pois não. E quem se atreve por um chão daqueles, impraticável sob um teto de silvas e ramaria diversa? Pode alegar-se que há uma estrada e há o automóvel para ir à igreja. Pois é, só que nem toda a gente conduz. E o que acontece é os moradores serem obrigados a dar o dobro dos passos (e muitos dão) pelo percurso alternativo, percurso estafante, sobretudo para os menos jovens e menos fortes.
Portanto, se os transtornos causados não são de levar em conta, certo será que o abandono se instalará definitivamente, tal como na linha da Póvoa, porque essa é a decisão mais cómoda.
É pena, porque é um caminho com uma longa história, um caminho percorrido durante séculos, obrigatoriamente. Claro que nas cidades a ligação à igreja não é tão intensa, por isso este texto dificilmente seria entendido por Lisboa ou Porto. Mas nas aldeias essa ligação continua, apesar de tudo. Mas isso é outro assunto.
Por hoje propus-me falar apenas de velhos caminhos abandonados, irmãos no infortúnio das modestas linhas da CP. Caminhos tão veneráveis e tão humanizados como estes que aqui falei num SOS muito possivelmente inútil, porque “ninguém se importa” apesar da sua utilidade e sobretudo da sua longa história, feita de muitos passos:
Passos leves, ainda infantis, a caminho da Catequese. Passos jovens, pressurosos, de mal contida alegria, nos dias mais marcantes da sua vida. Passos arrastados, penosos, de quem cumpre a reta final. Percurso sem passos (o último) de quem cumpriu já o percurso que lhe fora dado cumprir.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 11 – 10 – 1996
terça-feira, 29 de novembro de 2016
Num destes últimos domingos, fui forçada a mais uma aventura pela estrada de Barcelos e, novamente, o caos aí esteve arreliador a ameaçar a todo o momento, não só com “toques” mas até com coisa pior. E isto porque parece nada haver, pelos vistos, que obrigue a atuar como gente civilizada certos cidadãos que civilizados se julgam só porque conduzem um carro.
Basta observar o pandemónio que aos domingos continua a verificar-se à porta das discotecas e restaurantes que há pelas aldeias. Evidentemente que não são todos, os que assim procedem. Será uma reduzida minoria, se percentualmente considerados. Mas são o suficiente para perturbarem quem, por necessidade ou prazer a que tem direito, circulam por estas estradas camarárias.
E, a este propósito, não posso deixar de me lembrar do trânsito nos países do Oriente, onde me foi dado circular. Excluindo a Malásia e a Coreia do Sul, ou ainda a Ilha Formosa, onde as auto-estradas abundam e as bicicletas quase não existem, o pandemónio nesses países era total. Ou antes, seria se acaso ele se processasse com os nossos desabridos condutores e não com gente paciente como o são os chineses e os indianos também.
E lembro-me m especial das estradas de Goa, onde dois autocarros, para se cruzarem, um deles tinha de se arrumar na valeta, evitando, no último segundo o choque que parecia eminente, tudo se resolvendo sem impaciências nem insultos, como por cá se presencia às vezes, mas antes com compreensão e esse dom que falta a alguma gente bem enfarpelada e se chama “Boa Educação”.
Mas quando não era o cruzamento entre dois carros a reter-nos a respiração, eram outros os obstáculos, desde um pachorrento carro de bois, perdão, de búfalos, que continuava na nossa frente sem que o condutor do nosso autocarro ou do táxi se irritasse, ou então era “vaca sagrada”, como todas, que resolvia dormir a sesta em plena estrada, a qual se tinha de contornar com perícia, ou então um porco ou uma porca com uma ninhada de filhotes atrás, que se lembrava de atravessar a estrada, ou até o pequeno bando de galinhas, ou um simples cão que, no último momento, o motorista, com perícia, evitava atropelar.
Claro que as condições de vida na India são outras que não as do ocidente, embora em Goa não haja, como aqui já tive ocasião de referir, essa espectacular miséria que se pode observar nas grandes cidades da Índia.
E se não há, consequentemente, pelas estradas de Goa, esta nossa profusão de carros novos, há, o que para mim é bem mais positivo, um espírito de compreensão e respeito (e pelos animais também), e algo mais que se chama delicadeza, sensibilidade, educação.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 29 – 9 – 1994
Basta observar o pandemónio que aos domingos continua a verificar-se à porta das discotecas e restaurantes que há pelas aldeias. Evidentemente que não são todos, os que assim procedem. Será uma reduzida minoria, se percentualmente considerados. Mas são o suficiente para perturbarem quem, por necessidade ou prazer a que tem direito, circulam por estas estradas camarárias.
E, a este propósito, não posso deixar de me lembrar do trânsito nos países do Oriente, onde me foi dado circular. Excluindo a Malásia e a Coreia do Sul, ou ainda a Ilha Formosa, onde as auto-estradas abundam e as bicicletas quase não existem, o pandemónio nesses países era total. Ou antes, seria se acaso ele se processasse com os nossos desabridos condutores e não com gente paciente como o são os chineses e os indianos também.
E lembro-me m especial das estradas de Goa, onde dois autocarros, para se cruzarem, um deles tinha de se arrumar na valeta, evitando, no último segundo o choque que parecia eminente, tudo se resolvendo sem impaciências nem insultos, como por cá se presencia às vezes, mas antes com compreensão e esse dom que falta a alguma gente bem enfarpelada e se chama “Boa Educação”.
Mas quando não era o cruzamento entre dois carros a reter-nos a respiração, eram outros os obstáculos, desde um pachorrento carro de bois, perdão, de búfalos, que continuava na nossa frente sem que o condutor do nosso autocarro ou do táxi se irritasse, ou então era “vaca sagrada”, como todas, que resolvia dormir a sesta em plena estrada, a qual se tinha de contornar com perícia, ou então um porco ou uma porca com uma ninhada de filhotes atrás, que se lembrava de atravessar a estrada, ou até o pequeno bando de galinhas, ou um simples cão que, no último momento, o motorista, com perícia, evitava atropelar.
Claro que as condições de vida na India são outras que não as do ocidente, embora em Goa não haja, como aqui já tive ocasião de referir, essa espectacular miséria que se pode observar nas grandes cidades da Índia.
E se não há, consequentemente, pelas estradas de Goa, esta nossa profusão de carros novos, há, o que para mim é bem mais positivo, um espírito de compreensão e respeito (e pelos animais também), e algo mais que se chama delicadeza, sensibilidade, educação.
Crónica publicada no Jornal de Barcelos de 29 – 9 – 1994
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